Sobre Leni David

Sou amante das artes. Gosto de ler, escrever, cantar, ouvir música, comer bem e de viajar. Tenho muitos amigos, todos especiais. Detesto hipocrisia, preconceito, mentira e injustiça. Sou licenciada e pós-graduada em Letras. Como professora, amo o meu trabalho e começaria tudo outra vez, se preciso fosse... Ah, gosto de cozinhar!

A Casa do Sertão – UEFS

Conheci a Casa do Sertão, pequeno museu retratando os costumes e a produção artística sertaneja, incluindo os  famosos cordéis, em 1984. E pequeno, mas é necessario para valorizar as tradições do Sertão. A Casa do Sertão tem hoje 40 anos e reproduzo aqui o anúncio das comemorações desse evento.

Denis

Casa do Sertão – UEFS – Feira de Santana

Casa do Sertão celebra 40 anos com atividades para todos os públicos

Dando prosseguimento às comemorações alusivas aos 40 anos de implantação, o Museu Casa do Sertão, localizado no Campus da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), oferece uma série de atividades para o público adulto e infantil. A iniciativa, dentre outros, visa fortalecer o interesse da população sobre importância histórica e cultural dos museus.

Até 15 de dezembro, os visitantes poderão interagir com as intervenções artísticas. Na área externa, no caminho até a chegada no Museu Casa do Sertão, o agitador cultural Luciano dos Anjos propõe, através do reaproveitamento de materiais, uma rica interface entre pintura e poesia em homenagem a personalidades Feira de Santana como Noratinho da Pamonha, além de temas e locais que compõem o imaginário da comunidade, como a caixa d’água do Tomba, mandacarus e pássaros. As obras são representadas em cores quentes e vibrantes, combinadas a versos e poesias autorais para referendar memórias que não se apagam.

Exposições

Nas salas dedicadas a atividades de curta duração são apresentadas discussões estéticas a partir de trabalhos de servidores que também realizam oficinas didáticas. Na exposição ‘Gemicrê Nascimento – Mostra caminhos no tempo’, o artista apresenta um olhar sobre sua trajetória criativa. Professor do Departamento de Letras e Artes da Uefs, mestre em Desenho, Cultura e Interatividade e especialista em Metodologia do Ensino do Desenho, Gemicrê realiza oficinas e workshop no território nacional resgatando técnicas ancestrais, a partir do uso do solo, comuns na pintura dos desenhos rupestres, obtendo na natureza seus principais pigmentos.

Já a mostra ‘A Casa do Passarinho e Outros Desenhos’, da servidora Paula Gesteira, resulta de pesquisas autorais sobre a concepção da imagem a partir de uma apropriação de cosmos lúdicos para enfocar o feminino. Conforme a artista trata-se de universo que para muitos é caracteristicamente hermético, mas que, no seu olhar apurado, eclode em energia e vivacidade, brindando o observador com as inusitadas soluções para um arranjo espacial cromático de personalidade.

A programação conta com apoio do Núcleo de Estudos para as Relações Étnico-Raciais e Educação Quilombola, da Secretaria Municipal de Educação. O Núcleo apresenta bonecas Abayomi, termo que no idioma Iorubá significa ‘encontro precioso’, conhecidas historicamente como um símbolo de resistência. Nos navios negreiros a construção se dava a partir do retalho da saia das mães. Depois de criadas, as bonecas, feitas de tranças e nós, serviam como amuleto de proteção.

Visita de Criancas

Saiba mais sobre o Museu Casa do Sertão:

http://www.uefs.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=119

Serviço:

Local: Museu Casa do Sertão – UEFS

Contato: (75) 3161-8750

Av. Transnordestina, s/n – Novo Horizonte, Feira de Santana – BA, 44036-900

E-mail: museucasadosertao@uefs.br

Atendimento:

Segunda-feira: das 14h às 17h30.

Terça-feira a sexta-feira: 8h às 11h30 e das 14h as 17h30.

 

Quanta lameira guajira quanta lameira

Eu nasci durante a ditadura militar no Brasil, não lembro de nada pois foi em 1976, só lembro das historias que minha Mãe me contou.
Eu não sei o que é repressão pois tenho sorte de morar no País das Luzes, onde muitos direitos são respeitados. Temos saúde, temos educação gratuita e a repartição das riquezas é feita na base dos impostos.

Podemos criticar o governo quando pagamos muitos impostos, mas temos também que lembrar que favorece as famílias mais humildes. Eu me sinto bem por contribuir a meu nível fazendo um esforço justo.
Minha filha vai na mesma creche que a neta do açougueiro do meu bairro. Porque seria diferente ?
Na creche se trata sem diferença as crianças que pagam um valor menos importante pelo mesmo serviço. O que pagamos é calculado a partir da renda de cada um. Vamos dizer que quem ganha mais, contribui para os que ganham menos.

Tirando essa – a parte– de repartição da riqueza, e voltando a liberdade, aqui os debates são outros como autorizar ou não o véu para as muçulmanas na escolas, pois a escola é laica.
Se adaptar ou não com os diferentes regimes alimentícios : que as crianças sejam filhos de vegan, vegetarianos, muçulmanos que não comem porco, judeus que não comem porco e não misturam leite com carne…  sem falar das alergias que podem se revelar nos primeiros anos de vida.

A liberdade é o que finalmente ?
O que entendi de liberdade quando era menina era poder cantar a música que se queria, era poder falar mal do governo porque não estávamos de acordo com suas política. Atos que não era possíveis nos meus primeiros anos de vida no Brasil.

Caminhando e Cantando de Carlos Sodré foi censurada durante muitos anos, Geraldo Azevedo também foi vítima com sua « Canção de Despedida ». Caetano Veloso,  exilado escrevia « London, London » e « Debaixo dos Caracóis » com muita saudade de sua terra… Ele se espantou com os policiais de Londres em países eram gentis e indicavam até o caminho.

Muitos outros artistas que não tiveram a oportunidade de conseguir se exprimir com suas prosas e tiveram outros destinos.

Liberdade para minha Mãe na década de 70 no Brasil era poder cantar as músicas que queria num barzinho em Feira de Santana, se me lembro bem, era no Mercado de Arte Popular, onde se comia uma maniçoba deliciosa que ela e seus amigos cantavam o que podia ser cantado.
Sempre havia alguém para espiar, denunciar uma infração que podia ser simplesmente cantar o que não se podia.
Uma música nesta época que vinha direto de Cuba. Música que já foi usada, nos Anos 30, pelo locutor de Radio Joselito Fernández em Cuba,  para passar mensagens mudando umas letras.

Conheço poucos militares de carreira,  o pouco que sei é que podem ser coronéis, sargentos, marinheiros, médicos ou até presidentes. Porém esse Corpo de Estado, nos anos da ditadura militar no Brasil parecia não ter pessoas de Letras, graças a essa ausência de “letrados”, a censura deixava passar algumas músicas. Guantanameira em versão transgressiva era Quanta lameira.

Os poucos desobedientes altamente letrados, cantavam Quanta lameira para criticar o regime, porque a censura não parecia para entender o segundo grau.

A falta de poder de expressão pode ajudar também a desenvolver a criatividade. Mas queremos voltar a esse ponto?
Quando ouço com minha filha os Saltimbancos de Chico Buarque, música que ouvia na mesma idade que ela na radiola de casa, seguindo minha Tia Cida, me dou conta que não envelheceu nem um pouco.
A memória é curta mas tem muitas pessoas que ainda que lembram não é?

… « Era uma vez
(e é ainda)
Certo país
(E é ainda)
Onde os animais
Eram tratados como bestas
(São ainda, são ainda)
Tinha um barão
(Tem ainda)
Espertalhão
(Tem ainda)
Nunca trabalhava
E então achava a vida linda
(E acha ainda, e acha ainda) » …
Chico Buarque

Feira em Teatro


Nos dias 14 e 15 de setembro de 2018, às 19 horas, o projeto FEIRA TEM TEATRO apresenta mais uma programação para o povo feirense. Desta, em especial, homenageando os 185 anos de emancipação política de Feira de Santana, a Princesinha do Sertão. Às 19 horas vai rolar o papo cultural, aberto ao público, no foyer do teatro, tendo em seguida, às 20 horas, dentro no Teatro, a apresentação do espetáculo convidado “Lucas da Feira: O sujeito antes do mito” e do espetáculo principal da noite: “Cidade da Rua Direita” do Grupo Cordel.

O Projeto Feira tem Teatro apresenta espetáculos de grupos teatrais de Feira de Santana, tendo sempre como abertura um PAPO CULTURAL. O projeto tem a direção artística de Geovane Mascarenhas e produção cultural de Willian Fraga, Grupo Cordel e Grupo Conto em Cena.

O PAPO CULTURAL do mês de setembro convida Edson Borges, Secretário municipal da Cultura, Esporte e Lazer de Feira de Santana e a historiadora Eliane Costa, Professora e pesquisadora feirense, graduada em Licenciatura em História pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) falando sobre a presença de Lucas em Feira de Santana nas artes, na história e na memória de Feira de Santana. Na primeira noite, 14 de setembro, a mesa terá também a presença de Sidiney Oliveira e Vinicius Oliveira.

Lucas: o sujeito antes do mito, sob direção de Fernando Souza, traz o sujeito Lucas desde infância até a formação do bando, sobretudo sobre as particularidades do homem escravizado antes da lenda. “É necessário entender a conjuntura social daquele momento para compreender o sujeito. Se não era resistência consciente, era instintiva”. É possível conhecer essa figura histórica e as mazelas deixadas pelo sistema escravista como preconceito e racismo através do espetáculo ainda em construção.

O espetáculo “Cidade da Rua Direita” traz como recorte a cidade de Feira de Sant’Anna, em 1930, contando a história de um homem misterioso que chega à cidade e com ele a necessidade de conquistar sua herança. Histórias reais e fictícias se misturam num enredo envolvendo personagens históricos e tipos que circulavam pelas ruas do centro. Música, comédia e drama compõem esse espetáculo que traz um final surpreendente. A direção é de Geovane Mascarenhas e o elenco é composto por Lion Guimarães, Leo Sátiro, Cleyton Vidal, Aida Vitória, Carol Acos, Elidiane Souza, Denise Medeiros, Marcinha Costa e Manoel Oliveira.

SERVIÇO:
O QUE:         Projeto Feira Tem Teatro 2018
QUANDO:     14 e 15 de setembro de 2018
HORÁRIO:   19h – Papo Cultural ( Foyer do Teatro)
20h     – Espetáculo “Lucas da Feira: Sujeito antes do mito”
20h30           – Espetáculo “Cidade da Rua Direita”

INGRESSOS : R$24,00 (inteira) e R$12,00 (meia)
R$10,00 (Estudantes da UEFS e CUCA)
ONDE: Teatro do Cuca
ENDEREÇO: Rua Conselheiro Franco, 66, Centro.
Maiores informações:Tel (71) 9 9115-5729 (75) 99133-1073
http://www.cuca.uefs.br/

Entre o Jacuípe, Paris e o Paraguaçu

 Por Patricia

      Achei que saudade era o que eu tinha sentido quando morei longe de casa. Mas não. Há dois anos, aprendi um novo significado, bem mais doído. O dia 26 de junho é um daqueles em que ela aperta mais forte.

      Foi neste dia que ela nasceu. A filha mais velha de Leonel e Hilda. Nunca gostou muito do seu nome de batismo: Lenilda. Preferia Lene, até que se mudou para o outro lado do Atlântico e adotou Leni. Ficou completa quando incorporou o David, de Denis. Seu companheiro de vida. Ele que foi talvez um dos poucos a compreendê-la tão bem. Daquelas compreensões do outro que se faz dentro do silêncio e olhares de entendimento.

      Nascida no sertão, cresceu entre o Jacuípe de Feira e a Bela Paz, onde o Paraguaçu, na temporada de chuva, sai rasgando a terra e levando tudo com sua força. Levou essa força consigo para desbravar os caminhos da vida. Nem sempre foi fácil. Em Feira, fez sua história e a transformou. Foi exemplo para muita gente ao desbravar novos horizontes.

       Agarrou todas as oportunidades e fez dos devaneios de Paris, das conversas das tardes calorentas com a prima Tony, um projeto de vida. E no frio dos invernos parisienses, que a deixavam melancólica, fez seu cantinho aconchegante de Bahia cheio de calor, onde os amigos que por lá passavam sabiam encontrar seu porto seguro.

       Era dotada de múltiplos talentos. Desenhava flores como ninguém. Transformava folhas brancas de seda em lindas pinturas abstratas, com cores que eram bem suas. Tinha na veia a arte de acalentar o paladar com sabores que só ela sabia extrair dos temperos mais simples e os ouvidos com sua voz de tons graves, única.

       Nunca foi exímia tocadora de violão, mas conseguia dedilhar nas cordas o som que precisava para embalar sua voz e revelar suas versões pessoais para letras de canções consagradas. Sua playlist era previsível e mesmo assim, sempre original. Depois de Cajuína, de Caetano, emendava com Borboleta, de Alceu, da qual cantava apenas a parte mais provocante: “Eu procuro a borboleta, feiticeira e descarada, pelo batom da camisa, pela marca da dentada”. Cantava e se divertia com a reação da sua plateia. E seguia com irreverência tocando Chiquita Bacana e revivendo a picardia dos sambas de roda do Recôncavo. No fundo, gostava de surpreender e estas eram suas maiores transgressões.

       Era pura liberdade. Fazia o que tinha vontade. E depois de uma certa idade deixou de fazer o que queriam dela para só fazer o que ela queria. Era direito seu, dizia, não ter que fazer sala para gente chata, ir a recepções por mera obrigação. Sua casa era seu mundo. Ali, se sentia bem com suas pitangueiras, suas acerolas e a goiabeira que o passarinho semeou no jardim lateral estreito. E tinha seu ipê rosa que, quando florescia, ganhava fotos.

      Talhada nos sertões entre o Paraguaçu e o Jacuípe, foi a sertaneja mais parisiense. Não dispensava um beijú, uma carne do sol. Mas em seu paladar havia lugar também para uma dose de pastis, uma porção de coq au vin e um café com macarron.

      Paris. Perdi a viagem para Paris, em que planejava ir com ela a um café que ficava perto da Sorbonne onde tínhamos ido no passado. Queria apenas reviver o momento de estarmos na calçada, apreciando o andarilhar de gente de todo jeito, de todo o mundo. Achei que faria isso em 2016, mas já era tarde. Seu corpo franzino, já adoentado, não permitia mais desfrutar destes pequenos prazeres. Mas pelo menos nos reencontramos na Paris que ela tanto amava e com a qual eu acertava minhas pequenas contas dos invernos da adolescência.

      Voltou à sua Feira de Santana para uma última Semana Santa. Despediu-se de todos ali, na sua casa onde o vento embala o sono, cercada dos irmãos, sobrinhos e amigos. Estava como queria: rodeada de quem gostava para conversas longas e repletas de detalhes sobre suas descobertas recentes que explicavam porque ela era daquele jeito. E todos ouviam com paciência.

Tableau_de_Leni-2-reduzido      No final da vida, descobriu bem mais do que possamos entender do que acontece entre o céu e a terra. Despediu-se com um sorriso tranquilo de quem precisava descansar porque havia já feito muito. Tão terra e tão mundo. Nossa Chiquita Bacana foi-se deixando seus significados.

       E tudo agora é apenas saudade. Faltou dizer a ela muita coisa, porque as palavras, nem sempre chegam na hora certa. Mas pensando bem, isso é bobagem. Leni David, minha mãe, sabia de tudo e lia da gente muito além da alma. E segue brilhando, mesmo na ausência.

 Patrícia Moreira

Jornalista

 

Parte 5: Aniversário

Por Simone 

 Leni_2014

Mainha se foi no dia 12 de agosto de 2016. Nesse dia o “Nosso Olhar” acompanhou sua última despedida cantada por minha irmã.

Viu, quanta coisa linda,

você e eu sentimos

sob este luar

dentro do silencio

que a noite fazia

pelo nosso amor.

Viu, como os nossos olhos

foram se entregando,

e se integraram

na linguagem pura

que os olhos ditam

pelo coração.

Viu, como mundo inteiro,

ficou pequeno,

e em nossas mãos,

virou veneno.

Que a noite bebeu

pelo nosso amor.

Viu, como basta pouco,

para amar-se muito,

um luar bonito,

uma noite quieta,

e olhar tão puro,

esse nosso olhar.

Tableau_de_Leni-1-reduzido

Feliz aniversário Mainha, com a eterna saudade de sua filha!

 Simone

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