Festa em família

 

Foto: Leni David

Aniversário de Hilda Carneiro

 

Minha mãe completou 87 anos de vida, ontem, dia 18 de maio. Filhos, netos, bisnetos, genros, noras, todos participaram da festa com muita alegria, não só pelo aniversário, mas por tudo que ela representa para nós.

Foto Leni David – Confecção do bolo – Iara Carneiro

Dona Hilda é mãe de 10 filhos, todos vivos – 7 mulheres e 3 homens. Mulher batalhadora e destemida, exemplo de força e coragem.

Familia reunida. Da esquerda para a direita; ana Sofia, Silvia, João, Iara, Eu e Cida; Atrás de Cida, Leonel; depois José Raimundo, Elísio (filho de criação) e Flor. Ao centro, sentada, a nossa mãe, Hilda Carneiro. Lígia não aparece na foto porque sumiu na hora do flash.

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Dia da Mulher

 Foto: Marcelo Zarif

 

Uma crônica de Martha Medeiros em homenagem às mulheres

Sou uma mulher que balança, sou uma criança que atura. Quando chegar aos 30 serei uma mulher de verdade, nem Amélia nem ninguém, um belo futuro pela frente e um pouco mais de calma talvez. E quando chegar aos 50 serei livre, linda e forte terei gente boa do lado, saberei um pouco mais do amor e da vida quem sabe. E quando chegar aos 90 já sem força, sem futuro, sem idade, vou fazer uma festa de prazer, convidar todos que amei, registrar tudo que sei, e morrer de saudade.

Tenho urgência de tudo que deixei pra amanhã, acho que não sou daqui. Paro em sinal vermelho, observo os prazos de validade, bato na porta antes de entrar, sei ler, escrever, digo obrigado, com licença, telefono se digo que vou ligar, renovo o passaporte, não engano no troco, até aí tudo bem, mas não sou daqui, também porque não gosto de samba, de carnaval, de chimarrão, prefiro tênis ao futebol, não sou querida, me atrevo a cometer duas vezes o mesmo erro, não sou de turma, a cerveja me enjoa, prefiro o inverno, e não me entrego sem recibo. Espelho, espelho meu, existe no mundo alguém que reflita mais do que eu?

Mesmo tendo juízo não faço tudo certo, todo paraíso precisa um pouco de inferno. Vestidos muito longos e justos incomodam, o beijo dos galãs não tem sabor, e Hollywood fica longe demais do meu supermercado favorito. Ser bela e calma, quanta inutilidade, mais vale um bom olhar profundo e uma vida de verdade, dois filhos de cabeça boa, um marido bem tarado, uma empregada chamada Maria, cinema de mãos dadas, um salário legal no fim do mês, aquela viagem marcada, novela, trânsito, profissão, sexo, banho morno, mousse de limão, me corrijam se eu estiver errada.

A realidade é nossa maior fantasia. Aventura não é escalar montanhas, não é atravessar desertos, não é preciso bravura. Aventura não é saltar de avião, não é descer cachoeira, não é preciso tontura. Aventura não é comer bicho vivo, não é beber aguardente, não é preciso angustia. Aventura não é morar em castelo, não é correr de Ferrari, não é preciso frescura. Aventura é tudo o que faz uma pessoa tornar-se capaz de abrir mão da loucura.

Aventura é ser mãe e pai. Pudesse eu viver tudo o que imagino nem sete vidas me dariam tanto fôlego. Dois, três, quatro dormitórios, com suíte, jacuzzi e vista pro mar, closet, duas vagas na garagem, e um condomínio caro por mês, que me interessa granito, madeira-de-lei, lâmpadas alógenas e último andar, eu queria era morar num filme francês.

Martha Medeiros

Camisa listrada

O carnaval chegou ao fim. Beijos, amores, muita curtição e até corações partidos no final da festa. Agora é esperar 2014.

Durante o reinado de Momo não saí de casa, embora seja foliã assumida; mas,  o tempo passou e não me adapto mais ao carnaval moderno, vendido, espremido. Não acho a menor graça em camarotes e o espaço da rua está muito disputado, muito estreito para o meu gosto.

Hoje uma amiga me contou que fugiu da folia e foi descansar numa praia tranquila, daquelas que ainda não foram invadidas pelo “progresso”; mas, no domingo à tarde ouviu um som alegre na rua e foi espiar. Era uma bandinha que passava tocando marchinhas e sambas e que animava os moradores do lugar. Não resistiu. Pegou a filha pequena pela mão e correu atrás. Acompanhou a charanga até a pracinha do vilarejo e dançou até o sol desaparecer no horizonte. A menina adorou a fuzarca e a minha amiga, sorridente, não cabia em si de contentamento.

Fiquei com um poucquinho de inveja, da boa.

Bem que eu gostaria de ter participado daquele carnaval improvisado, porque o bom da festa é a irreverência, o inesperado, a alegria das coisas simples.

Lembrei então de um samba antigo, daqueles inesquecíveis, que todo mundo conhece. Trata-se de Camisa Listrada (1937), de Ary Barroso, imortalizado por Carmem Miranda no carnaval de 1938. Acredito que ele resume o espírito do carnaval, descompromissado e irreverente, de muitos brasileiros por esse país afora.

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Florisvaldo Matos – Um poema de carnaval

 

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Tela de Carybé

 

Oficina de Carnaval

Florisvaldo Mattos

 

 Desenrole as palavras como

 se fossem veste sobre a pele

 e escreva suas frases como

 se alisasse um rosto (assim

 como nesta hora fazem os negros

 melhor do que os brancos).

 Saiba traduzir o silêncio

 na face angustiada de quem

 está dentro ou fora das cordas.

 Escute o sussurro das mãos

 ébrias de luz, cor e afagos;

 não apenas a voz, mas também

 o sotaque rascante do asfalto.

 Fale a língua do chão.

 Percorra praças, avenidas, ruas,

 mas também vielas e camarotes.

 Apare o suor do folião-pipoca

 e o dos que saracoteiam, à força

 de uísque, vinho e espumantes.

 Tenha olhos para ver o que sonha

 o som, o ganido das guitarras,

 mas também os seus gritos,

 a luta ancestral dos tambores.

 Liberte-se da mornança displicente.

 Descomplique-se. Na ponta

 dos dedos, nas teclas, no “mouse”,

 onde olhos são acentos, digite

 almas, gestos, alegrias, dores.

 Seque a veia das drogas,

 extraia seiva dos murmúrios.

 Desenrole com os sentidos

 o turbante dos Filhos de Ghandi,

 o brilho das contas de seus colares,

desvende a trama da trança rastafári.

 Leve para o texto esta verdade:

 gestos pensados, maciez e doçuras

 proclamam Salvador capital da folia

 e da paz em corações aflitos.

 E faça tatuagens no computador.

Salvador, 16-02-07

 

O Cruz Vermelha. O primeiro clube carnavalesco da Bahia

 

Carro alegórico - Blog Memoria da Bahia

O Clube Cruz Vermelha nasceu antes do Carnaval, 1883, para estrear na primeira festa oficial de Momo, ou seja, no ano seguinte e essa coincidência me faz pensar, sei que é uma ilação, que tenha sido o Clube quem articulou com os orgãos oficiais para a realização do primeiro Carnaval de Salvador. Tinha sentido criar uma agremiação carnavalesca apenas para participar do entrudo?

O Cruz Vermelha nasceu há 130 anos por iniciativa do comerciante José Oliveira Castro e estreou no primeiro carnaval baiano com uma proposta temática, alusiva às loterias, na verdade uma crítica; naquele tempo a imprensa denunciava a caixa preta das extrações e não se sabia se de fato entregavam o prêmio prometido.

O clube reunia comerciantes, brasileiros e portugueses, e tinha sede social na Barroquinha, então um ativo centro comercial, onde despontavam lojas de sapatos, tecidos e adereços. Estabelecimentos que importavam, da Alemanha e Itália, rolos de tecidos e lantejoulas, matéria prima para confeccionar as magníficas fantasias que caracterizaram o Cruz Vermelha ao longo de sua existência.

No Carnaval de 1885 desfila pela primeira vez aquele que seria o grande rival do Cruz Vermelha, o Clube Carnavalesco Fantoches de Euterpe, com carro alegórico romano e préstito inspirado na entrada triunfal de César em Roma. Rivalidade de várias décadas que atingiria o clímax nos anos 30 quando o Cruz Vermelha já tinha sede na Piedade e o povo aglomerava-se na Rua Chile para gritar “Viva Cruz!, Viva Fantoches!, saudando as suntuosas carruagens, e os enredos mitológicos, a bordo lindas senhoritas e garbosos rapazes da sociedade baiana como protagonistas.

Durante a II Guerra mundial o Clube sacrificou a marca consolidada no imaginário dos baianos e mudou o nome para Cruzeiro da Vitória para não ser confundido com a organização assistencialista; ao que parece não foi uma decisão acertada. Então, a sede do Cruz Vermelha já era no Campo Grande, no prédio onde hoje funciona a Fundação João Fernandes da Cunha, de onde saia o cortejo com a famosa guarda de honra composta por belas baianas.

Carnaval-da-Bahia-anos-30_-Cruz-Vermelha_-Senhorita-Alzimir-Perouse-Pinho

A rivalidade entre os dois clubes de elite do Carnaval baiano crescia com a adesão e provocação da imprensa, brigas entre as torcidas ocorreram em algumas ocasiões – 1959 com grande pancadaria – mas tudo era esquecido no ano seguinte. Naquele momento o Clube Inocentes do Progresso era mais um a disputar a preferência do público. Nessa década de 50 o Cruz Vermelha se renova graças ao empenho de João Pereira de Souza que investe suas energias para devolver ao clube o antigo esplendor.

O Cruz Vermelha conquistou 72 títulos e desfilou pela última vez, Tudo indica que em 1963, com o tema de Helena de Tróia e a guarda troiana revivendo a mística dos carnavais de início do século. Não era o mesmo clube, perdera espaço para os trios elétricos que já despontavam como tendência. E o glamour, o luxo representado pelo estandarte símbolo bordado em ouro com pedras preciosas ao redor do veludo, não mais tinha sentido entre os baianos.

Era o fim de uma era. O guia turístico da cidade; “Beabá da Bahia” de 1951, já previra esse final melancólico: “Os carros alegóricos do Fantoches, Cruzeiro da Vitória e Inocentes em Progresso, por mais dispendiosos que sejam sente-se que seu tempo já passou”. Era verdade. As trombetas dos figurinos de outrora abriam alas para a guitarra baiana com as suas cornetas amplificadoras.

Carnaval Cruz-Vermelha_ - Fantasias

Fonte: Memorias da Bahia

 

 

Bahia – A lavagem do Bonfim

Todos os anos, na segunda quinta-feira de janeiro após o “dia de reis” (6 de janeiro), acontece em Salvador a Festa do Senhor do Bonfim da Bahia. Essa festa tradicional e de grande beleza, que é acompanhada por milhares de pessoas de todas as parte do mundo, consiste num enorme cortejo que sai da igreja da Conceição da Praia em direção à igreja do Bonfim, no alto da Colina Sagrada. Centenas de baianas, personagens tradicionais dos festejos, abrem o desfile e levam nas mãos vasos com flores e água de cheiro, usadas para lavar o adro da igreja e purificar os fiéis, num ritual de fé e esperança. Fogos de artifício anunciam o início do cortejo aberto pelas baianas e acompanhado pelo povo, num percurso de 8 km e a maioria das pessoas veste-se de branco, como manda a tradição.

Lavagem do Bonfim

A festa do Senhor do Bonfim, com a lavagem do adro da Igreja é considerada a mais importante das comemorações populares de Salvador. Os festejos religiosos (novenas e missas) têm início no dia seguinte à lavagem e se encerram no domingo.

Ao chegar ao Bonfim as baianas lavam as escadarias e o adro da Igreja  com água perfumada, e despejam essa mesma água sobre as cabeças de pessoas que buscam neste banho a purificação do corpo e da alma.  Após a lavagem, a festa prossegue com rodas de capoeira e samba, enquanto nas casas, os visitantes se deliciam com comidas populares, como o caruru, o cozido e a feijoada.

Origem da festa

Segundo o historiador Cid Teixeira, havia no Rio Vermelho uma capela consagrada à devoção de São Gonçalo, mas a mesma degradou-se e a festa de São Gonçalo foi transferida para o bairro do Bonfim. No passado, os devotos seguiam por mar, em saveiros e pequenos vapores da Companhia Baiana de Navegação. Desembarcavam no Porto da Lenha e subiam a ladeira do mesmo nome. Em razão da distância e por não haver estradas em boas condições, os romeiros chegavam ao Bonfim três dias antes da festa e daí o costume de lavar a igreja na quinta-feira, para prepará-la para a festa do domingo. Os que seguiam a pé também levavam água de toda a cidade, em potes, moringas ou latas, sobre as cabeças, dançando durante todo o trajeto.

A princípio essa lavagem era feita pelos moradores das vizinhanças e depois foi se tornando um ato cada vez mais difundido. Documentos e fotos antigas atestam a presença de aguadeiros, bondes e animais enfeitados com flores e bandeirolas, que deslocavam-se rumo ao Bonfim, além de baianas vestidas com as suas mais belas indumentárias, balangandãs e patuás.

Ao contrário do que acontece hoje, quando a água é carregada em potes, no século XIX e início do século XX, a água utilizada para a lavagem da igreja era retirada de uma fonte existente na Baixa do Bonfim e na noite de quarta-feira, romeiros de toda parte do Estado e de outras regiões do Brasil, além de apanhar a água, acendiam fogueiras, cantavam e dançavam ao som de cavaquinhos, pandeiros e violas. No dia seguinte a igreja era lavada e perfumada com água de colônia e o chão do templo era enxugado com panos brancos rendados.

No lado profano da festa, havia a apresentação de filarmônicas, de grupos com atabaques, capoeira e samba. No chamado sábado do Bonfim, começavam a chegar, à noite, numerosos ternos e ranchos que cantavam e dançavam até a manhã de domingo e permaneciam à espera da tradicional Segunda-Feira Gorda da Ribeira.

A festa, desde que se tem notícia, é marcada pelo sincretismo religioso. Ao lado dos devotos católicos, membros do candomblé prestam homenagem ao Senhor do Bonfim – Cristo, que no sincretismo corresponde a Oxalá. A Lavagem do Bonfim ainda guarda características do passado.

A Igreja do Bonfim

A Igreja Basílica do Senhor Bom Jesus do Bonfim, ou Igreja do Bonfim como é mais conhecida, um dos principais cartões-postais de Salvador, é um dos símbolos da religiosidade baiana. A construção do santuário teve início em 1740 com a vinda para a Bahia do Capitão de Mar e Guerra, Theodósio de Faria.

Segundo a Irmandade de Nosso Senhor do Bonfim, o Capitão de Mar e Guerra tinha grande devoção ao Senhor do Bonfim que se venera na cidade de Setúbal, em Portugal, e trouxe de Lisboa uma imagem semelhante esculpida em pinho de riga, medindo 1,06m de altura.

Em 1745, a imagem foi guardada na Igreja da Penha, em Itapagipe, onde permaneceu até a construção do novo templo. Nesse mesmo ano foi fundada uma irmandade que foi denominada “Devoção do Senhor do Bonfim”.
Situado na única colina de Itapagipe, o templo foi construído entre os anos de 1746 a 1772. A imagem foi transferida para o novo templo em 1754, em uma procissão que contou com a presença macissa da população baiana da época. A imagem de Nossa Senhora da Guia, também trazida de Portugal por Theodósio de Faria e também foi colocada na Igreja de Nosso Senhor do Bonfim.

Conta-se que o Capitão trouxe a imagem como agradecimento por haver sobrevivido a uma tempestade em alto-mar. Prometeu então construir uma igreja no ponto mais alto que avistasse, de onde pudesse ver a entrada da Baía de Todos os Santos.

 Festa e proibições

Mas nem sempre a festa se desenrolou em paz e harmonia. Desde o século XIX houve proibições da lavagem da igreja, com a polícia apreendendo vassouras, potes, violões, atabaques e cavaquinhos. Em 1889, ano da Proclamação da República, o Arcebispo da Bahia, Dom Luís Antônio dos Santos, baixou portaria proibindo a lavagem do interior da igreja, contando com a ajuda da Guarda Cívica. Em razão da proibição, houve espancamentos, brigas e feridos e os motivos alegados pelo então Arcebispo, é que a festa era freqüentada por gente embriagada, da pior espécie. Durante dez anos a lavagem da igreja do Bonfim ficou proibida e nos dias que antecediam os festejos, o local era cercado pela polícia, com o objetivo de impedir qualquer tipo de manifestação. Dez anos depois, em 1899, a lavagem voltou a ser realizada, graças à persistência dos moradores do local, fiéis e comunidades afro-baianas vinculadas ao candombé.

Aos olhos da Igreja, porém, a lavagem era considerada como uma profanação do templo e um atentado aos dogmas cristãos. Mas o povo continuava a participar dos festejos, apesar do temor à repressão policial.


Em 1940 com a chegada dos “Redentoristas” à Salvador, o povo sentiu-se encorajado a realizar a lavagem do templo. Palanques foram armados para a apresentação de ranchos, ternos e orquestras. A presença das babalorixás, como símbolo do sincretismo com Oxalá, o pai de todos os orixás, levou o clero, mais uma vez, a proibir a lavagem, com intervenção da polícia. No entanto, para surpresa de todos, nesse ano de 1940, os comerciantes do local se uniram ao povo fechando as portas dos seus comércios e liberando os empregados, que se juntaram aos fiéis em protesto pela proibição. O impasse foi resolvido pelo então interventor Juracy Magalhães que, sensibilizado, conseguiu junto ao clero a abertura da basílica.

Hoje, vários afoxés e grupos musicais, entre eles um dos mais antigos, os Filhos de Gandhi participam dos festejos do Bonfim. A comissão de frente é formada por mais de quinhentas baianas vestidas à rigor. Turistas de todas as partes do mundo, fiéis e o povo em geral, acompanham o cortejo a pé, em carroças, bicicletas ou caminhões enfeitados.

A dois dias da lavagem do Bonfim, segundo os jornais baianos, o clima de festa já havia tomado conta da Colina Sagrada. A manhã da terça-feira começou movimentada com turistas lotando a Basílica em busca de bênçãos e na quinta-feira o cortejo desceu pelas principais ruas da cidade baixa rumo ao Bonfim, inundando de beleza os olhos dos que apreciavam o desfile.

A Igreja Católica, em ato histórico de confraternização religiosa baniu sua intolerância para com os rituais de origem africana incorporados à Lavagem do Bonfim. Foram desfeitos os equívocos de atitudes do passado emanadas de autoridades religiosas e até do poder oficial em várias escalas. A aceitação clara da presença heterogênea de crenças e seitas religiosas no Bonfim desmonta a discriminação,  participação do candomblé na lavagem, e outras expressões de raiz africana marcantes, em cidade de alto contingente negro, ganha significado de marco histórico – vitória do ardor místico sobre a discriminação. E para esse gesto muito contribuiu a vontade manifestada no ano passado pelo padre Menezes em tornar-se arauto de uma fraternidade religiosa raríssima neste mundo de radicalismos extremados, segundo o jornal A Tarde.

Para nós, independente das crenças e da fé que motiva o povo a participar do cortejo, da lavagem e da festa do Bonfim, tanto do ponto de vista religioso quanto do profano, o mais bonito é a preservação da tradição, é a alegria traduzida nos olhos das velhas baianas, é o colorido das flores e fitas esvoaçando ao vento.Todo esse conjunto de símbolos faz da Bahia uma terra singular.

 

Festa do Bonfim – Alegria, devoção e protesto

                                                  Foto: Raul Spinassé 

Nesta quinta-feira, 17, após o Culto Ecumênico realizado em frente à Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, padroeira de Salvador, uma queima de fogos iniciou a caminhada dos fiéis em direção à Colina Sagrada, onde fica localizada a Igreja do Bonfim. Dezenas de baianas puxam o cortejo de baianos, turistas e autoridades até a Igreja. Cerca de 34 entidades culturais, entre bandas de sopro, afoxés, grupos de samba e percussão, além dos 1.500 integrantes do Bloco Afoxé Filhos de Ghandy, desfilam pela Cidade Baixa.

O culto reuniu milhares de fiéis que desde o início da manhã desta quinta-feira, 17, aguardavam em frente à Conceição da Praia, no Comércio. Participaram da cerimônia representantes de diferentes religiões, entre católicos, evangélicos, mulçumanos, espíritas e do candomblé, além políticos e autoridades locais, como o governador em exercício, Otto Alencar, do chefe da Casa Civil, Rui Costa, da senadora Lídice da Mata e do prefeito de Salvador, ACM Neto.

                                                        Foto: Eric Salles

 “Quem tem fé vai a pé”

Além de preparo físico, é preciso fé para enfrentar o percurso de oito quilômetros, da Conceição da Praia à Colina Sagrada. O cortejo tem início após a celebração do culto inter-religioso. São quase três horas de uma peregrinação que segue o fluxo da Rua Miguel Calmon, no Comércio, encontra a Avenida Jequitaia (Calçada) e converge na Avenida Fernandes da Cunha (Mares). Na reta final, a Avenida Dendezeiros é o caminho para a multidão chegar à igreja ao som de bandinhas, conjuntos de percussão e muito samba.

Estrutura

Para receber a multidão de devotos e turistas que acompanham a lavagem, os poderes públicos municipal e estadual prepararam um esquema especial de trânsito e transporte, saúde e segurança. Por parte da Secretaria da Segurança Pública, cerca de 1.900 policiais (1.811 militares e 85 civis) vão assegurar a tranquilidade no cortejo. São três postos da Polícia Civil e 38 postos elevados de observação da Polícia Militar (PM).

A Secretaria Municipal da Saúde (SMS) montou três postos (Conceição da Praia, Estação da Calçada e Colina Sagrada). Duas ambulâncias também estão de prontidão para casos graves .

Políticos testam popularidade na festa do Bonfim.

A tradicional Lavagem do Bonfim será marcada, nesta quinta-feira, 17, pela estreia de ACM Neto (DEM) como  prefeito de Salvador  na festa religiosa e pela ausência do governador Jaques Wagner (PT), que está em viagem à China.

Manifestação de fé, mas que serve de palco para testar a popularidade dos políticos, a caminhada funciona como um termômetro tanto para Neto medir a avaliação dos 17 primeiros dias de sua gestão, como para Wagner auferir os seis anos de seu governo, o qual estará no comando até 2014.

Wagner, que só retorna à Bahia na próxima terça-feira, vai escapar de ser acusado de “pecador” pelos servidores do Estado. No 7 de Setembro de 2012 o governador também agendou uma viagem à Espanha e Singapura (Ásia) e se livrou das vaias dos professores e dos policiais – categorias que comandaram as duas maiores greves, no ano passado, contra o governo do petista. Desta vez, as críticas vão sobrar para o vice-governador Otto Alencar (PSD), que estará representando Wagner na Lavagem do Bonfim. Disposição é o que não falta aos servidores. “Vamos denunciar ao Senhor do Bonfim que o governador não paga a URV dos funcionários”, avisa a coordenadora da Federação dos Trabalhadores Públicos do Estado da Bahia (Fetrab), Marinalva Nunes.

Para os 43 vereadores eleitos em outubro será a chance de reencontrar o eleitor e ratificar os compromissos de campanha eleitoral. Quanto aos que estão mirando a eleição de 2014, não custa nada pedir, desde já, as bênçãos do Senhor do Bonfim.

 Fonte: Com informações do jornal A Tarde online.

Observação: Publicarei ainda hoje a história da Lavagem do Bonfim, da origem aos nossos dias.

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Ano Novo – Nouvelle Année

 

Pedras no caminho? Guardo todas; um dia vou construir um castelo… Dizia a poeta Cora Coralina.

É evidente que a vida prega peças e que 2012 foi um ano cheio; um pouco de coisas boas, algumas frustrações, algumas desavenças e momentos de alegria e felicidade.

O ano novo pode ser diferente, maravilhoso, divertido; mas certamente não será perfeito, em razão das pedras no caminho.

Mas, em 2013, quero um olhar novo e o coração tranquilo para desejar paz aos meus amigos, e uma luz tão serena em suas vidas quanto a da lua de Itaparica sobre as águas da Baía de Todos os Santos.

E como diz o poeta Idmar Boaventura,

… ano a ano,

Janeiro nos rejuvenesce,

com sua porção generosa

de esperança.

Por isso convido a todos para um brinde, proposto pelo poeta. Que o Ano Novo seja um Ano BOM. Feliz 2013!

A foto da lua cheia sobre a Baía de Todos os Santos foi feita por mim, em Mar Grande (Itaparica), e tem ao fundo a cidade de Salvador – Bahia

Maintenant la traduction pour les amis français :

Des pierres sur le chemin? Je les garde, toutes; un jour je construirai un château avec elles… Disait la poétesse Cora Coralina.

Il est évident que la vie nous donne des coups et que 2012 a été une année pleine; un peu de bonnes choses, quelques frustations, quelques malentendus et des moments de joie et de bonheur.

La nouvelle année peut être différente, merveilleuse, joyeuse; mais, certainement elle ne sera pas parfaite, à cause des pierres sur le chemin.

Mais, en 2013, je veux avoir un regard nouveau et le coeur tranquille pour souhaiter la paix à tous mes amis, et une lumière si sereine dans leur vie, comme celle de la lune d’Itaparica sur les eaux de la Baie de Tous les Saints, à Bahia.

Joyeux 2013!

                          Brinde

 

Antônio Brasileiro

Se a mente, que não é nada, mantém-se quieta

e as vozes do remorso não persistem,

eis o momento de desvendar enigmas,

de relembrar caminhos

e de tomar uns chopes com os amigos.

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Pois se a mente, que não é nada, está quieta

– os enigmas mais crus, domesticados –

e o passado é um pássaro em nossa mão,

eis que o homem conhece a perfeição.

E como tudo passa tão rapidamente,

é bom brindar essas coisas com amigos.

 

Ano Novo!

 

Idmar Boaventura

Bendito seja Janeiro,

que nos dá a chance de começar             de          novo.

Dezembro é crepúsculo. Tem gosto

de coisas velhas guardadas na gaveta

com as luzinhas da árvore de natal.

Dezembro, mês de balanço,

é cansaço, desencanto.

O que não se fez. O que não se cumpriu.

O que poderia ter sido.

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Mas quando Janeiro, menino,

desponta  no horizonte,

com sua roupa branca e cheiro de mar,

tudo se renova:

aquela dieta, o guarda-roupa, desencontros, amores:

tudo que havemos de ser,

ainda que não seja.

E assim, ano          a           ano,

Janeiro nos rejuvenesce,

com sua porção generosa

de esperança.

A lua cheia (sobre a Baía de Todos os Santos) vista de Itaparica; ao fundo, as luzes de Salvador.

Fonte: Dissonâncias no espelho – aqui