A crônica e uma história de bem-te-vi

Quando Pero Vaz de Caminha registrou, no ano de 1500, a chegada dos portugueses ao Brasil, escreveu uma crônica que mais tarde se transformaria em documento, uma espécie de certidão de nascimento do país: a famosa “carta de Caminha”, dando contas da nova terra descoberta. Nos séculos XVI e XVII e até meados do século XVIII, convencionou-se classificar qualquer relato como crônica (cronos), impingindo ênfase ao conceito de tempo.

A crônica, que nasceu com o relato de fatos, viagens e  descobertas, tem sua origem moderna no jornalismo. Ela ocupa um espaço importante no cotidiano urbano e pode encerrar informações de toda natureza, pois através dela o cronista ou comenta um estado de espírito, comenta ou descreve uma época, um fato, uma curiosidade, uma moda, enfim, aspectos do cotidiano, que muitos vezes passa despercebido ao leitor desavisado. Como uma câmera fotográfica, a crônica captura os instantâneos do dia-a-dia e os traduz em textos literários, pois o seu princípio básico é circunstancial.

No Brasil, a crônica ganhou status literário no século XX e teve o seu tempo áureo a partir da publicação dos suplementos culturais dos grandes jornais. Na sua primeira fase teve Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira como nomes de destaque. Posteriormente, cronistas como Nelson Rodrigues, Rubem Braga, Raquel de Queiroz, Carlos Heitor Cony, Cecília Meireles, entre outros, concorreram para fixar o gênero, hoje tão difundido.

Margarida de Souza Neves afirma que é na crônica que se observa o cotidiano, da sociedade, pois ela revela os sentimentos, as paixões de momento e tudo aquilo que permite identificar o rosto humano da história. É como se a crônica fosse a exata reprodução do instante em que ocorre o fato ou a circunstância captada pelo escritor.

Em História de bem-te-vi, escrita há cerca de cinquenta anos, Cecília Meireles não só fixa uma realidade daquele momento, capta o instante, rememora outros, denuncia o que lhe parece esdrúxulo, tudo isso inspirado no canto de uma avezinha simplória que vive voando por aí, sem chamar a atenção de ninguém.

 

 

                             História de bem-te-vi

                                                                       Cecília Meireles

Com estas florestas de arranha-céus que vão crescendo, muita gente pensa que passarinho é coisa só de jardim zoológico; e outras até acham que seja apenas antiguidade de museu. Certamente chegaremos lá; mas por enquanto ainda existem bairros afortunados onde haja uma casa, casa que tenha um quintal, quintal que tenha uma árvore. Bom será que essa árvore seja a mangueira. Pois nesse vasto palácio verde podem morar muitos passarinhos.

Os velhos cronistas desta terra encantaram-se com canindés e araras, tuins e sabiás, maracanãs e “querejuás todos azuis de cor finíssima…”. Nós esquecemos tudo: quando um poeta fala num pássaro, o leitor pensa que é leitura…

Mas há um passarinho chamado bem-te-vi. Creio que ele está para acabar.

E é pena, pois com esse nome que tem — e que é a sua própria voz — devia estar em todas as repartições e outros lugares, numa elegante gaiola, para no momento oportuno anunciar a sua presença. Seria um sobressalto providencial e sob forma tão inocente e agradável que ninguém se aborreceria.

O que me leva a crer no desaparecimento do bem-te-vi são as mudanças que começo a observar na sua voz. O ano passado, aqui nas mangueiras dos meus simpáticos vizinhos, apareceu um bem-te-vi caprichoso, muito moderno, que se recusava a articular as três sílabas tradicionais do seu nome, limitando-se a gritar: “…te-vi! …te-vi”, com a maior irreverência gramatical. Como dizem que as últimas gerações andam muito rebeldes e novidadeiras achei natural que também os passarinhos estivessem contagiados pelo novo estilo humano.

Logo a seguir, o mesmo passarinho, ou seu filho ou seu irmão — como posso saber, com a folhagem cerrada da mangueira? — animou-se a uma audácia maior Não quis saber das duas sílabas, e começou a gritar apenas daqui, dali, invisível e brincalhão: “…vi!  …vi! …vi! …” o que me pareceu divertido, nesta era do twist.

O tempo passou, o bem-te-vi deve ter viajado, talvez seja cosmonauta, talvez tenha voado com o seu team de futebol — que se não há de pensar de bem-te-vis assim progressistas, que rompem com o canto da família e mudam os lemas dos seus brasões? Talvez tenha sido atacado por esses crioulos fortes que agora saem do mato de repente e disparam sem razão nenhuma no primeiro indivíduo que encontram.

Mas hoje ouvi um bem-te-vi cantar E cantava assim: “Bem-bem-bem…te-vi!” Pensei: “É uma nova escola poética que se eleva da mangueira!…” Depois, o passarinho mudou. E fez: “Bem-te-te-te… vi!” Tornei a refletir: “Deve estar estudando a sua cartilha… Estará soletrando…” E o passarinho: “Bem-bem-bem…te-te-te…vi-vi-vi!”

Os ornitólogos devem saber se isso é caso comum ou raro. Eu jamais tinha ouvido uma coisa assim! Mas as crianças, que sabem mais do que eu, e vão diretas aos assuntos, ouviram, pensaram e disseram: “Que engraçado! Um bem-te-vi gago!”

(É: talvez não seja mesmo exotismo, mas apenas gagueira…)

Texto extraído do livro Escolha o seu sonho;Rio de Janeiro:Record, 2002, pág. 53.

Um poema de Antônio Brasileiro

CONTEMPLAÇÃO DA NUVEM                         

 Antônio Brasileiro
p/ Beto

A vida é a contemplação daquela nuvem.

E o mundo

uma forma de passar, que inventamos

para não ver que o mundo não é o mundo,

mas uma nuvem

                           passando.

E uma nuvem passando

ensina-nos mais coisas que cem pássaros

mil livros       um milhão de homens.

A vida é a contemplação daquela nuvem.

E o mundo

uma forma de passar, que inventamos

para não ver que o mundo não é o mundo,

mas uma nuvem.

Passando.

 

Instante

                                                                               
                                                             Leni David

                      Os acordes de um violão  vadio,

                    fragmento perdido de canção

                    fez do silêncio melodia.

                    A paz embriagou a noite

                    o amor prevaleceu maior.

  

Mulheres da Praça

 

                                                      Leni David

O correio na minha rua é distribuído por uma jovem lourinha e simpática. Ela faz o seu trabalho montada numa bicicleta amarela. Todas as manhãs espreito a bicicleta da moça do correio e quando ela chega junto ao portão do edifício, desço as escadas correndo, digo ‘bom-dia’ sorrindo e abro ansiosa a caixinha de cartas, como se fosse o cofre do tesouro. O meu tesouro é feito de envelopes ornados de verde-amarelo!

Subo as escadas correndo, instalo-me numa cadeira e suprimo as barreiras entre o mundo onde estou e o meu mundo, quase do outro lado da terra; o mar sempre foi o grande depósito de segredos da humanidade, mas o Oceano Atlântico se transforma num riachinho, quando tenho uma carta nas mãos. O céu cinza fica azul e a saudade, sol de verão alimentando a vida. As letras miúdas ou grandes contam o cotidiano, as aventuras das crianças, as festas e, talvez por respeito à distância, se transformam em palavras tristes, quando as notícias são más.

As mensagens que chegam contam a vidinha morna do interior do Brasil. As vezes mensagens de carinho, quase um relatório amoroso do cotidiano de lá; outras vezes, de um jeito desconcertado, contam coisas assim : “faz oito meses que não chove no Nordeste e exatamente quatro meses que não cai uma gota de chuva aqui! O gado está morrendo, de sede e fome; ainda agüenta de pé graças ao bagaço da mata. O povo faz pena, não tem sequer água para beber. Ainda esta semana os camponeses de várias municípios se reuniram em frente à prefeitura, na tentativa de conseguir ajuda da municipalidade. O pior é que o prefeito diz que não tem verba, nem do Estado nem do Governo Federal… Dói na alma e faz mal à qualquer vivente, filho de Deus, olhar nos olhos daqueles homens e escutar as cantigas que as mulheres retirantes cantam na rua. Falo de cantiga porque meu vocabulário é pobre, pois de tanta tristeza, elas parecem lamentos.”

De tão longe (nem sei quantas léguas) sinto o coração apertando, um nó na garganta e uma vontade incontrolável de chorar. Penso na gente pobre nordestina, fruto da seca e da miséria. Falam em açudes, em irrigação e até em provação, argumento fácil, pretexto para depositar nas mãos de Deus a incapacidade dos homens! Pobre Deus, válvula de escape dos ignorantes e bode expiatório dos irresponsáveis, tantas vezes invocado para encobrir as incapacidades, tantas vezes responsabilizado pela miséria do povo!

Daqui imagino minha terra querida, « mãe gentil », cheia de contrastes, cores e vejo-a também madrasta desnaturada, patroa insaciável, comandada pela tirania dos poderosos. Vejo você mulher do sertão, desidratada, envelhecida pela labuta e pela desesperança e admiro você! Acredito em vocês, Marias, Joanas, Crispinas e Doralices. Confio em vocês que sobrevivem apesar das privações e que sabem cantar cantigas que doem na alma…. Admiro a força, das Ritas, Clarices, e Balbina, fruto do nada, ou fruto da desesperança, do desespero! Invejo vocês todas, capazes de abrir a boca no meio da praça e cantar… cantar o sofrimento e a falta de pão, cantar corajosamente, quando talvez o desejo maior seja de matar.

Eu acho que esse canto, talvez choro sufocado, seja a semente nova, plantada num espaço também novo, de pedra e asfalto. As lágrimas derramadas nos caminho, na solidão da roça foram sugadas pela terra seca e desapareceram no vazio da indiferença; agora o canto do asfalto está se misturando com o barulho dos motores dos carros, com o suor dos operários na rua, com a tristeza da dona de casa exausta; o canto do asfalto vai fazer barulho, vai incomodar a sesta do patrão.

Canta Inês, canta Clotilde, canta Madalena! Cantem com toda a força e cantem mais alto ainda! Quem sabe se numa dessas tardes de estio, esse canto do asfalto se transforma em hino! Canta mulher, canta mais, mesmo lamentos de doer na alma!

Paris, junho de 1993. (Publicada no jornal CAT, editado pelo MOC)

Observação: eu achava que essa crônica havia sido escrita há pouco tempo, mas quando vejo a data, me dou conta de que já se passaram quase vinte  anos. E quantas coisas mudaram! O correio não traz mais cartas, somente contas. Os envelopes ornados de verde e amarelo desapareceram e a internet tornou-se o meio de comunicação mais utilizado no mundo. As mulheres que cantavam cantigas tristes, não cantam mais… e os movimentos sociais mudaram as estratégias.

O Nordeste? Continua seco e pobre!

Eu? Desencantada…

 

Romance XXIV ou da Bandeira da Inconfidência

                          Cecília Meireles

Através de grossas portas,

sentem-se luzes acesas,

— e há indagações minuciosas

dentro das casas fronteiras:

olhos colados aos vidros,

mulheres e homens à espreita,

caras disformes de insônia,

vigiando as ações alheias.

Pelas gretas das janelas,

pelas frestas das esteiras,

agudas setas atiram

a inveja e a maledicência.

Palavras conjeturadas

oscilam no ar de surpresas,

como peludas aranhas

na gosma das teias densas,

rápidas e envenenadas,

engenhosas, sorrateiras.

Atrás de portas fechadas,

à luz de velas acesas,

brilham fardas e casacas,

junto com batinas pretas.

E há finas mãos pensativas,

entre galões, sedas, rendas,

e há grossas mãos vigorosas,

de unhas fortes, duras veias,

e há mãos de púlpito e altares,

de Evangelhos, cruzes, bênçãos.

Uns são reinóis, uns, mazombos;

e pensam de mil maneiras;

mas citam Vergílio e Horácio,

e refletem, e argumentam,

falam de minas e impostos,

de lavras e de fazendas,

de ministros e rainhas

e das colônias inglesas.

Atrás de portas fechadas,

à luz de velas acesas,

uns sugerem, uns recusam,

uns ouvem, uns aconselham.

Se a derrama for lançada,

há levante, com certeza.

Corre-se por essas ruas?

Corta-se alguma cabeça?

Do cimo de alguma escada,

profere-se alguma arenga?

Que bandeira se desdobra?

Com que figura ou legenda?

Coisas da Maçonaria,

do Paganismo ou da Igreja?

A Santíssima Trindade?

Um gênio a quebrar algemas?

Atrás de portas fechadas,

à luz de velas acesas,

entre sigilo e espionagem,

acontece a Inconfidência.

E diz o Vigário ao Poeta:

“Escreva-me aquela letra

do versinho de Vergílio…”

E dá-lhe o papel e a pena.

E diz o Poeta ao Vigário,

com dramática prudência:

“Tenha meus dedos cortados

antes que tal verso escrevam…”

LIBERDADE, AINDA QUE TARDE,

ouve-se em redor da mesa.

E a bandeira já está viva,

e sobe, na noite imensa.

E os seus tristes inventores

já são réus — pois se atreveram

a falar em Liberdade

(que ninguém sabe o que seja).

Através de grossas portas,

sentem-se luzes acesas,

— e há indagações minuciosas

dentro das casas fronteiras.

 ”Que estão fazendo, tão tarde?

Que escrevem, conversam, pensam?

Mostram livros proibidos?

Lêem notícias nas Gazetas?

Terão recebido cartas

de potências estrangeiras?”

(Antiguidades de Nimes

em Vila Rica suspensas!

Cavalo de La Fayette

saltando vastas fronteiras!

Ó vitórias, festas, flores

das lutas da Independência!

Liberdade – essa palavra,

que o sonho humano alimenta:

que não há ninguém que explique,

e ninguém que não entenda!)

E a vizinhança não dorme:

murmura, imagina, inventa.

Não fica bandeira escrita,

mas fica escrita a sentença.

Fragmento extraído do livro “Romanceiro da Inconfidência“, Editora Letras e Artes – Rio de Janeiro, 1965, pág. 70.

Epifânio Nunes da Siva ou Manuel Nunes dos Reis?

                                             Leni David

Não importa. O essencial é que ele foi e continua sendo o “Tio Pifânio”, rei negro das crianças daquela rua, o maior contador de histórias da cidade!

- Chega negrada!!! Era um apelo estridente e alegre acompanhado de uma gargalhada. Todos corriam na direção do grito, até mesmo as empregadas e as crianças da vizinhança. E como era bom correr, com todas as forças para chegar em primeiro lugar e receber como recompensa, um bago de jaca, um punhado de amendoim e um pedaço de rapadura; quanta folia, risos e algazarras Epifânio trazia para nós. Como era bom e como sinto saudades daquele tempo!

Éramos dez irmãos e a nossa meninice corria mansa e despreocupada. Espalhávamos alegria pelo quintal, espaço de liberdade, de alegria, de gangorras, “minas” e esconderijos; as pessoas mais velhas se contentavam em nos observar de longe e nem nos dávamos conta de que haviam olhos voltados para nós. Jogávamos castanha, bolas de gude, pulávamos macaco e fazíamos “cozidos” nos dias de feira. Mas todo esse mundo encantado era esquecido quando Epifânio chegava no portão da casa grande da rua da Aurora e nos chamava, com toda a força dos seus pulmões: “chega negrada!”

 Não havia quem resistisse àquele chamado. Sabíamos que na segunda-feira, dia da feira-livre da cidade, ele recebia o pagamento da semana e a qualquer momento chegaria sorrindo, falando alto, repartindo delícias que trazia escondidas nos bolsos do paletó e no bocapiu de palha, entre risos e tropeços, numa grande algazarra.

Lembro-me dele como se ainda estivesse aqui, diante de mim; tinha estatura média, era negro, bem negro, olhos pequenos e sorridentes; os cabelos encarapinhados, cortados bem curtos, já estavam matizados de fios brancos, mas não escondiam o seu ar bonachão e maroto. Quando falava, tinha um jeito de virar o rosto para o lado, levantar o chapéu e sorrir, coçando a cabeça, sempre exagerando no tom da voz e das gargalhadas sonoras. Usava calças pretas, de “casimira”, calças velhas e desbotadas, que deviam ter pertencido ao meu avô; um velho paletó, seu companheiro  no inverno e no verão e um velho chapéu de baeta amarrotado. Epifânio não resistia a uma “cachacinha” e a um “trielétrico”. Bebia e dançava durante os três dias da Micareta e, na quarta-feira, acordava queixando-se de dor nos rins e no fígado. Ele era analfabeto; jamais lhe ensinaram a ler e a escrever. Porém, apesar de não ser eleitor, participava ativamente das as campanhas politicas, discutindo e argumentando com seriedade,  defendendo os seus candidatos.

Epifânio se dizia irmão do meu avô; irmão de leite. A sua mãe, que era escrava, amamentara os dois; então, Epifânio “exigia” que o chamássemos de tio. Meu avô e ele foram criados juntos na fazenda e cresceram amigos, mas com destinos diferentes. Mesmo a casa onde morava, não lhe pertencia. Sabia trabalhar e fazia tudo que lhe ordenavam: cavava fontes, lavava automóveis, era ajudante de pedreiro, carregador, e nos fins de semana trabalhava na roça, plantando milho e feijão. Entretanto, a sua grande especialidade era contar casos, lindas histórias que enfeitaram as nossas vidas de crianças. Ele fechava os olhos e as palavras brotavam da sua boca como riacho correndo. Nós, o seu auditório, permanecíamos imóveis, quase sem respirar, bebendo as palavras como se fossem uma poção mágica. Escutávamos as histórias de Tristão e Isolda, dos Cavaleiros da Távola Redonda, além das lendas da Gurunga, que só ele conhecia, além das histórias de assombração. Quando ficava cansado, levantava alvoroçado e recitava em voz alta:

« Era um dia,

um dia foi,

quem não tem cavalo

monta no boi…

Entrou por uma porta,

saiu pela outra

quem quiser,

que conte outra… »

 E saía correndo, a meninada acompanhando e pedindo mais uma historinha, uma só, bem pequena!

Epifânio gostava de pedir dinheiro emprestado à minha mãe e aos meus tios, quantias insignificantes; mas, quando fazia o pedido, assumia um ar sério e se comportava como se fosse uma grande soma, fazendo questão de garantir que pagaria na segunda-feira, mas  nunca mais lembrava de pagar!

Ele acompanhava todos os enterros da cidade; o chapéu entre as mãos, cabisbaixo, contrito e muito sério; e descrevia com todos os detalhes o enterro dos ricos, “uma das coisas mais bonitas de se ver”, na sua opinião.

Ele não estava muito velho, mas havia adoecido. Não fazia mais trabalhos pesados; ia fazer compras para a minha avó  e acompanhava meu avô nas viagens à fazenda. Depois de algum tempo passou até a morar em casa deles.

Uma das coisas que mais gostava de dizer é que tinha dois nomes: Epifânio Nunes da Silva e Manuel Nunes dos Reis. Dizia que o verdadeiro nome era Manuel Nunes dos Reis, pois havia nascido no dia da festa de Reis; no entanto, no dia do batizado, a sua madrinha resolvera chamá-lo Epifânio por ser o dia da festa da Epifania.

Contava também que aos 20 anos comera meia lata de veneno, utilizado para matar formigas e fatal se ingerido pelo homem. Mas ele, apesar disso, escapara. E quando perguntávamos porque havia agido assim, respondia que fizera isso, pois não queria casar-se com Brite (seu verdadeiro nome é Balbina). Segundo ele, alguém já havia “bulido” com ela antes dele e que D. Pombinha, que era decidida e corajosa, fora buscá-lo em São José das Itapororocas para casá-lo num prazo de 24 horas. Como não queria casar, comeu veneno; como não morreu, casou-se. Contam que o veneno foi expelido pelos poros. Brite e Epifânio viveram juntos e brigaram até pouco tempo. Dessa união nasceram sete filhos: Jove, Crispim, Tenô, Cristino, Jodita, Vadin e Maro. Era como os chamava.

Hoje, escrevendo, sinto uma grande saudade de você, tio Pifânio, uma saudade daquelas que doem, que maltratam, daquelas que fazem a gente sofrer. Você foi embora, tio Pifânio, de mansinho, sem pedir licença, sem fazer barulho. Você fez isso enquanto todos dormiam. Você não gostava de despedidas…

As nossas crianças, tio Pifânio, vão crescer sem ouvir as suas histórias. Os nossos meninos e meninas precisavam ainda aprender a comer bagos de jaca e punhados de amendoim torrado misturados com rapadura. Você precisava, ainda, espalhar a felicidade entre eles e enfeitar as suas meninices com o seu amor!

Sabe tio Pifânio, no dia do seu sepultamento lembrei daquelas coisas que você sempre dizia: “Eu já tenho a roupa do meu enterro; foi Carlito quem me deu. sei que pro mosulé eu num vô, lá é lugar de rico; mas eu sei que vocês, cada um, vai levá uma flor pra minha cova e que vão pedi pra Jesus, pra me arranjá um lugazino bom perto dele; vocês sabia qui prece de criança Deus escuta?”

Você achava bonito os enterros dos ricos e fizeram um parecido para você, tio Pifânio, « com coroa e caixão envernizado, da moda » como você gostava de dizer. O mausoléo Pifânio, que você ajudou a construir com o suor do seu rosto, hoje serve de berço para os seus ossos e você nem queria ir prá lá… Você pedia para enfeitarmos a sua sepultura com flores e nós lhe escutamos; e pusemos lá, não só os bouquets viçosos de saudades, flores liláses e tristes, testemunho do sentimento de quem fica, mas também os nossos corações de crianças.

Sabe por que, tio Pifânio? Porque prece de criança Deus escuta e atende e eu, cresci muito e esqueci muitas coisas importantes.

Adeus, meu velho, descanse em paz!

                                   Feira, 02/05/71

 

Grande qualidade de vida

                              João Ubaldo Ribeiro

Antigamente, não havia qualidade de vida. Quer dizer, não se falava em qualidade de vida. Agora só se fala em qualidade de vida e, em matéria de qualidade de vida, sou um dos sujeitos mais ameaçados que conheço. Na verdade, me dizem que venho experimentando uma considerável melhora de qualidade de vida, mas tenho algumas dúvidas. Minha qualidade de vida, na minha modesta opinião pessoal, não tem melhorado essas coisas todas, com as providências que me fazem tomar e as violências que sou obrigado a cometer contra mim mesmo. Geralmente suporto bem conversas sobre qualidade de vida, mas tendo cada vez mais a retirar-me do círculo ou recinto onde me encontro, quando começam a falar nela.

A comida mesmo me faz estar considerando, no momento, comprar uma balança de precisão e um computador de bolso com um programa alimentar especial. Antes eu comia do que gostava. Fui criado, por exemplo, com comida frita na banha de porco ou, mais tarde, na gordura de coco. Meus avós, todos mortos depois dos noventa (com exceção do que só comia o saudabilíssimo azeite de oliva — e ele morreu de AVC) comiam banha de porco e torresmo regularmente, mas, claro, ainda não tinha sido informados de que se tratava de prática mortal. Aliás, comida saudável, que se ensinava nos manuais até para crianças, era composta de leite integral, ovos, pão (com manteiga), carne vermelha ou peixe — frito, então, era uma maravilha para estômagos delicados — frutas e legumes à vontade.

Depois disso, até atingirmos a atual qualidade de vida, fulminaram o leite. Alimento completo, passou a ser encarado com desconfiança, e hoje não sei de ninguém que beba leite integral, a não ser, talvez, algum gorila do Zoológico. O ovo sofreu ataque violentíssimo, assim como o açúcar, a ponto de, tenho certeza, várias receitas tradicionais de doces serem hoje achados arqueológicos, e as poucas que restam constituam uma imitação desenxabida das que empregavam ingredientes normais e não essas massas e líquidos insossos que vivem distribuindo, como leite, manteiga etc. Claro, mudaram de idéia a respeito do ovo recentemente, mas a mudança de idéias deles só pode ser vista com desconfiança

Não houve o tempo, e não é preciso ser nenhum Matusalém para lembrar, em que para substituir a manteiga era exigida margarina, alimento saudabilíssimo, que não fazia nenhuma das monstruosidades operadas pela manteiga? O negócio era margarina e durou bastante, até que descobriram que margarina pode ser até pior do que manteiga. Melhor, na verdade, abolir manteiga inteiramente. E margarina, claro, nem pensar. Carne vermelha é uma abominação. Carne de porco é um terror. Vísceras de qualquer tipo devem ser evitadas como o diabo foge da cruz. Açúcar, meu Deus! Sorvete? Só para crianças, e crianças de pais irresponsáveis. Aliás, é um bom desafio achar algo unanimemente aprovado pelos nutricionistas, a não ser, tudo indica, capim.

Mas ninguém pode viver de capim, de maneira que, relutantemente, deixam a gente comer uma coisinha qualquer, contanto que não ultrapassemos o limite de calorias e não ingiramos o proibido e, mesmo assim, com restrições. Peixe cozido ou grelhado, por exemplo, geralmente pode, mas paira sobre seu infeliz consumidor a ameaça de que não esteja fresco ou esteja contaminado por metais pesados e pelo lixo que jogam em rios e mares. Peito de frango (e eu que sou homem de coxas e antecoxas) também assusta, por causa dos hormônios que dão às galinhas e as neuroses que elas desenvolvem, nascendo sem mãe e sendo criadas em cubículos em que mal podem se mexer, a ponto de terem de ser debicadas, para não se autodevorarem histericamente. Ou seja, mesmo comendo um peito de galinha sem uma gota de qualquer gordura e acompanhado somente por matos e alguns legumes (cuidado com a contaminação de tomates, cenouras e alfaces!), o infeliz se arrisca.

Mas vou usar o computador para calcular as calorias, as gorduras e outras características de cada refeição, porque, agora que minha qualidade de vida está melhorando a cada dia, preciso ser coerente. Fumar, não mais, nem uma pitadinha depois do café (que ninguém sabe direito se faz bem ou faz mal, temperado com adoçante, que também ninguém sabe se faz bem ou faz mal). Beber, esqueça, vai deixar você demente aos 60, além de dar cirrose e hepatite. O famoso copinho de vinho, além de ser uma porção ridícula, também está sendo questionado no momento. Parece que não é bem assim, e uma autoridade no assunto disse outro dia no jornal que o melhor é tomar suco de uva — não industrializado, é claro, por causa dos aditivos.

Restam também os exercícios. Fico felicíssimo, quando, suando e bufando no calçadão, sinto o ar fresco invadir os meus pulmões (preferia logo uma tenda de oxigênio), as pernas doendo e a certeza de que minha qualidade de vida vai cada vez melhor. Até minha pressão arterial (13 a 14 por 8), que era considerada boa para minha idade, agora já é alta e o pessoal dos 12 por 8 já começa a entrar na faixa de risco. Enfim, é duro manter esta boa qualidade de vida, ainda mais agora que me anunciam que caminhadas somente não bastam, tem de malhar também. Ou seja, temos que nos dedicar o tempo todo a manter nossa qualidade de vida. Mas, aqui entre nós, se vocês no futuro virem um gordão tomando caldinho de feijão com torresmo no boteco, depois de um chopinho, e o acharem vagamente parecido comigo, talvez seja eu mesmo, sofrendo de uma pavorosa qualidade de vida. A diferença é grande. Tanto eu quanto vocês vamos morrer do mesmo jeito, mas vocês, depois da excelente qualidade de vida que estão desfrutando aí com sua rúcula com suco de brócolis, vão ter uma ótima qualidade de morte, falecendo em perfeita saúde e eu lá, no meu velório, com um sorriso obeso e contente no rosto dissoluto.

                            Jornal O Globo, 06 de julho de 2003

Entre silêncios e palavras

 

“O homem que se entrega inteiro ao silêncio

nunca se doa inteiro

em palavras.

Eterno peregrino em seu próprio silêncio

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“L’homme qui s’adonne tout entier au
silence ne se donne jamais tout entier
en paroles
Éternel voyageur en son propre silence”

Michel Camus. Proverbes du silence et de l’émerveillement. (Collection Terre de Poésie, Editions Lettres Vives) P.41.

 

Nanja e suas máscaras

 

Neste mês de abril a artista plástica Nanja, expõe seu trabalho. O vernissage está agendado para o dia 27, e dessa vez ela apresenta algo novo e surpreendente.

 

Em vez de telas e mosaicos, Nanja, que considera o seu trabalho como uma forma de ver o mundo,  utilizou o rosto humano como matéria prima.

 

Rostos pintados, suaves ou deformados transformam-se em  máscaras, impregnadas de novos matizes e de novas expressões; elas chocam ou enternecem, amedrontam ou surpreendem. As máscaras humanas foram fotografadas por Leo Brasileiro.

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