Ah Paris, Paris…

Imaginou-se nos cafés de paris

lançando uma nova poética

e um baião enciumado ecoou longe.”

                           (Iderval Miranda)

Ignácio de Loyola Brandão, em artigo recente – “Dividindo o quarto com Garcia Marquez”, que me foi recomendado por Juraci Dórea, conta a sua experiência como hóspede do Hôtel des 3 Collèges localizado no coração do Quartier Latin, exatamente no número 16 da rue Cujas, um hotelzinho duas estrelas muito simples, mas simpático e limpo.

Nunca me hospedei nesse hotel, mas posso afirmar que ele é muito bem localizado. Vizinho à Sorbonne, pertíssimo do Panthéon, a dois passos do Jardim de Luxembourg e do Museu de Cluny, dedicado à Idade Média. Também fica muito próximo do famoso restaurante Polidor, que funciona desde 1845, serve o melhor Boeuf Bouguignon e a melhor Tarte Tatin de Paris, por um preço tentador e que recentemente foi cenário do filme Meia Noite em Paris. Para quem gosta de andar é muito fácil chegar, andando, até o Museu d’Orsay, ao Louvre, à Notre Dame, à Sainte Chapelle e a dezenas de outros monumentos reputados da capital.

Conheço bem o quartier. Próximo ao Boulevard Saint Michel, sempre animado e dotado de um comércio variado: livrarias, lojas de souvenirs, butiques, bons cafés e uma profusão de pequenos restaurantes que servem comida francesa, grega, espanhola, italiana, vietnamita, etc., por preços accessíveis. É evidente que o local não é recomendado para quem quer experimentar a comida dos grandes chefes da cozinha francesa.

No seu artigo, Ignácio de Loyola Brandão relata entusiasmado que ficou sabendo através de uma plaquinha de bronze na porta daquele imóvel, que naquele hotel, em 1957, Gabriel García Márquez, prêmio Nobel de literatura, escreveu o romance “Ninguém Escreve ao Coronel”, o terceiro da sua carreira; feliz, ele descobre ainda, que o quarto que ocupavam – ele, a filha e uma amiga – era o mesmo que no passado fora ocupado pelo escritor. E constatou que o escritor húngaro Miklós Radnoti, um dos mais queridos pelos seus compatriotas, morou no Trois Collèges no final dos anos 1930 e que o poeta Raoul Ponchon viveu ali entre 1911 e 1937. Loyola esqueceu de citar, porém, que na mesma rua, quase em frente ao hotel em questão, encontra-se um outro, também muito famoso por ter abrigado nos anos 1940 o escritor Jorge Amado. Trata-se do Grand Hotel Saint Michel.

Na realidade, as placas nas entradas dos imóveis em Paris são comuns e contam histórias que só são percebidas por pessoas disponíveis, que por acaso ou por querer, descobrem fragmentos da história de pessoas que fugiram da rotina, pessoas que deixaram os seus nomes gravados para a posteridade. Não é preciso muito esforço para descobrir que um escritor, um inventor, um ator ou um revolucionário viveu ali. Há também as placas que homenageiam os “Heróis da Pátria”, locais onde pessoas perderam a vida em defesa de uma causa ou de um ideal, como os militantes da Resistência francesa. Há pouco tempo descobri o imóvel onde viveu Santos Dumont e confesso que fiquei feliz com o achado; a placa informava que ali, em 1903, ele havia estacionado o seu dirigível número 9; a antiga residência do aviador brasileiro fica no número 41 da avenida dos Champs Elysées.

Após a indicação do artigo por meu amigo, a internet me levou ao texto que comentei acima e, casualmente, a outro artigo de Ignácio de Loyola Brandão: “Sabendo francês podemos ser mais felizes”. Ele inicia a sua escrita afirmando que não é esnobe e assegura que para desfrutar Paris, a Provence e outros locais reputados, “sabendo francês, os prazeres multiplicam-se por cem, o desfrute por duzentos, a alegria por quinhentos. Mesmo que você tenha ido apenas para fazer compras, como a maioria dos brasileiros”…

Na sequência ele questiona alguns aspectos da vida moderna, entre eles o estudo de idiomas, e confere que nos dias atuais aprendemos apenas aqueles que o mercado chama de línguas úteis, como o inglês, o japonês e o mandarim. Loyola critica a eliminação de algumas línguas, que no passado eram estudadas no ginásio, como o francês, o latim e o espanhol, que ele próprio estudou e que considera importantes na sua formação. Lembra com carinho de uma antiga professora de francês, Donna Fanny, da época em que estudava em Araraquara e o quanto fora importante ler autores clássicos da literatura francesa, no original. Mas a crítica se torna mais severa quando comenta a maneira como são feitas reformas e mudanças no sistema educacional brasileiro, argumentando que, se isso fosse importante, o ensino atual deveria ser extinto, haja vista que ele não leva a lugar nenhum da maneira em que está estruturado. E ele continua: “Há na nossa vida algo que é preciso preencher. Uma necessidade interior de espírito, contemplação do mundo, da vida, avaliação das coisas. Encarar a existência como algo que precisa de alimento”.

Mas, como uma coisa puxa outra, alguns dias depois encontrei o artigo “Capital linguístico”, da jornalista Carolina Nogueira, que morou (estudou) em Paris durante quatro anos e que está de volta ao Brasil. Carolina tem um blog, Le Croissant, e também colabora com o blog do Noblat. Nesse artigo ela comenta a crônica de Ignácio de Loyola Brandão e tece considerações pertinentes a respeito de ser mais feliz por falar francês; lembra que o próprio autor chama a atenção sobre a polêmica que o seu texto pode provocar, quando pede para não ser tomado por esnobe, mas garante que não tem jeito; sempre haverá quem pense assim. E adverte que ela própria é taxada de “deslumbrada” nos comentários que recebe na sua coluna, Cartas de Paris.

Carolina faz um balanço da sua estadia na França, às vésperas de deixar Paris, e repertoria coisas que trará na bagagem: alguns novos melhores amigos. Dois novos diplomas. O seu amor pelo desenho recuperado e colocado em lugar de destaque em sua vida. Muitos livros. Mas, sobretudo, um idioma a mais. Um idioma que lhe abriu as portas para todos os outros itens da lista.

A constatação de que Paris volta com ela para o Brasil, graças ao “capital linguístico” é explicitada através das conquistas, da experiência do vivido, da maneira como enfrentou situações boas e ruins. Acompanho as “Cartas de Paris” há muito tempo e alguns questionamentos levantados por Carolina Nogueira nesse texto e em outros publicados anteriormente, também já me ocorreram.

Assim como ela, já fui chamada de deslumbrada, sabichona e dona do mundo, somente por ter defendido – ou esclarecido – alguns pontos de vista em relação à França e aos franceses e, algumas vezes, por ter corrigido a pronúncia de uma palavra, não por iniquidade, mas por mania, talvez por ser professora.

Na realidade, quem morou em Paris não é esnobe; pelo contrário é simples e bem resolvido. É alguém que realizou trabalhos domésticos sem queixas, alguém que embalou suas compras no supermercado, alguém que retirou o lixo de casa todas as manhãs sem fazer cara feia; alguém que completou o tanque de gasolina nos postos – na França não há frentistas – e que lavou os vidros de casa para permitir a entrada radiante de um raio de sol.

Mas também é alguém que visitou museus, viu lançamentos de filmes, visitou exposições, assistiu a espetáculos de dança e de teatro, assistiu a seminários e conferências proferidas por intelectuais de destaque no Brasil e no mundo; fez piqueniques nos fins de semana, enfrentou o duro inverno com temperaturas abaixo de zero. Aprendeu a sonhar com  a primavera e a esmagar as folhas de outono nas longas caminhadas nos bosques e parques próximos de casa. Enfim, é alguém que vê o mundo de um jeito diferente e que abandonou aquele olhar deslumbrado do turista que foi um dia, alguém que teve a chance de vivenciar uma experiência singular.

Quem viveu em Paris, ou em qualquer outra cidade do mundo, por mais de seis meses, antes de tudo foi aprendiz; depois se tornou guia espontâneo; tornou-se uma espécie de professor de escola maternal, quando levou pela mão amigos ou familiares sôfregos de novidades e descobertas. Foi tradutora nas lojas e restaurantes. Percorreu e ensinou caminhos, preparou aventuras gastronômicas, bizarras ou deliciosas; por gostar de compartilhar as belezas que aprendeu a desfrutar, essas aventuras inusitadas eram alimentadas pelo carinho, pelo sorriso, pelo amor.

Mas todos os adjetivos se tornam pobres e insignificantes se comparados aos prazeres que a experiência de ter vivido na França, sobretudo na cidade luz, proporciona a um ser humano; os amigos de toda vida, que nos oferecem a cama mais aconchegante e a mais bonita. Os jantares e almoços elaborados, de dar água na boca, regados a vinhos especiais tirados da adega em nossa homenagem. Festas inesquecíveis na Bretanha, na Normandia, na Borgonha, no Tarn, na Champanhe, no Auvergne ou na Provence. Amigos que nos querem sempre, ao longo dos anos, e que a cada encontro, muitos anos depois, renovam a certeza de que eles fazem parte da nossa vida. Essas coisas que enternecem o coração estão intimamente atreladas aos momentos vividos, às experiências adquiridas, ao aprendizado de uma nova cultura, em um país onde se respira arte e história.

Por isso concordo com Ignácio de Loyola Brandão e com Carolina Nogueira. Sabendo francês podemos ser mais felizes, sim. E tenho a impressão de que a afirmativa é válida para qualquer idioma. Podemos ser mais felizes ao brincar com uma criança, escutar histórias de um ancião ou compartilhar as experiências de um trabalhador ou de um feirante que merca os seus morangos ou as suas cerejas em um país estrangeiro. E tudo isso, além do capital linguístico citado por Carolina Nogueira, está intimamente conectado ao preenchimento da vida, à contemplação do mundo e à avaliação das coisas, como quer Loyola, ou seja, ao jeito de encarar a existência como algo que precisa de alimento. E isso é patrimônio, dos bons, que ninguém pode usurpar; ele nos pertence de fato e de direito. É conquista, experiência, riqueza imaterial adquirida.

Leni David

Feira, 28/11/2011.

Cuidados com o meio ambiente

Desabafo

Na fila do supermercado, o caixa diz a uma senhora idosa:

- A senhora deveria trazer suas próprias sacolas para as compras, uma vez que sacos de plástico não são amigáveis ao meio ambiente.

A senhora pediu desculpas e disse:

 - Não havia essa onda verde no meu tempo.

 O empregado respondeu:

 - Esse é exatamente o nosso problema hoje, minha senhora. Sua geração não se preocupou o suficiente com nosso meio ambiente.

- Você está certo – responde a velha senhora – nossa geração não se preocupou adequadamente com o meio ambiente. Naquela época, as garrafas de leite, garrafas de refrigerante e cerveja eram devolvidos à loja. A loja mandava de volta para a fábrica, onde eram lavadas e esterilizadas antes de serem reutilizadas, e eles, os fabricantes de bebidas, usavam as garrafas, umas tantas outras vezes.

Realmente não nos preocupávamos com o meio ambiente no nosso tempo. Subíamos as escadas, porque não havia escadas rolantes nas lojas e nos escritórios. Caminhávamos até o comércio, ao invés de usar o nosso carro de 300 cavalos de potência a cada vez que precisávamos ir a dois quarteirões.

Mas você está certo. Nós não nos preocupávamos com o meio ambiente. Até então, as fraldas de bebês eram lavadas, porque não havia fraldas descartáveis. Roupas secas: a secagem era feita por nós mesmos, não nestas máquinas bamboleantes de 220 volts. A energia solar e eólica é que realmente secavam nossas roupas. Os meninos pequenos usavam as roupas que tinham sido de seus irmãos mais velhos, e não roupas sempre novas.

Mas é verdade: não havia preocupação com o meio ambiente, naqueles dias. Naquela época só tínhamos uma TV ou rádio em casa, e não uma TV em cada quarto. E a TV tinha uma tela do tamanho de um lenço, não um telão do tamanho de um estádio; que depois será descartado como?

Na cozinha, tínhamos que bater tudo com as mãos porque não havia máquinas elétricas, que fazem tudo por nós. Quando embalávamos algo um pouco frágil usávamos jornal amassado para protegê-lo, não plastico bolha ou pellets  de plástico que duram cinco séculos para começarem a se degradar. Naqueles tempos não se usava um motor à gasolina apenas para cortar a grama, era utilizado um cortador de grama que exigia músculos. O exercício era extraordinário, e não precisava ir a uma academia e usar esteiras que também funcionam a eletricidade.

Mas você tem razão: não havia naquela época preocupação com o meio ambiente. Bebíamos diretamente da fonte, quando estávamos com sede, em vez de usar copos plásticos e garrafas pet que agora lotam os oceanos. Canetas: recarregávamos com tinta umas tantas vezes ao invés de comprar outra. Abandonamos as navalhas, ao invés de jogar fora todos os aparelhos ‘descartáveis’ e poluentes só porque a lâmina ficou sem corte.

Na verdade, tivemos uma onda verde naquela época. Naqueles dias, as pessoas tomavam o bonde ou ônibus e os meninos iam para a escola em suas bicicletas, ou a pé, ao invés de usar a mãe como um serviço de táxi 24 horas. Tínhamos só uma tomada em cada quarto, e não um quadro de tomadas em cada parede para alimentar uma dúzia de aparelhos. E nós não precisávamos de um GPS para receber sinais de satélites a milhas de distância no espaço, só para encontrar a pizzaria mais próxima.

Então, não é risível que a atual geração fale tanto em meio ambiente, mesmo sem abrir mão de nada, e sem pensar em viver um pouco como na minha época?

(Autor desconhecido)

Observação: Recebi por e-mail, enviado por minha prima Glória.

 

Quando Chico Buarque pedia voto para FHC

 

Na homenagem que o PSDB lhe presta, desde às 10h de hoje, em uma das dependências do Senado, por seus 80 anos de idade, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso está sendo reapresentado a jingles de suas campanhas políticas. Uma delas foi para a prefeitura de São Paulo em 1985, quando FHC acabou derrotado por Jânio Quadros, o ex-presidente da República que em 1961 renunciou ao cargo antes de completar um ano nele. A estrela do jingle é Chico Buarque de Holanda, que compôs a música e a cantou.

Fonte: Blog do Noblat

Oiticica – Um Breve Depoimento

 

Festival de Inverno da Universidade católica do Recife, julho de 1979.

 Entre os convidados, Hélio Oiticica para realizar experiências com “parangolé” e fazer uma rápida retrospectiva de sua obra através de slides. Eu estava no festival realizando uma pequena exposição que… tinha um pé na arte conceitual e outro na arte construtiva, com o título “Manias de Narciso”, que muito impressionou o Oiticica. Conversamos muito sobre arte, a partir daí.

No seu trabalho com “parangolé”, queria um público da periferia, marginal, livre de influências culturais acadêmicas, já que via na marginalidade uma idéia de liberdade. Sem dúvida, era um inventor que mantinha certo domínio intelectual sobre seu próprio trabalho. Sabia o que queria e não queria fazer qualquer coisa. Uma noite circulamos pela periferia da cidade do Recife, na busca de uma escola de samba, Oiticica, Paulo Bruscky, Jomard Muniz de Brito e Almandrade. Uma aventura, papos e papos pela madrugada a dentro, de bar em bar nos arredores da cidade. A vida e a arte, os agitados anos de 1960, a mangueira, a tropicália, Londres, Nova York etc. A arte era, para ele, uma experiência quase cotidiana contra toda e qualquer forma de opressão: social, intelectual, estética e política. Na projeção de slides na Universidade Católica, as ilustrações dos papos da madrugada anterior, as imagens de uma obra que a arte jamais se livrará. Arte concreta, neo-concreta, penetráveis, ambientes coloridos, bólides, arte ambiental, tropicália etc.

No princípio era Mondrian, Malevith, depois Duchamp. Uma trajetória exemplar na arte brasileira. Uma tensão entre fazer arte e habitar o mundo. Foi assim, uma das últimas performances do Hélio. Quase oito meses depois, misturado com suas obras na solidão de um apartamento/ninho/penetrável, agonizou por três dias vítima de um derrame cerebral. Ficou a lembrança de uma brilhante e discreta presença num festival de inverno em pleno calor do nordeste brasileiro.

 

Almandrade (artista plástico, poeta e arquiteto)

Publicado no Suplemento Literário, Belo Horizonte, novembro de 1997

Observação: Colaboração enviada pelo fotógrafo George Lima. Muito obrigada, George!

 

 

O Pasquim disponibilizado para consulta no Museu Casa do Sertão

 

O Museu Casa do Sertão da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) disponibilizou para consulta pública a coleção do jornal O Pasquim. As edições foram doadas pelo professor e funcionário da Uefs, Elias Domingues Neves, e pelo escritor, cordelista e professor aposentado Franklin Maxado, com números que compreendem 26 de junho de 1969 a 11 de novembro de 1991 – período em que foi editado.

O Pasquim marcou época ao ser reconhecido pelo papel de oposição ao regime militar. Em plena ditadura, foi um instrumento de combate à censura, utilizando o humor como tônica de seus textos.

No início, o jornal possuía um perfil mais comportamental, abordando assuntos como sexo, drogas, feminismo e divórcio. À medida que a repressão aumentava, se tornou mais politizado, passando a ser porta-voz da indignação social brasileira.

O periódico era semanal e tinha como colaboradores jovens intelectuais da zona sul carioca, entre eles, Paulo Francis,  Tarso de Castro, Jaguar, Ziraldo, Millôr Fernandes, Henfil, Ivan Lessa, Ferreira Gullar, Sergio Cabral e Flávio Rangel.

De uma tiragem inicial de 20 mil exemplares, chegou a superar a marca de mais de 200 mil em meados dos anos 1970, se tornando um dos maiores fenômenos do mercado editorial brasileiro.

Para informações sobre o Museu Casa do Sertão, através do telefone (75)3224-8099.

Vivian Leite – Ascom/Uefs

 

A Baiana do acarajé: Imagens do real e do ideal – Parte II

 

O percurso identitário da baiana

A vendedora ambulante foi parte integrante da paisagem brasileira e, principalmente, de cidades como Rio de Janeiro, Salvador e Recife no passado, embora essa tradição persista nos dias atuais, por ser uma atividade capaz de garantir a subsistência para uma parcela significativa da população de baixa renda, excluída do processo produtivo convencional. Esta vendedora ambulante, no entanto, segundo Pierre Verger,[1] desenvolveu no Brasil atividades que já lhe eram familiares na África e ele explica também, que, a partir de meados do século XVIII os africanos importados para a Bahia e Recife eram originários do golfo do Benin ou da Costa dos Escravos, enquanto que as outras regiões do Brasil continuavam a receber escravos do Congo e de Angola.

Segundo esse autor, esse pormenor tem importância fundamental visto que a procedência dos escravos desembarcados na Bahia contribuiu para a originalidade da vida local e para justificar porque a Bahia tem características diferentes de outras cidades brasileiras. Verger alerta ainda para o fato de que é imprescindível conhecer o espaço ocupado pelas mulheres da sociedade iorubá, na África, onde a organização da família nessa etnia é polígama, o que colabora para que a mulher desfrute de maior liberdade, em oposição às ligações monógamas. Estas mulheres são vistas apenas como progenitoras, capazes de preservar a linhagem familiar, não se integrando totalmente à família do marido, fato que lhes confere, também, uma certa independência. Nas sociedades nagô-ioruba, por exemplo, estas mulheres podem circular livremente e participar dos mercados das cidades vizinhas sendo, inclusive, boas comerciantes o que lhes permite amealhar somas consideráveis, até superiores àquelas ganhas por seus cônjuges.

Verger acrescenta que no Brasil existe uma situação análoga entre as mulheres de descendência africana, embora já não haja espaço para a grande família que gira em torno do pai polígamo. São as mulheres que mandam em casa e criam os filhos, geralmente de pais diferentes. E Verger conclui que, “elas vendem nos mercados e nas ruas, alimentos cozidos idênticos aos da África, tais como os acarajés”[2]… explicando que essas mulheres, descendentes dos nagôs preservaram o mesmo espírito de iniciativa do seu país de origem e as mesmas tendências dominadoras, tanto na família como nas suas relações com os outros. Essas observações permitem, em contrapartida, identificar características próprias das “baianas de acarajé” a trabalhadora das ruas da Bahia, que veremos no decorrer desse trabalho.

A venda ambulante de produtos diversos não é uma atividade recente; no passado, era uma atividade característica das escravas e libertas que, segundo Vilhena[3], era financiada pelos patrões, o que lhes garantia a liberdade de preços e a não interferência de terceiros em seus negócios. A atividade dessas vendedoras remonta, segundo vários pesquisadores à época colonial, quando as escravas de ganho se deslocavam pelas ruas das cidades com o objetivo de vender mercadorias diversas. Kátia de Queirós Mattoso[4] explica que no século XIX a maioria das mulheres brancas não exerciam atividades fora dos limites de suas casas; porém, quando eram obrigadas a reforçar o orçamento familiar, realizavam trabalhos de bordados, costuras e doces para serem vendidos nas ruas pelas ganhadeiras. Estas senhoras, oriundas das classes médias, não se expunham a vender o fruto do seu trabalho na rua, delegando essas tarefa às suas cativas,[5] que, exercendo essa atividade, conseguiam por vezes comprar a própria liberdade utilizando a quota de lucro que lhes cabia como recompensa do trabalho que executavam. Tânia Gandon,[6] num trabalho sobre a comunidade de Itapuã, recolheu preciosas informações, através da memória coletiva do bairro, sobre as antigas vendedoras de peixes, conhecidas também como ganhadeiras, mostrando a trajetória dessas mulheres, que foram, certamente, as predecessoras das baianas dos dias atuais.

 

As três baianas: personagens do passado, da rua e da canção

No sentido dicionarizado, a palavra baiana é identificada como “feminino substantivado do adjetivo baiano”, e como designação da “negra mestiça da Bahia, em especial a vendedora de quitandas, cuja indumentária consta de saia rodada, bata de renda, turbante, pano da costa, colares e balangandãs”. Um olhar sobre as fontes iconográficas que retratam as escravas do passado, confirma que a indumentária usada pelas vendedoras atuais quase não sofreu transformações e muitos testemunhos sobre a elegância dessas mulheres chegaram até nós através de viajantes e visitantes que percorreram as terras brasileiras[7].

Pierre Verger[8] esclarece que esse traje típico das mestiças baianas certamente seria originário das etnias nagô-ioruba,[9] cuja presença na Bahia do passado era considerável. Ele observa ainda que as pessoas dessa etnia africana vivem sobretudo em meio urbano, levando uma existência permeada de relações quotidianas, não só com vizinhos, mas também em encontros de caráter social nos mercados das cidades, atitudes que contrastam dos habitantes mais próximos do Daomé, onde a vida tinha, geralmente, um caráter rural; logo, a origem urbana da maioria dos escravos trazidos para a Bahia, poderia explicar o esmero no vestir das negras baianas que, ao que tudo indica, era mais evidente nessa cidade do que nas demais cidades brasileiras.[10]

Apesar de considerado como luxuoso e bonito, esse traje, no entanto, era peculiar às negras e mulatas, sendo utilizados ocasionalmente pelas brancas tidas como “sem sorte”, ou seja, pelas brancas pobres. Na realidade, ser uma “mulher de saia” – em oposição à “mulher de vestido”[11] – representava determinar simbolicamente a origem social dessas mulheres pertencentes às camadas pobres da população. Esta marca de distinção entre as camadas sociais não impediu, no entanto, à princesa real brasileira, Dona Isabel, de vestir-se de “preta baiana” num baile à fantasia realizado em 07 de fevereiro de 1865, em Londres, fato que foi comunicado por carta ao seu pai, o imperador Pedro II e que provocou surpresa e comentários da corte brasileira da época.[12]

Nina Rodrigues, descrevendo os usos e costumes das escravas baianas também faz alusão às roupas observando, por exemplo, que as trabalhadoras negras usavam saias largas e coloridas, batas de algodão e pano da Costa; as negras ricas, porém, acrescentavam ricos adornos à sua indumentária: as saias, nesse caso, eram de seda, a camisa de alvo linho e o pano da costa de rico tecido. Além disso, enfeitavam-se com braceletes de ouro que cobriam os braços até à metade e na cintura traziam uma penca de berloques com a imprescindível figa. Esses berloques são os famosos balangandãs, palavra que se tornou popular nos aos 30 graças à canção O que é que a Baiana tem?,[13] de Dorival Caymmi.

Segundo o historiador baiano Cid Teixeira a denominação “baiana” designando a vendedora ambulante é recente e ele explica que a sua geração, oriunda dos anos 20, não conhecia outra forma senão “crioula,” para designar a vendedora de pratos típicos daquela época. E ele acrescenta: “Ora, baiana ela já era, antes de qualquer coisa! Nós importamos a designação “baiana”, que era utilizada sobretudo no Rio de Janeiro.”[14] Em 1939, quando Dorival Caymmi, grava a canção A preta do acarajé,[15] que conquista um grande sucesso em todo o país, a vendedora que oferece os seus petiscos mercando em nagô, também não é identificada por Caymmi como a “baiana” e ele esclarece em o Cancioneiro da Bahia,[16] que aqueles versos faziam parte das lembranças da sua infância, quando escutava na rua em que morava, o canto triste da negra vendedora de acarajés: “ô acarajé ecô, olalaí ó[17]… tendo inclusive, conservado na canção que compôs as mesmas palavras e a mesma música do pregão.

Thales de Azevedo[18] em trabalho publicado em 1953, também discorre sobre o assunto o que reitera a declaração de Cid Teixeira. Eis aqui as informações do antropólogo baiano: “Aos filhos de africanos nascidos no Brasil, chamava-se de crioulos, termo ainda hoje aplicado na sua forma feminina às pretas e mulatas que se vestem como “baianas”, com torso à cabeça, saia muito ampla, camisa alva bordada e muito decotada e um chale de cores nos ombros… As crioulas típicas baianas são figuras típicas das ruas das cidades, onde podem ser vistas ao transitarem para os centros de culto fetichistas ou sentadas junto a tabuleiros em que expõem à venda, especialmente durante as festas populares, os manjares da famosa cozinha local, em grande parte de origem africana.

Existe porém, outra forma de designar as mulheres naturais da Bahia, extensiva às vendedoras das ruas da cidade, muito utilizada nos textos das canções; trata-se do substantivo iaiá, uma deformação da palavra senhora – sinhá – que no sentido dicionarizado “é um tratamento dado às meninas e às moças, de largo uso no tempo da escravidão e hoje quase abolido”.[19] Ora, sinhá, ou iaiá, era portanto a “senhorita” e não a escrava. O uso, entretanto, banalizou o termo, sendo o mesmo utilizado para expressar a naturalidade das filhas da Bahia, como forma de tratamento carinhoso e mesmo como diminutivo, quando utilizado como apelido, de uso freqüente ainda nos dias atuais, principalmente nas cidades do interior do estado. Certo é que o número de canções cujos versos fazem referência às “Iaiás da Bahia”[20] é extenso, sendo a forma utilizada também no masculino – ioiô. Em canções como O coco de Iaiá,[21] fica claro o propósito afetuoso: “Quero provar minha iaiá/ doce de coco açucarado”… Já em canções como Iaiá formosa,[22] Iaiá baianinha,[23] Iaiá, ioiô e a cuíca[24], Iaiá da Bahia[25] e Iaiá do Cais dourado[26], fica evidente a designação da mulher natural da Bahia, embora haja alusões à vendedora visto que o traje da baiana é evocado, da mesma maneira que algumas das especialidades culinárias locais preparadas por ela. Essas evocações parecem, no entanto, querer reforçar a imagem da “iaiá”, a filha da Bahia que usa saia rodada, bata rendada e sandália dourada, talvez conhecedora da cozinha típica, uma vez que a sua imagem é sempre associada a ela, mas sobretudo, exímia conhecedora dos segredos dos feitiços e requebros capazes de conquistar corações, como confirmam os versos da canção : “baiana é aquela que entra no samba de qualquer maneira, que mexe e remexe dá nó nas cadeiras e deixa a moçada com água na boca”…

Pode-se deduzir, no que concerne a indumentária e às denominações dadas à baiana que existe uma estreita afinidade entre os nomes – crioula e baiana – e a profissão dessas mulheres, ou seja, a de vendedoras ambulantes urbanas de comidas típicas, que se tornaram figuras obrigatórias das ruas da cidade, conquistado o status de símbolo da Bahia e até do Brasil.[27] Desse modo, a “crioula” e a “preta do acarajé”, do passado personificam a “baiana do acarajé” dos dias atuais, com algumas variantes do traje que as identifica e do comportamento, no que diz respeito às obrigações e preceitos de cunho religioso, pois nem todas as mulheres que exercem essas atividades, no presente, estão vinculadas ao candomblé, fato que era comum no passado.[28]

Quanto à iaiá, ela seria a “baiana ideal”, a imagem exótica do cartão postal, e da letra da canção popular, estereotipada e superficial, mas que tem boa aceitação junto ao público consumidor; a iaiá, na realidade, não tem traços afins com a baiana tradicional, a comerciante, trabalhadora de longas jornadas, capaz de enfrentar os desafios das intempéries e as dificuldades comuns àqueles que trabalham na rua.

Continua na página seguinte.

Artigo publicado:

DAVID Maria Lenilda Carneiro S. A Baiana do acarajé : imagens do real e do ideal, Revista da Biblioteca Mário de Andrade, v. 57, São Paulo, jan./dez., 1999, p. 147-155.


[1] – VERGER, Pierre Fatumbi. Artigos, São Paulo, Corrupio, Coleção Baianada, Vol. I, 1992.

[2] – VERGER, Pierre Fatumbi. A contribuição especial das mulheres ao candomblé do Brasil, in Artigos, op. cit. p. 98-101.

[3] – VILHENA, Luís dos Santos. A Bahia no século XVIII. Salvador, Itapuã, 1969, p. 237; citado por Tânia Gandon, Un parcours de femme dans la ville. L’Itinéraire de la ganhadeira dans la culture bahianaise, in Les femmes dans la ville – Un dialogue franco-brésilien, (Centre d’Etudes sur le Brésil), Presses de l’Université de Paris – Sorbonne, 1997, p. 65.

[4] – QUEIROS MATTOSO, Kátia. Bahia, século XIX – Uma província no Império, 2a ed., Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, p. 536. 

[5]QUEIRÓS MATTOSO, Kátia. História da vida privada no Brasil (coleção dirigida por Fernando A. Novais, vol. organizado por Luís Felipe de Alencastro), São Paulo, Companhia das Letras, 1997, p. 163.

[6] – GANDON Tânia. Un parcours de femme à travers la mémoire de la ville – L’itinéraire de la ‘ganhadeiras’ dans la culture bahianaise, in Les femmes dans la ville, un dialogue franco-brésilien, Centre d’Etudes sur le Brésil, Presses Universitaires de Paris – Sorbonne, 1997.

[7] – São muitos os comentários sobre a elegância das negras baianas, deixados por viajantes estrangeiros, entre eles, BARBINAIS Le Gentil de la. Voyage autour du monde, Paris, 1728, Tomo III, p. 203; AVE-LALLEMENT Robert. Viagem pelo norte do Brasil, Rio 1961, Tomo I, p. 21: WETHERELL James. Notes from Bahia, Liverpool, 1860, p. 72. Citados por Pierre Verger, in Artigos, Ed. Corrupio, Coleção Baianada, São Paulo, 1992.

[8] – VERGER Pierre Fatumbi. A origem africana da elegância das mulheres negras da Bahia, in Artigos, op. cit, p. 106-107.

[9] – Existe uma polêmica em torno da origem do traje da baiana; alguns autores atribuem a sua origem ao Daomé, divergindo deste pesquisador.

[10] – Por volta de 1830, Debret assinalava que « com as perturbações políticas ocorridas na Bahia em 1822, verificou-se uma grande imigração de trânsfugas… elas distinguiam-se pela sua ‘toilette’. As negras da Bahia reconhecem-se facilmente pelos seus turbantes e ela largura dos seus lenços de seda; quanto ao demais do vestuário, ele é composto por uma blusa de musselina bordada, sobre a qual elas colocam uma baeta bordada cujas riscas caracterizam o fabrico da Bahia. O valor da blusa e a quantidade das jóias em ouro são os principais objetos da sua coqueteria” .DEBRET Jean-Baptiste. Voyage pittoresque au Brésil, Paris, 1834, Vol. II, p. 223.

[11] – VIANNA, Hildegardes. A Bahia já foi assim, 2a ed. São Paulo, GDR / Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1979, p. 146, citado por Tânia Gandon, op. cit. p. 66.

[12] – AULER Guilherme. « A Redentora e o Recife », Arquivos 21, 47 e 84, Secretaria de Educação e Cultura, Recife, 1925-1965, citado por Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do folclore brasileiro, Rio de Janeiro, Ediouro, 1972, p. 126.

[13]O que é que a baiana tem ? Canção de Dorival Caymmi, gravada pelo autor em parceria com Carmen Miranda, disco Odeon 11.710a, em 1939.

[14] – Cid Teixeira concedeu-me uma entrevista, que foi devidamente registrada em fita cassete, no dia 7 de agosto de 1996 em seu escritório no bairro da Pituba em Salvador, entre 9h e 13.30h.

[15] – A preta do acarajé – Música e letra de Dorival Caymmi, disco Odeon n° 11710b, gravada em 1939 e cantada pelo autor e por Carmen Miranda. “Dez horas da noite / Na rua deserta / A preta mercando / Parece um lamento… (Iê abará) Na sua gamela / Tem molho cheiroso, Pimenta-da-costa / Tem acarajé – Todo mundo gosta de acarajé / O trabalho que dá pra fazer é que é / Todo mundo gosta de acarajé – Todo mundo gosta de abará / Ninguém quer saber o trabalho que dá / Todo mundo gosta de abará / Todo mundo gosta de acarajé… Dez horas da noite / Na rua deserta / Quanto mais distante / Mais triste o lamento (Iê abará)”

[16] – CAYMMI Dorival. Cancioneiro da Bahia, prefácio de Jorge Amado, 5a ed., Rio de Janeiro, Record, 1978, p. 160.

[17] – O pregão das vendedoras ambulantes das ruas da Bahia era cantado em iorubá; “ô acará jê ecô”, que significa “vem comer acará”; à palavra acará acabou sendo incorporado o verbo “jê” – comer – resultando hoje em acarajé. Esclarecimento de Cid Teixeira em entrevista concedida à autora em 07/08/96.

[18] – AZEVEDO, Thales. As elites de cor numa cidade brasileira : um estudo de ascensão social & classes sociais e grupos de prestígio, apresentação e prefácio de Maria de Azevedo Brandão, 2a ed., Salvador, EDUFBA – EGBA, 1996, p. 37; título original da 1a edição, Les élites de couleur dans une ville brésilienne, Paris, UNESCO, 1953.

[19] BUARQUE DE HOLANDA, Aurélio. Dicionáriio da Língua Portuguesa, Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1979, p. 254. Verbete: iaiá -  (ià-iá)[De sinhá.] – S. f. Bras. Fam. 1. Tratamento dado às meninas e às moças, de largo uso no tempo da escravidão e hoje quase abolido; nhanhá, nhanhã, nanã.

[20] – Repertoriei cerca de oitenta canções onde são encontradas as palavras iaiá e ioiô.

[21]O coco de Iaiá, composição de Américo Jacomino, cantada por Pilé, disco n° 10.015a, Odeon, 1927.

[22] – “Que iaiá formosa / teu ioiô eu hei de ser… Com sandália cor de ouro / Saia cheia de babado / Oh baiana és um tesouro, quando dança o requebrado”… Iaiá formosa, samba de A de Souza Rego, cantada par Silvio Pinto, disco Colúmbia, N° 22.260, 1934.

[23] – “Iaiá baianinha, pimenta de cheiro,/ Cheirando a leite de coco, arruda e manjericão / Machuca, machuca meu coração / Sacode mulata a saia engomada”… Iaiá baianinha – Humberto Porto, cantada pelo Trio de Ouro ; disco Odeon n° 11.611a, 1938.

[24] – “-Pimenta de cheiro, com vatapá!/ -Pra quem iaiá?/ -Pra você ioiô”… Iaiá, Ioiô e a cuíca –Fausto Vasconcelos e F. Martins, cantada em dupla por J. B. de Carvalho e Nena. Robledo, disco Odeon n° 11.882a, gravado em 1940.

[25] – “Iaiá da Bahia chegou/ Batuque não pode parar/ Levanta a poeira do chão/ Bate surdo o pandeiro e o ganzá“…Iaiá da Bahia. Ary Barroso, cantada por Deo, disco Sinter n° 00000080a, 1951.

[26] – « No cais dourado da velha Bahia/ Onde estava o capoeira/ a Iaiá também se via / Juntos na feira ou na romaria, no banho de cachoeira e também na pescaria/ dançavam juntos em todo fandango e festinha »…Iaiá do Cais Dourado, samba-enredo de Martinho da Vila e Rodolfo de Souza, apresentado pela Escola de Samba Vila Isabel no  carnaval de 1969, gravado pelo selo Arabela BMG, disco n° 60034335, 1972.

[27] – O samba exaltação que ocupa um lugar de destaque na música popular dos anos 30-40, canta o Brasil e sua natureza, sua riqueza, suas mulheres e tradições, focalizando na Bahia através da imagem de Carmen Miranda e com a ajuda dos baianos, uma série de valores ideológicos que são sistematicamente exploradas para a propaganda do Brasil no exterior, sendo inclusive, incentivados pelo DIP, enquanto o Brasil escuta ao pé do rádio, as proezas do Brasil mulato e da baiana de saia rendada. A este respeito, consultar: Música – O nacional e o popular na cultura brasileira, Enio Squeff e José Miguel Wisnik, São Paulo, Brasiliense, 1982; Afonso Romano de Santana, Música popular e moderna poesia brasileira, Petrópolis, Vozes, 1986.

[28] – Sobre as práticas e preceitos religiosos das “baianas de acarajé”, ver LODY, Raul. Santo também come, 2a ed. Rio de Janeiro, Editora Pallas, 1998. (Prefácio de Gilberto Freyre para a 1a edição (1978) e de Maria Stella de Azevedo (Mãe Stella, do Axé Opô Afonjá), para a 2a ed.

A Baiana do Acarajé: imagens do real e do ideal

 

 Parte III (Final)

A “baiana” no cenário da cidade

 

Em Bahia, imagens da Terra e do povo,[1] coletânea de crônicas publicadas originalmente na revista O Cruzeiro, Odorico Tavares, no capítulo dedicado à cozinha baiana, lamenta a escassez de bons restaurantes na cidade no início dos anos 50, elogia a cozinha das casas tradicionais e aconselha ao visitante que, não podendo usufruir de uma refeição em uma residência local de cozinha afamada, a procurar os restaurantes no Mercado Modelo, advertindo ainda: se o viajante “não é muito exigente e está entusiasmado pelo pitoresco, em muito pé de escada, nas Laranjeiras e no Pelourinho, encontrará quem faça uma moqueca bem feita”. Elogia as “baianas” Odília, “que vende a melhor cocada preta da Bahia” e Vitorina, instalada em frente ao bar “Anjo Azul”, no Cabeça, cujo acarajé “é o que há de melhor”. Pela descrição de Odorico Tavares presume-se que o número de baianas era expressivo e que as mesmas podiam ser encontradas facilmente em vários pontos da cidade: “Também em frente ao Elevador Lacerda , nas feiras populares, há quituteiras que fazem ótimos acarajés… No terreiro de Jesus, à tarde ou à noite, também se encontram ‘baianas’ sentadas à beira dos passeios, com suas vestimentas próprias, sua higiene impecável, preparado seus quitutes para boêmios, para transeuntes, altas horas da noite”[2].

Foto:   Everaldo Luis

Se a economia baiana havia atingido no início da década de 50 o máximo da letargia na qual mergulhara há quase 100 anos, a criação da Petrobrás representou o marco de uma nova era.

A “vocação turística” da cidade passou a ser explorada pela administração estadual e municipal, a implantação do Centro Industrial de Aratu alimentou os sonhos de modernidade de grande parte da população que via na chegada do progresso, a saída para as suas dificuldades e do ponto de vista cultural, o Reitor da Universidade Federal da Bahia, Edgard Santos, vai representar o grande passo para a realização de projetos extraordinários na área cultural.

O surto de transformação da economia estadual então deflagrado, como não poderia deixar de ser, e que se estendeu até as décadas de 60 e 70 com a implantação do Centro Industrial de Aratu, alcançou a cidade e sua Região Metropolitana, marcando-as profundamente.

Nessa época, opulência e pobreza, subdesenvolvimento e modernidade, exibiam-se insolentemente. Definitivamente, Salvador mudava de aspecto a partir da aventura industrial e da implantação dos projetos de modernização. Grandes cadeias de lojas passaram a dominar o setor comercial, que também deslocou-se do Centro Histórico para a região da Pituba e para as novas avenidas. Os shoppings centers recém instalados conquistaram a população que podia fazer compras sem se expor às dificuldades comuns do antigo centro da cidade. Tudo mudou, a cidade transformou-se e o setor turístico também recebeu um impacto muito grande à partir de então. Segundo Scheinowitiz,[3] a cidade antiga com estruturas arcaicas, a primeira cidade fundada na Terra de Santa Cruz, a Salvador das ruas estreitas e sinuosas, a cidade da poesia e do langor, a sonhadora e a mística, entra de vez no ritmo célere da modernização e um exército de operários fura os morros, cava túneis e constrói viadutos.

Em oposição à esse surto de modernização a sociedade brasileira, segundo Prandi[4] participará ativamente de um projeto de recuperação das origens que remete diretamente à Bahia. Valoriza-se a cultura negra, sobretudo a cultura negro-baiana e essa mudança de rumos seria determinada pelas classes médias, ou seja, pela intelectualidade brasileira de maior legitimidade dos anos 60. Além disso, da modernidade da Bossa Nova à Tropicália, os baianos lideram os movimentos renovatórios da música popular brasileira. A Bahia ganha espaço na mídia, fala-se do Cinema Novo e da literatura de Jorge Amado; as ialorixás são homenageadas por artistas em evidência no cenário artístico nacional. E as “baianas”? Que espaço elas ocupam no cenário “novo” da cidade?

Até 1975, as notícias que evocam a “baiana de acarajé” fazem referência, principalmente, à sua participação no cortejo da lavagem do Bonfim, aspergindo com água perfumada as cabeças dos políticos em voga. Em 1975, no entanto, publica-se matéria com o seguinte título: Baiana do acarajé será cadastrada pela prefeitura.[5] O texto inclui declarações de Waldeloir Rego, diretor do Departamento do Folclore, Festas Populares e Esportes da Prefeitura Municipal do Salvador, entidade fundada em 1973, justificando a medida como necessária para a preservação dos valores culturais, além de garantir um produto de qualidade, pois algumas baianas inescrupulosas estavam adulterando a massa do acarajé, acrescentando à mesma, farinha de mandioca e de milho, o que alterava o sabor e a consistência dessa iguaria.

Em julho de 1977[6], aparecem números oficiais da prefeitura de Salvador, mais precisamente do Departamento do Folclore, Festas Populares e Esportes da Prefeitura Municipal do Salvador, informando que cerca de quinhentas “baianas” estavam cadastradas nesse organismo[7] e que as inscrições isentavam as interessadas do pagamento de taxas, “exigindo-se apenas que a cadastrada vista-se de acordo com a tradição e que mantenha rigoroso asseio pessoal, como também dos seus objetos de trabalho.” O mesmo jornal, em reportagem do mês de setembro do mesmo ano, publica nova matéria sobre o tema cujo título, Prefeitura não exigirá das “baianas” o traje típico,[8] deixa claro que houve reação das “baianas” com relação às medidas impostas pelo órgão público. A declaração é da senhora Sônia Garrido, diretora da Divisão de Folclore, fato que demonstra que a entidade responsável pela medida não era mais a mesma e que a sua direção havia mudado. Informa-se também que há cerca de seiscentas baianas cadastradas e que metade delas vendem iguarias em cumprimento à obrigação do candomblé apresentado-se devidamente trajadas com a indumentária tradicional, em obediência aos preceitos da crença.

A partir de 1978 a Federação do Culto Afro-Brasileiro assume a responsabilidade do cadastramento e fiscalização das “baianas.” Porém, no início do mesmo ano, a reportagem tendo como título Baianas condenam discriminação religiosa na vendagem de comidas típicas,[9] denuncia a pretensão da entidade de afastar as vendedoras que não fossem filiadas ao candomblé e vinculadas a um terreiro. Houve protestos da maioria das vendedoras de comidas típicas que, indignadas, justificavam: “quem trabalha com tabuleiro é porque precisa de uma ocupação para garantir o seu sustento e da sua família, independente da seita ou religião a que pertença.” Mesmo as baianas vinculadas ao candomblé se mostraram descontentes com a entidade por considerá-la injusta, discriminando as “baianas” não adeptas do candomblé, num desrespeito à liberdade religiosa garantida por lei. Os objetivos da entidade não foram adiante e até novembro de 1998 ela foi a responsável pelo cadastramento, fiscalização e concessão de “pontos” para as “baianas de acarajé” de Salvador.

Em 1982 é criado o “Dia da Baiana,”[10] promoção da Bahiatursa, órgão oficial de turismo do estado, tendo sido escolhido o dia 25 de novembro para os festejos e homenagens. As comemorações do dia da baiana repetem-se a cada ano, com missa festiva na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no Pelourinho, café da manhã, apresentações de sambas de roda, cânticos, sorteios e distribuição de prêmios entre as participantes. Segundo as reportagens dos jornais locais,[11] esta festa conta com a participação de baianas idosas e jovens, algumas com mais de cinqüenta aos de profissão, todas elas vestidas à rigor, exibindo suas mais belas indumentárias. Além disso são muitos os testemunhos destas mulheres que não poupam comentários sobre as dificuldades os prazeres nas duras jornadas de trabalho que começa, em geral, nas primeiras horas do dia, quando a maior parte da população ativa ainda dorme.

O título da matéria que anuncia a criação do “dia da baiana”, não necessita de explicações para que se possa entender as razões que motivaram a Bahiatursa a criar essa data festiva homenageado as trabalhadoras urbanas mais famosas da Bahia. No texto, a explicação é clara: “Com o objetivo de valorizar e estimular a figura da baiana típica, que através do seu trabalho difunde a culinária, a cultura e os costumes dos baianos, a Bahiatursa instituiu o dia 25 de novembro como o ‘Dia da Baiana do Acarajé’, quando será desenvolvida uma intensa programação nos principais centros emissores do fluxo turístico para o estado da Bahia.” A programação em questão visava atrair turistas de outras cidades brasileiras, principalmente Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Brasília e Recife. “O vôo da Baiana” deu início à programação e sete baianas típicas embarcavam em companhias aéreas com destinação prevista para as capitais mencionadas acima, distribuindo entre os passageiros fitas do Senhor do Bonfim, programas anunciando os eventos festivos do verão baiano. Durante o vôo os passageiros escutavam canções cujos temas versavam sobre a própria baiana e na cidade de destino elas eram recebidas por uma personagem típica local. À noite era oferecido um coquetel à imprensa, às autoridades, aos diretores de agências de turismo e viagens, onde saboreava-se acarajés e batida de limão, havendo distribuição de brindes e folhetos promocionais. Esta programação foi repetida durante alguns anos, na mesma época, garantindo o sucesso das programações turísticas idealizadas pela Bahiatursa. No aeroporto de Salvador, nas saídas dos desembarques nacionais e internacionais, “baianas” distribuíam fitinhas do Bonfim aos passageiros, enquanto conjuntos de samba batucavam alegremente, despertado a curiosidade dos viajantes que desembarcavam na cidade, mesmo em plena madrugada.

Muitas coisas mudaram nestes últimos anos. Convidar “baianas” para servir iguarias nas festas refinadas e oficiais, tornou-se comun. Os jornais do Sul publicam reportagens sobre as “baianas.”[12] Até uma delicatessen[13] de Salvador, especializada em produtos finos, adotou o acarajé como chamariz para a clientela, vendendo em média cerca de seiscentos acarajés por tarde, que são confeccionados pelo setor de produção e não pela “baiana” que serve o petisco, como acontece habitualmente. Os acarajés são expostos em tabuleiros elétricos, permanecem quentes pois são conservados em banho-maria e cada compartimento apresenta uma iguaria diferente “sem aquela miscelânea que se pode observar nos tabuleiros tradicionais”. A “baiana”, é jovem, meiga e bonita tendo sido escolhida pela gerência do estabelecimento comercial para exercer a função. Uma experiência que deu certo, segundo os idealizadores.

Enquanto isso, algumas “baianas de acarajé”, como Cira[14] e Dinha,[15] estabelecidas respectivamente no Rio Vermelho e em Itapuã, chegam a comercializar mil acarajés por dia, durante a semana e mil e quinhentos acarajés diários nos fins de semana. Cira por exemplo tem uma rede de distribuição em vários pontos da cidade. As garçonetes fardadas servem os petiscos mediante fichas vendidas num caixa especial. Dinha, em contrapartida, tem um celular para atender os pedidos dos “clientes vips” e transporta o seu material de trabalho em carro de sua propriedade e é convidada com frequência para participar de eventos no sul do país.

Cursos de higiene alimentar (o primeiro realizado em 11 de abril 1992),[16] são oferecidos a cada ano. Surgiram associações, entre elas a ABA – Associação das Baianas de Acarajé, fundada em 1992,[17] contando com mil e duzentas associadas em 1998, entre as quatro mil vendedoras de comidas típicas trabalhando na região metropolitana do Salvador.

Já é possível comprar acarajés a quilo e sob encomenda e muitas baianas, que modernizaram, inclusive, o tabuleiro, aceitam vales de transportes como pagamento e oferecem um refrigerante gratuito na compra de um acarajé.[18] Em contrapartida, pode-se ler reportagens com título provocador – “’Baianas empresárias’ esquecem tradição.”[19]

Finalmente, a briga entre Dinha e Regina pela disputa da clientela no Largo de Santana no Rio Vermelho ocupou a primeira página da imprensa local[20] sendo notícia até no Jornal Nacional da Globo. Em razão dessa disputa a prefeitura, através da Secretaria de Serviços Públicos – SESP, chamou para si a responsabilidade pelas baianas. Em 25 de novembro de 1998, foi assinado pelo prefeito de Salvador, Antônio Imbassahy, decreto regulamentando, pela primeira vez na história do município, o uso e a ocupação do solo.[21] As “baianas” terão um prazo de um ano para adotar as novas normas. Foi criada uma taxa destinada ao licenciamento para a exploração do comércio de iguarias, devendo a mesma ser renovada anualmente, haverá padronização do equipamento e obrigatoriedade do uso do traje típico.

Foto: Lucila Moreira

OBSERVAÇÕES FINAIS

Apesar do romantismo que envolve a “baiana,” – não só pelo carisma dessa personagem que conquistou a simpatia de baianos e brasileiros e que soube preservar ao longo dos tempos traços marcantes da cultura da Bahia, no mundo moderno e com a “globalizaçao” invadindo os mais recônditos rincões do planeta, a sua imagem poderia ser interpretada como irreal e ultrapassada. Essa baiana nostálgica lembra a Salvador do passado, escondendo mistérios nas ruelas estreitas.

A cidade e a baiana mudaram de fisionomia e de hábitos, modernizaram-se. As ladeiras do Pelourinho também já não escondem mistérios e segredos, estão iluminadas e policiadas. A “baiana” idealizada, a mulher-desejo percebida através dos cheiros, pelo paladar, pela sedução e da dança rica de meneios e requebros já não encanta tanto. Mas baianas como a Odilia e a Vitorina da época de Odorico Tavares existem ainda. A “baiana” personificada por Verger, capaz de enfrentar desafios e de transpor obstáculos pode ser encarnada pela maioria das “baianas”, sejam elas modestas, ou empresarias promissoras, sobretudo a mulher trabalhadora que enfrenta a rua carregando tabuleiro, fogareiro e a matéria prima para a confecção dos pratos, ferramentas do seu trabalho quotidiano, necessárias às solicitações mais elementares da família.

A “baiana de acarajé” das ruas da cidade do Salvador tornou-se personagem pública, real e imaginária, uma mulher trabalhadora e uma escultura simbólica feita de versos rimados e de lembranças saudosas, sobre um fundo permanente de precariedade social e econômica.

 

Artigo Publicado:

DAVID Maria Lenilda Carneiro S. A Baiana do acarajé : imagens do real e do ideal, Revista da Biblioteca Mário de Andrade, v. 57, São Paulo, jan./dez., 1999, p. 147-155.

 


[1] – TAVARES Odorico, Bahia, Imagens da terra e do povo, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1951, p. 131- 140.

[2] TAVARES Odorico, Bahia, imagens da terra e do povo, op. cit. p. 137.

[3] – Scheinowitiz, A.S., O macroplanejamento da aglomeração de Salvador, Salvador, Secretaria da Cultura e Turismo, EGBA, 1998.

[4] – PRANDI, Reginaldo. As religiões negras do Brasil, in Dossiê povo negro – 300 anos, Revista da USP , Coordenadoria de Comunicação social, Universidade de São Paulo, N° 1 (mar./mai. 1989, p. 74.

[5] – Jornal A Tarde, 16/07/1975 “Baiana do acarajé será cadastrada pela prefeitura. »

[6] – Jornal A Tarde, 8/07/1977, « O que é que a « baiana » tem ?, texto de Marcos Luedy..

[7] – Lista dos principais « pontos », com o número de « baianas » em suas zonas específicas : Avenida Sete de Setembro, 15 ; Amaralina : 14 ; Nazaré : 18 ; Baixa dos sapateiros : 17 ; Barroquinha : 27 ; Brotas : 16 ; Comércio :81 ; Estação Rodoviária :12 ; Itapuã : 84 ; Praça da Sé : 17 ; Terreiro de Jesus : 11 ; Vila Olímpica : 10

[8] – Jornal A Tarde, 05/09/77.

[9] – Jornal A Tarde, 31/07/1998.

[10] – Dia da « baiana do acarajé » para estimular o turismo », Jornal A Tarde, 21/11/1982.

[11] – “Baiana” tem paz de espírito e esperança, Jornal A Tarde, 26/11/83; Cidade homenageia baianas do acarajé com muito samba, Correio da Bahia, 24/11/85 ; Dia de festa para asbaianas”, A Tarde, 25/11/89; Percussão afro dá ritmo à missa no dia da baiana, Correio da Bahia, 26/11/1992; Profissão de féBaianas de acarajé fazem festa no Pelourinho, Correio da Bahia, 2/11/97; Hoje é dia da « baiana do acarajé » festejar, Jornal A Tarde, 25/11/97; Missa para homenagear as baianas revela sincretismo, A Tarde, 26/11/98;

[12] – Raimunda quer vender acarajé na praça – Acervo do Norte. Diário da Noite, São Paulo, 29/08/70; Baiana: em cada banca um mistério, Raul Lody, Jornal Última Hora, Rio de Janeiro, 10/05/80; Algumas das « baianas » mais conhecidas de Salvador, O Globo, 30/05/91.

[13] Delicatessen invadida por baiana de acarajé, Jornal A Tarde, 04/02/96.

[14] – Cira dá mais o que falar na briga entre as baianas., A Tarde, 17/11/98.

[15] – Imperatriz do acarajé – Grife do dendê, Correio da Bahia, 29/03/96.

[16] – « Baianas concluem curso sobre noções de higiene » Jornal A Tarde, 11/04/92. Das 2.067 baianas cadastradas pela Federação do Culto Afro Brasileiro, 538 baianas inscreveram-se no curso oferecido pela Secretaria de Saúde da Prefeitura do Salvador.

[17] – Entidade quer organizar « baianas” Jornal A Tarde, 16/10/98.

[18] – Baiana de acarajé inova para vencer concorrência, Jornal A Tarde, 13/11/96.

[19] – Reportagem publicada no Jornal A Tarde em 27/09/97, denunciando o marketing e as novas técnicas de comércio como responsáveis pela descaracterização da « baiana do tabuleiro » tradicional.

[20] – « Guerra do acarajé » na disputa de ponto no Largo de Santana, A Tarde, 16/10/98 ; Baiana vai à justiça para ficar no Largo de Santana, A Tarde, 21/10/98 ; Regina mantém –tabuleiro próximo ao de Dinha no Largo de Santana, A Tarde, 22/10/98 ; Novela das baianas pode render novos capítulos, A Tarde, 24/10/98; Guerra das baianas esquenta, Correio da Bahia, 24/10/98.

[21] – Decreto acaba com a guerra do acarajé em Salvador, A Tarde, 25/11/98.

Autorizada Ordem de Serviço para restauração da Igreja Senhor dos Passos

  

No dia 12 de agosto, o secretário de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia, Dr. Cícero Monteiro, na presença do Arcebispo Metropolitano Dom Itamar Vian, de autoridades e da imprensa local, assinou a Autorização para Ordem de Serviço para realização da primeira etapa da obra emergencial de recuperação da Igreja Senhor dos Passos.

Segundo o Engenheiro José Mendes Araújo, esta primeira etapa terá duração aproximada de quatro meses, devendo estar concluída até o final de dezembro, momento em que deverá receber recursos para o início da segunda etapa.

Esta primeira etapa de trabalhos refere-se precisamente à recuperação da torre principal, telhado e pináculos. Já na segunda etapa, objetiva-se recuperar  o revestimente externo para preservar as características do templo, visto que trata-se de patrimônio tombado.

Durante o período da reforma, os compromissos litúrgicos, catequéticos e pastorais serão celebrados na Igreja Nossa Senhora dos Remédios e na Capela Nossa Senhora da Piedade.

Comento: Trata-se de uma iniciativa louvável, pois a Igreja Senhor dos Passos, um dos monumentos mais importantes da nossa cidade, sofria desgastes visíveis provocados pela ação do tempo.

 

Grafiteiro baiano expõe na Suécia

 

O grafiteiro Fábio Rocha, mais conhecido como Limpo, participou da exposição Tankar Pa Drift (Pensamento Distante), em Malmö, na Suécia. Fábio, que desenha desde criança, trabalha com spray há 10 anos, foi convidado para participar do Uppsala Reggae Festival, na Suécia, por um dos organizadores que esteve em Salvador e gostou do seu trabalho. Ele passou três dias pintando durante a festa e seu estilo agradou aos suecos. Segundo Fábio “Na Suécia a graffiti é muita letra, então o meu traço era muito diferente e chamou atenção”.

De Uppsala, ele viajou para Estocolmo, capital do país, convidado para fazer pinturas em locais fechados e participar do Festival Kutunar. Em seguida ele seguiu para Malmö, onde seu trabalho ficou exposto de 18 a 28 de outubro de 2009, na Galleri Panora,

Fábio, que em Salvador se envolve com projetos sociais, deu uma oficina em uma escola para refugiados de guerra e imigrantes, em Malmö, a Nianya Skula. “Para eles era muito diferente, eles não fazem o graffiti com essa linguagem plástica”.

Fábio passou três meses na Suécia. Segundo ele a experiência foi “muito interessante, pois, quando você se afasta, você vê melhor a situação. Salvador tem muita liberdade. Lá, eles reservam um muro para pintar e você não pode ultrapassar isso, fica um policial fotografando e tudo. Assim que cheguei aqui fui pintar”.

 

Ele também expõe em galerias em Salvador e hoje em dia já consegue se sustentar com seu trabalho. Fábio é a favor de levar o graffiti para o espaço sacralizado da arte, o museu. “Para mim, é uma extensão do trabalho de rua. “Se eu entro na galeria, busco levar elementos da rua, para não perder a essência. Sempre levo algo, por exemplo materiais recicláveis. Foi algo inédito lá, mas me deram muita liberdade”.

Apesar de priorizar as ruas, Fábio pretende expandir seu trabalho e produzir  estampas em roupas e sapatos. “O graffiti não está limitado, ele pode ir em vários tipos de suporte, ele é  linguagem”.

Fonte: Correio da Bahia 

Hiroshima

 

Na madrugada do dia 6 de Agosto de 1945 o bombardeiro B-29, Enola Gay, decolou da base aérea de Tinian no Pacífico Ocidental e às 8h15h  da manhã, lançou a (primeira) bomba atômica, sobre a cidade de Hiroshima. O Coronel Paul W. Tibbets, de 31 anos, foi o piloto do avião que lançou a primeira bomba atômica da história sobre a cidade de Hiroshima

Ela explodiu a cerca de 600 metros do solo e mais de 70 mil pessoas morreram em consequência da explosão. Três dias depois, os americanos atiraram outra bomba em Nagasaki, matando algo entre 60 mil e 90 mil pessoas. Dezenas de milhares de pessoas  morreram nos anos seguintes, em consequência da ação mortal da radiação deixada pela explosão.

 Em 1975, trinta anos depois do ataque à cidade japonesa, Vinícius de Moraes e João Ricardo compuseram A Rosa de Hiroshima.

Hera uma vez, em Paris

 Foto: Simone Carneiro

Leni David

 

Uma foto antiga, um fragmento de uma canção qualquer, palavras rabiscadas à margem de um livro têm a força de nos transportar para outras épocas, para outros lugares, além de despertar momentos que ficariam para sempre na penumbra do inconsciente. Quantas vezes momentos únicos foram revividos graças aos guardados engavetados, por acaso, ou por querer? Quantas vezes tivemos o privilégio de (re)visitar o passado graças a um minúsculo flagrante recuperado pela audição, pelo olfato ou pela visão? Os sentidos são antenas que captam fragmentos da realidade e têm o poder de nos conduzir pelos labirintos da memória e de avivar em cores definidas, a imagem de um lugar, de um tempo adormecido, de coisas e pessoas que povoaram a nossa trajetória.

Folheando uma antiga revista Hera, (re)visitei um tempo de vôos destemidos, de esperas e expectativas, tempo em que uma jovem interiorana, tímida e ingênua, enfrentaria as armadilhas da cidade com suas luzes e mistérios. Tempo de juventude e de destemor, de angústias e aprendizados, mas, sobretudo, de buscas. A Hera viajou na bagagem, no início dos anos 80, rumo a Paris, cidade sempre pintada com as cores do arco-íris, cores de sonho e fantasia. Aqui, era tempo de ditadura e, muitas vezes, as vontades de dizer e de querer eram sufocadas; na França, Miterrand assumia o poder sob o signo da rosa vermelha. L’important c’est la rose….

Havia o desejo de voar alto, de ajudar a construir um mundo novo e justo, pleno de liberdade. As canções que escondiam mensagens nas entrelinhas, os Josés de Drummond, os Severinos de Melo Neto e os caracóis dos cabelos de Caetano ajudavam a alimentar as utopias. Os versos de Vinícius enchiam corações de amor e os outros poetas, consagrados ou não, brotavam do papel e saiam das bocas para traduzir a vida. E a Hera fazia parte do cotidiano dessa geração por traduzir sentimentos próximos da realidade. Os poetas da Hera eram visíveis, andavam pelas ruas, davam aulas, jogavam bola, trabalhavam em bancos, arquitetavam casas, faziam arte com palavras e pincéis e faziam parte da cidade; eles cantavam os anseios de uma geração através de palavras doces, às vezes brutas, às vezes afiadas como navalhas. A Hera cabia no bolso e no coração.

Os anos passaram e um dia – quase vinte anos depois – a Hera voltou ao seu lugar de origem – a Bahia – numa nova bagagem. Era tempo de recomeço, tempo de construção, tempo de assentar a poeira e fincar raízes na Terra. Os objetos, os livros, saíam das caixas para preencher novos espaços. Entre eles, a Hera n° 10 com a sua capa azul e branca amarrotada pelo tempo; entre as páginas, anotações feitas a lápis e uma data: “Paris, tarde de domingo, 1983”; e a tradução de dois poemas de Roberval Pereyr.

O tempo havia esmaecido as lembranças e a (re)leitura dos poemas trouxe de volta uma sala, uma poltrona, um endereço: 41, rue Brancion. Fazia frio e na rua, a cor cinzenta dos prédios emoldurados pela janela confundia-se com as nuvens escuras. Acho que era janeiro. Chumbo na paisagem, chumbo no coração daquela que olhava, triste, os galhos desfolhados das árvores da calçada, que se exibiam num movimento lento e compassado com seus galhos enegrecidos como garras de monstros.

O rádio tocava baixinho um noturno de Chopin. O som da melodia entorpecia desejos e impregnava a sala com suas notas; a tarde era triste e a minha alma era de chumbo como o dia lá fora. Os poemas que lia naquela tarde de inverno, talvez escritos numa noite de “tropical melancolia”, tinham o poder de traduzir-me, de revelar-me como imagem refletida em água cristalina. Era o encontro entre a professorinha interiorana de alma escancarada e a cidadã cosmopolita, com seus medos e angústias. Era a constatação de que a cidade dos sonhos – Paris – nem sempre era sinônimo de paraíso, como todos acreditavam. Os versos do poeta foram transportados para a língua de Voltaire:

Canção

“Habito a mansão dos tristes, dos inconciliáveis”

T. S. Rausto

 

 “Não tenho muitas vontades:

contemplo a brisa;

às vezes me dói (à tarde) a vida).

 

São poucos meus companheiros,

eles estão perdidos –

e eu perdido com eles. Comigo.

 

São poucos e nunca os tive

nem os conheci –

apenas nos reunimos: para existir.”

 

Chanson

“J’habite la demeure des tristes, des inconciliables”

              T. S. Rausto

Je n’ai pas beaucoup d’envies :

je contemple la brise ;

parfois elle me fait du mal (l’après-midi) la vie.

 

Mes compagnons ne sont pas nombreux,

ils sont perdus –

et moi, perdu avec eux. Avec moi.

 

Ils sont peu nombreux et jamais je ne les ai eu

je ne les ai même pas connus –

à peine nous nous rassemblons : pour exister.

 Foto: Leni David (1999)

A mão perversa da solidão apertava a garganta, calava a voz. A cidade estava ali, oferecida, com seus brilhos de lantejoulas. Mas a consciência e a impotência grotesca empurravam para o refúgio melancólico do apartamento, onde havia ausências: um mausoléu encravado no estômago da urbe. E os companheiros, onde estavam? Refestelavam-se ao sol? Os poucos companheiros talvez não estivessem como eu, perdida em mim mesma.

Naquele tempo, Canção revelou verdades a um ser ingênuo, compadecido de si, vítima do vazio. O segundo poema, no entanto, revelou dúvidas, talvez nunca antes decifradas:

 

Rigor 3

Sou infeliz e quero conhecer-me:

quero saber quem sou por estes dias

tão cheios de terror, quero saber-me.

 

Quero morrer de novo e renascer-me

e quero estar transido de agonias

e conhecer-me, quero conhecer-me.

 

este é o meu grito e, nele, quero ver-me

e comover-me em cantos, calmarias:

hei de saber-me, ah, hei de saber-me.

 

 

      Rigueur 3

Je suis malheureux et je veux me connaître :

je veux savoir qui je suis dans ces jours

si pleins de terreur, je veux me connaître.

 

Je veux mourir à nouveau et renaître

et je veux être transi d’agonies

et me connaître, je veux me connaître.

 

Ceci est mon cri et, en lui, je veux me voir

et je veux m’émouvoir dans les chants, dans les accalmies :

il faut que je me sache, ah ,  il faut que je me connaisse.

 

A criatura daquele instante iniciou sua caminhada naquela tarde de chumbo, como se morresse ao entardecer e renascesse a cada manhã; os versos do poeta se tornaram seus; os dias de chumbo perderam a sua força e o brilho da cidade não incomodava mais. A coragem reforçou-se fermentada pelo medo. O tempo passou…

Nesse instante entrego de volta, Poeta,  – agradecida, os seus versos que roubei um dia e que ajudaram a afrontar verdades; a trilhar os caminhos da cidade, a contemplar a luz sem ofuscar os olhos, malgré tout. Paris, com suas cores, luzes e mistérios, deixou marcas indeléveis na memória e uma profunda saudade.

       Feira de Santana, Bahia; março de 2005.

Obs. Os poemas Rigor 3 e Canção são da autoria do poeta Roberval Pereyr e foram extraídos da Revista Hera, n° 10, Edições Cordel, 1978, p. 35.

O poeta baiano Roberval Pereyr (1953-) é co-fundador da revista Hera, junto com o poeta Antonio Brasileiro; Roberval é doutor pela UNICAMP e professor de Teoria Literária na Universidade Estadual de Feira de Santana – UEFS, Bahia. Além de participar em diversas antologias, Roberval publicou vários livros, entre eles: As roupas do nu (1981); Ocidentais (1987); O Súbito Cenário (1996); Concerto de Ilhas (1997); Saguão de Mitos (1998); Pequenos Assombros e A unidade Primordial da Lírica Moderna (2000). Acordes (2010). Amálgama – Nas Praias do Avesso e poesia Anterior (2004).

Em sua obra o poeta nomear e avaliar os sentidos do seu percurso e da saga humana, através da linguagem e dos gestos, como se alertando a si mesmo e ao leitor de que tudo resulta da experiência e da cultura.

Observação. A crônica ”Hera era uma vez, em Paris” foi publicada originalmente na Tribuna Cultural, Ano III, n° 144, em 03 de julho de 2005, quando se comemorava o Ano França – Brasil.

Foto: Leni David

 

As novenas da Igreja dos Remédios

 As cantoras do coro

 Leni David

Eu devia ter uns doze anos quando comecei a participar do coro da igreja dos Remédios, junto com outras meninas, vizinhas da mesma rua. Ajudávamos a cantar as trezenas de Santo Antônio, que aconteciam de primeiro a treze de junho, e as novenas de Nossa Senhora do Rosário, no mês de outubro. Participar do coro da Igreja era um privilégio, segundo as cantoras oficiais, que recebiam, inclusive, um pagamento simbólico concedido pelo Padre Aderbal. As cantoras, elas nos permitiam subir até o coro para responder a ladainha que era entoada durante as celebrações, mas não podíamos conversar, sorrir, ou tocar em qualquer objeto que estivesse exposto. Não nos importávamos com isso. O importante era responder o ora pronobis na hora certa e com a voz bem afinada.

Dona Yolanda, esposa de um médico conceituado da cidade, cantava, mas a sua principal função era tocar o órgão. Como eu achava bonito aquele som! Dona Meranta e Dona Pombina as catequistas – elas ensinaram o catecismo à maioria das meninas da cidade daquela época, mas nas novenas elas se transformavam em cantoras. Dona Tita morava na nossa rua, era viúva e tinha uma voz forte e límpida, bonita. Havia outras cantoras, mas não me lembro dos nomes. A chefe, porém, era Dona Catarina, também zeladora da igreja. Ela decidia tudo: os hinos que deveriam ser entoados, se a ladainha seria em latim ou português e a que momento deveríamos entrar na cantoria. Não reclamávamos de nada e ainda ficávamos contentes quando cada uma de nós recebia duas balas de mel, uma no início “para adoçar”.a garganta, e a outra no final, como brinde.

Participávamos do coro há mais de dois anos. Assistíamos às celebrações do alto, sem ninguém à nossa frente e ainda nos divertíamos. Amávamos quando o Padre Aderbal, que era um pouco gordinho, careca e que tinha dois lindos olhos azuis, levanta os olhos e as mãos para os céus. Isso acontecia quando os sinos repicavam e o turíbulo espalhava o aroma do incenso. Ajoelhado, olhos e mãos voltados para o alto, em atitude de adoração, tínhamos a impressão de que ele iria voar. Nos controlávamos e sorríamos baixinho, de modo que ninguém percebia.

Certa vez combinamos de chegar à igreja bem cedo. Chegamos bem antes das sete. Pedimos a chave do coro ao sacristão, que também era o sineiro. Para ensaiar – explicamos. E ele, sem nenhuma atitude hostil atendeu à nossa solicitação. Subiu para tocar a primeira chamada da novena. Subimos a escada que levava ao coro. As pessoas já começavam a chegar à igreja. Ensaiávamos a ladainha quando Dona Yolanda chegou. Iara, que havia ficado como porteira, deixou que ela entrasse e ao vê-la chegar no alto da escada trancou a porta, por dentro. A primeira chamada da novena já havia sido feita, mas faltava a segunda e o sacristão não estava do lado de dentro. Iara não hesitou. Subiu os degraus que levavam à torre, de dois em dois, e tocou o sino como nunca mais ouvi tocar em toda a minha vida, durante uns cinco minutos. Festivo, barulhento, emocionante! Isso foi bom porque, nesse ínterim, as cantoras haviam chegado e batiam na porta do coro, em desesperadas, pois a novena começaria às 19h. Dona Yolanda, também, entrou em desespero:

- Quem trancou a porta? O que vocês fizeram? Abram a porta, já!

Iara que já havia repicado o sino e encoberto o barulho feito pelas cantoras, apareceu com a cara mais inocente do mundo e explicou que havia perdido a chave enquanto tocava a segunda chamada da novena. Dona Yolanda nos olhou com ar severo e resmungou:

- Quem vai cantar?

E nós, em coro, respondemos:

– Nós!

Ela sentou-se resignada diante do órgão e as notas musicais preencheram o templo. Geraldina, filha de Dona Tita e a mais velha do grupo – tinha uns quatorze anos – com o livreto da ladainha nas mãos instalou-se junto ao órgão. Dona Yolanda olhou incrédula e deu os primeiros acordes. A voz de Geraldina ecoou límpida e melodiosa e todos se voltaram para o coro, até o Padre. E o melhor é que ela cantava em latim – e o nosso coro respondia o ora pronobis na maior afinação e felicidade. Até Dona Yolanda se entusiasmou.

Entoamos outros cânticos e no encerramento da celebração eu deveria cantar o hino de Nossa Senhora do Rosário. Até hoje tenho orgulho disso! Como tudo correra bem até ali, Dona Yolanda quis saber quem iria cantar no encerramento e eu me apresentei. Ela ainda ponderou:

- Mas esse hino é muito difícil. Tem certeza que quer cantar esse mesmo?

Eu respondi que sim e ela deu os primeiros acordes. Enchi os pulmões e soltei a voz:

Volvei oh Maria o vosso olhar

Lá do vosso santuário

Atendei nossos rogos nossas preces

Oh Virgem senhora do Rosário…

 

Juro que foi lindo, tão bonito que fiquei emocionada. Quando terminou estava com os olhos marejados de lágrimas. A maior surpresa, no entanto, foi a atitude de Padre Aderbal. Antes de tirar os paramentos, dirigiu-se aos fiéis e pediu uma salva de palmas “para as jovens cantoras do coro, que haviam embelezado com as suas vozes juvenis a festa de Nossa Senhora”. Todos aplaudiram.

Foi aí que nos lembramos da chave. Onde estava a chave da porta do coro? Preocupadas pensávamos em subir até a torre para procurá-la quando Iara, com a cara mais inocente do mundo confessou:

- A chave está aqui. E puxou o elástico da manga bufante do seu vestido rosa. E justificou: se eu entregasse a chave, Dona Yolanda abriria a porta para as cantoras e nós não queríamos que elas entrassem. Elas não nos deixariam cantar.

Descemos a escadaria que conduzia ao térreo, silenciosas. Quando a porta se abriu Dona Catarina decretou: – Hoje não tem bala nenhuma. Acabou! E não voltem aqui nunca mais, ouviram? Vocês estão proibidas de subir ao coro!

Fomos embora, felizes. Fomos crianças felizes. Pena que não virei cantora…

Foto: Leni David

Muguet

                            

O muguet é uma planta originária do Japão; típica das regiões temperadas ela cresce nos bosques, em locais protegidos da luz intensa, na Ásia na Europa e nos Estados Unidos e desabrocha no início da primavera. Ele simboliza a entrada da primavera no hemisfério norte. O seu nome científico é Convallaria majalis leucanthenum.

As flores, que têm a forma de pequenos sinos, também são conhecidas como Lis de la vallée (lírio do vale) e lágrimas de Nossa Senhora (em Portugal); elas exalam um perfume delicioso e são consideradas como símbolos de felicidade e boa sorte. O Muguet é a flor símbolo da Finlândia. Na França e na Bélgica ele é oferecido aos familiares e aos amigos no dia 1 de Maio, “Dia do Trabalho”, com votos de felicidades e prosperidade, e simboliza também, na França, os 13 anos de casamento, as Bodas de muguet.

                              

Não sei se aqui no Brasil, no sul e sudeste, o muguet é cultivado. Se alguém souber e quiser dar alguma informação ficarei bastante agradecida. Ah, quando eu era menina, minhas tias e a minha mãe, usavam, nas grandes ocasiões, um perfume francês que deixava o rastro por onde elas passavam; chamava-se Muguet du Bonheur (lírio da felicidade). Nem sei se ele ainda é comercializado.

Como não tenho muguets de verdade para oferecer deixo algumas fotos e votos de felicidades e prosperidade para todos.