Elisa Lucinda: protesto

 

 

Texto de Elisa Lucinda

 Meu coração está aos pulos!

Quantas vezes minha esperança será posta à prova?

Por quantas provas terá ela que passar?

Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu dinheiro, que reservo duramente para educar os meninos mais pobres que eu, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.

Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova? Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?

É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.

Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e dos justos que os precederam: “Não roubarás”, “Devolva o lápis do coleguinha”, Esse apontador não é seu, minha filhinha”.

Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar.

Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha ouvido falar e sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará.  Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear:  mais honesta ainda vou ficar.

Só de sacanagem!

Dirão: “Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo o mundo rouba” e eu vou dizer: Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês.

Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau.

Dirão: “É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal”.

Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal.

Eu repito,  ouviram? IMORTAL!

Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final!

 

 Elisa Lucinda

Elisa Lucinda nasceu em Vitória, no Espírito Santo, onde se formou em jornalismo e chegou a exercer a profissão. Em 1986, mudou-se para o Rio de Janeiro disposta a seguir a carreira de atriz  e ingressou no Curso de Interpretação Teatral da Casa de Artes de Laranjeiras. Trabalhou em algumas peças, como “Rosa, um Musical Brasileiro”, sob direção de Domingos de Oliveira, e “Bukowski, Bicho Solto no Mundo”, sob direção de Ticiana Studart. Integrou, o elenco de vários filmes, entre eles “A Causa Secreta”, de Sérgio Bianchi e também fez novelas e séries para a televisão. Além de escritora, Elisa Lucinda é professora universitária, atriz de teatro, televisão e cinema.

 

A arte de Graça Ramos e poemas de Damário Dacruz

A artista plástica Graça Ramos no Pouso da Palavra, em Cachoeira, pintando o retrato do seu amigo Damário Dacruz.

A foto é de George Lima e foi gentilmente disponibilizada pelo mesmo para ilustrar o post em homenagem ao saudoso Poeta.

Todo risco

A possibilidade de arriscar
É que nos faz homens
Vôo perfeito
no espaço que criamos
Ninguém decide
sobre os passos que evitamos
Certeza
de que não somos pássaros
e que voamos
Tristeza
de que não vamos
por medo dos caminhos.

Anzol

Angustiado olhar
do peixe capturado.
Angustiado olhar
do peixe
na mesa do mercado.
O amor, às vezes,
tem esse olhar
de quem vacila prisioneiro
quando tudo é mar.

Outros jardins  

Borboletas
são flores
que decidiram
ganhar o mundo.

 

 Insistência

Os amores impossíveis
sabem dos seu destinos.
Os amores impossíveis
insistem como beija-flores
na busca incessante
do néctar invisível.
Os amores impossíveis
estão sempre fora da rota
mas acreditam que chegarão

Caixa – preta

Sou um homem.
Portanto,
mais que palavra.

Não pronuncio
o sentimento
apenas como palavra.

O que foi dito
ao entardecer
não se confirma
na madrugada.
O que foi visto
no sonho
não se confronta
com a realidade.

Sou um homem.
Portanto,
uma surpresa.
tristeza
de que não vamos
por medo do caminho.

In Segredo das Pipas, Salvador: EPP/ BANCO CAPITAL, 2003.

 

Grande Finale

 Avise aos amigos

que preparo o último verso.

A vida

dura menos que um poema

e no alvorecer mais próximo

saio de cena.”

                    (Último poema de Damário Dacruz) 

 

 

Um poema de Florbela Espanca

 

VAIDADE

Sonho  que sou a Poetisa eleita,

Aquela que diz tudo e tudo sabe,

Que tem a inspiração pura e perfeita,

Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade

Para encher todo o mundo! E que deleita

Mesmo aqueles que morrem de saudade!

Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo…

Aquela de saber vasto e profundo,

Aos pés de quem a terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,

E quando mais no alto ando voando,

Acordo do meu sonho… E não sou nada! …

                    (Florbela Espanca)

E se eu fosse eu?

 Clarice Lispector

Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura se revela inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase “se eu fosse eu”, que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. Diria melhor, sentir.

E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até minha fisionomia teria mudado. Como? não sei.

Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo o que é meu, e confiaria o futuro ao futuro.

“Se eu fosse eu” parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido. No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais.

A arte de ser feliz

Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? Quem as comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las? Eu não era mais criança, porém minha alma ficava completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega; era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas d’água que caiam de seus dedos magros, e meu coração ficava completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não a podia ouvir, da altura da janela e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, e às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Às vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

Cecília Meireles, Quadrante I, Ed. do Autor, 5a ed. Rio de Janeiro, 1968, p. 10

 

L’art d’être heureux

Il y a eu un temps où ma fenêtre s’ouvrait en face d’un chalet. Sur la crête du chalet, il y avait un grand œuf de porcelaine bleu. Sur cet œuf, un pigeon blanc avait l’habitude de se poser. Or, dans les jours limpides, quand le ciel était de la même couleur que l’œuf de porcelaine bleu, le pigeon semblait posé en air. J’étais un enfant, je trouvais cette illusion merveilleuse et je me sentais complètement heureux.

Il y a eu un temps où ma fenêtre s’ouvrait sur un canal. Dans le canal un bateau oscillait. Un bateau chargé de fleurs. Où partaient ces fleurs ? Qui les achetaient ? Dans quel vase, dans quel salon, devant qui brilleraient-elles durant leurs brève existence ? Et quelles mains les avaient créées ? Et quelles personnes souriaient de joie en les recevant ? Je n’étais plus un enfant, mais mon âme devenait complètement heureuse.

Il y a eu un temps où ma fenêtre s’ouvrait sur une ville qui semblait faite de craie. Près de ma fenêtre il y avait un petit jardin presque sec. C’était une époque de sécheresse, de terre poussiéreuse, et le jardin semblait mort. Mais tous les matins venait un pauvre homme avec un sceau et, en silence, il jetait avec la main quelques gouttes d’eau sur les plantes. Ce n’était pas un arrosage ; c’était une espèce d’aspersion rituelle pour que le jardin ne meure pas. Et moi, je regardais les plantes, l’homme, les gouttes d’eau qui tombaient de ses doigts maigres et mon cœur devenait complètement heureux.

Il y a eu un temps où ma fenêtre s’ouvrait sur un parc où un grand manguier élargissait sa cime touffue et ronde. A l’ombre de l’arbre, assise sur une natte, une femme restait presque toute la journée, entourée d’enfants. Elle racontait des histoires. Moi, je ne pouvais l’entendre du haut de ma fenêtre et même si je l’entendais, je ne la comprendrais pas, parce que cela s’est passé dans un pays éloigné , dans une langue difficile. Mais les enfants avaient une telle expression sur leurs visages, et quelques fois faisaient avec leurs mains des arabesques tellement compréhensibles que je faisait partie de l’auditoire, j’imaginais les sujets et ses péripéties et je me sentais complètement heureux.

Quelques fois, j’ouvre ma fenêtre et je rencontre le jasminier en fleur. D’autres fois je rencontre des nuages épais. J’aperçois des enfants qui vont à l’école. Des moineaux qui sautent sur un mur. Des chats qui ouvrent et ferment les yeux, en rêvant sur les moineaux. Des papillons blancs, deux à deux, comme s’ils étaient reflétés  sur le miroir de l’air. Des guêpes qui me rappellent toujours des personnages de Lope de Vega. De temps en temps, un coq chante. Parfois, un avion passe. Tout est correct, à sa place, en train d’accomplir sa destinée. Et moi, je me sens parfaitement heureux.

Mais, quand je parle de ces petits bonheurs habituels qui sont devant chaque fenêtre, on dit que ces choses n’existent pas ; on dit aussi qu’elles ne se réalisent que devant mes fenêtres, et d’autres disent, finalement, qu’il faut apprendre à regarder pour pouvoir les voir comme ça.

(Traduzido do Português por Leni David – Paris, 15/10/92).

DOIDA OU SANTA?

                                                         Martha Medeiros

“Estou no começo do meu desespero e só vejo dois caminhos: ou viro doida ou santa”.

São versos de Adélia Prado, retirados do poema A Serenata. Narra a inquietude de uma mulher que imagina que mais cedo ou mais tarde um homem virá arrebatá-la, logo ela que está envelhecendo e está tomada pela indecisão – não sabe como receber  um novo amor não dispondo mais de juventude. E encerra:  “De que modo vou abrir a janela, se não for doida? Como a fecharei, se não for santa?”

Adélia é uma poeta danada de boa. E perspicaz. Como pode uma mulher  buscar  uma  definição exata para si mesma, estando em plena meia-idade, depois de já ter trilhado uma longa estrada onde encontrou alegrias e desilusões,  e  tendo  ainda  mais  estrada  pela frente?  Se ela tiver coragem de passar por mais alegrias e desilusões – e a gente sabe como as desilusões devastam – terá que ser meio doida. Se preferir  se abster de emoções fortes e  apaziguar  seu  coração, então a santidade é a opção. Eu nem preciso dizer o que penso sobre isso, preciso?

Mas vamos lá. Pra começo de conversa, não acredito que haja uma única mulher no mundo que seja santa.. Os marmanjos devem estar de cabelo em pé: como assim, e a minha mãe??? Nem ela, caríssimos, nem ela.

Existe mulher cansada, que é outra coisa. Ela deu  tanto  azar  em suas relações que desanimou. Ela ficou tão sem dinheiro de uns tempos pra cá que deixou de ter vaidade. Ela perdeu tanto a fé em dias melhores  que  passou  a  se  contentar  com  dias  medíocres. Guardou sua loucura em alguma gaveta e nem lembra mais.

Santa mesmo, só Nossa Senhora, mas cá entre nós, não é uma doideira o modo como ela engravidou? (não se escandalize, não me mande e-mails, estou brin-can-do).

Toda mulher é doida. Impossível não ser. A gente nasce com um dispositivo interno que nos informa desde cedo que, sem amor, a vida não vale a pena ser vivida, e dá-lhe usar nosso poder de sedução para encontrar ‘the big one’, aquele que será inteligente, másculo, se importará com nossos sentimentos e não nos deixará na mão jamais. Uma tarefa que dá para ocupar  uma vida, não é mesmo? Mas, além disso,temos que ser independentes, bonitas, ter filhos e fingir de vez em quando que somos santas, ajuizadas, responsáveis, e que nunca, mas nunca,   pensaremos  em jogar tudo pro alto e embarcar num navio-pirata comandado  pelo  Johnny  Depp, ou então virar uma cafetina, sei lá, diga aí uma fantasia secreta, sua imaginação deve ser melhor que a minha.

Eu só conheço mulher louca. Pense em qualquer uma que você conhece e me diga se ela não tem ao menos três dessas qualificações: exagerada,dramática, verborrágica, maníaca, fantasiosa, apaixonada, delirante.Pois então. Também é louca. E fascina a todos.

Todas as mulheres estão dispostas a abrir a janela, não importa a  idade  que   tenham. Nossa insanidade tem nome: chama-se Vontade de Viver até a Última Gota. Só as cansadas é que se recusam a levantar da cadeira para ver quem está chamando lá fora. E santa, fica combinado, não existe. Uma mulher que só reze, que tenha desistido dos prazeres da inquietude, que não deseja mais nada? Você vai concordar comigo: só sendo louca de pedra.                   

 A SERENATA

                 Adélia Prado

Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mãos incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natal como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
- só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?

Faxina no céu

                                                                                         Leni David 

As nuvens escuras foram chegando devagar e cobriram o azul. Em pouco tempo, trovões ribombavam e relâmpagos desenhavam ziguezagues no espaço.

A mãe fechou portas e janelas, desligou a televisão;  sobre a mesa da sala, pôs folhas de papel, cola e revistas antigas.  Ao lado das meninas recortava papéis coloridos e inventava desenhos,  jeito de esconder que tinha medo de trovoadas.

A chuva caía forte e intermitente; mais trovões, mais relâmpagos e uma queda da energia elétrica;  felizmente ainda era dia.

Mais um pipoco, daqueles que parecem partir o céu em milhões de pedaços. Todas estremeceram, se  entreolharam, e a menorzinha com os olhos arregalados exlamou:

- Eta! O céu estava sujo, mas Deus exagerou na faxina… Desse jeito ele vai quebrar tudo!

Ser mãe é dureza

O dias das Mães está chegando e lembrei de um poema de Coelho Neto que era recitado nas escolas no meu tempo de menina.

  

Ser Mãe

Ser mãe é desdobrar fibra por fibra
o coração! Ser mãe é ter no alheio
lábio que suga, o pedestal do seio,
onde a vida, onde o amor, cantando, vibra.

Ser mãe é ser um anjo que se libra
sobre um berço dormindo! É ser anseio,
é ser temeridade, é ser receio,
é ser força que os males equilibra!

Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,
espelho em que se mira afortunada,
Luz que lhe põe nos olhos novo brilho!

Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!
                             (Coelho Neto)

E lembrei também de uma canção antiga que a minha mãe cantarolava. Procurei na ‘santa’ internet e achei a letra. Vale a pena comparar os dois textos e rir um pouco.

 Ser mãe é desdobrar fibra por fibra o coração
É não pregar o olho a noite inteira no serão
É andar na correria preparando mamadeira
Ao som de uma tremenda choradeira

É fralda toda noite todo dia pra trocar
Porém na poesia esqueceram de contar
Ser mãe é muito bom para um poeta inocente
Mas ele se quiser que experimente

Ir  ao cinema já perdi a esperança
Não tenho em casa uma babá de confiança
E tome fralda e mamadeira pra lavar
Enquanto papaizinho vai pra rua passear

Pra meu castigo, meu consolo vejam só
Um belo dia sou chamada de vovó
Mas a verdade é prova de juízo
A gente por vontade padecer num paraíso

                                         (Inezita Barroso)

            Boa noite, até amanhã!

Doação de palavras

No Dia Mundial de Luta Contra o Câncer, 10 de abril, o Hospital Mário Penna (Belo Horizonte), lançou uma campanha diferente e criativa.

O hospital está pedindo uma doação inédita. Não se trata de dinheiro, nem alimentos. Ele pede, apenas, palavras

Isso mesmo, palavras, que são exibidas nos computadores do hospital e das salas de quimioterapia para os pacientes afetados pelo câncer.
Achei a idéia formidável, pois demonstra a preocupação e o carinho de médico(a)s e enfermeiro(a)s com os seus pacientes. Além disso, todos nós sabemos que as palavras são tão importantes quanto os medicamentos.  Certamente elas vão aliviar dores, provocar risos, trazer de volta a esperança e a alegria.

                                         Não custa nada ser solidário,  não é?  

                              Entre no site e doe palavra 

O pequeno escritor

                                                                                          Leni David

 O telefone tocou. A avó respondeu; do outro lado da linha, de outra cidade, Nino,  um menino de oito anos:

- Alô? Vó?… é você?

-Sou eu sim, meu amor! Que boa surpresa! Sua mãe está em casa? Quem discou o meu número pra você?

- Ninguém, Vó, eu mesmo disquei.

- Que bom, Nino, agora a gente vai poder conversar com mais freqüência; você já sabe telefonar sozinho! Quais são as novidades? Você está bem?

- Tudo bem, Vó. Eu aprendi a telefonar e liguei pra lhe contar uma novidade.

- Novidade? Que novidade é essa? Então quero ouvir…

- Eu agora sou escritor, Vó; escrevi um livro!

Controlando o riso, a avó deu continuidade ao diálogo:

- Você escritor? Que maravilha!

-É Vó, eu escrevi um livro; escrevi a história de um menino que voou num balão de papel.

E a avó com os olhos marejados, arriscou outra pergunta:

- E como é essa história? Posso saber? Você me conta?

- Conto, sim, espera um pouquinho que eu vou sentar:

“Era uma vez um menino chamado Pedrinho; ele queria passear, mas ele não podia, porque o pai e a mãe dele estavam trabalhando. Ele então foi para o quarto e ficou desenhando. Aí ele desenhou um balão bem bonito, bem colorido e que voava pelas nuvens. De lá de cima ele via o mar, a terra e as árvores, os carros bem pequenininhos. Aí um bando de passarinhos começou a voar junto dele e a fazer cambalhotas no ar. Era engraçado (risos).

O vento sacudia o balão pra lá e pra cá. Todo mundo se divertia, quando de repente apareceu uma nuvem muito escura. Pedrinho ficou com medo e começou a chorar. Os pingos de chuva começaram a cair e a molhar o balão de papel de seda. Ele achou que nunca mais ia poder ver os seus pais.

Foi aí que os passarinhos ficaram com pena do menino. Enquanto o balão murchava os passarinhos, com seus bicos, agarram na camiseta e no short de Pedrinho e trouxeram ele para casa. Quando ele abriu os olhos viu que estava deitado na cama e que estava tudo bem, mas ainda continuava chovendo. Ele conseguiu se salvar”. Ainda bem, não é Vó?

Silenciosa a avó sentia as lágrimas que escorriam pelas faces, quase sem conseguir falar, quando a vozinha, do outro lado da linha, replicou:

- Vó, você está aí? Você ouviu a minha história?

Com a voz embargada quase sussurrando, a avó respondeu:

- Ouvi, sim, querido; sua história é muito bonita. Eu adorei! Você guardou o papel onde escreveu a história?

- Não Vó, eu fiz um livro. Foi assim: eu escrevi a história ontem; dobrei o papel ofício que eu peguei no gabinete da minha mãe, grampeei e fiz um livro; fiz um desenho bem bonito na capa e escrevi o meu nome.

- E cadê o livro, você guardou? Perguntou a avó, ansiosa.

- Não, Vó, eu vendi!

Entre assustada e incrédula, a avó exclamou:

- Vendeu? A quem? Quem comprou? Eu queria tanto ter esse livro…

E o menino, sem hesitar, explicou:

- Ontem na escola eu contei a história para os meus colegas e todo mundo gostou. Depois eu perguntei se alguém queria comprar o meu livro. Aí então a professora disse que queria e aí eu vendi pra ela.

- Vendeu para a professora? E quanto ela pagou?

- Um Real!

- E o que você fez com o dinheiro?

- Comprei um sorvete de flocos na cantina.

A avó enxugou as gotas que ainda molhavam a face e com a voz trêmula concluiu:

- Obrigada, meu amor, eu amei a história do seu livro! Você é um escritor de verdade.

- De nada, Vó. Eu gosto de escrever; você quer eu escreva outro livro pra você?

E sem esperar a resposta ele concluiu:

- Eu vou escrever. Um beijo Vó, eu te amo!

                         Feira, 28 de junho de 2006.