A nevasca

Leni David

     Nas minhas andanças por aqui encontrei a crônica que publico abaixo, esquecida numa gaveta, gravada num disquete. Embora esteja aproveitando o sol gostoso do verão francês, de férias e curtindo tudo que tenho direito, vou publicá-la no blogue com o objetivo de resgatá-la.

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 A nevasca

      Às dez da manhã o telefone tocou. Era uma brasileira que havia chegado a Paris naquela manhã. Ela buscava informações a respeito de uma pós-graduação e pedia sua ajuda. Tinha conseguido o seu número de telefone por intermédio de uma amiga que morava na Bahia e que também era sua amiga. Para quem vive no exterior, a visita dos amigos queridos reconforta o coração. Mas quando se trata de receber amigos dos amigos, o prazer se transforma em dever.

      É preciso lembrar que na Europa as pessoas não são muito disponíveis. Elas trabalham, cuidam dos filhos, da casa, das compras e da cozinha. Mesmo os idosos e as pessoas abastadas não costumam ter serviçais. Até o lixo, cada um transporta o seu até o subsolo do prédio, de onde é recolhido pelo responsável por este serviço. Quem tem filhos pequenos, contrata uma baby-sitter para tomar conta das crianças quando vai ao teatro, ou a um jantar em casa de amigos; senão, contrata-se uma faxineira para trabalhar quatro horas por dia, pois o custo desse privilégio tem um custo semanal de cerca de meio salário mínimo em moeda brasileira. Apesar do frio glacial que fazia naquele mês de janeiro, ela estava de folga e concordou em encontrar a visitante num Café da Praça da Sorbonne, próximo ao hotel onde ela estava hospedada. Combinaram as roupas que vestiriam e concordaram em levar nas mãos uma revista brasileira para facilitar a identificação.

      Como os outros membros da família almoçavam nos locais de trabalho e de estudo, almoçou rapidamente e preparou-se para enfrentar o frio. Desceu a rua que dava acesso ao ponto do ônibus, de onde se tinha uma linda vista de Paris nos dias claros e ensolarados. Naquela tarde, porém, a paisagem era lúgubre, tendo como pano de fundo um céu cinzento, quase branco; a cidade parecia envolvida numa cortina de fumaça. As árvores nuas mostravam galhos ressequidos e espetados que lembravam mãos voltadas para o céu, como se pedissem socorro. E o vento gelado dava alfinetadas no rosto e maltratava os olhos.

      O ônibus que lhe levaria ao centro da cidade era de grande valia pois dispensava o uso do metrô, num momento em que as ameaças de atentados eram constantes. Reconfortada pelo aquecimento do veículo, olhava a rua, as vitrines decoradas e as pessoas que passavam encolhidas, sérias, vestidas com roupas escuras. Chegou ao Café e instalou-se numa mesa próxima à entrada. Pediu um cafezinho e deixou a revista brasileira sobre a mesa. Logo depois entraram duas jovens senhoras e ela adivinhou, vendo as roupas que vestiam, que uma delas era a pessoa com quem havia marcado encontro: calças jeans, tênis, muitas blusas sobrepostas que davam um aspecto recheado ao corpo e um casaco antigo, muito largo. Esse tipo de indumentária, era o “uniforme”, preferido pela maioria dos brasileiros que visitavam Paris. Elas sentaram-se numa mesa próxima e uma delas retirou da sacola uma revista brasileira. Não teve dúvidas; aproximou-se, identificou-se e cinco minutos depois já conversavam e tomavam vinho quente como se já se conhecessem há muitos anos.

      Pode ser exagerado repetir que o frio era glacial, mas, a cada vez que alguém entrava ou saía do café, uma rajada de vento frio invadia o recinto; preferiram, então, continuar conversando ali. A conversa estava animada quando, olhando através do vidro, uma das brasileiras comentou, num tom alegre, se os floquinhos brancos que caiam rua eram neve. Olhou para a rua e constatou que começara a nevar; a visitante ficou maravilhada pois embora já tivesse visitado a Europa em outras ocasiões, aquela era a primeira vez que via a neve cair.

      Pensou nos transtornos que a neve provocava na cidade, apesar de ser linda, mas não fez nenhum comentário. Lembrou que muitos se machucam porque as calçadas ficam escorregadias; lembrou da mistura de areia e sal que pulverizavam nas ruas para permitir a circulação de veículos e do lamaçal abominável que se formava em poucos minutos. Pensou em outros inconvenientes, mas preferiu dizer que a neve era muito bem-vinda quando se estava numa estação de sky, ou instalado diante de uma lareira, com bons livros para ler, amigos para conversar e um chocolate fumegante para saborear.

      Quando a calçada se cobriu totalmente de branco, alguns jovens começaram a formar bolas que atiravam nos companheiros. Riam muito, escorregavam, corriam numa algazarra descontraída. Então a brasileira comentou, como se conseguisse ler seus pensamentos negativos, que apesar do frio medonho, as pessoas conseguiam se divertir. Concordou com ela e aceitou a incumbência de fotografá-la na paisagem nevada.

      Eram cinco e meia quando decidiu voltar para casa. Despediu-se das brasileiras prometendo que se encontrariam dentro de dois dias e deixou-as na entrada do Jardim de Luxemburgo, onde algumas crianças modelavam bonecos engraçados, daqueles que ilustram os cartões de boas-festas. As visitantes estavam embevecidas com a paisagem branca da cidade e decididas a comprar mais filmes para novas fotografias e a jantar olhando a paisagem através da vidraça de um restaurante próximo ao hotel onde estavam hospedadas, ali mesmo, no Quartier Latin. Andou na direção do ponto de ônibus e levantou o cachecol de lã para proteger a boca e o nariz, dormentes, como se estivessem anestesiados. Apesar de manter as mãos enluvadas nos bolsos, a sensação de frio era intensa e os pés doloridos incomodavam devido aos sapatos leves que usava, inadequados para aquele tempo.

      Numa cidade onde os ônibus são pontuais, aquele demorava a chegar. Impaciente, decidiu voltar de metrô pois começava a escurecer. Desceu em Montparnasse onde faria a conexão para a linha do seu bairro. A estação de Montparnasse estava cheia e as pessoas andavam apressadas pelos corredores. De repente ouviu-se os altos-falantes anunciarem a suspensão dos serviços do metrô em algumas linhas externas, pois a nevasca havia provocado panes na rede elétrica.

      Resolveu telefonar para a empresa onde o marido trabalhava e pedir para que viesse busca-la, mas ele estava em reunião e o colega que atendera ao telefonema prometera dar o recado, caso o encontrasse ainda, visto que já passava das dezoito horas. Concluiu que era preciso agir rapidamente e sair da estação para pegar um ônibus, ou mesmo um táxi. Enquanto esperava no ponto tentou ligar para o marido, mais uma vez, mas o telefone público não funcionava. Decidiu andar até o ponto seguinte, onde talvez houvesse mais opções. Andava como se estivesse pisando em pregos, os pés enrijecidos pelo frio. Tentou telefonar mais uma vez. Inútil! O telefone do trabalho não respondia. Decidiu ligar para casa e deixar uma mensagem na secretária eletrônica; possivelmente ele já estaria lá e certamente viria ao seu encontro.

      O tempo passava, a neve caía cada vez mais forte e ela constatou que só chegaria em casa se encontrasse um táxi. No entanto, eles também haviam desaparecido. Começou a desesperar-se. Entrou num café e pediu um chocolate, mas as mãos estavam tão dormentes que dificultavam até o manuseio da xícara. Foi ao sanitário e abriu a torneira de água quente deixando o líquido escorrer sobre os dedos, na esperança de diminuir o desconforto. Reconfortada pela bebida quente, decidiu continuar a caminhada em busca de um transporte. Numa esquina viu um táxi do qual descia um passageiro e precipitou-se na direção do veículo; o motorista impediu-a de entrar, explicando que acabara de dispensar um cliente pois não havia condições de circular na cidade devido ao engarrafamento e aos acidentes. Ele tencionava ir para casa. Ela perguntou onde morava e ele respondeu que morava em Choysi. Sorriu esperançosa pois o caminho para Choysi era o mesmo da sua residência; assim, convenceu o motorista de que não custava nada conduzi-la; ele concordou em leva-la, mas sem nenhuma garantia de que chegariam ao destino.

      Já instalada e agradecendo a Deus por ter lhe concedido a graça de encontrar ajuda naquele momento de aflição, escutou no radio do carro que a cidade estava completamente paralisada. Várias linhas de metrô haviam sido interditadas e os ônibus impossibilitados de circular, mesmo com correntes nos pneus. Falava-se nos esforços da prefeitura diante daquela nevasca imprevista, mas quase nada podia ser feito pois os caças-neve não podiam circular devido ao congestionamento do trânsito. Acreditou que tinha muita sorte, já aquecida e instalada confortavelmente, à caminho de casa.

      O carro rodava a dez quilômetros por hora. O barulhinho dos pneus na neve fresca era macio e agradável de ouvir. Rodaram cerca de quinhentos metros, mas logo ficaram bloqueados. Passaram cerca de vinte minutos sem sair do lugar. De repente, o telefone do motorista tocou e depois de falar durante algum tempo, ele avisou: “infelizmente, a senhora vai ter que descer. Vou estacionar o carro na primeira vaga que encontrar e vou dormir num hotel; a direção da empresa nos proibiu de circular.”

      Engoliu a vontade de chorar e desceu do carro. Entrou num Café em Gobelins, com a intenção de telefonar para casa, mais uma vez. Já passava das dezenove horas e dessa vez, a sua filha adolescente respondeu ao apelo telefônico. Seu pai ainda não havia chegado e ela explicava que também tinha sofrido para chegar em casa na volta da escola e aconselhou, com naturalidade, que só havia um meio de voltar para casa: fazer o percurso andando, pois não havia transporte e a camada de neve já atingia os 40 centímetros. Entrou em desespero; era impossível andar cerca de cinco quilômetros açoitada pelo vento, pela neve e tremendo de frio. Era impossível! Quis chorar, mas mesmo as lágrimas pareciam congeladas.

      Mais uma bebida quente num Café do caminho, mais um quarteirão de caminhada; outro Café, outra caminhada; mais um esforço, muita revolta e muitas injúrias balbuciadas ao vento. Os Cafés fechando as portas e os aparelhos telefônicos cada vez mais mudos… finalmente, cerca de duas horas depois, chegava à estação de metrô do seu bairro onde uma pequena multidão se aglomerava. Pessoas idosas, mães carregando crianças; crianças chorando; adolescentes sorridentes numa algazarra infernal. Novas tentativas para usar os telefones públicos, mas diante deles as filas se alongavam pelos corredores da estação. Na lanchonete não se encontrava mais nada de comer ou de beber. Decidiu que ficaria ali pois não tinha mais condições de fazer qualquer esforço físico e para chegar à sua casa havia ainda cerca de um quilômetro e meio de caminhada. Sentia fome, sede, frio e revolta. Preferia imaginar que logo seu marido chegaria em casa e que certamente viria buscá-la. Resolveu entrar na fila do telefone, e após meia hora de longa espera, a filha insistia para que fizesse mais um “pequeno esforço” pois a avenida que dava acesso ao metrô estava completamente bloqueada e mesmo que seu pai já estivesse em casa, seria impossível chegar até lá. Decidiu então que só sairia dali quando a nevasca acabasse.

      Colocou o fone no gancho e acomodou-se num canto para proteger-se do vento frio. Uma mulher loura, simpática e bem vestida aproximou-se; começou a conversar, coisa que não era muito natural por ali. Contou a sua maratona para aquela desconhecida amável e pensou que quando as pessoas estavam em dificuldade, se tornavam solidárias. A loura disse que o seu marido estava estacionado perto dali e que eles poderiam lhe dar uma carona, desde que ela concordasse em utilizar caminhos secundários, que alongariam o percurso; mas, como moravam num bairro próximo ao seu, não custava nada transportá-la. Agradeceu comovida e aceitou a oferta; andaram uns trezentos metros sobre a neve alta. Entraram numa camionete que estava estacionada ao longo do meio fio. A loura havia dito que morava depois de Clamart, desse modo passaria perto da sua residência, de onde andaria mais uns cem metros e estaria a salvo no aconchego do seu lar.

      A camionete potente começou a circular por ruas secundárias, cheias de obstáculos. Tentou conversar com os benfeitores, mas eles não alimentaram a conversa. Mas começaram a falar entre si, numa língua estranha, que poderia ser russo, polonês, dinamarquês… mas certamente uma língua diferente que jamais escutara antes. No carro havia um equipamento que transmitia mensagens e, de vez em quando, uma delas interrompia a conversa dos dois. Tentou convencer-se de que estavam usando ruas secundárias para evitar o congestionamento. De repente, avistou o mercado de Clamart onde costumava ir aos sábados. Constatou que a sua rua havia ficado para trás há muito tempo. Disse ao casal que estava perto de casa e que queria descer ali. Foi ignorada.

      Tornou a repetir que precisava descer pois já estava longe da casa; a loura então perguntou se ela tinha dinheiro para pagar a corrida; perguntou quanto custaria e disse que tinha apenas um pouco de dinheiro na bolsa. A loura olhou na sua direção e respondeu que custaria caro, muito caro. Abriu o porta-luvas e mostrou-lhe um revólver. Ela emudeceu, sentiu um aperto no coração e pediu ajuda ao seu anjo-da-guarda, em silêncio: “Santo anjo do Senhor, meu zeloso guardador… Entraram por uma avenida larga, conhecida, que dava acesso à estrada de Orleans. O homem, num sotaque carregado, anunciou que na saída da cidade havia um caixa eletrônico. Sentiu medo pois seu saldo bancário era insignificante e tremeu mais ainda, quando imaginou que poderia ser maltratada e até assassinada.

      O trânsito da avenida era denso e desordenado. Os carros rodavam lentamente. Via as pessoas que estavam em outros carros e olhava para elas com olhos de desespero; seu olhar devia traduzir uma imagem medonha, porque as pessoas olhavam para ela com um ar encabulado e começavam a dizer coisas que ela não escutava, pois, os vidros estavam fechados. Começou a chorar compulsivamente, muito alto, como uma criança aterrorizada. O marido da loura falou qualquer coisa num tom brusco e ela replicou, nervosa, olhando para os lados e fazendo gestos com as mãos. Concluiu então, que era melhor morrer ali, diante de todo mundo, do que num local deserto e escuro, onde poderia ser vitima de crueldades. Os carros se deslocavam lentamente e ela pedia a Deus que o engarrafamento continuasse, enquanto chorava um choro incontrolável que chamava a atenção dos ocupantes dos outros veículos. De repente a loura gritou descontrolada: “Fora daqui! Desça do meu carro! Saia! Saia logo, você é louca! Saia!!! Fora!!!”

      Abriu a porta da camionete e caiu de joelhos; tentou levantar-se, mas as pernas não obedeciam. Como um animal rastejou sobre a neve, até que num esforço desesperado conseguiu ficar de pé e chegar, cambaleante, ao outro lado da rua onde havia um Café na esquina. Ofereceram-lhe um grog, uma mistura quente feita à base de rhum e perguntavam-lhe o que havia acontecido. Descabelada e suja, com a voz embargada pelas lágrimas, resumiu a sua aventura para um grupo de pessoas que se encontravam no local. Um motorista de táxi ofereceu-se para transporta-la, mas sem garantia de que chegariam até a sua casa. Entrou no carro chorando e escutou o motorista repetir que já estava tudo bem, que não havia mais razão para chorar.

      Conseguiram chegar nas imediações da sua residência por volta da meia-noite, mas teve que caminhar umas duas quadras com um pé descalço, pois na fuga desesperada havia perdido um dos sapatos. Entrou no prédio achando que tinha vivido um pesadelo. Sentia-se ridícula com aquele pé descalço, uma Cinderela pelo avesso! Entrou em casa e viu a sua filha que assistia televisão deitada no sofá. O seu pé esquerdo estava completamente morto, congelado. As unhas completamente roxas. Seu marido ainda não dera notícias. O que teria acontecido com ele?

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      Meia hora depois ele chegava contando as suas peripécias; havia deixado o trabalho às dezoito e trinta, mas ficara bloqueado, além do carro ter deslizado na neve e machucado o pára-choques. Tentou relatar a sua aventura, mas os dois estavam cansados e não ficaram impressionados com a narrativa. Todos haviam passado por grandes dificuldades e o sofrimento do outro era sempre insignificante se comparado ao seu. Tomou um banho e uma sopa quente e foi para a cama chorar baixinho. Sentia-se a mais injustiçada das criaturas, a mais incompreendida das mulheres, a maior vitima da natureza. Ao mesmo tempo sentia-se reconfortada por ter escapado ilesa e por ter encontrado ajuda. As pernas doíam em conseqüência do esforço físico; os pés, doloridos e inchados. A cabeça também doía. E o coração doía mais ainda ao constatar, que além de vítima das intempéries havia sido vítima da sua tolice, da sua ingenuidade. Será que eles haviam acreditado na sua história? Seu marido dissera que era uma aventura mirabolante…

      Preferiu acreditar que tudo aquilo não passou de um pesadelo e que ao despertar sob o calor aconchegante do edredom do seu leito, vislumbrava lá fora a cidade majestosa, decorada como um magnífico bolo confeitado, todo branco.

      Châtillon, 29 de março de 2005

Ah Paris, Paris…

Imaginou-se nos cafés de paris

lançando uma nova poética

e um baião enciumado ecoou longe.”

                           (Iderval Miranda)

Ignácio de Loyola Brandão, em artigo recente – “Dividindo o quarto com Garcia Marquez”, que me foi recomendado por Juraci Dórea, conta a sua experiência como hóspede do Hôtel des 3 Collèges localizado no coração do Quartier Latin, exatamente no número 16 da rue Cujas, um hotelzinho duas estrelas muito simples, mas simpático e limpo.

Nunca me hospedei nesse hotel, mas posso afirmar que ele é muito bem localizado. Vizinho à Sorbonne, pertíssimo do Panthéon, a dois passos do Jardim de Luxembourg e do Museu de Cluny, dedicado à Idade Média. Também fica muito próximo do famoso restaurante Polidor, que funciona desde 1845, serve o melhor Boeuf Bouguignon e a melhor Tarte Tatin de Paris, por um preço tentador e que recentemente foi cenário do filme Meia Noite em Paris. Para quem gosta de andar é muito fácil chegar, andando, até o Museu d’Orsay, ao Louvre, à Notre Dame, à Sainte Chapelle e a dezenas de outros monumentos reputados da capital.

Conheço bem o quartier. Próximo ao Boulevard Saint Michel, sempre animado e dotado de um comércio variado: livrarias, lojas de souvenirs, butiques, bons cafés e uma profusão de pequenos restaurantes que servem comida francesa, grega, espanhola, italiana, vietnamita, etc., por preços accessíveis. É evidente que o local não é recomendado para quem quer experimentar a comida dos grandes chefes da cozinha francesa.

No seu artigo, Ignácio de Loyola Brandão relata entusiasmado que ficou sabendo através de uma plaquinha de bronze na porta daquele imóvel, que naquele hotel, em 1957, Gabriel García Márquez, prêmio Nobel de literatura, escreveu o romance “Ninguém Escreve ao Coronel”, o terceiro da sua carreira; feliz, ele descobre ainda, que o quarto que ocupavam – ele, a filha e uma amiga – era o mesmo que no passado fora ocupado pelo escritor. E constatou que o escritor húngaro Miklós Radnoti, um dos mais queridos pelos seus compatriotas, morou no Trois Collèges no final dos anos 1930 e que o poeta Raoul Ponchon viveu ali entre 1911 e 1937. Loyola esqueceu de citar, porém, que na mesma rua, quase em frente ao hotel em questão, encontra-se um outro, também muito famoso por ter abrigado nos anos 1940 o escritor Jorge Amado. Trata-se do Grand Hotel Saint Michel.

Na realidade, as placas nas entradas dos imóveis em Paris são comuns e contam histórias que só são percebidas por pessoas disponíveis, que por acaso ou por querer, descobrem fragmentos da história de pessoas que fugiram da rotina, pessoas que deixaram os seus nomes gravados para a posteridade. Não é preciso muito esforço para descobrir que um escritor, um inventor, um ator ou um revolucionário viveu ali. Há também as placas que homenageiam os “Heróis da Pátria”, locais onde pessoas perderam a vida em defesa de uma causa ou de um ideal, como os militantes da Resistência francesa. Há pouco tempo descobri o imóvel onde viveu Santos Dumont e confesso que fiquei feliz com o achado; a placa informava que ali, em 1903, ele havia estacionado o seu dirigível número 9; a antiga residência do aviador brasileiro fica no número 41 da avenida dos Champs Elysées.

Após a indicação do artigo por meu amigo, a internet me levou ao texto que comentei acima e, casualmente, a outro artigo de Ignácio de Loyola Brandão: “Sabendo francês podemos ser mais felizes”. Ele inicia a sua escrita afirmando que não é esnobe e assegura que para desfrutar Paris, a Provence e outros locais reputados, “sabendo francês, os prazeres multiplicam-se por cem, o desfrute por duzentos, a alegria por quinhentos. Mesmo que você tenha ido apenas para fazer compras, como a maioria dos brasileiros”…

Na sequência ele questiona alguns aspectos da vida moderna, entre eles o estudo de idiomas, e confere que nos dias atuais aprendemos apenas aqueles que o mercado chama de línguas úteis, como o inglês, o japonês e o mandarim. Loyola critica a eliminação de algumas línguas, que no passado eram estudadas no ginásio, como o francês, o latim e o espanhol, que ele próprio estudou e que considera importantes na sua formação. Lembra com carinho de uma antiga professora de francês, Donna Fanny, da época em que estudava em Araraquara e o quanto fora importante ler autores clássicos da literatura francesa, no original. Mas a crítica se torna mais severa quando comenta a maneira como são feitas reformas e mudanças no sistema educacional brasileiro, argumentando que, se isso fosse importante, o ensino atual deveria ser extinto, haja vista que ele não leva a lugar nenhum da maneira em que está estruturado. E ele continua: “Há na nossa vida algo que é preciso preencher. Uma necessidade interior de espírito, contemplação do mundo, da vida, avaliação das coisas. Encarar a existência como algo que precisa de alimento”.

Mas, como uma coisa puxa outra, alguns dias depois encontrei o artigo “Capital linguístico”, da jornalista Carolina Nogueira, que morou (estudou) em Paris durante quatro anos e que está de volta ao Brasil. Carolina tem um blog, Le Croissant, e também colabora com o blog do Noblat. Nesse artigo ela comenta a crônica de Ignácio de Loyola Brandão e tece considerações pertinentes a respeito de ser mais feliz por falar francês; lembra que o próprio autor chama a atenção sobre a polêmica que o seu texto pode provocar, quando pede para não ser tomado por esnobe, mas garante que não tem jeito; sempre haverá quem pense assim. E adverte que ela própria é taxada de “deslumbrada” nos comentários que recebe na sua coluna, Cartas de Paris.

Carolina faz um balanço da sua estadia na França, às vésperas de deixar Paris, e repertoria coisas que trará na bagagem: alguns novos melhores amigos. Dois novos diplomas. O seu amor pelo desenho recuperado e colocado em lugar de destaque em sua vida. Muitos livros. Mas, sobretudo, um idioma a mais. Um idioma que lhe abriu as portas para todos os outros itens da lista.

A constatação de que Paris volta com ela para o Brasil, graças ao “capital linguístico” é explicitada através das conquistas, da experiência do vivido, da maneira como enfrentou situações boas e ruins. Acompanho as “Cartas de Paris” há muito tempo e alguns questionamentos levantados por Carolina Nogueira nesse texto e em outros publicados anteriormente, também já me ocorreram.

Assim como ela, já fui chamada de deslumbrada, sabichona e dona do mundo, somente por ter defendido – ou esclarecido – alguns pontos de vista em relação à França e aos franceses e, algumas vezes, por ter corrigido a pronúncia de uma palavra, não por iniquidade, mas por mania, talvez por ser professora.

Na realidade, quem morou em Paris não é esnobe; pelo contrário é simples e bem resolvido. É alguém que realizou trabalhos domésticos sem queixas, alguém que embalou suas compras no supermercado, alguém que retirou o lixo de casa todas as manhãs sem fazer cara feia; alguém que completou o tanque de gasolina nos postos – na França não há frentistas – e que lavou os vidros de casa para permitir a entrada radiante de um raio de sol.

Mas também é alguém que visitou museus, viu lançamentos de filmes, visitou exposições, assistiu a espetáculos de dança e de teatro, assistiu a seminários e conferências proferidas por intelectuais de destaque no Brasil e no mundo; fez piqueniques nos fins de semana, enfrentou o duro inverno com temperaturas abaixo de zero. Aprendeu a sonhar com  a primavera e a esmagar as folhas de outono nas longas caminhadas nos bosques e parques próximos de casa. Enfim, é alguém que vê o mundo de um jeito diferente e que abandonou aquele olhar deslumbrado do turista que foi um dia, alguém que teve a chance de vivenciar uma experiência singular.

Quem viveu em Paris, ou em qualquer outra cidade do mundo, por mais de seis meses, antes de tudo foi aprendiz; depois se tornou guia espontâneo; tornou-se uma espécie de professor de escola maternal, quando levou pela mão amigos ou familiares sôfregos de novidades e descobertas. Foi tradutora nas lojas e restaurantes. Percorreu e ensinou caminhos, preparou aventuras gastronômicas, bizarras ou deliciosas; por gostar de compartilhar as belezas que aprendeu a desfrutar, essas aventuras inusitadas eram alimentadas pelo carinho, pelo sorriso, pelo amor.

Mas todos os adjetivos se tornam pobres e insignificantes se comparados aos prazeres que a experiência de ter vivido na França, sobretudo na cidade luz, proporciona a um ser humano; os amigos de toda vida, que nos oferecem a cama mais aconchegante e a mais bonita. Os jantares e almoços elaborados, de dar água na boca, regados a vinhos especiais tirados da adega em nossa homenagem. Festas inesquecíveis na Bretanha, na Normandia, na Borgonha, no Tarn, na Champanhe, no Auvergne ou na Provence. Amigos que nos querem sempre, ao longo dos anos, e que a cada encontro, muitos anos depois, renovam a certeza de que eles fazem parte da nossa vida. Essas coisas que enternecem o coração estão intimamente atreladas aos momentos vividos, às experiências adquiridas, ao aprendizado de uma nova cultura, em um país onde se respira arte e história.

Por isso concordo com Ignácio de Loyola Brandão e com Carolina Nogueira. Sabendo francês podemos ser mais felizes, sim. E tenho a impressão de que a afirmativa é válida para qualquer idioma. Podemos ser mais felizes ao brincar com uma criança, escutar histórias de um ancião ou compartilhar as experiências de um trabalhador ou de um feirante que merca os seus morangos ou as suas cerejas em um país estrangeiro. E tudo isso, além do capital linguístico citado por Carolina Nogueira, está intimamente conectado ao preenchimento da vida, à contemplação do mundo e à avaliação das coisas, como quer Loyola, ou seja, ao jeito de encarar a existência como algo que precisa de alimento. E isso é patrimônio, dos bons, que ninguém pode usurpar; ele nos pertence de fato e de direito. É conquista, experiência, riqueza imaterial adquirida.

Leni David

Feira, 28/11/2011.

A ciranda da bailarina

 

 

A ciranda da Bailarina, de Chico e Edu Lobo, foi lançada nos anos 80 no disco O Grande Circo Místico. Comprei para minhas filhas, mas  ouvi muito, talvez até mais do que elas, principalmente essa faixa.

Recentemente ouvi a interpretação da Ciranda por Mônica Salmaso e amei.  Hoje descobri um clip onde se ouve o canto de Monica, enquanto o texto é recitado pela atriz Fabíola Nascimento.  Um show!

A Ciranda da Bailarina sempre despertou em mim um quê de pirraça e sempre me fez sorrir. Quando ouço essa canção não posso me impedir de lembrar o quanto idealizamos as coisas e o quanto fantasiamos as personagens dos nossos sonhos, sem esquecer que meninos (e homens) também sonham com bailarinas. A letra da Ciranda, um poema, diz isso de uma forma divertida e o que soa como brincadeira se materializa em ironia, fina, da boa.

A bailarina é um ícone. Toda menina  sonha em ser bailarina e no sonho a bailarina é perfeita. Ela não tem pereba, lombriga, remela, coceira, piolho e casca de ferida… Será?

Eu sou fã de bailarinas; entro em êxtase quando as vejo dançar, rodopiar, flutuar. Também sonhei em ser bailarina (e trapezista). A sua imagem é perfeita, sublime. Mas quem garante que a menina bailarina nunca teve lombriga, frieira e um irmão meio zarolho?

Isso vale para todos aqueles  que admiramos; atores e atrizes, bailarinas, cantores, escritores e poetas. Amar, apreciar e admirar, sim; idolatrar, não, porque todo  mundo tem imperfeições, medos e defeitos. Ah, e tem mais: todo mundo tem problema na família,  medo de cair, arrota e faz xixi.

Ciranda da Bailarina

(Chico Buarque/Edu Lobo)

Procurando bem

Todo mundo tem pereba

Marca de bexiga ou vacina

E tem piriri, tem lombriga, tem ameba

Só a bailarina que não tem

E não tem coceira

Verruga nem frieira

Nem falta de maneira

Ela não tem

Futucando bem

Todo mundo tem piolho

Ou tem cheiro de creolina

Todo mundo tem um irmão meio zarolho

Só a bailarina que não tem

Nem unha encardida

Nem dente com comida

Nem casca de ferida

Ela não tem

Não livra ninguém

Todo mundo tem remela

Quando acorda às seis da matina

Teve escarlatina

Ou tem febre amarela

Só a bailarina que não tem

Medo de cair, gente

Medo de subir, gente

Medo de vertigem

Quem não tem?

Confessando bem

Todo mundo faz pecado

Logo assim que a missa termina

Todo mundo tem um primeiro namorado

Só a bailarina que não  tem

Sujo atrás da orelha

Bigode de groselha

Calcinha um pouco velha

Ela não tem

O padre também

Pode até ficar vermelho

Se o vento levanta a batina

Reparando bem, todo mundo tem pentelho

Só a bailarina que não tem

Sala sem mobília

Goteira na vasilha

Problema na família

Quem não tem?

Procurando bem

Todo mundo tem…

A blogueira e o cotidiano

 

Os amigos andam dizendo por aí (reclamando), que o blog está frio, que tenho me contentado em reproduzir informações sobre eventos e textos alheios. Concordo em parte (e não fico zangada), pois quando publico algo sempre o faço de acordo com o meu gosto pessoal e sempre obedecendo a certo contexto. Além disso, os autores que publico são maravilhosos e faço isso com muito gosto.

Acontece que vida de blogueiro é igual à de todo mundo, cheia de altos e baixos, com problemas, etc… Nos últimos tempos tive muitos, mas garanto que não vale a pena falar disso.

A autora deste blog também fica sem inspiração de vez em quando, e às vezes sente preguiça. Para evitar as queixas, aproveito para manter o blog atualizado e deixar registradas algumas informações sobre ela:

1- Tem obsessão por flores; naturais, perfumadas, sem perfume, grandes e pequenas, de todas as cores. Tem um jardim e cuida dele.

2- Acha o pôr-do-sol um dos espetáculos mais bonitos da natureza.

3- Ama o mar, principalmente o mar da Bahia: azul turquesa, ou verde esmeralda, dependendo da estação.

4- Sempre que algo bom acontece ela conta para todo mundo. Mas quando fica triste – ou decepcionada com alguém – entra na casca como um caracol, e sofre.

5- Valoriza a amizade. Tem poucos amigos e os ama muito. Gosta de visitá-los e de recebê-los em casa, ocasião em que prepara pratos especiais, que ao serem saboreados devem ser devidamente elogiados, senão perde a graça. Rsrsrs…

6- Adora conversar. Detesta convidados que vão embora logo depois de comer. Acredita piamente que eles têm obrigação de “pagar” a comida que comeram com, no mínimo, meia hora de conversa.

7- Aos nove anos escreveu um poema em homenagem à Madre superiora do colégio onde estudava. Na hora de declamá-lo – festa de aniversário da Madre – esqueceu tudo! Levou um beliscão da professora e uma reprimenda da mãe. A partir desse dia, tudo que escreveu guardou numa gaveta, em segredo.

8- Não tem paciência com pessoas egoístas, nem com “gênios”; ao invés destes, prefere as crianças.

9- Odeia mentiras, injustiça, traição e pessoas dissimuladas. Não aprecia doces, tortas, bolos e salgadinhos de festa.

10-             Ama crianças, sinceridade, água de coco, a Bahia, cerveja Leffe, cocada, Paris, sorvete de mangaba, profiteroles, cachorros e chocolate meio-amargo.

É só isso!

 

Matryoshka, Baboushka, Matriosca… Mãe, Mulher

 

 Para Mabel

Quando eu era menina, certo dia encontrei uma caixa diferente entre as coisas da minha tia. Ela era de madeira fina, dourada, e tinha a forma de um cubo de aproximadamente dez centímetros de lado. Abri e dentro dela encontrei outra caixinha, um pouco menor. Retirei-a do interior da primeira, abri a tampa e outra caixinha apareceu. A última era uma caixinha minúscula e dentro dela havia um papelzinho dobrado onde estava escrito: “você é a razão do meu viver”.

Não lembro quantas vezes realizei o gesto, mas sei que foram muitas caixas que abri, pois o canto onde realizei essa façanha ficou repleto das mesmas.

Confesso que esperava encontrar alguma coisa mais valiosa, como um broche, ou um anel. Aquele papelzinho me pareceu insignificante; dobrei direitinho e o acomodei dentro da caixa minúscula, um pouco frustrada;  comecei a fechá-las, uma por uma, para devolvê-las ao lugar onde as havia encontrado, mas as tampas não encaixavam corretamente, apesar do meu empenho. Não consegui, e para meu desespero fui surpreendida, repreendida severamente, chamada de enxerida, buliçosa e ainda levei uns tapas.

 

Muitos anos depois recebi um presente de uma amiga que havia chegado da então União soviética. Era uma Matryoshka, uma boneca típica, símbolo nacional e muito reputada como souvenir. A minha amiga explicou que dentro daquela bonequinha de madeira haviam outras iguais, mas de tamanhos menores, numa sequência que variava de cinco a oito e que se repetia em escala decrescente. Nessa época eu morava muito longe da minha terra natal e aquele presente me trouxe de volta à infância. Sorri, comecei a abrir as bonecas e o episódio das caixas da minha tia vieram à tona. Arrumei-as com muito carinho, enfileiradas, sobre a estante.

Guardo essas bonequinhas com muito carinho; primeiro, porque a amiga que me ofereceu o presente, Myriam, não se encontra mais entre nós. Faleceu, vítima de uma leucemia, aos vinte e sete anos de idade. Era uma pessoa muito querida,  e o seu desaparecimento provocou em mim uma dor enorme, além da saudade que perdura até hoje. Segundo, porque essas bonecas têm o dom de me apaziguar e de me encorajar, quando preciso. Gosto também de mostrar as minhas Matryoshkas às crianças que vêm à minha casa e como eu, no passado, com as caixinhas da minha tia, raramente elas conseguem encaixá-las e recompô-las para que se tornem personagem única.

 

Depois aprendi que essas bonecas surgiram na época do Império Russo, em 1890, quando instituiu-se a produção de brinquedos educativos e folclóricos. As primeiras Matryoshkas reproduziam as camponesas com seus trajes coloridos. Aprendi, também, que a primeira Matryoshka foi pintada por Serguei Malútin  para ser exposta na feira internacional de Paris, em 1900 – onde ganhou medalha de ouro por sua originalidade. Atualmente  ela se encontra no Museu do Brinquedo em Serguiev Posad. E a partir daí as Matryoshkas vêm sendo cultuadas como  símbolo nacional e objetos de desejo dos colecionadores.

Essas bonecas representam a família. A tradução literal do nome Matryoshka é “mãezinha” (mãe = mater; e oshka, o diminutivo). Também aprendi que apesar da importância dessas bonequinhas no artesanato russo, elas têm sua origem no Japão. Em 1890 um brinquedo que representava um sábio budista, foi trazido do Japão e presenteado à família Mamôntov, grandes patrocinadores das artes no virar do século. Usando o boneco japonês como modelo, o artesão Vassily Zvyôzdotchkin e o pintor Serguei Malútin criaram então a primeira Matryoshka russa, batizando-a  com uma variação do nome russo Matryona, que deriva de mat’ (mãe). Mostrada com grande sucesso no pavilhão do Império Russo na exposição internacional de 1900 em Paris, desde então as Matryoshkas são meio de vida para os artesãos e fazem a alegria de quem as recebe como presente.

Há pouco tempo descobri que a famosa Matryoshka, também é conhecida como Baboushka. Finalmente, também descobri que carregamos conosco muitas Matryoshcas. Temos uma aparência externa, a grande matriosca, a que todo mundo vê, e no interior, várias outras, parecidas, cada uma delas carregando consigo predicados e defeitos. São elas que nos fazem fortes, destemidas, ousadas, desaforadas, sábias, justas, ou inconsequentes. São elas também que vacilam, sofrem e choram. O importante, porém, é o renascer constante; é a sabedoria de olhar lá fora e descobrir saídas possíveis. E como diz Adélia Prado, “Mulher é desdobrável. Eu sou”.E temos várias camadas, digo eu, como as Matrioscas!

Leni David

 Observação: Publicado originalmente no “De tudo um pouco” em 25/08/2009