Homenagem a Dorival Caymmi

 

Dorival Caymmi, nascido em Salvador em 30 de abril de 1914, completaria hoje, dia 30 de abril, 97 anos de idade. Sua morte aconteceu em 16-08-2008.Caymmi que embarcou para o Rio de Janeiro nos anos 30, onde deveria trabalhar como jornalista e ilustrador, pegou um « Ita » (o navio Itapé) chegando à então capital do Brasil em 1938. Nessa época publicou  alguns desenhos na revista « O Cruzeiro » e apresentou-se na Rádio Transmissora. Seus primeiros sucessos, ao lado de Carmem Miranda, foram as canções A Preta do Acarajé e O Que é que a Baiana Tem…

Mas Caymmi consagrou-se no cenário musical nacional cantando canções sobre a Bahia, seus bairros, a vida simples do povo, principalmente dos pescadores. Sua obra está impregnada de temas populares, ainda vivos na memória do povo. O certo é que apesar de vários dos seus sucessos musicais terem sido lançados numa fase ufanista da música brtasileira, Caymmi continuou compondo e cantando canções com temas baianos que têm, inclusive,  um valor documental, o que  consolida a sua reputação como o mais importante compositor e cantor baiano no período e criador de um estilo singular.

Em 60 anos de carreira, Dorival Caymmi gravou cerca de 20 discos, mas o número de versões de suas músicas feitas por outros intérpretes é praticamente incalculável. Sua obra, considerada pequena em quantidade, compensa essa falsa impressão com a inigualável qualidade de algumas obras-primas. Entre as canções de grande sucesso pode-se citar: A preta do acarajé, O que é que a baiana tem, A Lenda do Abaeté, Promessa de Pescador, É Doce Morrer no Mar, Marina, Não Tem Solução, João Valentão, Maracangalha, Saudade de Itapoã, Doralice, Samba da Minha Terra, Lá Vem a Baiana, Sábado em Copacabana, Nem Eu, Nunca Mais, Saudades da Bahia, Oração pra Mãe Menininha, “Rosa Morena”, “Eu Não Tenho Onde Morar”, “Promessa de Pescador”, “Das Rosas, Saudades da Bahia, Cantiga pra Gabriela,Vou ver Juliana, etc. Em 1994, a Editora Lumiar lançou o songbook com suas obras, acompanhado por três CDs.

Aqui fica a minha homenagem ao inesquecível cantor da Bahia.

Parabéns Salvador!

  

 

Aniversário de Salvador – Bahia

Quatrocentos e sessenta e dois anos

São Salvador da Bahia de Todos os Santos – também conhecida como Bahia, foi a primeira cidade fundada no Brasil (1549), e a primeira capital do país, na época da colonização portuguesa. O nome da cidade tem sua origem na denominação dada pelo navegador italiano Américo Vespúcio à Baía onde ele aportou no dia 1 de novembro de 1503, dia em que se comemora Todos os Santos no calendário Católico. A Capitania Geral da Bahia de Todos os Santos foi a sede do governo colonial português. Por volta de 1824, quando foi promulgada a primeira Constituição brasileira, a antiga capitania foi designada como Província da Bahia, e, finalmente, após a Proclamação da República em 1889, ela tornou-se Estado Federal dos Estados Unidos do Brasil. No entanto, até o final do século XIX, a capital recebeu, simultaneamente, sete denominações diferentes: São Salvador, Salvador, Salvador da Bahia, Bahia, Bahia de Todos os Santos, e São Salvador da Bahia de Todos os Santos. Atualmente, Bahia designa o Estado e Salvador a sua capital, embora as pessoas oriundas de outras regiões, como também um grande número de baianos, a nomeiam carinhosamente de « Cidade da Bahia », hábito que também é comum entre um grande número de escritores e compositores populares.

A cidade do Salvador da Bahia foi fundada por Tomé de Souza na entrada da Bahia de Todos os Santos, quarenta e nove anos após a chegada dos Portugueses à costa brasileira, para ser a sede do Governo Geral. A cidade construída na Capitania Geral da Bahia de Todos os Santos, nasceu para garantir a posse territorial do país aos Portugueses e para assegura a fixação de um pólo administrativo na Colônia.

Enquanto primeira capital do Brasil, Salvador acumulava a dupla condição de centro administrativo e de entreposto comercial. A cidade era ponto de parada obrigatório para viajantes e comerciantes do mundo inteiro, como também importante porto de desembarque e de comércio, sobretudo de escravos africanos.

Com a transferência da capital para o  Rio de Janeiro (1763), mais próximo das minas de ouro de Minas Gerais, a antiga capital perdeu a sua importância política e permaneceu, segundo o historiador baiano Cid Teixeira, como uma espécie de ilha cultural, guardando assim os símbolos singulares da sua cultura.

Mas, para resumir, quem melhor define a Bahia é Caribé – Hector Júlio Páride Bernabó – nascido no subúrbio de Lánus, em Buenos Aires em 1911, de pai italiano e mãe brasileira. Veio à Bahia pela primeira vez em 1938, após a leitura do livro Jubiabá, de Jorge Amado, estabelecendo-se definitivamente à partir de 1942. Caribé faleceu em 1° de outubro de 1997 aos 86 anos de idade. Durante a sua vida foi jornalista, ilustrador, desenhista, pintor e escultor, deixando uma série de trabalhos que retratam os aspectos culturais populares da Bahia.

« A Bahia não é uma cidade de contrastes. Não é não. Quem pensa assim está enganado… Tudo aqui se interpenetra, se funde, se disfarça e volta à tona sob os aspectos mais diversos, sendo duas ou mais coisas ao mesmo tempo, tendo outro significado, outra roupa, até outra cara… Tudo misturado : gente, coisas, costumes, pensares. Vindos de longe ou sendo daqui, tudo misturado… Além da terra onde um dia descansaremos, há duas coisas : o preto e o branco. Havia. A loura de biquíni tem uma estrutura de ombros formidável, genuinamente sudanesa. A vendedora de mingau, escura como a noite, tem um holandês nos olhos. Tudo misturado… »

         In, CARIBÉ – As sete portas da Bahia. Livraria Martins Editora, São Paulo, 1962, p. 23.

Gilberto Freyre: um poema em homenagem à Bahia

 

Apresentação de Edson Nery da Fonseca.

Embora tenha concluído o curso de mestrado em ciências sociais na Universidade Columbia — onde foi aluno de Franz Boas, fundador da antropologia cultural — Gilberto Freyre considerava-se, acima de tudo, escritor. E foi como ensaísta que ele projetou-se no cenário nacional: ensaísta à la Montaigne e Bacon.

Mas em 1925 — muito antes, portanto, de distinguir-se com livros como Casa Grande & Senzala (1933) e Sobrados e Mucambos (1936) — Gilberto Freyre escreveu um longo poema inspirado por sua primeira visita à Cidade de Salvador: Bahia de todos os santos e de quase todos os pecados. Impresso no mesmo ano em reduzidíssima edição da recifense Revista do Norte, o poema deixou Manuel Bandeira entusiasmado. Tanto que em carta de 4 de junho de 1927 escreveu: “Teu poema, Gilberto, será a minha eterna dor de corno. Não posso me conformar com aquela galinhagem tão dozada, tão senvergonhamente lírica, trescalando a baunilha de mulata asseada. S!” (cf. Manuel Bandeira, Poesia e Prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1958, v. II: Prosa, p. 1398).

O poema tem três versões: a primeira foi reproduzida por Manuel Bandeira em sua Antologia dos Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos (1946); a segunda, modificada pelo autor, foi publicada na revista carioca O Cruzeiro de 20 de janeiro de 1942; e a terceira aparece nos livros Talvez Poesia (José Olympio, 1962) e Poesia Reunida (Edições Pirata, 1980).

Fonte: Antonio Miranda  

BAHIA DE TODOS OS SANTOS E DE QUASE TODOS OS PECADOS

Bahia de Todos os Santos (e de quase todos os pecados)

casas trepadas umas por cima das outras

casas, sobrados, igrejas, como gente se espremendo pra sair num

retrato de revista ou jornal

(vaidade das vaidades! diz o Eclesiastes)

igrejas gordas (as de Pernambuco são mais magras

toda a Bahia é uma maternal cidade gorda

como se dos ventres empinados dos seus montes

dos quais saíram tantas cidades do Brasil

inda outras estivessem para sair

ar mole oleoso

cheiro de comida

cheiro de incenso

cheiro de mulata

bafos quentes de sacristias e cozinhas

panelas fervendo

temperos ardendo

o Santíssimo Sacramento se elevando

mulheres parindo

cheiro de alfazema

remédios contra sífilis

letreiros como este:

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo

(Para sempre! Amém!)

automóveis a 30$ a hora

e um ford todo osso sobe qualquer ladeira

saltando pulando tilintando

para depois escorrer sobre o asfalto novo

que branqueja como dentadura postiça em terra encarnada

(a terra encarnada de 1500)

gente da Bahia! preta, parda, roxa, morena

cor dos bons jacarandás de engenho do Brasil

(madeira que cupim não rói)

sem rostos cor de fiambre

nem corpos cor de peru frio

Bahia de cores quentes, carnes morenas, gostos picantes

eu detesto teus oradores, teus otaviosmangabeiras

mas gosto das tuas iaiás, tuas mulatas, teus angus

tabuleiros, flor de papel, candeeirinhos,

tudo à sombra das tuas igrejas

todas cheias de anjinhos bochechudos

sãojoões sãojosés meninozinhosdeus

e com senhoras gordas se confessando a frades mais magros do que

eu

O padre reprimido que há em mim

se exalta diante de ti Bahia

e perdoa tuas superstições

teu comércio de medidas de Nossa Senhora e do Nossossenhores do

Bonfim

e vê no ventre dos teus montes e das tuas mulheres

conservadoras da fé uma vez entregue aos santos

multiplicadores de cidades cristãs e de criaturas de Deus

Bahia de Todos os Santos

Salvador

São Salvador

Bahia

Negras velhas da Bahia

vendendo mingau angu acarajé

Negras velhas de xale encarnado

peitos caídos

mães de mulatas mais belas dos Brasis

mulatas de gordo peito em bico como para dar de mamar a todos os

meninos do Brasil.

Mulatas de mãos quase de anjos

mãos agradando ioiôs

criando grandes sinhôs quase iguais aos do Império

penteando iaiás

dando cafuné nas sinhás

enfeitando tabuleiros cabelos santos anjos

lavando o chão de Nosso Senhor do Bonfim

pés dançando nus nas chinelas sem meia

cabeções enfeitados de rendas

estrelas marinhas de prata

tetéias de ouro

balangandãs

presentes de português

óleo de coco

azeite-de-dendê

Bahia

Salvador

São Salvador

Todos os Santos

Tomé de Sousa

Tomés de Sousa

padres, negros, caboclos

Mulatas quadrarunas octorunas

a Primeira Missa

os malês

índias nuas

vergonhas raspadas

candomblés santidades heresias sodomias

quase todos os pecados

ranger de camas-de-vento

corpos ardendo suando de gozo

Todos os Santos

missa das seis

comunhão

gênios de Sergipe

bacharéis de pince-nez

literatos que lêem Menotti del Picchi e Mário Pinto Serpa

mulatos de fala fina

muleques

capoeiras feiticeiras

chapéus-do-chile

Rua Chile

viva J. J. Seabra morra J. J. Seabra

Bahia

Salvador

São Salvador

Todos os Santos

um dia  voltarei com vagar ao teu seio moreno brasileiro

às tuas igrejas onde pregou Vieira moreno hoje cheias de frades

ruivos e bons

aos teus tabuleiros escancarados em x (esse x é o futuro do Brasil)

a tuas a teus sobrados cheirando a incenso comida alfazema

cacau.

Extraído de: FREYRE, Gilberto. Bahia e baianos. Apresentação de Edson Nery da Fonseca. Salvador: Fundação das Artes, 1990. 167 p.

Dodô, Osmar e a história do Trio Elétrico

No dia 25 de julho de 1996 tive a honra de conversar, emocionada, com Osmar Macedo (22/03/1923–30/06/1997), um dos “pais” do Trio Elétrico. A entrevista tinha como objetivo um trabalho acadêmico. Nessa ocasião, Osmar, uma pessoa amável e simpaticíssima, contou-me a história do Trio Elétrico, (cerca de 4.00h de gravação), sua trajetória ao longo daqueles quarenta e seis anos  de participação em carnavais. Aqui será apresentado apenas um resumo, pois a história é longa e não caberia no espaço do blog.

Enquanto admiradora de Osmar Macedo, que brilhava no Trio Elétrico durante as festas momescas, a emoção daquele momento era indescritível; fiquei simplesmente encantada diante da simplicidade e da disponibilidade daquele homem, na época com 73 anos de idade, que não era somente um músico, mas alguém que teve uma vida profissional intensa e permeada de atuações importantes em todo o Brasil e também no exterior.

 

                                 Conjunto Três e Meio”

Como tudo começou

Em 1938 Dodô, radiotécnico e músico, e Osmar, técnico em engenharia mecânica e músico, participaram do conjunto “Três e Meio”, que tocava em festas e programas de rádio em Salvador. Mas a idéia do novo instrumento que seria conhecido como “pau elétrico” e, posteriormente, como guitarra baiana, só surgiu algum tempo depois. Eles tinham visto em 1942, o violonista Benedito Chagas, do Rio de Janeiro, que se apresentara no Cinema Guarany, em Salvador. O seu violão era equipado com um captador, uma novidade para a época. Eles ficaram curiosos com o funcionamento daquele engenho, mas descobriram que, mesmo com amplificadores de maior alcance, o captador provocava a “microfonia” – uma espécie de apito muito forte - sempre que o volume era aumentado.

 

                                 Os amigos Dodô e Osmar

Em sua entrevista Osmar conta que, nessa época, ele e Dodô foram à loja A Primavera, na Praça da Sé, com o objetivo de comprar um violão e um cavaquinho, pois descobriram que era a caixa acústica do instrumento que provocava a “microfonia”; logo, era preciso encontrar um pedaço de madeia maciço, sem caixa acústica. Na loja A Primavera, compraram os instrumentos, dos quais somente os braços seriam aproveitados, visto que era muito trabalhoso confeccioná-los… e quebraram os dois instrumentos na quina do balcão, na própria loja. O vendedor, um espanhol recém-chegado ao Brasil, perperxo, foi se queixar ao proprietário, dizendo que estava ali, ”um maluco que comprava e quebrava os instrumentos”. – Ele está pagando? O dono da loja perguntou. – Está, sim senhor!  – Então deixa ele quebrar…

Mas, na realidade, ele estava fazendo aquilo, porque queria que os braços dos instrumentos fossem empacotados, para poder levá-los para casa pois, “quem andava com um violão debaixo do braço, naquela época, principalmente numa segunda-feira pela manhã, era vagabundo e malandro”. Essa história também foi contada, segundo Osmar, numa entrevista concedida à  Revista Veja, em 1972.

O “Pau elétrico” já havia sido confeccionado quando, em 1950, uma semana antes do Carnaval, uma orquestra de Recife, chamada Clube Vassourinhas, de passagem para o Rio de Janeiro, fez uma apresentação em Salvador. Segundo Osmar, essa orquestra “incendiou” as ruas da Bahia com a sua música e eles próprios ficaram entusiasmados com o que viram e ouviram: “Eu e Dodô, saímos atrás, junto com o povão, pulando, vendo a beleza do Clube Vassourinhas, com a orquestra de metais, cerca de 100 metais tocando pela avenida… pela Avenida Sete… Foi uma beleza, tocando frevos!”

 

 Na mesma noite, após muitas confabulações, concluíram que, se ligassem os “paus elétricos” numa bateria para aumentar a potência do som, eles poderiam brincar o carnaval de uma maneira diferente. Uma semana depois, a velha Fobica de Osmar, na realidade um Ford 1929, participou do carnaval da Bahia equipada com dois alto-falantes; a “Dupla Elétrica” saiu às ruas da cidade e encantou a todos, principalmente àqueles que acompanharam a novidade, cantando e dançando. Até ali, não havia participação popular no carnaval local. As famílias se contentavam em apreciar o corso, desfile de automóveis abertos e decorados, onde moças bonitas e fantasiadas, filhas de famílias ricas, desfilavam pelas ruas da cidade jogando confetes, serpentinas e lança-perfume. Também havia o cortejo de carros alegóricos, patrocinados pelos grandes clubes da capital, entre eles, os “Fantoches de Euterpe”, o “Cruz Vermelha” e os “Inocentes em Progresso”.

Alguns anos depois, Moraes Moreira, o primeiro cantor do Trio Elétrico, comporia Vassourinha Elétrica, contando a história para quem não conhecia.

Varre, varre, varre Vassourinhas 

Varreu um dia as ruas da Bahia 

Frevo, chuva de frevo e sombrinha 

Metais em brasa, brasa brasa que ardia 

Varre, varre, varre Vassourinhas 

Varreu um dia as ruas da Bahia 

Abre alas e caminhos 

Pra deixar passar 

O trio de Armandinho, Dodô e Osmar…  

 Mas, voltando ao nascimento do Trio, em 1953, a dupla se transformaria em “trio elétrico”, quando o amigo e arquiteto pernambucano, Temístocles Aragão*, foi convidado para participar da festa. Naquele momento, o palco não era mais a Fobica, mas uma camionete. Aragão, porém,  abandonou o trio algum tempo depois.

Na contracapa do CD Filhos da Alegria (1996), Osmar comenta: “Minha obra musical foi pequena, a atividade mecânica, que foi o sustentáculo da família, tolheu-me o tempo que poderia ter dedicado à música [...] A maioria das minhas composições foram instrumentais, seguindo a linha do “frevo rasgado”, de Nelson Ferreira. Espero gravá-las em outra oportunidade. Nas capas dos LP’s onde foram gravadas essas músicas, desde o Carnaval de 1975 e também nos shows onde me apresento pelo mundo afora, faço uma carinhosa referência ao frevo pernambucano como peça fundamental na criação do trio elétrico”.

Osmar passou onze anos longe do circuito carnavalesco. Na década de 60, desgostoso com as dificuldades para sair com o trio e preocupado com a excessiva dedicação dos filhos à música, ele abandonou temporariamente seu invento. Nos anos 60, entrou em cena Orlando Campos, que viria a ser conhecido como Orlando Tapajós. Em 1969, Caetano Veloso compôs a famosa marchinha “Atrás do Trio Elétrico”, em homenagem ao trio de Dodô e Osmar.

  

  O Trio patrocinado pelo guaraná Fratelli Vita (1952), com Dodô e Osmar, em Feira de Santana

Orlando Tapajós, por outro lado, foi o responsável pela profissionalização do trio elétrico, adotando placas de metal no lugar da carroceria do caminhão e vendendo publicidade. Em 1972 ele saiu com um trio que tinha a forma de uma nave espacial, que foi batizada como a Caetanave, em homenagem a Caetano Veloso que voltara do exílio imposto pela ditadura militar.

Depois dessa longa ausência, em 1974, a dupla Dodô e Osmar retornou ao Carnaval baiano com uma nova formação: “Trio Elétrico Armandinho, Dodô e Osmar”. Na ocasião, eles gravaram o disco “Jubileu de Prata”, que foi lançado no início de 1975, em comemoração aos 25 anos de criação do Trio.

Da Fobica à Caetanave e, a partir daí, cada vez mais sofisticados, os trios começaram a mudar de aparência e a adotar o luxo, entre eles, camarim com ar condicionado, geradores potetíssimos e sanitários modernos;  hoje eles são responsáveis por uma movimentação de milhões de reais e enquanto palco móvel, permite que os artistas ofereceam espetáculos na rua para milhares de pessoas. Osmar, que sempre viveu do seu trabalho na construção civil, confessa que nunca ganhou dinheiro com o invento e que ele e Dodô nunca pensaram em patentear o “Trio Elétrico”. Em suas apresentações na Bahia, dependiam de patrocínio, sempre conquistado a duras penas.  Tampouco Dodô, que morreu em 1978, se beneficiou financeiramente da “maquina da alegria”.

Em 1983, um Trio Elétrico se apresentou pela primeira vez no exterior, na  Piazza Navona, em Roma, diante cerca de 80 mil pessoas, ao som de Armandinho, Dodô e Osmar. No ano de 1985 foi a vez da França, onde o trio tocou para mais de 100 mil pessoas, em Toulouse, viajando em seguida, para outras cidades como Nice e Toulon. Daí em diante, as viagens internacionais foram muita e, em uma delas, no festival de Montreux, ele conheceu pessoalmente Paco de Lucia, de quem era fã; segundo Osmar, esta foi  uma das  grandes alegrias da sua vida

 

         Foto oferecida à autora em 1996 – Osmar, a Fobica e o “pau elétrico”

Em 1997, aos 74 anos, Osmar Macedo faleceu. O seu corpo foi velado no Palácio da Aclamação, em Salvador e o cortejo, acompanhado por vários trios elétricos, parou na Praça Castro Alves, onde ocorre o tradicional encontro dos trios durante o carnaval e onde  Osmar foi homenageado pelos músicos baianos. Ele foi sepultado no Jardim da Saudade, ao som de “Brasileirinho”, uma das suas músicas preferidas, tocada por seu filho e companheiro de trio, Armandinho. Em 1998 foi inaugurado, na Praça Castro Alves, palco de grandes espetáculos da dupla, um monumento em homenagem à  Dodô e Osmar.

 Um “desafilho” entre Osmar e Armandinho no final dos anos 70 (o vídeo é antigo e de má qualidade, mas o duelo entre os dois músicos é extraordinário).

Em 2000, quando foi comemorado o Jubileu de Ouro, Osmar, que tanto desejou participar dessa festa, não estava mais entre nós. No entanto, a Fobica estava lá; em 2010 foram  festejados os 60 anos de existência do Trio. Os seus nomes continuam lembrados e festejados, não somente como os criadores do Trio Elétrico, mas como os músicos que transformaram o carnaval da Bahia.

* – Segundo o leitor João Campos de Aragão, em comentário neste post, Temístocles não era Pernambucano e sim baiano: “Temistocles Campos de Aragão não era pernambucano e sim cidadão soteropolitano, nascido em 09 de julho de 1928 no bairro da Liberdade e falecido tragicamente em um acidente automobilístico com sua esposa Edna Bouças de Aragão, ocorrido em 23 de maio de 1976″.

Post publicado originalmente em “Leni David – De Tudo um Pouco” em 14/02/2010

Centenário de Carybé

 

A leitura do romance Jubiabá, em 1938, um dos romances de Jorge Amado, trouxe à Bahia o argentino Hector Julio Paride Bernabó, mais conhecido como Carybé. O artista plástico, escultor, gravador e diretor de arte, fixou residência na Bahia e naturalizou-se brasileiro em 1957, época em que recebeu o título de Cidadão baiano.

 

Sobre a Bahia Carybé escreveu:

« A Bahia não é uma cidade de contrastes. Não é não. Quem pensa assim está enganado… Tudo aqui se interpenetra, se funde, se disfarça e volta à tona sob os aspectos mais diversos, sendo duas ou mais coisas ao mesmo tempo, tendo outro significado, outra roupa, até outra cara… Tudo misturado: gente, coisas, costumes, pensares. Vindos de longe ou sendo daqui, tudo misturado… Além da terra onde um dia descansaremos, há duas coisas : o preto e o branco. Havia. A loura de biquíni tem uma estrutura de ombros formidável, genuinamente sudanesa. A vendedora de mingau, escura como a noite, tem um holandês nos olhos. Tudo misturado! »

(In, CARYBÉ -. Livraria Martins Editora, São Paulo, 1962, p. 23).

 

Concordo plenamente com Carybé, quando ele diz que a velha Salvador é a cidade das misturas; mistura de velho e novo, de pitoresco e inusitado. Mistura de gente, cores, sol, mar, cheiros e sabores. Uma cidade singular e plural, com suas qualidades e defeitos.

 

Em 2009, uma exposição sobre a obra do artista ficou aberta ao público entre os meses de abril e maio. Carybé – 70 anos de Bahia, organizada pelo Instituto Carybé reuniu 200 obras que retratam a diversidade de temas e técnicas utilizadas pelo artista. Trata-se de pinturas, painéis, gravuras, esculturas, murais, ilustrações de livros, objetos pessoais, além dos figurinos criados por ele para cinema, teatro e balé.

Os responsáveis pelo evento também organizaram um passeio cultural denominado Rota Carybé, visando mostrar dezenove pontos de Salvador onde existem trabalhos do artista, entre eles, o painel do aeroporto, os gradis do Campo Grande e do Solar do Unhão, a estátua da mulher com uma criança, .que se encontra na entrada do Shopping Iguatemi, os painéis do teatro Castro Alves, entre outros.

Além da exposição, Caribé foi alvo de homenagem dos Correios e Telégrafos que lançaram um selo comemorativo; também está prevista pelos responsáveis do Instituto Carybé, a restauração da sua antiga residência localizada no bairro da Boa Vista de Brotas, que deverá tornar-se Memorial e centro cultural.

Em maio de 2009 também foi lançado um livro onde está registrada a arte de dois estrangeiros ilustres, baianos de coração e por afinidade; trata-se de  “Carybé & Verger – Gente da Bahia”, , idealizado por Enéas Guerra, que também foi colaborador de Pierre Verger e com textos de José de Jesus Barreto.É o primeiro livro da trilogia Entre Amigos. Ele marcou a comemoração dos 20 anos da Fundação Pierre Verger.

Em dezembro desse mesmo ano foi lançado em Salvador, Caybé, Verger&Caymmi: Mar da Bahia, o segundo livro da trilogia, que tem como objetivo celebrar a arte e a grande amizade entre esses personagens que escolheram a “Boa Terra” e o jeito de viver de sua gente, como motivo e cenário para suas obras.

 * Hector Júlio Páride Bernabó, conhecido como Carybé, nascido no subúrbio de Lánus, em Buenos Aires, em 1911, de pai italiano e mãe brasileira; veio à Bahia pela primeira vez em 1938, estabelecendo-se definitivamente à partir de 1942. Caribé faleceu em 1° de outubro de 1997 aos 86 anos de idade. Durante a sua vida foi jornalista, ilustrador,  desenhista, pintor e escultor, deixando uma série de trabalhos que retratam aspectos culturais da Bahia.

Festa de Yemanjá na Bahia

 

 

“Quem desejar conhecer as grandes festas populares da Bahia – as mais belas festas populares do Brasil – que chegue a Salvador nos últimos dias de novembro e não tenha pressa de voltar. Vai conhecer todo um ciclo de festejos, em que a tradição ainda não morreu, a alma popular se expande com toda sua naturalidade e encontra um mundo dos mais ricos em pureza, em beleza, em poesia, em colorido. A cidade sabe entregar-se ao seu povo, sabe com ele fundir-se num só organismo, tornar-se como um único ser, cheio da mais completa vitalidade, da mais graciosa e perfeita comunhão.

Do último dia de novembro até oito de dezembro – o dia da Santa – temos a festa da Conceição da Praia. Logo após o Natal, Ano Bom, com a festa de Nosso Senhor dos Navegantes. E vem a seguir Reis, com os “ternos“; a festa do Bonfim, na “segunda dominga, depois da Epifania“, com o esplendor da igreja aliado aos festejos profanos, indo da lavagem do templo até a “segunda-feira da Ribeira“; a 2 de fevereiro, festa de Iemanjá, em vários recantos do Recôncavo, mas culminando no Rio Vermelho. O Carnaval, a Semana Santa, assistindo antes uma pesca do Xaréu. É programa não somente para o viajante despreocupado, mas também para o estudioso, que aproveitará os largos intervalos para conhecer mais de perto com as intimidades noturnas de suas ruas desertas – esta cidade, tão cheia de mistérios e sensualismo. Que não se perca um minuto da estrada na cidade mais cantada pelos poetas e compositores brasileiros. Há muita coisa que a Bahia tem e que não se mostra assim de primeira vista; também esta cidade gorda tem reservas para os eleitos, para os que não a desejam encontrar na primeira esquina, sorridente e fácil.”

TAVARES, Odorico. Bahia – Imagens da Terra e do Povo. 1951, p. 15.

 

O texto acima foi escrito por Odorico Tavares, nos anos 50. Algumas coisas mudaram na Bahia, mas o calendário das festas tradicionais populares continua o mesmo. Amanhã o bairro do Rio Vermelho estará em festa para saudar Yemanjá, a rainha do mar. Pescadores, artistas, turistas e o povo baiano, todos participam da festa e Dorival Caymmi compôs uma canção em homenagem à rainha do mar: Yemanjá:

 

2 de fevereiro

Dia dois de fevereiro
Dia de festa no mar
Eu quero ser o primeiro
Pra salvar Yemanjá

Eu mandei um bilhete pra ela
Pedindo para ela me ajudar
Ela então me respondeu
Que eu tivesse paciência de esperar
O presente que eu mandei pra ela
De cravos e rosas vingou

Chegou, chegou, chegou
Afinal que o dia dela chegou…

 

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Caminhada do Folclore de Feira de Santana – Cultura de Raiz

Milhares de pessoas coloriram as ruas centrais de Feira de Santana na manhã de domingo, 29 de agosto, durante a 11ª Caminhada do Folclore, evento realizado pela Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), através do Centro Universitário de Cultura e Arte (Cuca).

A Caminhada, que integra as comemorações do mês do folclore, tem o objetivo de colaborar para a manutenção da chamada “cultura de raiz” de Feira de Santana e região.

Cerca de 130 grupos folclóricos oriundos de Feira de Santana, Santo Amaro, Irará, Santa Bárbara, Anguera, Ipirá, Barrocas, Araci, Teodoro Sampaio, Conceião do Jacuípe, Água Fria, Serra Preta, Alagoinhas, Pedrão, Santo Estevão, Antônio Cardoso, Tanquinho e Salvador, participaram do evento.

A concentração organizada no Centro de Cultura Amélio Amorim partiu para o centro da cidade, com destino à avenida Getúlio Vargas. O público presente apreciou a apresentação de repentistas, aboiadores, maculelê, capoeira, reisado, caretas, forró pé de serra, bumba meu boi e quadrilha junina, dentre outras modalidades.

Inserida no Guia de Bens Culturais do Brasil, a Caminhada do Folclore, nesta edição, homenageou dois grupos que sempre prestigiaram a iniciativa: Lagoa da Camisa, de Feira de Santana, e Cara Pintada, de Lustosa, distrito de Teodoro Sampaio.

O evento é resultado do empenho da equipe do Cuca, dirigida pela professora da Uefs, Selma Oliveira. Foram parceiros na execução da Caminhada, a Prefeitura, o Sesc, a TV Subaé, e outros organismos públicos e privados da cidade. A idealizadora da Caminhada do Folclore, Tânia Augusta Pereira, também participou da organização do evento.

 Com informações da Ascom/Uefs.

Veja também o vídeo da décima Caminhada produzido pela TV Olhos d’Água, da Universidade Estadual de Feira de Santana, que mostra pequenos flagrantes do espetáculo cultural.

 

Coisas da Bahia – A Baiana do acarajé

 

A Baiana do acarajé : imagens do real e do ideal

(Parte I)

 Maria Lenilda David

 

“As crioulas da Bahia

Todas têm um certo quê…

Temperam a vida da gente

Como a moqueca de dendê”

(Quadrinha popular de domínio público)

Poetas, músicos e compositores brasileiros e originários de outros rincões dedicaram versos e canções à Bahia e aos seus personagens típicos, entre eles, “baianas”, capoeiristas e ialorixás. Além de “mãe do Brasil”, expressão mais corrente, a Bahia é identificada como a Boa Terra, Terra de Todos os Santos, Roma Negra e a Terra da Felicidade entre as designações mais freqüentes. A essas denominações são associadas imagens visuais inconfundíveis, como o casario colonial barroco do Pelourinho, a figura esbelta do tradicional elevador Lacerda e a imponência da “colina sagrada”, abrigando a majestosa Igreja do Bonfim. A imagem da “baiana”, no entanto, é aquela que está vinculada diretamente à imagem da Bahia como um todo e de Salvador em particular. Pode-se afirmar que a “baiana” é o símbolo baiano por excelência, imortalizada em telas, esculturas, fotografias, versos e canções[1].

Esse fenômeno merece, ao meu ver, ser discutido e analisado pois as imagens da cidade, e da “baiana”, uma trabalhadora urbana tradicional, alvo de homenagens e de versos arrebatados, oscilam entre a descrição idealizada e o pitoresco, encobrindo, na maioria das vezes, aspectos evidentes da realidade. A “baiana”, no entanto, será a personagem principal deste trabalho, por estar vinculada naturalmente ao espaço geográfico do estado e à paisagem da cidade e por representar traços fortes da vida baiana, como a mestiçagem, a religiosidade e as tradições culturais, além de representar, também, a sensualidade atribuída à Bahia (e a ela  própria), a terra do prazer e “de todos os pecados”, sensualidade evocada com freqüência através da dança, dos cheiros, e mesmo da comida que são caracterizadas como “quentes” e apimentadas. A “baiana” personagem-cúmplice da cidade, mestra na arte do feitiço e dos quitutes picantes que elabora e executa “sem parar de mexer”…

Meu objetivo é, por conseguinte, confrontar a “baiana ideal” alvo de galanterias e homenagens diversas, à “baiana real”, a trabalhadora urbana, no espaço geográfico da cidade do Salvador da Bahia de Todos os Santos, onde imagina-se que o deleite do prazer tropical sobrepõe-se à uma realidade marcada pelo trabalho e pela rotina.

Em contrapartida, a argumentação será exposta ao longo do texto, por acreditar que a compreensão será mais proveitosa, facilitando também a tarefa de situar a personagem focalizada no tempo e no espaço.

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Artigo publicado:

DAVID Maria Lenilda Carneiro S. A Baiana do acarajé : imagens do real e do ideal, Revista da Biblioteca Mário de Andrade, v. 57, São Paulo, jan./dez., 1999, p. 147-155.


[1] – Numa pesquisa que realizei entre 1994 e 1997, repertoriei cerca de novecentas canções com temas ligados à Bahia, entre as quais, cerca de trezentas dedicadas à “baiana”.

A Baiana do acarajé: Imagens do real e do ideal – Parte II

 

O percurso identitário da baiana

A vendedora ambulante foi parte integrante da paisagem brasileira e, principalmente, de cidades como Rio de Janeiro, Salvador e Recife no passado, embora essa tradição persista nos dias atuais, por ser uma atividade capaz de garantir a subsistência para uma parcela significativa da população de baixa renda, excluída do processo produtivo convencional. Esta vendedora ambulante, no entanto, segundo Pierre Verger,[1] desenvolveu no Brasil atividades que já lhe eram familiares na África e ele explica também, que, a partir de meados do século XVIII os africanos importados para a Bahia e Recife eram originários do golfo do Benin ou da Costa dos Escravos, enquanto que as outras regiões do Brasil continuavam a receber escravos do Congo e de Angola.

Segundo esse autor, esse pormenor tem importância fundamental visto que a procedência dos escravos desembarcados na Bahia contribuiu para a originalidade da vida local e para justificar porque a Bahia tem características diferentes de outras cidades brasileiras. Verger alerta ainda para o fato de que é imprescindível conhecer o espaço ocupado pelas mulheres da sociedade iorubá, na África, onde a organização da família nessa etnia é polígama, o que colabora para que a mulher desfrute de maior liberdade, em oposição às ligações monógamas. Estas mulheres são vistas apenas como progenitoras, capazes de preservar a linhagem familiar, não se integrando totalmente à família do marido, fato que lhes confere, também, uma certa independência. Nas sociedades nagô-ioruba, por exemplo, estas mulheres podem circular livremente e participar dos mercados das cidades vizinhas sendo, inclusive, boas comerciantes o que lhes permite amealhar somas consideráveis, até superiores àquelas ganhas por seus cônjuges.

Verger acrescenta que no Brasil existe uma situação análoga entre as mulheres de descendência africana, embora já não haja espaço para a grande família que gira em torno do pai polígamo. São as mulheres que mandam em casa e criam os filhos, geralmente de pais diferentes. E Verger conclui que, “elas vendem nos mercados e nas ruas, alimentos cozidos idênticos aos da África, tais como os acarajés”[2]… explicando que essas mulheres, descendentes dos nagôs preservaram o mesmo espírito de iniciativa do seu país de origem e as mesmas tendências dominadoras, tanto na família como nas suas relações com os outros. Essas observações permitem, em contrapartida, identificar características próprias das “baianas de acarajé” a trabalhadora das ruas da Bahia, que veremos no decorrer desse trabalho.

A venda ambulante de produtos diversos não é uma atividade recente; no passado, era uma atividade característica das escravas e libertas que, segundo Vilhena[3], era financiada pelos patrões, o que lhes garantia a liberdade de preços e a não interferência de terceiros em seus negócios. A atividade dessas vendedoras remonta, segundo vários pesquisadores à época colonial, quando as escravas de ganho se deslocavam pelas ruas das cidades com o objetivo de vender mercadorias diversas. Kátia de Queirós Mattoso[4] explica que no século XIX a maioria das mulheres brancas não exerciam atividades fora dos limites de suas casas; porém, quando eram obrigadas a reforçar o orçamento familiar, realizavam trabalhos de bordados, costuras e doces para serem vendidos nas ruas pelas ganhadeiras. Estas senhoras, oriundas das classes médias, não se expunham a vender o fruto do seu trabalho na rua, delegando essas tarefa às suas cativas,[5] que, exercendo essa atividade, conseguiam por vezes comprar a própria liberdade utilizando a quota de lucro que lhes cabia como recompensa do trabalho que executavam. Tânia Gandon,[6] num trabalho sobre a comunidade de Itapuã, recolheu preciosas informações, através da memória coletiva do bairro, sobre as antigas vendedoras de peixes, conhecidas também como ganhadeiras, mostrando a trajetória dessas mulheres, que foram, certamente, as predecessoras das baianas dos dias atuais.

 

As três baianas: personagens do passado, da rua e da canção

No sentido dicionarizado, a palavra baiana é identificada como “feminino substantivado do adjetivo baiano”, e como designação da “negra mestiça da Bahia, em especial a vendedora de quitandas, cuja indumentária consta de saia rodada, bata de renda, turbante, pano da costa, colares e balangandãs”. Um olhar sobre as fontes iconográficas que retratam as escravas do passado, confirma que a indumentária usada pelas vendedoras atuais quase não sofreu transformações e muitos testemunhos sobre a elegância dessas mulheres chegaram até nós através de viajantes e visitantes que percorreram as terras brasileiras[7].

Pierre Verger[8] esclarece que esse traje típico das mestiças baianas certamente seria originário das etnias nagô-ioruba,[9] cuja presença na Bahia do passado era considerável. Ele observa ainda que as pessoas dessa etnia africana vivem sobretudo em meio urbano, levando uma existência permeada de relações quotidianas, não só com vizinhos, mas também em encontros de caráter social nos mercados das cidades, atitudes que contrastam dos habitantes mais próximos do Daomé, onde a vida tinha, geralmente, um caráter rural; logo, a origem urbana da maioria dos escravos trazidos para a Bahia, poderia explicar o esmero no vestir das negras baianas que, ao que tudo indica, era mais evidente nessa cidade do que nas demais cidades brasileiras.[10]

Apesar de considerado como luxuoso e bonito, esse traje, no entanto, era peculiar às negras e mulatas, sendo utilizados ocasionalmente pelas brancas tidas como “sem sorte”, ou seja, pelas brancas pobres. Na realidade, ser uma “mulher de saia” – em oposição à “mulher de vestido”[11] – representava determinar simbolicamente a origem social dessas mulheres pertencentes às camadas pobres da população. Esta marca de distinção entre as camadas sociais não impediu, no entanto, à princesa real brasileira, Dona Isabel, de vestir-se de “preta baiana” num baile à fantasia realizado em 07 de fevereiro de 1865, em Londres, fato que foi comunicado por carta ao seu pai, o imperador Pedro II e que provocou surpresa e comentários da corte brasileira da época.[12]

Nina Rodrigues, descrevendo os usos e costumes das escravas baianas também faz alusão às roupas observando, por exemplo, que as trabalhadoras negras usavam saias largas e coloridas, batas de algodão e pano da Costa; as negras ricas, porém, acrescentavam ricos adornos à sua indumentária: as saias, nesse caso, eram de seda, a camisa de alvo linho e o pano da costa de rico tecido. Além disso, enfeitavam-se com braceletes de ouro que cobriam os braços até à metade e na cintura traziam uma penca de berloques com a imprescindível figa. Esses berloques são os famosos balangandãs, palavra que se tornou popular nos aos 30 graças à canção O que é que a Baiana tem?,[13] de Dorival Caymmi.

Segundo o historiador baiano Cid Teixeira a denominação “baiana” designando a vendedora ambulante é recente e ele explica que a sua geração, oriunda dos anos 20, não conhecia outra forma senão “crioula,” para designar a vendedora de pratos típicos daquela época. E ele acrescenta: “Ora, baiana ela já era, antes de qualquer coisa! Nós importamos a designação “baiana”, que era utilizada sobretudo no Rio de Janeiro.”[14] Em 1939, quando Dorival Caymmi, grava a canção A preta do acarajé,[15] que conquista um grande sucesso em todo o país, a vendedora que oferece os seus petiscos mercando em nagô, também não é identificada por Caymmi como a “baiana” e ele esclarece em o Cancioneiro da Bahia,[16] que aqueles versos faziam parte das lembranças da sua infância, quando escutava na rua em que morava, o canto triste da negra vendedora de acarajés: “ô acarajé ecô, olalaí ó[17]… tendo inclusive, conservado na canção que compôs as mesmas palavras e a mesma música do pregão.

Thales de Azevedo[18] em trabalho publicado em 1953, também discorre sobre o assunto o que reitera a declaração de Cid Teixeira. Eis aqui as informações do antropólogo baiano: “Aos filhos de africanos nascidos no Brasil, chamava-se de crioulos, termo ainda hoje aplicado na sua forma feminina às pretas e mulatas que se vestem como “baianas”, com torso à cabeça, saia muito ampla, camisa alva bordada e muito decotada e um chale de cores nos ombros… As crioulas típicas baianas são figuras típicas das ruas das cidades, onde podem ser vistas ao transitarem para os centros de culto fetichistas ou sentadas junto a tabuleiros em que expõem à venda, especialmente durante as festas populares, os manjares da famosa cozinha local, em grande parte de origem africana.

Existe porém, outra forma de designar as mulheres naturais da Bahia, extensiva às vendedoras das ruas da cidade, muito utilizada nos textos das canções; trata-se do substantivo iaiá, uma deformação da palavra senhora – sinhá – que no sentido dicionarizado “é um tratamento dado às meninas e às moças, de largo uso no tempo da escravidão e hoje quase abolido”.[19] Ora, sinhá, ou iaiá, era portanto a “senhorita” e não a escrava. O uso, entretanto, banalizou o termo, sendo o mesmo utilizado para expressar a naturalidade das filhas da Bahia, como forma de tratamento carinhoso e mesmo como diminutivo, quando utilizado como apelido, de uso freqüente ainda nos dias atuais, principalmente nas cidades do interior do estado. Certo é que o número de canções cujos versos fazem referência às “Iaiás da Bahia”[20] é extenso, sendo a forma utilizada também no masculino – ioiô. Em canções como O coco de Iaiá,[21] fica claro o propósito afetuoso: “Quero provar minha iaiá/ doce de coco açucarado”… Já em canções como Iaiá formosa,[22] Iaiá baianinha,[23] Iaiá, ioiô e a cuíca[24], Iaiá da Bahia[25] e Iaiá do Cais dourado[26], fica evidente a designação da mulher natural da Bahia, embora haja alusões à vendedora visto que o traje da baiana é evocado, da mesma maneira que algumas das especialidades culinárias locais preparadas por ela. Essas evocações parecem, no entanto, querer reforçar a imagem da “iaiá”, a filha da Bahia que usa saia rodada, bata rendada e sandália dourada, talvez conhecedora da cozinha típica, uma vez que a sua imagem é sempre associada a ela, mas sobretudo, exímia conhecedora dos segredos dos feitiços e requebros capazes de conquistar corações, como confirmam os versos da canção : “baiana é aquela que entra no samba de qualquer maneira, que mexe e remexe dá nó nas cadeiras e deixa a moçada com água na boca”…

Pode-se deduzir, no que concerne a indumentária e às denominações dadas à baiana que existe uma estreita afinidade entre os nomes – crioula e baiana – e a profissão dessas mulheres, ou seja, a de vendedoras ambulantes urbanas de comidas típicas, que se tornaram figuras obrigatórias das ruas da cidade, conquistado o status de símbolo da Bahia e até do Brasil.[27] Desse modo, a “crioula” e a “preta do acarajé”, do passado personificam a “baiana do acarajé” dos dias atuais, com algumas variantes do traje que as identifica e do comportamento, no que diz respeito às obrigações e preceitos de cunho religioso, pois nem todas as mulheres que exercem essas atividades, no presente, estão vinculadas ao candomblé, fato que era comum no passado.[28]

Quanto à iaiá, ela seria a “baiana ideal”, a imagem exótica do cartão postal, e da letra da canção popular, estereotipada e superficial, mas que tem boa aceitação junto ao público consumidor; a iaiá, na realidade, não tem traços afins com a baiana tradicional, a comerciante, trabalhadora de longas jornadas, capaz de enfrentar os desafios das intempéries e as dificuldades comuns àqueles que trabalham na rua.

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Artigo publicado:

DAVID Maria Lenilda Carneiro S. A Baiana do acarajé : imagens do real e do ideal, Revista da Biblioteca Mário de Andrade, v. 57, São Paulo, jan./dez., 1999, p. 147-155.


[1] – VERGER, Pierre Fatumbi. Artigos, São Paulo, Corrupio, Coleção Baianada, Vol. I, 1992.

[2] – VERGER, Pierre Fatumbi. A contribuição especial das mulheres ao candomblé do Brasil, in Artigos, op. cit. p. 98-101.

[3] – VILHENA, Luís dos Santos. A Bahia no século XVIII. Salvador, Itapuã, 1969, p. 237; citado por Tânia Gandon, Un parcours de femme dans la ville. L’Itinéraire de la ganhadeira dans la culture bahianaise, in Les femmes dans la ville – Un dialogue franco-brésilien, (Centre d’Etudes sur le Brésil), Presses de l’Université de Paris – Sorbonne, 1997, p. 65.

[4] – QUEIROS MATTOSO, Kátia. Bahia, século XIX – Uma província no Império, 2a ed., Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, p. 536. 

[5]QUEIRÓS MATTOSO, Kátia. História da vida privada no Brasil (coleção dirigida por Fernando A. Novais, vol. organizado por Luís Felipe de Alencastro), São Paulo, Companhia das Letras, 1997, p. 163.

[6] – GANDON Tânia. Un parcours de femme à travers la mémoire de la ville – L’itinéraire de la ‘ganhadeiras’ dans la culture bahianaise, in Les femmes dans la ville, un dialogue franco-brésilien, Centre d’Etudes sur le Brésil, Presses Universitaires de Paris – Sorbonne, 1997.

[7] – São muitos os comentários sobre a elegância das negras baianas, deixados por viajantes estrangeiros, entre eles, BARBINAIS Le Gentil de la. Voyage autour du monde, Paris, 1728, Tomo III, p. 203; AVE-LALLEMENT Robert. Viagem pelo norte do Brasil, Rio 1961, Tomo I, p. 21: WETHERELL James. Notes from Bahia, Liverpool, 1860, p. 72. Citados por Pierre Verger, in Artigos, Ed. Corrupio, Coleção Baianada, São Paulo, 1992.

[8] – VERGER Pierre Fatumbi. A origem africana da elegância das mulheres negras da Bahia, in Artigos, op. cit, p. 106-107.

[9] – Existe uma polêmica em torno da origem do traje da baiana; alguns autores atribuem a sua origem ao Daomé, divergindo deste pesquisador.

[10] – Por volta de 1830, Debret assinalava que « com as perturbações políticas ocorridas na Bahia em 1822, verificou-se uma grande imigração de trânsfugas… elas distinguiam-se pela sua ‘toilette’. As negras da Bahia reconhecem-se facilmente pelos seus turbantes e ela largura dos seus lenços de seda; quanto ao demais do vestuário, ele é composto por uma blusa de musselina bordada, sobre a qual elas colocam uma baeta bordada cujas riscas caracterizam o fabrico da Bahia. O valor da blusa e a quantidade das jóias em ouro são os principais objetos da sua coqueteria” .DEBRET Jean-Baptiste. Voyage pittoresque au Brésil, Paris, 1834, Vol. II, p. 223.

[11] – VIANNA, Hildegardes. A Bahia já foi assim, 2a ed. São Paulo, GDR / Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1979, p. 146, citado por Tânia Gandon, op. cit. p. 66.

[12] – AULER Guilherme. « A Redentora e o Recife », Arquivos 21, 47 e 84, Secretaria de Educação e Cultura, Recife, 1925-1965, citado por Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do folclore brasileiro, Rio de Janeiro, Ediouro, 1972, p. 126.

[13]O que é que a baiana tem ? Canção de Dorival Caymmi, gravada pelo autor em parceria com Carmen Miranda, disco Odeon 11.710a, em 1939.

[14] – Cid Teixeira concedeu-me uma entrevista, que foi devidamente registrada em fita cassete, no dia 7 de agosto de 1996 em seu escritório no bairro da Pituba em Salvador, entre 9h e 13.30h.

[15] – A preta do acarajé – Música e letra de Dorival Caymmi, disco Odeon n° 11710b, gravada em 1939 e cantada pelo autor e por Carmen Miranda. “Dez horas da noite / Na rua deserta / A preta mercando / Parece um lamento… (Iê abará) Na sua gamela / Tem molho cheiroso, Pimenta-da-costa / Tem acarajé – Todo mundo gosta de acarajé / O trabalho que dá pra fazer é que é / Todo mundo gosta de acarajé – Todo mundo gosta de abará / Ninguém quer saber o trabalho que dá / Todo mundo gosta de abará / Todo mundo gosta de acarajé… Dez horas da noite / Na rua deserta / Quanto mais distante / Mais triste o lamento (Iê abará)”

[16] – CAYMMI Dorival. Cancioneiro da Bahia, prefácio de Jorge Amado, 5a ed., Rio de Janeiro, Record, 1978, p. 160.

[17] – O pregão das vendedoras ambulantes das ruas da Bahia era cantado em iorubá; “ô acará jê ecô”, que significa “vem comer acará”; à palavra acará acabou sendo incorporado o verbo “jê” – comer – resultando hoje em acarajé. Esclarecimento de Cid Teixeira em entrevista concedida à autora em 07/08/96.

[18] – AZEVEDO, Thales. As elites de cor numa cidade brasileira : um estudo de ascensão social & classes sociais e grupos de prestígio, apresentação e prefácio de Maria de Azevedo Brandão, 2a ed., Salvador, EDUFBA – EGBA, 1996, p. 37; título original da 1a edição, Les élites de couleur dans une ville brésilienne, Paris, UNESCO, 1953.

[19] BUARQUE DE HOLANDA, Aurélio. Dicionáriio da Língua Portuguesa, Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1979, p. 254. Verbete: iaiá -  (ià-iá)[De sinhá.] – S. f. Bras. Fam. 1. Tratamento dado às meninas e às moças, de largo uso no tempo da escravidão e hoje quase abolido; nhanhá, nhanhã, nanã.

[20] – Repertoriei cerca de oitenta canções onde são encontradas as palavras iaiá e ioiô.

[21]O coco de Iaiá, composição de Américo Jacomino, cantada por Pilé, disco n° 10.015a, Odeon, 1927.

[22] – “Que iaiá formosa / teu ioiô eu hei de ser… Com sandália cor de ouro / Saia cheia de babado / Oh baiana és um tesouro, quando dança o requebrado”… Iaiá formosa, samba de A de Souza Rego, cantada par Silvio Pinto, disco Colúmbia, N° 22.260, 1934.

[23] – “Iaiá baianinha, pimenta de cheiro,/ Cheirando a leite de coco, arruda e manjericão / Machuca, machuca meu coração / Sacode mulata a saia engomada”… Iaiá baianinha – Humberto Porto, cantada pelo Trio de Ouro ; disco Odeon n° 11.611a, 1938.

[24] – “-Pimenta de cheiro, com vatapá!/ -Pra quem iaiá?/ -Pra você ioiô”… Iaiá, Ioiô e a cuíca –Fausto Vasconcelos e F. Martins, cantada em dupla por J. B. de Carvalho e Nena. Robledo, disco Odeon n° 11.882a, gravado em 1940.

[25] – “Iaiá da Bahia chegou/ Batuque não pode parar/ Levanta a poeira do chão/ Bate surdo o pandeiro e o ganzá“…Iaiá da Bahia. Ary Barroso, cantada por Deo, disco Sinter n° 00000080a, 1951.

[26] – « No cais dourado da velha Bahia/ Onde estava o capoeira/ a Iaiá também se via / Juntos na feira ou na romaria, no banho de cachoeira e também na pescaria/ dançavam juntos em todo fandango e festinha »…Iaiá do Cais Dourado, samba-enredo de Martinho da Vila e Rodolfo de Souza, apresentado pela Escola de Samba Vila Isabel no  carnaval de 1969, gravado pelo selo Arabela BMG, disco n° 60034335, 1972.

[27] – O samba exaltação que ocupa um lugar de destaque na música popular dos anos 30-40, canta o Brasil e sua natureza, sua riqueza, suas mulheres e tradições, focalizando na Bahia através da imagem de Carmen Miranda e com a ajuda dos baianos, uma série de valores ideológicos que são sistematicamente exploradas para a propaganda do Brasil no exterior, sendo inclusive, incentivados pelo DIP, enquanto o Brasil escuta ao pé do rádio, as proezas do Brasil mulato e da baiana de saia rendada. A este respeito, consultar: Música – O nacional e o popular na cultura brasileira, Enio Squeff e José Miguel Wisnik, São Paulo, Brasiliense, 1982; Afonso Romano de Santana, Música popular e moderna poesia brasileira, Petrópolis, Vozes, 1986.

[28] – Sobre as práticas e preceitos religiosos das “baianas de acarajé”, ver LODY, Raul. Santo também come, 2a ed. Rio de Janeiro, Editora Pallas, 1998. (Prefácio de Gilberto Freyre para a 1a edição (1978) e de Maria Stella de Azevedo (Mãe Stella, do Axé Opô Afonjá), para a 2a ed.

A Baiana do Acarajé: imagens do real e do ideal

 

 Parte III (Final)

A “baiana” no cenário da cidade

 

Em Bahia, imagens da Terra e do povo,[1] coletânea de crônicas publicadas originalmente na revista O Cruzeiro, Odorico Tavares, no capítulo dedicado à cozinha baiana, lamenta a escassez de bons restaurantes na cidade no início dos anos 50, elogia a cozinha das casas tradicionais e aconselha ao visitante que, não podendo usufruir de uma refeição em uma residência local de cozinha afamada, a procurar os restaurantes no Mercado Modelo, advertindo ainda: se o viajante “não é muito exigente e está entusiasmado pelo pitoresco, em muito pé de escada, nas Laranjeiras e no Pelourinho, encontrará quem faça uma moqueca bem feita”. Elogia as “baianas” Odília, “que vende a melhor cocada preta da Bahia” e Vitorina, instalada em frente ao bar “Anjo Azul”, no Cabeça, cujo acarajé “é o que há de melhor”. Pela descrição de Odorico Tavares presume-se que o número de baianas era expressivo e que as mesmas podiam ser encontradas facilmente em vários pontos da cidade: “Também em frente ao Elevador Lacerda , nas feiras populares, há quituteiras que fazem ótimos acarajés… No terreiro de Jesus, à tarde ou à noite, também se encontram ‘baianas’ sentadas à beira dos passeios, com suas vestimentas próprias, sua higiene impecável, preparado seus quitutes para boêmios, para transeuntes, altas horas da noite”[2].

Foto:   Everaldo Luis

Se a economia baiana havia atingido no início da década de 50 o máximo da letargia na qual mergulhara há quase 100 anos, a criação da Petrobrás representou o marco de uma nova era.

A “vocação turística” da cidade passou a ser explorada pela administração estadual e municipal, a implantação do Centro Industrial de Aratu alimentou os sonhos de modernidade de grande parte da população que via na chegada do progresso, a saída para as suas dificuldades e do ponto de vista cultural, o Reitor da Universidade Federal da Bahia, Edgard Santos, vai representar o grande passo para a realização de projetos extraordinários na área cultural.

O surto de transformação da economia estadual então deflagrado, como não poderia deixar de ser, e que se estendeu até as décadas de 60 e 70 com a implantação do Centro Industrial de Aratu, alcançou a cidade e sua Região Metropolitana, marcando-as profundamente.

Nessa época, opulência e pobreza, subdesenvolvimento e modernidade, exibiam-se insolentemente. Definitivamente, Salvador mudava de aspecto a partir da aventura industrial e da implantação dos projetos de modernização. Grandes cadeias de lojas passaram a dominar o setor comercial, que também deslocou-se do Centro Histórico para a região da Pituba e para as novas avenidas. Os shoppings centers recém instalados conquistaram a população que podia fazer compras sem se expor às dificuldades comuns do antigo centro da cidade. Tudo mudou, a cidade transformou-se e o setor turístico também recebeu um impacto muito grande à partir de então. Segundo Scheinowitiz,[3] a cidade antiga com estruturas arcaicas, a primeira cidade fundada na Terra de Santa Cruz, a Salvador das ruas estreitas e sinuosas, a cidade da poesia e do langor, a sonhadora e a mística, entra de vez no ritmo célere da modernização e um exército de operários fura os morros, cava túneis e constrói viadutos.

Em oposição à esse surto de modernização a sociedade brasileira, segundo Prandi[4] participará ativamente de um projeto de recuperação das origens que remete diretamente à Bahia. Valoriza-se a cultura negra, sobretudo a cultura negro-baiana e essa mudança de rumos seria determinada pelas classes médias, ou seja, pela intelectualidade brasileira de maior legitimidade dos anos 60. Além disso, da modernidade da Bossa Nova à Tropicália, os baianos lideram os movimentos renovatórios da música popular brasileira. A Bahia ganha espaço na mídia, fala-se do Cinema Novo e da literatura de Jorge Amado; as ialorixás são homenageadas por artistas em evidência no cenário artístico nacional. E as “baianas”? Que espaço elas ocupam no cenário “novo” da cidade?

Até 1975, as notícias que evocam a “baiana de acarajé” fazem referência, principalmente, à sua participação no cortejo da lavagem do Bonfim, aspergindo com água perfumada as cabeças dos políticos em voga. Em 1975, no entanto, publica-se matéria com o seguinte título: Baiana do acarajé será cadastrada pela prefeitura.[5] O texto inclui declarações de Waldeloir Rego, diretor do Departamento do Folclore, Festas Populares e Esportes da Prefeitura Municipal do Salvador, entidade fundada em 1973, justificando a medida como necessária para a preservação dos valores culturais, além de garantir um produto de qualidade, pois algumas baianas inescrupulosas estavam adulterando a massa do acarajé, acrescentando à mesma, farinha de mandioca e de milho, o que alterava o sabor e a consistência dessa iguaria.

Em julho de 1977[6], aparecem números oficiais da prefeitura de Salvador, mais precisamente do Departamento do Folclore, Festas Populares e Esportes da Prefeitura Municipal do Salvador, informando que cerca de quinhentas “baianas” estavam cadastradas nesse organismo[7] e que as inscrições isentavam as interessadas do pagamento de taxas, “exigindo-se apenas que a cadastrada vista-se de acordo com a tradição e que mantenha rigoroso asseio pessoal, como também dos seus objetos de trabalho.” O mesmo jornal, em reportagem do mês de setembro do mesmo ano, publica nova matéria sobre o tema cujo título, Prefeitura não exigirá das “baianas” o traje típico,[8] deixa claro que houve reação das “baianas” com relação às medidas impostas pelo órgão público. A declaração é da senhora Sônia Garrido, diretora da Divisão de Folclore, fato que demonstra que a entidade responsável pela medida não era mais a mesma e que a sua direção havia mudado. Informa-se também que há cerca de seiscentas baianas cadastradas e que metade delas vendem iguarias em cumprimento à obrigação do candomblé apresentado-se devidamente trajadas com a indumentária tradicional, em obediência aos preceitos da crença.

A partir de 1978 a Federação do Culto Afro-Brasileiro assume a responsabilidade do cadastramento e fiscalização das “baianas.” Porém, no início do mesmo ano, a reportagem tendo como título Baianas condenam discriminação religiosa na vendagem de comidas típicas,[9] denuncia a pretensão da entidade de afastar as vendedoras que não fossem filiadas ao candomblé e vinculadas a um terreiro. Houve protestos da maioria das vendedoras de comidas típicas que, indignadas, justificavam: “quem trabalha com tabuleiro é porque precisa de uma ocupação para garantir o seu sustento e da sua família, independente da seita ou religião a que pertença.” Mesmo as baianas vinculadas ao candomblé se mostraram descontentes com a entidade por considerá-la injusta, discriminando as “baianas” não adeptas do candomblé, num desrespeito à liberdade religiosa garantida por lei. Os objetivos da entidade não foram adiante e até novembro de 1998 ela foi a responsável pelo cadastramento, fiscalização e concessão de “pontos” para as “baianas de acarajé” de Salvador.

Em 1982 é criado o “Dia da Baiana,”[10] promoção da Bahiatursa, órgão oficial de turismo do estado, tendo sido escolhido o dia 25 de novembro para os festejos e homenagens. As comemorações do dia da baiana repetem-se a cada ano, com missa festiva na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no Pelourinho, café da manhã, apresentações de sambas de roda, cânticos, sorteios e distribuição de prêmios entre as participantes. Segundo as reportagens dos jornais locais,[11] esta festa conta com a participação de baianas idosas e jovens, algumas com mais de cinqüenta aos de profissão, todas elas vestidas à rigor, exibindo suas mais belas indumentárias. Além disso são muitos os testemunhos destas mulheres que não poupam comentários sobre as dificuldades os prazeres nas duras jornadas de trabalho que começa, em geral, nas primeiras horas do dia, quando a maior parte da população ativa ainda dorme.

O título da matéria que anuncia a criação do “dia da baiana”, não necessita de explicações para que se possa entender as razões que motivaram a Bahiatursa a criar essa data festiva homenageado as trabalhadoras urbanas mais famosas da Bahia. No texto, a explicação é clara: “Com o objetivo de valorizar e estimular a figura da baiana típica, que através do seu trabalho difunde a culinária, a cultura e os costumes dos baianos, a Bahiatursa instituiu o dia 25 de novembro como o ‘Dia da Baiana do Acarajé’, quando será desenvolvida uma intensa programação nos principais centros emissores do fluxo turístico para o estado da Bahia.” A programação em questão visava atrair turistas de outras cidades brasileiras, principalmente Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Brasília e Recife. “O vôo da Baiana” deu início à programação e sete baianas típicas embarcavam em companhias aéreas com destinação prevista para as capitais mencionadas acima, distribuindo entre os passageiros fitas do Senhor do Bonfim, programas anunciando os eventos festivos do verão baiano. Durante o vôo os passageiros escutavam canções cujos temas versavam sobre a própria baiana e na cidade de destino elas eram recebidas por uma personagem típica local. À noite era oferecido um coquetel à imprensa, às autoridades, aos diretores de agências de turismo e viagens, onde saboreava-se acarajés e batida de limão, havendo distribuição de brindes e folhetos promocionais. Esta programação foi repetida durante alguns anos, na mesma época, garantindo o sucesso das programações turísticas idealizadas pela Bahiatursa. No aeroporto de Salvador, nas saídas dos desembarques nacionais e internacionais, “baianas” distribuíam fitinhas do Bonfim aos passageiros, enquanto conjuntos de samba batucavam alegremente, despertado a curiosidade dos viajantes que desembarcavam na cidade, mesmo em plena madrugada.

Muitas coisas mudaram nestes últimos anos. Convidar “baianas” para servir iguarias nas festas refinadas e oficiais, tornou-se comun. Os jornais do Sul publicam reportagens sobre as “baianas.”[12] Até uma delicatessen[13] de Salvador, especializada em produtos finos, adotou o acarajé como chamariz para a clientela, vendendo em média cerca de seiscentos acarajés por tarde, que são confeccionados pelo setor de produção e não pela “baiana” que serve o petisco, como acontece habitualmente. Os acarajés são expostos em tabuleiros elétricos, permanecem quentes pois são conservados em banho-maria e cada compartimento apresenta uma iguaria diferente “sem aquela miscelânea que se pode observar nos tabuleiros tradicionais”. A “baiana”, é jovem, meiga e bonita tendo sido escolhida pela gerência do estabelecimento comercial para exercer a função. Uma experiência que deu certo, segundo os idealizadores.

Enquanto isso, algumas “baianas de acarajé”, como Cira[14] e Dinha,[15] estabelecidas respectivamente no Rio Vermelho e em Itapuã, chegam a comercializar mil acarajés por dia, durante a semana e mil e quinhentos acarajés diários nos fins de semana. Cira por exemplo tem uma rede de distribuição em vários pontos da cidade. As garçonetes fardadas servem os petiscos mediante fichas vendidas num caixa especial. Dinha, em contrapartida, tem um celular para atender os pedidos dos “clientes vips” e transporta o seu material de trabalho em carro de sua propriedade e é convidada com frequência para participar de eventos no sul do país.

Cursos de higiene alimentar (o primeiro realizado em 11 de abril 1992),[16] são oferecidos a cada ano. Surgiram associações, entre elas a ABA – Associação das Baianas de Acarajé, fundada em 1992,[17] contando com mil e duzentas associadas em 1998, entre as quatro mil vendedoras de comidas típicas trabalhando na região metropolitana do Salvador.

Já é possível comprar acarajés a quilo e sob encomenda e muitas baianas, que modernizaram, inclusive, o tabuleiro, aceitam vales de transportes como pagamento e oferecem um refrigerante gratuito na compra de um acarajé.[18] Em contrapartida, pode-se ler reportagens com título provocador – “’Baianas empresárias’ esquecem tradição.”[19]

Finalmente, a briga entre Dinha e Regina pela disputa da clientela no Largo de Santana no Rio Vermelho ocupou a primeira página da imprensa local[20] sendo notícia até no Jornal Nacional da Globo. Em razão dessa disputa a prefeitura, através da Secretaria de Serviços Públicos – SESP, chamou para si a responsabilidade pelas baianas. Em 25 de novembro de 1998, foi assinado pelo prefeito de Salvador, Antônio Imbassahy, decreto regulamentando, pela primeira vez na história do município, o uso e a ocupação do solo.[21] As “baianas” terão um prazo de um ano para adotar as novas normas. Foi criada uma taxa destinada ao licenciamento para a exploração do comércio de iguarias, devendo a mesma ser renovada anualmente, haverá padronização do equipamento e obrigatoriedade do uso do traje típico.

Foto: Lucila Moreira

OBSERVAÇÕES FINAIS

Apesar do romantismo que envolve a “baiana,” – não só pelo carisma dessa personagem que conquistou a simpatia de baianos e brasileiros e que soube preservar ao longo dos tempos traços marcantes da cultura da Bahia, no mundo moderno e com a “globalizaçao” invadindo os mais recônditos rincões do planeta, a sua imagem poderia ser interpretada como irreal e ultrapassada. Essa baiana nostálgica lembra a Salvador do passado, escondendo mistérios nas ruelas estreitas.

A cidade e a baiana mudaram de fisionomia e de hábitos, modernizaram-se. As ladeiras do Pelourinho também já não escondem mistérios e segredos, estão iluminadas e policiadas. A “baiana” idealizada, a mulher-desejo percebida através dos cheiros, pelo paladar, pela sedução e da dança rica de meneios e requebros já não encanta tanto. Mas baianas como a Odilia e a Vitorina da época de Odorico Tavares existem ainda. A “baiana” personificada por Verger, capaz de enfrentar desafios e de transpor obstáculos pode ser encarnada pela maioria das “baianas”, sejam elas modestas, ou empresarias promissoras, sobretudo a mulher trabalhadora que enfrenta a rua carregando tabuleiro, fogareiro e a matéria prima para a confecção dos pratos, ferramentas do seu trabalho quotidiano, necessárias às solicitações mais elementares da família.

A “baiana de acarajé” das ruas da cidade do Salvador tornou-se personagem pública, real e imaginária, uma mulher trabalhadora e uma escultura simbólica feita de versos rimados e de lembranças saudosas, sobre um fundo permanente de precariedade social e econômica.

 

Artigo Publicado:

DAVID Maria Lenilda Carneiro S. A Baiana do acarajé : imagens do real e do ideal, Revista da Biblioteca Mário de Andrade, v. 57, São Paulo, jan./dez., 1999, p. 147-155.

 


[1] – TAVARES Odorico, Bahia, Imagens da terra e do povo, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1951, p. 131- 140.

[2] TAVARES Odorico, Bahia, imagens da terra e do povo, op. cit. p. 137.

[3] – Scheinowitiz, A.S., O macroplanejamento da aglomeração de Salvador, Salvador, Secretaria da Cultura e Turismo, EGBA, 1998.

[4] – PRANDI, Reginaldo. As religiões negras do Brasil, in Dossiê povo negro – 300 anos, Revista da USP , Coordenadoria de Comunicação social, Universidade de São Paulo, N° 1 (mar./mai. 1989, p. 74.

[5] – Jornal A Tarde, 16/07/1975 “Baiana do acarajé será cadastrada pela prefeitura. »

[6] – Jornal A Tarde, 8/07/1977, « O que é que a « baiana » tem ?, texto de Marcos Luedy..

[7] – Lista dos principais « pontos », com o número de « baianas » em suas zonas específicas : Avenida Sete de Setembro, 15 ; Amaralina : 14 ; Nazaré : 18 ; Baixa dos sapateiros : 17 ; Barroquinha : 27 ; Brotas : 16 ; Comércio :81 ; Estação Rodoviária :12 ; Itapuã : 84 ; Praça da Sé : 17 ; Terreiro de Jesus : 11 ; Vila Olímpica : 10

[8] – Jornal A Tarde, 05/09/77.

[9] – Jornal A Tarde, 31/07/1998.

[10] – Dia da « baiana do acarajé » para estimular o turismo », Jornal A Tarde, 21/11/1982.

[11] – “Baiana” tem paz de espírito e esperança, Jornal A Tarde, 26/11/83; Cidade homenageia baianas do acarajé com muito samba, Correio da Bahia, 24/11/85 ; Dia de festa para asbaianas”, A Tarde, 25/11/89; Percussão afro dá ritmo à missa no dia da baiana, Correio da Bahia, 26/11/1992; Profissão de féBaianas de acarajé fazem festa no Pelourinho, Correio da Bahia, 2/11/97; Hoje é dia da « baiana do acarajé » festejar, Jornal A Tarde, 25/11/97; Missa para homenagear as baianas revela sincretismo, A Tarde, 26/11/98;

[12] – Raimunda quer vender acarajé na praça – Acervo do Norte. Diário da Noite, São Paulo, 29/08/70; Baiana: em cada banca um mistério, Raul Lody, Jornal Última Hora, Rio de Janeiro, 10/05/80; Algumas das « baianas » mais conhecidas de Salvador, O Globo, 30/05/91.

[13] Delicatessen invadida por baiana de acarajé, Jornal A Tarde, 04/02/96.

[14] – Cira dá mais o que falar na briga entre as baianas., A Tarde, 17/11/98.

[15] – Imperatriz do acarajé – Grife do dendê, Correio da Bahia, 29/03/96.

[16] – « Baianas concluem curso sobre noções de higiene » Jornal A Tarde, 11/04/92. Das 2.067 baianas cadastradas pela Federação do Culto Afro Brasileiro, 538 baianas inscreveram-se no curso oferecido pela Secretaria de Saúde da Prefeitura do Salvador.

[17] – Entidade quer organizar « baianas” Jornal A Tarde, 16/10/98.

[18] – Baiana de acarajé inova para vencer concorrência, Jornal A Tarde, 13/11/96.

[19] – Reportagem publicada no Jornal A Tarde em 27/09/97, denunciando o marketing e as novas técnicas de comércio como responsáveis pela descaracterização da « baiana do tabuleiro » tradicional.

[20] – « Guerra do acarajé » na disputa de ponto no Largo de Santana, A Tarde, 16/10/98 ; Baiana vai à justiça para ficar no Largo de Santana, A Tarde, 21/10/98 ; Regina mantém –tabuleiro próximo ao de Dinha no Largo de Santana, A Tarde, 22/10/98 ; Novela das baianas pode render novos capítulos, A Tarde, 24/10/98; Guerra das baianas esquenta, Correio da Bahia, 24/10/98.

[21] – Decreto acaba com a guerra do acarajé em Salvador, A Tarde, 25/11/98.

Itaparica – Uma ilha na Baía de Todos os Santos

Foto: Lenidavid

Vista parcial da Ilha de Itaparica

Visitei a Ilha de Itaparica pela primeira vez no final dos anos 70, num feriado prolongado do 07 de setembro. Éramos um grupo de aproximadamente 9 amigos, todos jovens; atravessamos a Baía de Todos os Santos numa barca, embora o ferry-boat já permitisse a travessia entre Salvador e a Ilha. Ficamos hospedados na casa dos pais de um dos amigos, em Mar Grande, que na época era uma vila sossegada. À noite, com a lua cheia iluminando o mar, íamos para a praia tocar violão e cantar, para a lua e para Salvador, que nos espiava do outro lado da baía. Aquelas imagens permanecem vivas na minha memória e lembro-me com muita saudade daquele tempo feliz e despreocupado, tempo bom em que se dormia com as janelas abertas ouvindo o marulhar das ondas embaladas pela brisa. Daí em diante, sempre que pensava em passeio, em férias, ou simplesmente em me oferecer paz e beleza, pegava a sacola e rumava para a Ilha.

Fonte: Google

Acontece que os tempos mudaram; a Ilha de Itaparica, que foi descoberta em 1º de novembro de 1501 por Américo Vespúcio, também mudou, não é mais a mesma.

Os terrenos próximos às praias calmas da costa atlântica, habitadas sobretudo por pescadores, foram comprados para especulação imobiliária e vendidos para a construção de condomínios fechados, em nome do progresso; como diz João Ubaldo Ribeiro, “um progresso que acabou com o comércio local; que extinguiu os saveiros que faziam cabotagem no Recôncavo; que ao fim dos saveiros juntou o desaparecimento dos marinheiros, dos carpinas, dos fabricantes de velas e toda a economia em torno deles”… Com o “progresso”, também a violência se instalou, facilitada pelo acesso fácil e pela inoperância do policiamento local. Agora dizem que vão construir uma ponte, mas como diz, ainda, João Ubaldo, “esse progresso é na verdade uma face de nosso atraso. Atraso que transmutará Itaparica num ponto de autopista, entre resorts, campos de golfe e condomínios de veranistas, uma patética Miami de pobre. E que, em lugar de valorizar o nosso turismo, padroniza-o e esteriliza-o, matando ao mesmo tempo, por economicamente inviável, toda a riqueza de nossa cultura e nossa História”.

A Ilha de Itaparica fica a 13 km de Salvador e é a maior das 56 ilhas da Baía de Todos os Santos. Além da importância histórica e singularidade geográfica, ela possui um conjunto arquitetônico dos mais aprazíveis, praias de águas mornas, cultura rica e diversificada, artesanato próprio e culinária das mais apreciadas. Ela tem como vias de acesso, os ferries-boats, as barcas, e uma ponte, na contra-costa, que a liga ao continente.

Fonte: ilhadeitaparica.com

Fonte: ilhadeitaparica.com

A Baía de Todos os Santos é a maior e uma das mais belas da costa brasileira. Sua ilhas, com praias e vegetação tropical, guardam monumentos de grande valor histórico e encantam os nossos olhos com o seu cenário, pontilhado de igrejas e capelas, fortalezas e belos solares. Nos séculos XVII e XVIII, ela foi o maior porto marítimo do Hemisfério Sul. Além de abrigar 56 ilhas, ela recebe as águas doces de inúmeros rios e riachos, tem como paisagem de fundo a cidade do Salvador, a primeira capital do Brasil.

Foto: Leni David

Foto: Leni David

Itaparica foi emancipada de Salvador em 1833, mas só foi elevada à condição de cidade no século XX (1962); A Ilha abriga dois municípios: Itaparica e Vera Cruz. O município de Itaparica administra os povoados de Porto Santo, Manguinhos, Amoreiras e Ponta de Areia; Vera Cruz, por sua vez, tem Mar Grande como sede e conta com os povoados da Penha, Barra do Gil, Coroa, Baiacu, Barra do Pote, Conceição, Barra Grande, Tairu, Aratuba, Berlinque e Cacha Prego. A sua extensão é 246 km² e nela vivem cerca de 50.000 habitantes.

Uma das riquezas do município de Itaparica é a Fonte da Bica, fonte de água hidromineral, com características hipotermal e radioativa. Passou a ser considerada Estância Hidromineral em 1937. Ela está localizada no centro da cidade, onde as pessoas se abastecem gratuitamente, numa bela praça sombreada, e que guarda recantos de grande beleza.

Foto: Leni David

"Eh! água fina, faz véia virá minina!"

Foto: Leni David

Um pouco de História

Os índios Tupinambás foram os primeiros habitantes do lugar, daí a origem do seu nome, Itaparica, que significa “cerca feita de pedras”, talvez em razão da barreira de arrecifes naturais voltada para o Atlântico, de aproximadamente 15 km de extensão, o que permite a formação de piscinas naturais de águas mornas e calmas, viveiro natural de polvos, lagostas e mariscos. A maioria destas praias tem águas rasas, mansas e mornas.

Foto: Leni David

Mas o povoamento da ilha nasceu na contra-costa, com a criação pelos Jesuítas, em 1560, de um pequeno povoamento onde hoje se localiza a vila de Baiacu, então denominada Vila do Senhor da Vera Cruz. Ali foi erguida, na mesma época, a primeira igreja da Ilha de Itaparica (2ª matriz do Brasil) em homenagem a Nosso Senhor de Vera Cruz, o que justifica também a origem do nome do município (Vera Cruz). Dessa igrejinha restam as ruínas, sustentadas por uma imensa gameleira.

Foto: Leni David

Foto: Leni David

Pôr-do-sol em Baiacu

Pôr-do-sol em Baiacu

Os religiosos também iniciaram ali, as culturas de trigo e cana-de-açúcar, além da criação de gado bovino. A pesca de baleias foi a sua segunda atividade econômica, chegando mesmo a ser explorada, entre os séculos XVII e XVIII, em escala industrial. Também proliferaram as destilarias e as fábricas de cal, que no século XIX, eram cerca de nove. Nesse período foram construídos sobrados senhoriais, existentes ainda nos dias atuais, e que hospedaram os imperadores Pedro I e Pedro II.

Quando da fundação da Vila do Senhor da Vera Cruz, hoje Baiacu, sob a orientação dos padres jesuítas, foi construída no local a primeira obra de engenharia hidráulica da então colônia, uma barragem para o abastecimento de água potável. Foi também em Itaparica, no engenho de Ingá-Açu, que se implantou a primeira máquina a vapor em terras brasileiras. A Ilha de Itaparica foi também local importante de construções navais. Nos seus estaleiros foi confeccionada e montada a primeira quilha da Marinha no Brasil e com o passar dos anos, os barcos e saveiros que embelezavam a Baía de Todos os Santos. Nesta época também existiam 5 destilarias de aguardente, além de fábricas de cal (nove, em meados do século XIX). Porém, a maior atividade econômica da Ilha foi a pesca da baleia, e em razão disso, ficou conhecida como Arraial da Ponta das Baleias. Rica e próspera, em 1763, a Ilha de Itaparica foi incorporada aos bens da coroa.

Foto: Leni David

Os registros históricos sobre a Ilha dão conta de inúmeros eventos, entre eles, em 1510, a vinda do navegador português Diogo Álvaro Correia, o “Caramuru” que, enamorado da índia tupinambá, Paraguaçu, filha do cacique Taparica, desposou-a. Em 1597, a ilha foi invadida pelos ingleses e entre os anos de 1600 e 1647 ela foi invadida pelos holandeses, que chegaram a construir uma fortaleza, o Forte de São Lourenço, hoje no centro do município de Itaparica e em excelente estado de conservação, ponto de atração turística e ponto de encontro de jovens e boêmios.

Foto: Leni David

Lenda Indígena

Conta-se, segundo a lenda indígena tupinambá, que no começo do mundo, um majestoso pássaro de plumas brancas alçou vôo do centro do universo e seguiu dias e noites sem parar, à procura do paraíso para pousar. Quando avistou o local que buscava, caiu exausto sobre ele e morreu. No seu leito de morte, suas longas asas transformaram-se em praias e, no lugar em que o coração bateu, a terra abriu-se formando uma grande e profunda depressão que as águas do mar invadiram, reservando seu centro para uma ilha que seria a rainha de todas as outras. Assim nasceu Kirymuré, para os índios e assim nasceu a Ilha de Itaparica no imaginário de sua população nativa. Um local de beleza, inusitada, mistérios, magia e muitas histórias.

Fotos: Leni David

Algumas das informações deste post tveram como fontes: Bahiatursa e Itaparicainfoco