Edmundo Caroso

Achei que, com o Carnaval chegando (o Mardi Gras là na França), Leni tinha gostado homenagear seu grande amigo Edmundo Carôso, escritor e poeta, autor de várias músicas do Carnaval da Bahia. Então publico uma crônica que Leni escreveu para lembrar que amizade de verdade  não enfraquece nem com a distância, nem com o tempo! Denis

Edmundo Carôso

 

SOBRE UMA CARTA QUE RECEBI COM NOVE ANOS DE ATRASO.

Leni David

Tenho um amigo cujo nome é Edmundo Carôso. Conheci esse rapaz em meados dos anos 70, quando era estudante do curso de Letras. Ele estudava Economia e era aluno dedicado, segundo comentavam. Fazíamos parte de um grupo de amigos comuns que gostava de música, poesia, política e violão. Mas Edmundo abandonou a faculdade para se dedicar à música.

Naquele tempo nos reuníamos nos fins de semana para tocar, cantar, beber e comer coisas consideradas exóticas como: maniçoba, mocotó (no bar de Beto), baião-de-dois (feito por mim) e churrasco, cujo fogo até era aceso com cadeiras da sala de jantar. Embora trabalhássemos, não tínhamos muito dinheiro e, na maioria das vezes, nos cotizávamos para pagar o de comer e o de beber.

Essa convivência quase diária do nosso grupo durou cerca de cinco ou seis anos, até que Nadja foi estudar em Saragoça, onde conheceu e casou com Inigo; Edmundo foi para a Espanha algum tempo depois e quando voltou se dedicou à música e à produção cultural em Salvador. Ra Nascimento, parceiro de Edmundo em muitas composições, também trocou a cidade interiorana pela capital e se tornou músico profissional. Alguns se formaram em Direito, outros em Engenharia ou Medicina. Outros, ainda, se tornaram empresários ou pais de família. Eu, do meu lado, recebi uma bolsa do governo francês e fui fazer um estagio na França.

*****

A verdade é que mesmo com a desconstrução do grupo, visto que cada um tomou seu rumo, os encontros (quando aconteciam) e a amizade permaneceram intactos.

Há cerca de três meses encontrei Edmundo novamente, na Internet. Fiquei feliz e escrevi pra ele (sem esperança de receber resposta), pois o blog estava desativado desde o final de 2007. Além disso, havia cerca de nove anos que não nos víamos; a última vez que nos encontramos foi num jantar em sua casa, onde comemos um soberbo Bacalhau à Cravolândia preparado pelo anfitrião. Nessa época eu morava na França e de volta a Paris escrevi para Edmundo. Primeiro, para dar informações sobre Lavoisier, pois ele havia me pedido isso; em seguida, para contar o sucesso que havia sido a degustação do Bacalhau à Cravolândia com a francesada. Realizei a receita com muito esmero e foi um sucesso!

Só que nunca recebi resposta dessa carta. Há pouco tempo, porém, tive uma grande surpresa: Edmundo publicou uma tradução de “O luar de Pontevedra”, poema de sua autoria traduzido por mim e sobre o qual comentei no blog. Nesse final de semana, “vasculhando” os blogs parceiros da Abril encontrei um outro post, “Ainda a propósito de Lene”, onde ele publica uma carta que me escreveu há nove anos atrás! O susto foi ainda maior pois leio o blog de Edmundo diariamente e, por incrível que pareça, não vi essa publicação. Como passei alguns dias “desconfigurada”, peço desculpas ao meu amigo.

Ele inicia o seu texto assim:

“Eu tenho um poema antigo que diz: ninguém me escreve/ eu também/ eu não escrevo pra ninguém”.

“Mentira! Escrevo muito, centenas de cartas, só que nunca as mando.

Dentre estas existe uma que escrevi pra Leni quando ela morava em Paris (e viveu muitos anos por lá) depois de uma passagem dela lá por casa, numa de suas vindas ao Brasil e respondendo a missiva que me mandou logo ao chegar (ou terá sido um email?). Foi nessa ida lá em casa que ela me mostrou a tradução que publiquei aqui e me deu de presente alguns discos como também me fez portador de uns pra Ra Nascimento, meu parceiro e amigo de vida toda.

Portanto, para acabar de vez com essa fama injusta que me persegue, a de não remeter as cartas que escrevo, e mesmo já depois de muitos anos de Leni ter voltado para o Brasil, publico aqui a carta que não lhe mandei, esperando que ela não seja mal educada e me responda de pronto”.

NUNCA REMETI, SÓ PRA MANTER A TRADIÇÃO”.

Querida Leni:

Dessa vez ficou mais do que claro: você se internacionalizou de vez. “Disco duro”. Essa, realmente é fantástica, coisa de primeiro mundo de quem já está arejado pelo clima das Oropas. Aqui nesse mundinho só quem fica duro é pau; e pobre pra não perder o costume. O disco é rígido por essas plagas mas que fica charmoso duro, fica.

Adorei saber que você já deu seu ar de alquimista na receita do Bacalhau a Cravolândia. Nas suas mãos de fadas o fato de não encontrar maxixe em Paris é fichinha. Veja que você, nem se apertou nem nada e já tascou abóbora no manjar. Quem tem talento é assim mesmo, não se aperta com nada. E por falar em talento – nesse caso, culinário e que você tem de sobra – exijo, imponho e esperneio pela receita do Baião de Dois que persegue meus sonhos mais secretos desde quase duas décadas quando nenhum churrasco nos vencia. Lembra que não ficava cadeira sobre cadeira quando faltava carvão na churrasqueira? Pois é, em nome daquela época e desses vinte anos de amizade, me mande a receita e ponto final.

Você vai me dizer que sou um besta e que não cumpro o prometido já que ainda não ouvi Cezária Évora e Buena Vista, que deveria estar em alguma estante lá da Princesa Isabel fazendo Rá Nascimento se intoxicar com alguma coisa, finalmente, diferente de sua própria obra. Continua lá em casa – tudo como naquele dia em que jantamos, rimos e falamos poesia.

No que diz respeito a primeira afirmação você teria razão – ainda que em parte pois, mais que besta – sou um renomado imbecil mas não é por isso que não ouvi Cezária. Tenho andado acorrentado no porão da poesia – já entreguei o segundo livros para a Editora (O Verdume & O Redemunho, que será lançado em Janeiro, tudo por conta dela) e não tenho cabeça pra outra coisa. Vc sabe como é, a música me toma e se eu misturar as coisas babau.

Mas quanto a segunda, a história já é outra: a preguiça de Rá, apesar de que eu tivesse lhe avisado logo no outro dia que tinha encomenda lá em casa, não deixou pegar o disco e já ando pensando em usar a prerrogativa do uso capião e aí ele vai ver uma coisa, o quanto vai ser difícil voltar a ter a propriedade da relíquia.

Agradeço as informações sobre Lavoisier, vão me quebrar um galhão. Na sabia que o dito foi o descobridor do oxigênio. Devemos a ele respirar com conhecimento. Falando sério “Rien ne se perd, rien ne se crée, tout se transforme” será a epígrafe de um livro que já tenho pronto há algum tempo que se chama Cadernos Lavoisier Exatamente nesse espírito de se reaproveitar todo o possível é que revi meus poemas mofados na gaveta, que não cabiam em nenhum dos livros que tenho terminado e os reuni nessa salada pela qual tenho muito carinho. A ópera da Cidade faz parte dele. Aliás, cadê o original que ficou de me mandar? Vê se você escaneia e me remete por email. Não tenho o dito cujo. Retrabalhei o poema numa versão posterior a primeira.

Por falar em poema, a primeira vista, depois de ter pedido a alguns amigos que sabem rudimentos de francês para ler a tradução pra mim, adorei. Mas gostaria, com a sua permissão de interagir um pouco com você no resultado final. O francês é um idioma lindo e você me deu muita honra e alegria ao traduzir meu poema de forma tão bela.

Vou pedir a Lu para ler pra mim pois naquela construção poética, o ritmo, mas do que tudo e a todo custo, terá de ser preservado. E me parece que, pelo menos no primeiro verso quando vc opta por utilizar “Le clair de lune” compromete um pouco o ritmo da frase o que já não acontece em “Ah, clair de lune de surprises !” Talvez aí esteja o segredo: a alternância entre “le lune” e “clair de lune”, quando necessário, que dará mais charme a tradução preservando seu ritmo. Falo tudo como um leigo que foi assessorado por alguns gagos lendo em Francês. Sinceramente terei que conversar com Lu, dissecando tudo para chegar a uma conclusão mais sólida. Quanto ao conteúdo, pelo menos sobre o ponto de vista dos animais que me assessoraram na tradução literária, me parece que você conseguiu deixar intacto. De todas as maneiras, fiquei muito feliz, você, não importa o que aconteça com minha arte de agora por diante, será sempre a primeira pessoa que me traduziu pro Francês.

Para terminar, quero fazer dois pedidos. Leninho, querida amiga, prometa que nunca mais deixaremos nossa amizade fenecer no mar tão rico de nossas virtudes e defeitos. Nos amamos muito e isso é o que importa e – se não somos perfeitos – temos que sublimar também as imperfeições do outro. O que importa de verdade é que somos amigos e irmãos, e isso basta. Falo essas bobagens mas por mim do que por você, que tem um coração de ouro e sempre foi mais gente do que eu.

Outra coisa: gostaria muito de manter regular correspondência (troca de e-mails) falando de tudo que nos venha ao coração: da cultura, dos filhos, da vida, dos amores e de nós mesmos. Sem esquecer a música que sempre foi nosso elo.

NUNCA REMETI, SÓ PRA MANTER A TRADIÇÃO.

Museu da Arte Moderna

mamcestralidade-ABERTURA

O Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA) preparou uma programação especial para o mês da consciência negra. O projeto intitulado MAMcestralidade está repleto de atividades, que vão desde palestras em combate a intolerância religiosa à oficinas e atrações musicais voltadas para a temática.

A abertura do projeto envolve ainda a vernissage da exposição ‘Caminhos’ do artista e curador Roddolfo Carvalho.

O evento é gratuito.

O que: Abertura do MAMcestralidade
Quando: 10 de novembro, a partir das 18h
Onde: Galeria 3 do Museu de Arte Moderna da Bahia – Av. Contorno, s/n – Solar do Unhão, Salvador – BA

Baden Powell e a Bahia – Caso de amor?

 Leni David

Fazendo amigos

Vinícius de Moraes poetizou um dia que “a vida é a arte do encontro” e foi graças a um encontro casual numa livraria do quartier latin que conheci Haroldo Basílio, mineiro de nascimento e carioca por adoção. Fiquei sabendo, depois, que ele era músico e que dirigia um grupo musical, o Son Brésil.

Haroldo reside em Paris desde 1976, época em que trabalhou como bailarino e percussionista no “Via Brasil”, um dos maiores cabarés brasileiros que existiu na Europa. Fez várias tournées com o grupo “Brasil Tropical”, e na volta a Paris foi trabalhar como bailarino no Moulin Rouge, ao lado de Lisette Malidor. Haroldo realizou vários espetáculos, no Régine’s e no famoso restaurante Maxim’s, em Londres e Paris ; trabalhou com artistas brasileiros de grande sucesso na época, como Maria d’Aparecida e Nazaré Pereira, também participando de gravações com Henri Salvador e Pierre Vassiliu. Só no início dos anos 80 ele iniciou sua carreira solo, como cantor e trompetista, acompanhado do guitarrista Chiquinho Timóteo, com o qual realizou várias tournées pela Europa.

Basílio tornou-se um amigo e grande colaborador ; ele conhecia inúmeros artistas que trabalhavam na noite parisiense e ofereceu-me a possibilidade de conhecer músicos e cantores brasileiros residentes na capital francesa. Graças à sua ajuda realizei uma série de entrevistas com esses artistas, assisti suas apresentações em diversas casas de espetáculos e pude perceber, também, o importante “trabalho de bastidor”, desenvolvido por esses profissionais para a divulgação da música brasileira no exterior.

Foi através de Haroldo conheci Salomé, “a voz mais bonita de Paris”, segundo ele. Salomé da Bahia, como é conhecida na noite parisiense, dona de uma voz extraordinária, capaz de encantar platéias no famoso cabaré Chez Félix da rue Mouffetard e noBrasil Tropical”. Salomé, como indica o seu nome artístico, é baiana de Salvador, e começou a cantar em programas de auditórios na Rádio Sociedade da Bahia, nos anos 60, usando o seu verdadeiro nome : Merinha Silva. Também conheci Sebastião Perazzo, o Tião da Bahia, que mora em Paris, há cerca de 20 anos. Tião tem quatro discos gravados, sendo que o último, “Raízes de Angola e do Brasil” em parceria com outros artistas, inclusive, Cesária Évora. Tião também musicou a peça “O auto da compadecida, apresentada no Teatro Odeon, em Paris, em 1974 e fez várias tournées pela Europa e Estados Unidos divulgando a música brasileira.

“Sangue Novo”

Uma noite, fui convidada por Tião para assistir a um show no Blue Note, um barzinho aconchegante, dirigido por Janette, onde não falta caipirinha, público e apresentações de bons músicos. A noitada corria animada com Tião cantando um repertório de excelente qualidade e chegou ao seu momento culminante quando ele tocou o berimbau (uma das mais bonitas execuções desse instrumento que tive a oportunidade de ver), arrebatando aplausos entusiasmados do público presente. Após o intervalo explicou que ia “botar sangue novo” no palco e convidou, além do seu filho, os irmãos Philippe e Marcel Baden Powell, que estavam presentes, para dar uma “canja”. Os jovens subiram ao palco, Philippe no órgão eletrônico e Marcel ao violão, e quem assistia ao espetáculo, além da surpresa, sentiu-se privilegiado por testemunhar um momento inesquecível de boa música. Enquanto eles se apresentavam, fiz algumas fotos e após a apresentação fui falar com os dois, que estavam acompanhados de jovens amigos. Philippe, com 18 anos na época, e Marcel, 14 anos não escondiam a timidez e um deles disparou: “não somos artistas ainda… o artista é Baden Powell!” Porém, concordaram em dar-me o endereço residencial para que eu enviasse as fotografias que havia feito.

Philippe e Marcelo

Encontro com Baden Powell

Fiz toda essa preleção pois foi graças à cumplicidade desses amigos que consegui o contato com Baden Powell, que residia em Paris naquele momento. Estávamos em 1996. Telefonei falando das fotos e propondo uma entrevista a Baden; Sílvia, mulher e anjo da guarda do nosso artista, disse-me que não seria possível naquele momento pois Baden viajaria para a Itália no dia seguinte, para uma série de apresentações. Não me fiz de rogada, e esperei pacientemente que uma nova oportunidade se apresentasse. Alguns dias depois, fiz novo contato pois havia assistido uma apresentação de Baden no Hot Brass e tinha certeza de que ele já se encontrava na cidade. Liguei para a residência dos artistas e, para minha surpresa, foi o próprio Baden quem respondeu ao telefone. Falei sobre o meu encontro com Phillippe e Marcel no Blue Note, das fotografias que havia feito e do meu desejo de entregá-las e, se possível, de entrevistá-lo. Muito simpático ele aceitou a minha proposição e marcamos para o dia 30 de abril, no início da tarde.

Não posso negar que encontrar Baden Powell “em carne e osso”, era muito importante para mim, enquanto pesquisadora, mas também como admiradora. É preciso não esquecer que a minha geração foi embalada pelos acordes de “Apelo” e “Samba em prelúdio”. Cheguei às duas horas, em ponto. Sílvia e os meninos esperavam-me ; Baden estava descansando. Refleti que, para começar, talvez fosse melhor conversar com Sílvia e os meninos e estava certa, pois não tive dificuldades em entrosar-me. Falamos sobre vários assuntos, perguntei em que colégios estudavam, falei das fotos, que, infelizmente, na pressa de sair para o encontro tão esperado, havia esquecido em casa, e fiquei sabendo que, por minha culpa, eles haviam sido repreendidos pois Baden não sabia (ficou sabendo através do meu telefonema) que eles haviam tocado no Blue Note e não gostou da novidade! Fiquei mortificada, pedi desculpas, expliquei que não sabia desse detalhe…

Philippe, o mais velho, aluno do curso científico de um liceu parisiense e pretendendo cursar uma escola de engenharia, estuda música desde os sete anos de idade, mas há quatro anos, elegeu o piano como seu instrumento preferido, sob a orientação da professora Sônia Maria Vieira, no Rio de Janeiro. Na sua opinião os brasileiros que vivem na França são muito unidos; “existe uma admiração e um reconhecimento do artista (seu pai), mas não existe tietagem… no Brasil, é um pouco diferente : quando os colegas sabem quem é meu pai, querem ir em casa, querem conhecê-lo, etc. Aqui todos os brasileiros são iguais e nos sentimos brasileiros como os outros; o fato de sermos filhos do artista Baden Powell não interfere em nossas vidas”.

Perguntei se o fato de ter um pai famoso não os inibia quando tocavam em público, apesar de serem excelentes músicos e eles responderam: “fazemos música porque gostamos disso, é hereditário! Nossos bisavós eram músicos, nossos avós, também, tanto do lado materno como do lado paterno”. Já Marcel, que também estuda música desde pequeno e que escolheu o violão, como o pai, cursa o curso ginasial ; apesar de mais tímido que o irmão, não hesita em afirmar: “Fazer música é um dom. Quando a gente toca, apesar da responsabilidade, o que vale mesmo é o prazer… é como fazer uma festa, é puro prazer!

Conversávamos animadamente quando Baden entrou na sala, vestido de branco e sorridente. Eram três horas da tarde. Alguns dias antes eu o havia visto no Hot Brass, sala superlotada, pessoas sentadas pelo chão, de pé, completamente absorvidas pelos acordes mágicos do seu violão. No palco, ele era um monstro: homem e violão formavam um todo. Ali, na intimidade da sua casa, ele parecia um menino grande, e o seu jeito descontraído deixou-me à vontade, como se estivesse em casa de um velho amigo.

Baden Powell (foto www.classicandjazz.net)

Expliquei que não era jornalista e que desenvolvia uma pesquisa sobre música popular brasileira e aproveitei para dizer que tinha gostado muito da “canja” dos meninos no Blue Note, ao que ele retrucou: “por enquanto, eles não estão ainda bem preparados… não estão no ponto, precisam amadurecer!” Acrescentando que “breve eles tocariam juntos, pai e filhos”. Perguntou-me se eu era paulista. Expliquei que era baiana, ao que ele retrucou: “você sabe que eu ganhei um parceiro baiano? É o Ildásio (Ildásio Tavares), ele é muito amigo do Philippe e se correspondem sempre. Ele é um intelectual, um letrista formidável!” E continuou: “eu sempre amei a Bahia. Eu acho que todo músico carioca sempre teve muita ligação com a Bahia. Não se pode falar em música, sem falar de Bahia”. Aproveitei a deixa e investi : – Ruy Castro[1] diz que você compôs Berimbau sem nunca ter ido lá, e a Enciclopédia da Música Brasileira,[2] afirma que você permaneceu seis meses na Bahia, desenvolvendo uma pesquisa consagrada aos cantos de origem afro; quem está com a razão?

- “Eu fui à Bahia várias vezes; a primeira vez em que estive lá, eu tinha uns doze anos de idade e acompanhava um grupo de artistas… Cyl Farney, Eliana (aquela do cinema), Renato Murce… depois acompanhei Silvinha Teles, logo no início da Bossa Nova. Acho que foi em 1960; a Bossa Nova não tinha estourado ainda. Era a época de Dolores Durand, Maísa… foi aí que conheci Carlos Coquejo, meu primeiro amigo baiano. Numa outra viagem, conheci Canjiquinha. Ficamos amigos, ele falou, falou, contou histórias e eu fiquei vidrado naquilo. Canjiquinha me contou a história toda, de Besouro, Cordão de Ouro… Nessa época eu estava em plena atividade com Vinícius… Aí eu disse: Vinícius, tem um negócio de berimbau que é maravilhoso… eu fiz um tema e eu queria que a gente fizesse uma letra para ele… ‘capoeira me mandou, dizer que já chegou…’ e pusemos o nome da música ‘Berimbau’, que é aquele sucesso que todo mundo conhece. No início do tema eu me lembrava do mar da Bahia… aquela penumbra, aquela calma, aquele mar escuro, e eu tinha um acompanhamento que me levava mas para junto do cais… eu procurei imitar o som do berimbau com o meu violão…Mas, ‘Lapinha’, foi Canjiquinha quem me ensinou o refrão, que é um tema do folclore baiano. Ele cantava o refrão… ‘quando eu morrer, me enterre na Lapinha…’ e a segunda parte foi inspirada na história de Cordão de Ouro, Besouro. Eu contei para o Paulo (Paulo César Pinheiro), a história que Canjiquinha me contou e Paulo escreveu a letra : ‘vai, meu lamento, vai, contar toda tristeza de viver… ai, a verdade sempre dói… eu sou um homem só, sem poder brigar…

Baden explicou ainda que naquela época, no Rio de Janeiro, falava-se em capoeira, mas ninguém conhecia o berimbau. Os grandes capoeiristas dos anos 30 – 40, freqüentadores da Lapa, “passavam rasteira” e citou Madame Satã, Miguelzinho Camisa Preta, o Pedregulho, o próprio mestre Bimba, “que deve ter ensinado aos outros… eles jogavam capoeira, mas sem berimbau. Havia até um ditado popular que dizia: ‘você pensa que berimbau é gaita?’ Mas ninguém conhecia o instrumento… nem eu!”

Contou-me também que quando criança, conviveu com a “turma da velha guarda” : Pixinguinha, Donga, João da Baiana e mesmo o seu professor de violão, o Meira, que fora membro dos “Oito Batutas” pois eram amigos do seu pai, Seu Lilo, que por sua vez tocava violino. Fazia questão de salientar que todos esses grandes músicos do passado, tinham suas raízes na Bahia e brincou: “eu não sei bem, nasci no Rio, mas acho que tudo é Brasil e eu acho que tenho uma ligação muito forte com a Bahia… tudo começou ali… a Bahia é uma prova!

Explicou-me que o seu avô paterno, Vicente Tomás de Aquino, era maestro e que havia formado uma banda de música no século passado, no Espírito Santo, onde nascera; essa banda de música era composta de negros analfabetos, mas que haviam estudado música; eles usavam uniforme, mas andavam descalços. Baden explica que fora a sua avó paterna quem lhe contara a história e mostrara fotos do seu avô em “traje à rigor”. Comentei que talvez fosse uma “banda de barbeiros”,[3] muito comum naquela época nas festas populares da cidade. Baden fica pensativo por um instante e acrescenta :

- “É aí que eu acho que por causa do meu avô (eu não sei quem foi meu bisavô), devo ter uma ligação com a Bahia… geograficamente o Espírito Santo está ligado à Bahia. Sou muito sensível às coisas da Bahia… ela me arrepia! Eu, quando vou lá, fico parado… sento numa praça à noite… e parece que estou dentro da história… começo a viver toda a história. Isso para o compositor é uma coisa linda! Não é o que eu vejo, é o que eu sinto, sabe? Os afro-sambas que eu compus, por exemplo, é o lado mais forte da minha obra de compositor, de instrumentista. Aquela coisa afro, o violão com a afinação bem grave, lembra a Bahia. A cidade tem qualquer coisa parada no ar! À noite, você escuta um toque de atabaque, longe… tem sempre uma música no ar, uma coisa misteriosa… aquele mar que bate calmo, aquele cais… aquela rua… e esse troço todo sai na minha música. E quando se diz: ‘você foi à Bahia e fez isso ou aquilo’…” Eu respondo: Não! Eu já sou de lá!”

Saí da casa de Baden, nas nuvens, feliz, leve como uma pluma, com a sensação de ter conquistado um grande prêmio. Dois anos se passaram, não nos vimos mais, porém guardei a gravação da entrevista como uma relíquia; quando ouço as músicas que ele compôs vibro mais do que antes, pois conheço os segredos de algumas, como nasceram, como ganharam força espalhando os seus acordes mágicos pelo mundo à fora. Porém, embora seja um pouco egoísta, não resisti ao desejo de contar aos baianos, que temos um irmão, um baiano pelo coração, que ama tanto a “velha mãe Bahia” quanto os seus filhos natos.

Paris, 21/09/1998 


[1] Ver «CASTRO, Ruy. Chega de Saudade, São Paulo, Companhia das Letras, 1990, p. 306

[2] ; Enciclopédia da música brasileira erudita, folclórica e popular, Art Editora, São Paulo, 1977, p.622-624.

[3] Ver : BRASIL, Hebe Machado. A música na cidade do Salvador – 1549 – 1900 …, Publicação de Prefeitura Municipal de Salvador Comemorativa ao IV centenário da cidade, 1969, p.89. CARVALHO FILHO, José Eduardo Freire de. A devoção do Senhor do Bomfim e sua história, Salvador, Tip. de São Francisco, 1923, p. 138. ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de um sargento de milícias, 9a ed., São Paulo, Atica, 1979.

 

Parabéns Salvador da Baía de Todos os Santos

 

Caymmi, o grande cantor da Bahia consagrou-se no cenário musical nacional cantando canções sobre a cidade, seus bairros, a vida simples do povo, principalmente dos pescadores, e canções praieiras ainda vivas na memória do povo; é verdade que Caymmi compôs também alguns sambas-canção românticos, mas essa produção não representa a parte mais importante da sua obra. Um bom exemplo do canto de Caymmi em homenagem à Bahia são as canções O Samba da Minha Terra, Você já foi à Bahia? e O que é que a Baiana tem?:


 

Caymmi afirma que « Tudo, tudo na Bahia / Faz a gente querer bem / A Bahia tem um jeito / Que nenhuma terra tem »; Jerônimo, artista da geração 80, declara que « nessa cidade todo mundo é d’Oxum »; Caetano explica: « Itapuã, o teu sol me queima e o meu verso teima em cantar teu nome »; Gil, no retorno do seu exílio em Londres, faz confissões nostálgicas em Back in Bahia: « …tanta saudade, preservada num velho baú de prata dentro de mim…/ Do luar que tanta falta me fazia junto ao mar…/ Hoje eu me sinto como se ter ido fosse necessário para voltar »; outros artistas baianos também fizeram confissões do mesmo gênero.

Denis Brean, nascido em Campinas – São Paulo, apesar de só ter escrito uma canção sobre a Bahia, compôs uma das mais belas homenagens que já se fez à Bahia. Composta em 1947 e gravada por Francisco Alves, « o rei da voz », Bahia com H foi regravada nos anos 80 por João Gilberto, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia e continua a fazer sucesso ainda nos dias atuais. Eis aqui alguns versos :

« Dá licença, dá licença, meu senhor

Dá licença, dá licença pra Ioiô

Eu sou amante, da gostosa Bahia

Porém, pra saber seus segredos serei baiano também

Dá licença de gostar, um pouquinho só

A Bahia eu não vou roubar, tem dó !

E já disse o poeta, que coisa mais linda não há

Isso é velho, é do tempo em que já se escrevia Bahia com H

Deixa ver, seus sobrados ladeiras e montes tal qual um postal

Deixa ver, Baixa dos Sapateiros, Charriô, Barroquinha

Calçada Taboão…

Sou o amigo que volta feliz

Aos teus braços abertos, Bahia

Sou poeta e não posso viver

Longe da sua magia

Dá licença, de rezar pra o senhor do Bomfim

Salve a santa Bahia imortal,

Bahia dos sonhos mil

Eu fico contente da vida

em saber que a Bahia é Brasil !… »

Homenagem a Lupicínio Rodrigues

 

Lupicínio Rodrigues, que faria 100 anos hoje, dia 16 de setembro, compositor famoso, conhecido como o criador  da “dor de cotovelo”,  canta um pout-pourri de músicas compostas por ele (“Ela disse-me assim”, “Vou brigar com ela” e “Nervos de aço”) no programa “Sambão” de Elizeth Cardoso em 1973, na TV Record.

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Último texto de João Ubaldo Ribeiro

 

 

ribeiro-photo

O último texto de João Ubaldo, que deveria ser publicado no próximo domingo, fala sobre regras e teve sua publicação antecipara para hoje, 18/07/2014, dia da sua morte.

 

O correto uso do papel higiênico

 

O título acima é meio enganoso, porque não posso considerar-me uma autoridade no uso de papel higiênico, nem o leitor encontrará aqui alguma dica imperdível sobre o assunto. Mas é que estive pensando nos tempos que vivemos e me ocorreu que, dentro em breve, por iniciativa do Executivo ou de algum legislador, podemos esperar que sejam baixadas normas para, em banheiros públicos ou domésticos, ter certeza de que estamos levando em conta não só o que é melhor para nós como para a coletividade e o ambiente. Por exemplo, imagino que a escolha da posição do rolo do papel higiênico pode ser regulamentada, depois que um estudo científico comprovar que, se a saída do papel for pelo lado de cima, haverá um desperdício geral de 3.28 por cento, com a consequência de que mais lixo será gerado e mais árvores serão derrubadas para fazer mais papel. E a maneira certa de passar o papel higiênico também precisa ter suas regras, notadamente no caso das damas, segundo aprendi outro dia, num programa de tevê.

Tudo simples, como em todas as medidas que agora vivem tomando, para nos proteger dos muitos perigos que nos rondam, inclusive nossos próprios hábitos e preferências pessoais. Nos banheiros públicos, como os de aeroportos e rodoviárias, instalarão câmeras de monitoramento, com aplicação de multas imediatas aos infratores. Nos banheiros domésticos, enquanto não passa no Congresso um projeto obrigando todo mundo a instalar uma câmera por banheiro, as recém-criadas Brigadas Sanitárias (milhares de novos empregos em todo o Brasil) farão uma fiscalização por escolha aleatória. Nos casos de reincidência em delitos como esfregada ilegal, colocação imprópria do rolo e usos não autorizados, tais como assoar o nariz ou enrolar um pedacinho para limpar o ouvido, os culpados serão encaminhados para um curso de educação sanitária. Nova reincidência, aí, paciência, só cadeia mesmo.

Agora me contam que, não sei se em algum estado ou no país todo, estão planejando proibir que os fabricantes de gulodices para crianças ofereçam brinquedinhos de brinde, porque isso estimula o consumo de várias substâncias pouco sadias e pode levar a obesidade, diabetes e muitos outros males. Justíssimo, mas vejo um defeito. Por que os brasileiros adultos ficam excluídos dessa proteção? O certo será, para quem, insensata e desorientadamente, quiser comprar e consumir alimentos industrializados, apresentar atestado médico do SUS, comprovando que não se trata de diabético ou hipertenso e não tem taxas de colesterol altas. O mesmo aconteceria com restaurantes, botecos e similares. Depois de algum debate, em que alguns radicais terão proposto o Cardápio Único Nacional, a lei estabelecerá que, em todos os menus, constem, em letras vermelhas e destacadas, as necessárias advertências quanto a possíveis efeitos deletérios dos ingredientes, bem como fotos coloridas de gente passando mal, depois de exagerar em comidas excessivamente calóricas ou bebidas indigestas. O que nós fazemos nesse terreno é um absurdo e, se o estado não nos tomar providências, não sei onde vamos parar.

Ainda é cedo para avaliar a chamada lei da palmada, mas tenho certeza de que, protegendo as nossas crianças, ela se tornará um exemplo para o mundo. Pelo que eu sei, se o pai der umas palmadas no filho, pode ser denunciado à polícia e até preso. Mas, antes disso, é intimado a fazer uma consulta ou tratamento psicológico. Se, ainda assim, persistir em seu comportamento delituoso, não só vai preso mesmo, como a criança é entregue aos cuidados de uma instituição que cuidará dela exemplarmente, livre de um pai cruel e de uma mãe cúmplice. Pai na cadeia e mãe proibida de vê-la, educada por profissionais especializados e dedicados, a criança crescerá para tornar-se um cidadão exemplar. E a lei certamente se aperfeiçoará com a prática, tornando-se mais abrangente. Para citar uma circunstância em que o aperfeiçoamento é indispensável, lembremos que a tortura física, seja lá em que hedionda forma – chinelada, cascudo, beliscão, puxão de orelha, quiçá um piparote -, muitas vezes não é tão séria quanto a tortura psicológica. Que terríveis sensações não terá a criança, ao ver o pai de cara amarrada ou irritado? E os pais discutindo e até brigando? O egoísmo dos pais, prejudicando a criança dessa maneira desumana, tem que ser coibido, nada de aborrecimentos ou brigas em casa, a criança não tem nada a ver com os problemas dos adultos, polícia neles.

Sei que esta descrição do funcionamento da lei da palmada é exagerada, e o que inventei aí não deve ocorrer na prática. Mas é seu resultado lógico e faz parte do espírito desmiolado, arrogante, pretensioso, inconsequente, desrespeitoso, irresponsável e ignorante com que esse tipo de coisa vem prosperando entre nós, com gente estabelecendo regras para o que nos permitem ver nos balcões das farmácias, policiando o que dizemos em voz alta ou publicamos e podendo punir até uma risada que alguém considere hostil ou desrespeitosa para com alguma categoria social. Não parece estar longe o dia em que a maioria das piadas será clandestina e quem contar piadas vai virar uma espécie de conspirador, reunido com amigos pelos cantos e suspeitando de estranhos. Temos que ser protegidos até da leitura desavisada de livros. Cada livro será acompanhado de um texto especial, uma espécie de bula, que dirá do que devemos gostar e do que devemos discordar e como o livro deverá ser comentado na perspectiva adequada, para não mencionar as ocasiões em que precisará ser reescrito, a fim de garantir o indispensável acesso de pessoas de vocabulário neandertaloide. Por enquanto, não baixaram normas para os relacionamentos sexuais, mas é prudente verificar se o que vocês andam aprontando está correto e não resultará na cassação de seus direitos de cama, precatem-se.

 Fonte: Uol  

 

Cem vezes Vinicius de Moraes

 

 Luís Pimentel

Letrista/poeta? Poeta/letrista? Aqui, a ordem das letras não altera os versos. E o grande compositor da MPB que ficou conhecido como Poetinha não rivaliza com o grande poeta que, juntamente com parceiros musicais do gabarito de Tom Jobim, Baden Powell, Carlos Lyra ou Toquinho criou momentos preciosos do nosso cancioneiro.

Também advogado, diplomata, cronista, crítico de cinema, dramaturgo, cidadão do mundo e amigo de seus amigos em todas as horas, Vinicius de Moraes, o grande brasileiro de quem este ano se festeja o centenário, botou a poesia no centro dos acontecimentos, mesmo tendo sido perseguido pela burocracia do Itamarati – por ser poeta – e depois pelos poetas mais conservadores – por escrever letras de música popular. Independente da data redonda, Vinicius será sempre lembrado por suas canções, que não param de merecer regravações, e também pelo relançamento de sua obra literária ou a remontagem de seu musical clássico, Orfeu do Carnaval.

Vinicius de Moraes ressuscitou a parceria, que andava fora de moda, a necessidade do músico sem muita intimidade com a palavra se juntar a um poeta em busca da complementação da obra de arte. Dos primeiros sucessos ao lado de Tom Jobim na década de 50, onde surgiram pérolas como Garota de Ipanema, Se todos fossem iguais a você, Chega de saudade e Eu sei que vou te amar, os “afro-sambas” com Baden, até o casamento com Toquinho, consolidado com Tarde em Itapoã, o poeta se firmou como uma das maiores vocações de letrista que já vimos.

Vinicius nasceu no dia 19 de outubro de 1913, no Rio de Janeiro, mesma cidade onde morreu, em 1980. Consta que era um menino bonito. Tinha olhos verdes, “talvez ausentes, mas determinados como se vissem logo adiante um grande dever a cumprir e o tempo fosse pouco”, como declarou certa feita sua irmã mais velha, Laetitia. Deixou muitas viúvas e inúmeros discos gravados. Também se destacou na criação de trilhas sonoras, tendo deixado pelo menos cinco LPs com esses registros.

Trabalhador, criativo e profícuo, foi um gênio da raça.