Museu da Arte Moderna

mamcestralidade-ABERTURA

O Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA) preparou uma programação especial para o mês da consciência negra. O projeto intitulado MAMcestralidade está repleto de atividades, que vão desde palestras em combate a intolerância religiosa à oficinas e atrações musicais voltadas para a temática.

A abertura do projeto envolve ainda a vernissage da exposição ‘Caminhos’ do artista e curador Roddolfo Carvalho.

O evento é gratuito.

O que: Abertura do MAMcestralidade
Quando: 10 de novembro, a partir das 18h
Onde: Galeria 3 do Museu de Arte Moderna da Bahia – Av. Contorno, s/n – Solar do Unhão, Salvador – BA

Pensée des morts

Lamartine

Voilà les feuilles sans sève
Qui tombent sur le gazon
Voilà le vent qui s’élève
Et gémit dans le vallon
Voilà l’errante hirondelle
Qui rase du bout de l’aile
L’eau dormante des marais
Voilà l’enfant des chaumières
Qui glane sur les bruyères
Le bois tombe des forêts

C’est la saison où tout tombe
Aux coups redoublés des vents
Un vent qui vient de la tombe
Moissonne aussi les vivants
Ils tombent alors par mille
Comme la plume inutile
Que l’aigle abandonne aux airs
Lorsque des plumes nouvelles
Viennent réchauffer ses ailes
A l’approche des hivers

C’est alors que ma paupière
Vous vit pâlir et mourir
Tendres fruits qu’à la lumière
Dieu n’a pas laissé mûrir
Quoique jeune sur la terre
Je suis déjà solitaire
Parmi ceux de ma saison
Et quand je dis en moi-même
“Où sont ceux que ton cœur aime?”
Je regarde le gazon

C’est un ami de l’enfance
Qu’aux jours sombres du malheur
Nous prêta la providence
Pour appuyer notre cœur
Il n’est plus : notre âme est veuve
Il nous suit dans notre épreuve
Et nous dit avec pitié
“Ami si ton âme est pleine
De ta joie ou de ta peine
Qui portera la moitié ?”

C’est une jeune fiancée
Qui, le front ceint du bandeau
N’emporta qu’une pensée
De sa jeunesse au tombeau
Triste, hélas ! dans le ciel même
Pour revoir celui qu’elle aime
Elle revient sur ses pas
Et lui dit : “Ma tombe est verte !
Sur cette terre déserte
Qu’attends-tu ? Je n’y suis pas !”

C’est l’ombre pale d’un père
Qui mourut en nous nommant
C’est une sœur, c’est un frère
Qui nous devance un moment
Tous ceux enfin dont la vie
Un jour ou l’autre ravie,
Emporte une part de nous
Murmurent sous la pierre
“Vous qui voyez la lumière
De nous vous souvenez vous?”

Voilà les feuilles sans sève
Qui tombent sur le gazon
Voilà le vent qui s’élève
Et gémit dans le vallon
Voilà l’errante hirondelle
Qui rase du bout de l’aile
L’eau dormante des marais
Voilà l’enfant des chaumières
Qui glane sur les bruyères
Le bois tombé des forêts

Ocaso em Madrid

Leni David

Puedo escribir los versos mas tristes esta noche

versos de Neruda
na tarde madrilena
um poeta solitário
de negro
no Parque do Retiro

ar pesado, mormaço,
um lemon granizado sobre a mesa
mãos que buscam a mão do companheiro…
casais de namorados,
velhos sem pressa
que passam
acordes de um realejo…

A tarde finda
prenhe de poesia:
vinte poemas de amor
e uma canção desesperada;
o pensamento
solto em fantasia
os olhos fixos
nas águas calmas do lago
onde se espelha
o Palácio de Cristal

Madrid, agosto de 1999.

VENTOS

A Leni David.

Vamos domar esses ventos
violentos todos.
Eles serão apaziguados.
Ficaremos bem.
São ventos que nos maltratam,
não há que deixá-los vir.
Vamos domar esses ventos,
todos violentos.

Diz-se habitar nossa mente.
São plurais e intolerantes.
Sabem quando estamos fracos,
nos espantam.
Os ventos nos espantam.
Vamos domar esses ventos
violentos.

Móveis símbolos psíquicos,
o que for: que os rechacemos.
Há que torná-los só ventos.
Não violentos. Só ventos.
Domados
ventos.

Antonio Brasileiro

Viagem

Uma música de Maysa, que Leni adorava cantar.

Viagem

Oh tristeza, me desculpe
Estou de malas prontas
Hoje a poesia veio ao meu encontro
Já raiou o dia, vamos viajar
Vamos indo de carona
Na garupa leve do vento macio
Que vem caminhando
Desde muito longe, lá do fim do mar
Vamos visitar a estrela da manhã raiada
Que pensei perdida pela madrugada
Mas que vai escondida
Querendo brincar
Senta nesta nuvem clara
Minha poesia, anda, se prepara
Traz uma cantiga
Vamos espalhando música no ar

Olha quantas aves brancas
Minha poesia, dançam nossa valsa
Pelo céu que um dia
Fez todo bordado de raios de sol
Oh poesia, me ajude
Vou colher avencas, lírios, rosas dálias
Pelos campos verdes
Que você batiza de jardins-do-céu
Mas pode ficar tranqüila, minha poesia
Pois nós voltaremos numa estrela-guia
Num clarão de lua quando serenar
Ou talvez até, quem sabe
Nós só voltaremos no cavalo baio
O alazão da noite
Cujo o nome é raio, raio de luar

Maysa Matarazzo

Baden Powell e a Bahia – Caso de amor?

 Leni David

Fazendo amigos

Vinícius de Moraes poetizou um dia que “a vida é a arte do encontro” e foi graças a um encontro casual numa livraria do quartier latin que conheci Haroldo Basílio, mineiro de nascimento e carioca por adoção. Fiquei sabendo, depois, que ele era músico e que dirigia um grupo musical, o Son Brésil.

Haroldo reside em Paris desde 1976, época em que trabalhou como bailarino e percussionista no “Via Brasil”, um dos maiores cabarés brasileiros que existiu na Europa. Fez várias tournées com o grupo “Brasil Tropical”, e na volta a Paris foi trabalhar como bailarino no Moulin Rouge, ao lado de Lisette Malidor. Haroldo realizou vários espetáculos, no Régine’s e no famoso restaurante Maxim’s, em Londres e Paris ; trabalhou com artistas brasileiros de grande sucesso na época, como Maria d’Aparecida e Nazaré Pereira, também participando de gravações com Henri Salvador e Pierre Vassiliu. Só no início dos anos 80 ele iniciou sua carreira solo, como cantor e trompetista, acompanhado do guitarrista Chiquinho Timóteo, com o qual realizou várias tournées pela Europa.

Basílio tornou-se um amigo e grande colaborador ; ele conhecia inúmeros artistas que trabalhavam na noite parisiense e ofereceu-me a possibilidade de conhecer músicos e cantores brasileiros residentes na capital francesa. Graças à sua ajuda realizei uma série de entrevistas com esses artistas, assisti suas apresentações em diversas casas de espetáculos e pude perceber, também, o importante “trabalho de bastidor”, desenvolvido por esses profissionais para a divulgação da música brasileira no exterior.

Foi através de Haroldo conheci Salomé, “a voz mais bonita de Paris”, segundo ele. Salomé da Bahia, como é conhecida na noite parisiense, dona de uma voz extraordinária, capaz de encantar platéias no famoso cabaré Chez Félix da rue Mouffetard e noBrasil Tropical”. Salomé, como indica o seu nome artístico, é baiana de Salvador, e começou a cantar em programas de auditórios na Rádio Sociedade da Bahia, nos anos 60, usando o seu verdadeiro nome : Merinha Silva. Também conheci Sebastião Perazzo, o Tião da Bahia, que mora em Paris, há cerca de 20 anos. Tião tem quatro discos gravados, sendo que o último, “Raízes de Angola e do Brasil” em parceria com outros artistas, inclusive, Cesária Évora. Tião também musicou a peça “O auto da compadecida, apresentada no Teatro Odeon, em Paris, em 1974 e fez várias tournées pela Europa e Estados Unidos divulgando a música brasileira.

“Sangue Novo”

Uma noite, fui convidada por Tião para assistir a um show no Blue Note, um barzinho aconchegante, dirigido por Janette, onde não falta caipirinha, público e apresentações de bons músicos. A noitada corria animada com Tião cantando um repertório de excelente qualidade e chegou ao seu momento culminante quando ele tocou o berimbau (uma das mais bonitas execuções desse instrumento que tive a oportunidade de ver), arrebatando aplausos entusiasmados do público presente. Após o intervalo explicou que ia “botar sangue novo” no palco e convidou, além do seu filho, os irmãos Philippe e Marcel Baden Powell, que estavam presentes, para dar uma “canja”. Os jovens subiram ao palco, Philippe no órgão eletrônico e Marcel ao violão, e quem assistia ao espetáculo, além da surpresa, sentiu-se privilegiado por testemunhar um momento inesquecível de boa música. Enquanto eles se apresentavam, fiz algumas fotos e após a apresentação fui falar com os dois, que estavam acompanhados de jovens amigos. Philippe, com 18 anos na época, e Marcel, 14 anos não escondiam a timidez e um deles disparou: “não somos artistas ainda… o artista é Baden Powell!” Porém, concordaram em dar-me o endereço residencial para que eu enviasse as fotografias que havia feito.

Philippe e Marcelo

Encontro com Baden Powell

Fiz toda essa preleção pois foi graças à cumplicidade desses amigos que consegui o contato com Baden Powell, que residia em Paris naquele momento. Estávamos em 1996. Telefonei falando das fotos e propondo uma entrevista a Baden; Sílvia, mulher e anjo da guarda do nosso artista, disse-me que não seria possível naquele momento pois Baden viajaria para a Itália no dia seguinte, para uma série de apresentações. Não me fiz de rogada, e esperei pacientemente que uma nova oportunidade se apresentasse. Alguns dias depois, fiz novo contato pois havia assistido uma apresentação de Baden no Hot Brass e tinha certeza de que ele já se encontrava na cidade. Liguei para a residência dos artistas e, para minha surpresa, foi o próprio Baden quem respondeu ao telefone. Falei sobre o meu encontro com Phillippe e Marcel no Blue Note, das fotografias que havia feito e do meu desejo de entregá-las e, se possível, de entrevistá-lo. Muito simpático ele aceitou a minha proposição e marcamos para o dia 30 de abril, no início da tarde.

Não posso negar que encontrar Baden Powell “em carne e osso”, era muito importante para mim, enquanto pesquisadora, mas também como admiradora. É preciso não esquecer que a minha geração foi embalada pelos acordes de “Apelo” e “Samba em prelúdio”. Cheguei às duas horas, em ponto. Sílvia e os meninos esperavam-me ; Baden estava descansando. Refleti que, para começar, talvez fosse melhor conversar com Sílvia e os meninos e estava certa, pois não tive dificuldades em entrosar-me. Falamos sobre vários assuntos, perguntei em que colégios estudavam, falei das fotos, que, infelizmente, na pressa de sair para o encontro tão esperado, havia esquecido em casa, e fiquei sabendo que, por minha culpa, eles haviam sido repreendidos pois Baden não sabia (ficou sabendo através do meu telefonema) que eles haviam tocado no Blue Note e não gostou da novidade! Fiquei mortificada, pedi desculpas, expliquei que não sabia desse detalhe…

Philippe, o mais velho, aluno do curso científico de um liceu parisiense e pretendendo cursar uma escola de engenharia, estuda música desde os sete anos de idade, mas há quatro anos, elegeu o piano como seu instrumento preferido, sob a orientação da professora Sônia Maria Vieira, no Rio de Janeiro. Na sua opinião os brasileiros que vivem na França são muito unidos; “existe uma admiração e um reconhecimento do artista (seu pai), mas não existe tietagem… no Brasil, é um pouco diferente : quando os colegas sabem quem é meu pai, querem ir em casa, querem conhecê-lo, etc. Aqui todos os brasileiros são iguais e nos sentimos brasileiros como os outros; o fato de sermos filhos do artista Baden Powell não interfere em nossas vidas”.

Perguntei se o fato de ter um pai famoso não os inibia quando tocavam em público, apesar de serem excelentes músicos e eles responderam: “fazemos música porque gostamos disso, é hereditário! Nossos bisavós eram músicos, nossos avós, também, tanto do lado materno como do lado paterno”. Já Marcel, que também estuda música desde pequeno e que escolheu o violão, como o pai, cursa o curso ginasial ; apesar de mais tímido que o irmão, não hesita em afirmar: “Fazer música é um dom. Quando a gente toca, apesar da responsabilidade, o que vale mesmo é o prazer… é como fazer uma festa, é puro prazer!

Conversávamos animadamente quando Baden entrou na sala, vestido de branco e sorridente. Eram três horas da tarde. Alguns dias antes eu o havia visto no Hot Brass, sala superlotada, pessoas sentadas pelo chão, de pé, completamente absorvidas pelos acordes mágicos do seu violão. No palco, ele era um monstro: homem e violão formavam um todo. Ali, na intimidade da sua casa, ele parecia um menino grande, e o seu jeito descontraído deixou-me à vontade, como se estivesse em casa de um velho amigo.

Baden Powell (foto www.classicandjazz.net)

Expliquei que não era jornalista e que desenvolvia uma pesquisa sobre música popular brasileira e aproveitei para dizer que tinha gostado muito da “canja” dos meninos no Blue Note, ao que ele retrucou: “por enquanto, eles não estão ainda bem preparados… não estão no ponto, precisam amadurecer!” Acrescentando que “breve eles tocariam juntos, pai e filhos”. Perguntou-me se eu era paulista. Expliquei que era baiana, ao que ele retrucou: “você sabe que eu ganhei um parceiro baiano? É o Ildásio (Ildásio Tavares), ele é muito amigo do Philippe e se correspondem sempre. Ele é um intelectual, um letrista formidável!” E continuou: “eu sempre amei a Bahia. Eu acho que todo músico carioca sempre teve muita ligação com a Bahia. Não se pode falar em música, sem falar de Bahia”. Aproveitei a deixa e investi : – Ruy Castro[1] diz que você compôs Berimbau sem nunca ter ido lá, e a Enciclopédia da Música Brasileira,[2] afirma que você permaneceu seis meses na Bahia, desenvolvendo uma pesquisa consagrada aos cantos de origem afro; quem está com a razão?

- “Eu fui à Bahia várias vezes; a primeira vez em que estive lá, eu tinha uns doze anos de idade e acompanhava um grupo de artistas… Cyl Farney, Eliana (aquela do cinema), Renato Murce… depois acompanhei Silvinha Teles, logo no início da Bossa Nova. Acho que foi em 1960; a Bossa Nova não tinha estourado ainda. Era a época de Dolores Durand, Maísa… foi aí que conheci Carlos Coquejo, meu primeiro amigo baiano. Numa outra viagem, conheci Canjiquinha. Ficamos amigos, ele falou, falou, contou histórias e eu fiquei vidrado naquilo. Canjiquinha me contou a história toda, de Besouro, Cordão de Ouro… Nessa época eu estava em plena atividade com Vinícius… Aí eu disse: Vinícius, tem um negócio de berimbau que é maravilhoso… eu fiz um tema e eu queria que a gente fizesse uma letra para ele… ‘capoeira me mandou, dizer que já chegou…’ e pusemos o nome da música ‘Berimbau’, que é aquele sucesso que todo mundo conhece. No início do tema eu me lembrava do mar da Bahia… aquela penumbra, aquela calma, aquele mar escuro, e eu tinha um acompanhamento que me levava mas para junto do cais… eu procurei imitar o som do berimbau com o meu violão…Mas, ‘Lapinha’, foi Canjiquinha quem me ensinou o refrão, que é um tema do folclore baiano. Ele cantava o refrão… ‘quando eu morrer, me enterre na Lapinha…’ e a segunda parte foi inspirada na história de Cordão de Ouro, Besouro. Eu contei para o Paulo (Paulo César Pinheiro), a história que Canjiquinha me contou e Paulo escreveu a letra : ‘vai, meu lamento, vai, contar toda tristeza de viver… ai, a verdade sempre dói… eu sou um homem só, sem poder brigar…

Baden explicou ainda que naquela época, no Rio de Janeiro, falava-se em capoeira, mas ninguém conhecia o berimbau. Os grandes capoeiristas dos anos 30 – 40, freqüentadores da Lapa, “passavam rasteira” e citou Madame Satã, Miguelzinho Camisa Preta, o Pedregulho, o próprio mestre Bimba, “que deve ter ensinado aos outros… eles jogavam capoeira, mas sem berimbau. Havia até um ditado popular que dizia: ‘você pensa que berimbau é gaita?’ Mas ninguém conhecia o instrumento… nem eu!”

Contou-me também que quando criança, conviveu com a “turma da velha guarda” : Pixinguinha, Donga, João da Baiana e mesmo o seu professor de violão, o Meira, que fora membro dos “Oito Batutas” pois eram amigos do seu pai, Seu Lilo, que por sua vez tocava violino. Fazia questão de salientar que todos esses grandes músicos do passado, tinham suas raízes na Bahia e brincou: “eu não sei bem, nasci no Rio, mas acho que tudo é Brasil e eu acho que tenho uma ligação muito forte com a Bahia… tudo começou ali… a Bahia é uma prova!

Explicou-me que o seu avô paterno, Vicente Tomás de Aquino, era maestro e que havia formado uma banda de música no século passado, no Espírito Santo, onde nascera; essa banda de música era composta de negros analfabetos, mas que haviam estudado música; eles usavam uniforme, mas andavam descalços. Baden explica que fora a sua avó paterna quem lhe contara a história e mostrara fotos do seu avô em “traje à rigor”. Comentei que talvez fosse uma “banda de barbeiros”,[3] muito comum naquela época nas festas populares da cidade. Baden fica pensativo por um instante e acrescenta :

- “É aí que eu acho que por causa do meu avô (eu não sei quem foi meu bisavô), devo ter uma ligação com a Bahia… geograficamente o Espírito Santo está ligado à Bahia. Sou muito sensível às coisas da Bahia… ela me arrepia! Eu, quando vou lá, fico parado… sento numa praça à noite… e parece que estou dentro da história… começo a viver toda a história. Isso para o compositor é uma coisa linda! Não é o que eu vejo, é o que eu sinto, sabe? Os afro-sambas que eu compus, por exemplo, é o lado mais forte da minha obra de compositor, de instrumentista. Aquela coisa afro, o violão com a afinação bem grave, lembra a Bahia. A cidade tem qualquer coisa parada no ar! À noite, você escuta um toque de atabaque, longe… tem sempre uma música no ar, uma coisa misteriosa… aquele mar que bate calmo, aquele cais… aquela rua… e esse troço todo sai na minha música. E quando se diz: ‘você foi à Bahia e fez isso ou aquilo’…” Eu respondo: Não! Eu já sou de lá!”

Saí da casa de Baden, nas nuvens, feliz, leve como uma pluma, com a sensação de ter conquistado um grande prêmio. Dois anos se passaram, não nos vimos mais, porém guardei a gravação da entrevista como uma relíquia; quando ouço as músicas que ele compôs vibro mais do que antes, pois conheço os segredos de algumas, como nasceram, como ganharam força espalhando os seus acordes mágicos pelo mundo à fora. Porém, embora seja um pouco egoísta, não resisti ao desejo de contar aos baianos, que temos um irmão, um baiano pelo coração, que ama tanto a “velha mãe Bahia” quanto os seus filhos natos.

Paris, 21/09/1998 


[1] Ver «CASTRO, Ruy. Chega de Saudade, São Paulo, Companhia das Letras, 1990, p. 306

[2] ; Enciclopédia da música brasileira erudita, folclórica e popular, Art Editora, São Paulo, 1977, p.622-624.

[3] Ver : BRASIL, Hebe Machado. A música na cidade do Salvador – 1549 – 1900 …, Publicação de Prefeitura Municipal de Salvador Comemorativa ao IV centenário da cidade, 1969, p.89. CARVALHO FILHO, José Eduardo Freire de. A devoção do Senhor do Bomfim e sua história, Salvador, Tip. de São Francisco, 1923, p. 138. ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de um sargento de milícias, 9a ed., São Paulo, Atica, 1979.

 

Je t’aime

Essa cansão de Sergio Regianni traduz bem os sentimentos que invadiram minha alma com a partida da minha amada Leni.

Le pont Mirabeau

Sous le pont Mirabeau coule la Seine
Et nos amours
Faut-il qu’il m’en souvienne
La joie venait toujours après la peine

Vienne la nuit sonne l’heure
Les jours s’en vont je demeure

Les mains dans les mains restons face à face
Tandis que sous
Le pont de nos bras passe
Des éternels regards l’onde si lasse

Vienne la nuit sonne l’heure
Les jours s’en vont je demeure

L’amour s’en va comme cette eau courante
L’amour s’en va
Comme la vie est lente
Et comme l’Espérance est violente

Vienne la nuit sonne l’heure
Les jours s’en vont je demeure

Passent les jours et passent les semaines
Ni temps passé
Ni les amours reviennent
Sous le pont Mirabeau coule la Seine

Vienne la nuit sonne l’heure
Les jours s’en vont je demeur
e

 Guillaume Apollinaire

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A nevasca

Leni David

     Nas minhas andanças por aqui encontrei a crônica que publico abaixo, esquecida numa gaveta, gravada num disquete. Embora esteja aproveitando o sol gostoso do verão francês, de férias e curtindo tudo que tenho direito, vou publicá-la no blogue com o objetivo de resgatá-la.

SDC10632

 A nevasca

      Às dez da manhã o telefone tocou. Era uma brasileira que havia chegado a Paris naquela manhã. Ela buscava informações a respeito de uma pós-graduação e pedia sua ajuda. Tinha conseguido o seu número de telefone por intermédio de uma amiga que morava na Bahia e que também era sua amiga. Para quem vive no exterior, a visita dos amigos queridos reconforta o coração. Mas quando se trata de receber amigos dos amigos, o prazer se transforma em dever.

      É preciso lembrar que na Europa as pessoas não são muito disponíveis. Elas trabalham, cuidam dos filhos, da casa, das compras e da cozinha. Mesmo os idosos e as pessoas abastadas não costumam ter serviçais. Até o lixo, cada um transporta o seu até o subsolo do prédio, de onde é recolhido pelo responsável por este serviço. Quem tem filhos pequenos, contrata uma baby-sitter para tomar conta das crianças quando vai ao teatro, ou a um jantar em casa de amigos; senão, contrata-se uma faxineira para trabalhar quatro horas por dia, pois o custo desse privilégio tem um custo semanal de cerca de meio salário mínimo em moeda brasileira. Apesar do frio glacial que fazia naquele mês de janeiro, ela estava de folga e concordou em encontrar a visitante num Café da Praça da Sorbonne, próximo ao hotel onde ela estava hospedada. Combinaram as roupas que vestiriam e concordaram em levar nas mãos uma revista brasileira para facilitar a identificação.

      Como os outros membros da família almoçavam nos locais de trabalho e de estudo, almoçou rapidamente e preparou-se para enfrentar o frio. Desceu a rua que dava acesso ao ponto do ônibus, de onde se tinha uma linda vista de Paris nos dias claros e ensolarados. Naquela tarde, porém, a paisagem era lúgubre, tendo como pano de fundo um céu cinzento, quase branco; a cidade parecia envolvida numa cortina de fumaça. As árvores nuas mostravam galhos ressequidos e espetados que lembravam mãos voltadas para o céu, como se pedissem socorro. E o vento gelado dava alfinetadas no rosto e maltratava os olhos.

      O ônibus que lhe levaria ao centro da cidade era de grande valia pois dispensava o uso do metrô, num momento em que as ameaças de atentados eram constantes. Reconfortada pelo aquecimento do veículo, olhava a rua, as vitrines decoradas e as pessoas que passavam encolhidas, sérias, vestidas com roupas escuras. Chegou ao Café e instalou-se numa mesa próxima à entrada. Pediu um cafezinho e deixou a revista brasileira sobre a mesa. Logo depois entraram duas jovens senhoras e ela adivinhou, vendo as roupas que vestiam, que uma delas era a pessoa com quem havia marcado encontro: calças jeans, tênis, muitas blusas sobrepostas que davam um aspecto recheado ao corpo e um casaco antigo, muito largo. Esse tipo de indumentária, era o “uniforme”, preferido pela maioria dos brasileiros que visitavam Paris. Elas sentaram-se numa mesa próxima e uma delas retirou da sacola uma revista brasileira. Não teve dúvidas; aproximou-se, identificou-se e cinco minutos depois já conversavam e tomavam vinho quente como se já se conhecessem há muitos anos.

      Pode ser exagerado repetir que o frio era glacial, mas, a cada vez que alguém entrava ou saía do café, uma rajada de vento frio invadia o recinto; preferiram, então, continuar conversando ali. A conversa estava animada quando, olhando através do vidro, uma das brasileiras comentou, num tom alegre, se os floquinhos brancos que caiam rua eram neve. Olhou para a rua e constatou que começara a nevar; a visitante ficou maravilhada pois embora já tivesse visitado a Europa em outras ocasiões, aquela era a primeira vez que via a neve cair.

      Pensou nos transtornos que a neve provocava na cidade, apesar de ser linda, mas não fez nenhum comentário. Lembrou que muitos se machucam porque as calçadas ficam escorregadias; lembrou da mistura de areia e sal que pulverizavam nas ruas para permitir a circulação de veículos e do lamaçal abominável que se formava em poucos minutos. Pensou em outros inconvenientes, mas preferiu dizer que a neve era muito bem-vinda quando se estava numa estação de sky, ou instalado diante de uma lareira, com bons livros para ler, amigos para conversar e um chocolate fumegante para saborear.

      Quando a calçada se cobriu totalmente de branco, alguns jovens começaram a formar bolas que atiravam nos companheiros. Riam muito, escorregavam, corriam numa algazarra descontraída. Então a brasileira comentou, como se conseguisse ler seus pensamentos negativos, que apesar do frio medonho, as pessoas conseguiam se divertir. Concordou com ela e aceitou a incumbência de fotografá-la na paisagem nevada.

      Eram cinco e meia quando decidiu voltar para casa. Despediu-se das brasileiras prometendo que se encontrariam dentro de dois dias e deixou-as na entrada do Jardim de Luxemburgo, onde algumas crianças modelavam bonecos engraçados, daqueles que ilustram os cartões de boas-festas. As visitantes estavam embevecidas com a paisagem branca da cidade e decididas a comprar mais filmes para novas fotografias e a jantar olhando a paisagem através da vidraça de um restaurante próximo ao hotel onde estavam hospedadas, ali mesmo, no Quartier Latin. Andou na direção do ponto de ônibus e levantou o cachecol de lã para proteger a boca e o nariz, dormentes, como se estivessem anestesiados. Apesar de manter as mãos enluvadas nos bolsos, a sensação de frio era intensa e os pés doloridos incomodavam devido aos sapatos leves que usava, inadequados para aquele tempo.

      Numa cidade onde os ônibus são pontuais, aquele demorava a chegar. Impaciente, decidiu voltar de metrô pois começava a escurecer. Desceu em Montparnasse onde faria a conexão para a linha do seu bairro. A estação de Montparnasse estava cheia e as pessoas andavam apressadas pelos corredores. De repente ouviu-se os altos-falantes anunciarem a suspensão dos serviços do metrô em algumas linhas externas, pois a nevasca havia provocado panes na rede elétrica.

      Resolveu telefonar para a empresa onde o marido trabalhava e pedir para que viesse busca-la, mas ele estava em reunião e o colega que atendera ao telefonema prometera dar o recado, caso o encontrasse ainda, visto que já passava das dezoito horas. Concluiu que era preciso agir rapidamente e sair da estação para pegar um ônibus, ou mesmo um táxi. Enquanto esperava no ponto tentou ligar para o marido, mais uma vez, mas o telefone público não funcionava. Decidiu andar até o ponto seguinte, onde talvez houvesse mais opções. Andava como se estivesse pisando em pregos, os pés enrijecidos pelo frio. Tentou telefonar mais uma vez. Inútil! O telefone do trabalho não respondia. Decidiu ligar para casa e deixar uma mensagem na secretária eletrônica; possivelmente ele já estaria lá e certamente viria ao seu encontro.

      O tempo passava, a neve caía cada vez mais forte e ela constatou que só chegaria em casa se encontrasse um táxi. No entanto, eles também haviam desaparecido. Começou a desesperar-se. Entrou num café e pediu um chocolate, mas as mãos estavam tão dormentes que dificultavam até o manuseio da xícara. Foi ao sanitário e abriu a torneira de água quente deixando o líquido escorrer sobre os dedos, na esperança de diminuir o desconforto. Reconfortada pela bebida quente, decidiu continuar a caminhada em busca de um transporte. Numa esquina viu um táxi do qual descia um passageiro e precipitou-se na direção do veículo; o motorista impediu-a de entrar, explicando que acabara de dispensar um cliente pois não havia condições de circular na cidade devido ao engarrafamento e aos acidentes. Ele tencionava ir para casa. Ela perguntou onde morava e ele respondeu que morava em Choysi. Sorriu esperançosa pois o caminho para Choysi era o mesmo da sua residência; assim, convenceu o motorista de que não custava nada conduzi-la; ele concordou em leva-la, mas sem nenhuma garantia de que chegariam ao destino.

      Já instalada e agradecendo a Deus por ter lhe concedido a graça de encontrar ajuda naquele momento de aflição, escutou no radio do carro que a cidade estava completamente paralisada. Várias linhas de metrô haviam sido interditadas e os ônibus impossibilitados de circular, mesmo com correntes nos pneus. Falava-se nos esforços da prefeitura diante daquela nevasca imprevista, mas quase nada podia ser feito pois os caças-neve não podiam circular devido ao congestionamento do trânsito. Acreditou que tinha muita sorte, já aquecida e instalada confortavelmente, à caminho de casa.

      O carro rodava a dez quilômetros por hora. O barulhinho dos pneus na neve fresca era macio e agradável de ouvir. Rodaram cerca de quinhentos metros, mas logo ficaram bloqueados. Passaram cerca de vinte minutos sem sair do lugar. De repente, o telefone do motorista tocou e depois de falar durante algum tempo, ele avisou: “infelizmente, a senhora vai ter que descer. Vou estacionar o carro na primeira vaga que encontrar e vou dormir num hotel; a direção da empresa nos proibiu de circular.”

      Engoliu a vontade de chorar e desceu do carro. Entrou num Café em Gobelins, com a intenção de telefonar para casa, mais uma vez. Já passava das dezenove horas e dessa vez, a sua filha adolescente respondeu ao apelo telefônico. Seu pai ainda não havia chegado e ela explicava que também tinha sofrido para chegar em casa na volta da escola e aconselhou, com naturalidade, que só havia um meio de voltar para casa: fazer o percurso andando, pois não havia transporte e a camada de neve já atingia os 40 centímetros. Entrou em desespero; era impossível andar cerca de cinco quilômetros açoitada pelo vento, pela neve e tremendo de frio. Era impossível! Quis chorar, mas mesmo as lágrimas pareciam congeladas.

      Mais uma bebida quente num Café do caminho, mais um quarteirão de caminhada; outro Café, outra caminhada; mais um esforço, muita revolta e muitas injúrias balbuciadas ao vento. Os Cafés fechando as portas e os aparelhos telefônicos cada vez mais mudos… finalmente, cerca de duas horas depois, chegava à estação de metrô do seu bairro onde uma pequena multidão se aglomerava. Pessoas idosas, mães carregando crianças; crianças chorando; adolescentes sorridentes numa algazarra infernal. Novas tentativas para usar os telefones públicos, mas diante deles as filas se alongavam pelos corredores da estação. Na lanchonete não se encontrava mais nada de comer ou de beber. Decidiu que ficaria ali pois não tinha mais condições de fazer qualquer esforço físico e para chegar à sua casa havia ainda cerca de um quilômetro e meio de caminhada. Sentia fome, sede, frio e revolta. Preferia imaginar que logo seu marido chegaria em casa e que certamente viria buscá-la. Resolveu entrar na fila do telefone, e após meia hora de longa espera, a filha insistia para que fizesse mais um “pequeno esforço” pois a avenida que dava acesso ao metrô estava completamente bloqueada e mesmo que seu pai já estivesse em casa, seria impossível chegar até lá. Decidiu então que só sairia dali quando a nevasca acabasse.

      Colocou o fone no gancho e acomodou-se num canto para proteger-se do vento frio. Uma mulher loura, simpática e bem vestida aproximou-se; começou a conversar, coisa que não era muito natural por ali. Contou a sua maratona para aquela desconhecida amável e pensou que quando as pessoas estavam em dificuldade, se tornavam solidárias. A loura disse que o seu marido estava estacionado perto dali e que eles poderiam lhe dar uma carona, desde que ela concordasse em utilizar caminhos secundários, que alongariam o percurso; mas, como moravam num bairro próximo ao seu, não custava nada transportá-la. Agradeceu comovida e aceitou a oferta; andaram uns trezentos metros sobre a neve alta. Entraram numa camionete que estava estacionada ao longo do meio fio. A loura havia dito que morava depois de Clamart, desse modo passaria perto da sua residência, de onde andaria mais uns cem metros e estaria a salvo no aconchego do seu lar.

      A camionete potente começou a circular por ruas secundárias, cheias de obstáculos. Tentou conversar com os benfeitores, mas eles não alimentaram a conversa. Mas começaram a falar entre si, numa língua estranha, que poderia ser russo, polonês, dinamarquês… mas certamente uma língua diferente que jamais escutara antes. No carro havia um equipamento que transmitia mensagens e, de vez em quando, uma delas interrompia a conversa dos dois. Tentou convencer-se de que estavam usando ruas secundárias para evitar o congestionamento. De repente, avistou o mercado de Clamart onde costumava ir aos sábados. Constatou que a sua rua havia ficado para trás há muito tempo. Disse ao casal que estava perto de casa e que queria descer ali. Foi ignorada.

      Tornou a repetir que precisava descer pois já estava longe da casa; a loura então perguntou se ela tinha dinheiro para pagar a corrida; perguntou quanto custaria e disse que tinha apenas um pouco de dinheiro na bolsa. A loura olhou na sua direção e respondeu que custaria caro, muito caro. Abriu o porta-luvas e mostrou-lhe um revólver. Ela emudeceu, sentiu um aperto no coração e pediu ajuda ao seu anjo-da-guarda, em silêncio: “Santo anjo do Senhor, meu zeloso guardador… Entraram por uma avenida larga, conhecida, que dava acesso à estrada de Orleans. O homem, num sotaque carregado, anunciou que na saída da cidade havia um caixa eletrônico. Sentiu medo pois seu saldo bancário era insignificante e tremeu mais ainda, quando imaginou que poderia ser maltratada e até assassinada.

      O trânsito da avenida era denso e desordenado. Os carros rodavam lentamente. Via as pessoas que estavam em outros carros e olhava para elas com olhos de desespero; seu olhar devia traduzir uma imagem medonha, porque as pessoas olhavam para ela com um ar encabulado e começavam a dizer coisas que ela não escutava, pois, os vidros estavam fechados. Começou a chorar compulsivamente, muito alto, como uma criança aterrorizada. O marido da loura falou qualquer coisa num tom brusco e ela replicou, nervosa, olhando para os lados e fazendo gestos com as mãos. Concluiu então, que era melhor morrer ali, diante de todo mundo, do que num local deserto e escuro, onde poderia ser vitima de crueldades. Os carros se deslocavam lentamente e ela pedia a Deus que o engarrafamento continuasse, enquanto chorava um choro incontrolável que chamava a atenção dos ocupantes dos outros veículos. De repente a loura gritou descontrolada: “Fora daqui! Desça do meu carro! Saia! Saia logo, você é louca! Saia!!! Fora!!!”

      Abriu a porta da camionete e caiu de joelhos; tentou levantar-se, mas as pernas não obedeciam. Como um animal rastejou sobre a neve, até que num esforço desesperado conseguiu ficar de pé e chegar, cambaleante, ao outro lado da rua onde havia um Café na esquina. Ofereceram-lhe um grog, uma mistura quente feita à base de rhum e perguntavam-lhe o que havia acontecido. Descabelada e suja, com a voz embargada pelas lágrimas, resumiu a sua aventura para um grupo de pessoas que se encontravam no local. Um motorista de táxi ofereceu-se para transporta-la, mas sem garantia de que chegariam até a sua casa. Entrou no carro chorando e escutou o motorista repetir que já estava tudo bem, que não havia mais razão para chorar.

      Conseguiram chegar nas imediações da sua residência por volta da meia-noite, mas teve que caminhar umas duas quadras com um pé descalço, pois na fuga desesperada havia perdido um dos sapatos. Entrou no prédio achando que tinha vivido um pesadelo. Sentia-se ridícula com aquele pé descalço, uma Cinderela pelo avesso! Entrou em casa e viu a sua filha que assistia televisão deitada no sofá. O seu pé esquerdo estava completamente morto, congelado. As unhas completamente roxas. Seu marido ainda não dera notícias. O que teria acontecido com ele?

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      Meia hora depois ele chegava contando as suas peripécias; havia deixado o trabalho às dezoito e trinta, mas ficara bloqueado, além do carro ter deslizado na neve e machucado o pára-choques. Tentou relatar a sua aventura, mas os dois estavam cansados e não ficaram impressionados com a narrativa. Todos haviam passado por grandes dificuldades e o sofrimento do outro era sempre insignificante se comparado ao seu. Tomou um banho e uma sopa quente e foi para a cama chorar baixinho. Sentia-se a mais injustiçada das criaturas, a mais incompreendida das mulheres, a maior vitima da natureza. Ao mesmo tempo sentia-se reconfortada por ter escapado ilesa e por ter encontrado ajuda. As pernas doíam em conseqüência do esforço físico; os pés, doloridos e inchados. A cabeça também doía. E o coração doía mais ainda ao constatar, que além de vítima das intempéries havia sido vítima da sua tolice, da sua ingenuidade. Será que eles haviam acreditado na sua história? Seu marido dissera que era uma aventura mirabolante…

      Preferiu acreditar que tudo aquilo não passou de um pesadelo e que ao despertar sob o calor aconchegante do edredom do seu leito, vislumbrava lá fora a cidade majestosa, decorada como um magnífico bolo confeitado, todo branco.

      Châtillon, 29 de março de 2005

AS SEM-RAZÕES DO AMOR

Um terceiro poema escolhido por nossa amiga Rita.

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade, Corpo, 1984, p. 35-36.