Caminhada do Folclore de Feira de Santana – Cultura de Raiz

Milhares de pessoas coloriram as ruas centrais de Feira de Santana na manhã de domingo, 29 de agosto, durante a 11ª Caminhada do Folclore, evento realizado pela Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), através do Centro Universitário de Cultura e Arte (Cuca).

A Caminhada, que integra as comemorações do mês do folclore, tem o objetivo de colaborar para a manutenção da chamada “cultura de raiz” de Feira de Santana e região.

Cerca de 130 grupos folclóricos oriundos de Feira de Santana, Santo Amaro, Irará, Santa Bárbara, Anguera, Ipirá, Barrocas, Araci, Teodoro Sampaio, Conceião do Jacuípe, Água Fria, Serra Preta, Alagoinhas, Pedrão, Santo Estevão, Antônio Cardoso, Tanquinho e Salvador, participaram do evento.

A concentração organizada no Centro de Cultura Amélio Amorim partiu para o centro da cidade, com destino à avenida Getúlio Vargas. O público presente apreciou a apresentação de repentistas, aboiadores, maculelê, capoeira, reisado, caretas, forró pé de serra, bumba meu boi e quadrilha junina, dentre outras modalidades.

Inserida no Guia de Bens Culturais do Brasil, a Caminhada do Folclore, nesta edição, homenageou dois grupos que sempre prestigiaram a iniciativa: Lagoa da Camisa, de Feira de Santana, e Cara Pintada, de Lustosa, distrito de Teodoro Sampaio.

O evento é resultado do empenho da equipe do Cuca, dirigida pela professora da Uefs, Selma Oliveira. Foram parceiros na execução da Caminhada, a Prefeitura, o Sesc, a TV Subaé, e outros organismos públicos e privados da cidade. A idealizadora da Caminhada do Folclore, Tânia Augusta Pereira, também participou da organização do evento.

 Com informações da Ascom/Uefs.

Veja também o vídeo da décima Caminhada produzido pela TV Olhos d’Água, da Universidade Estadual de Feira de Santana, que mostra pequenos flagrantes do espetáculo cultural.

 

Coisas da Bahia – A Baiana do acarajé

 

A Baiana do acarajé : imagens do real e do ideal

(Parte I)

 Maria Lenilda David

 

“As crioulas da Bahia

Todas têm um certo quê…

Temperam a vida da gente

Como a moqueca de dendê”

(Quadrinha popular de domínio público)

Poetas, músicos e compositores brasileiros e originários de outros rincões dedicaram versos e canções à Bahia e aos seus personagens típicos, entre eles, “baianas”, capoeiristas e ialorixás. Além de “mãe do Brasil”, expressão mais corrente, a Bahia é identificada como a Boa Terra, Terra de Todos os Santos, Roma Negra e a Terra da Felicidade entre as designações mais freqüentes. A essas denominações são associadas imagens visuais inconfundíveis, como o casario colonial barroco do Pelourinho, a figura esbelta do tradicional elevador Lacerda e a imponência da “colina sagrada”, abrigando a majestosa Igreja do Bonfim. A imagem da “baiana”, no entanto, é aquela que está vinculada diretamente à imagem da Bahia como um todo e de Salvador em particular. Pode-se afirmar que a “baiana” é o símbolo baiano por excelência, imortalizada em telas, esculturas, fotografias, versos e canções[1].

Esse fenômeno merece, ao meu ver, ser discutido e analisado pois as imagens da cidade, e da “baiana”, uma trabalhadora urbana tradicional, alvo de homenagens e de versos arrebatados, oscilam entre a descrição idealizada e o pitoresco, encobrindo, na maioria das vezes, aspectos evidentes da realidade. A “baiana”, no entanto, será a personagem principal deste trabalho, por estar vinculada naturalmente ao espaço geográfico do estado e à paisagem da cidade e por representar traços fortes da vida baiana, como a mestiçagem, a religiosidade e as tradições culturais, além de representar, também, a sensualidade atribuída à Bahia (e a ela  própria), a terra do prazer e “de todos os pecados”, sensualidade evocada com freqüência através da dança, dos cheiros, e mesmo da comida que são caracterizadas como “quentes” e apimentadas. A “baiana” personagem-cúmplice da cidade, mestra na arte do feitiço e dos quitutes picantes que elabora e executa “sem parar de mexer”…

Meu objetivo é, por conseguinte, confrontar a “baiana ideal” alvo de galanterias e homenagens diversas, à “baiana real”, a trabalhadora urbana, no espaço geográfico da cidade do Salvador da Bahia de Todos os Santos, onde imagina-se que o deleite do prazer tropical sobrepõe-se à uma realidade marcada pelo trabalho e pela rotina.

Em contrapartida, a argumentação será exposta ao longo do texto, por acreditar que a compreensão será mais proveitosa, facilitando também a tarefa de situar a personagem focalizada no tempo e no espaço.

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Artigo publicado:

DAVID Maria Lenilda Carneiro S. A Baiana do acarajé : imagens do real e do ideal, Revista da Biblioteca Mário de Andrade, v. 57, São Paulo, jan./dez., 1999, p. 147-155.


[1] – Numa pesquisa que realizei entre 1994 e 1997, repertoriei cerca de novecentas canções com temas ligados à Bahia, entre as quais, cerca de trezentas dedicadas à “baiana”.

A Baiana do acarajé: Imagens do real e do ideal – Parte II

 

O percurso identitário da baiana

A vendedora ambulante foi parte integrante da paisagem brasileira e, principalmente, de cidades como Rio de Janeiro, Salvador e Recife no passado, embora essa tradição persista nos dias atuais, por ser uma atividade capaz de garantir a subsistência para uma parcela significativa da população de baixa renda, excluída do processo produtivo convencional. Esta vendedora ambulante, no entanto, segundo Pierre Verger,[1] desenvolveu no Brasil atividades que já lhe eram familiares na África e ele explica também, que, a partir de meados do século XVIII os africanos importados para a Bahia e Recife eram originários do golfo do Benin ou da Costa dos Escravos, enquanto que as outras regiões do Brasil continuavam a receber escravos do Congo e de Angola.

Segundo esse autor, esse pormenor tem importância fundamental visto que a procedência dos escravos desembarcados na Bahia contribuiu para a originalidade da vida local e para justificar porque a Bahia tem características diferentes de outras cidades brasileiras. Verger alerta ainda para o fato de que é imprescindível conhecer o espaço ocupado pelas mulheres da sociedade iorubá, na África, onde a organização da família nessa etnia é polígama, o que colabora para que a mulher desfrute de maior liberdade, em oposição às ligações monógamas. Estas mulheres são vistas apenas como progenitoras, capazes de preservar a linhagem familiar, não se integrando totalmente à família do marido, fato que lhes confere, também, uma certa independência. Nas sociedades nagô-ioruba, por exemplo, estas mulheres podem circular livremente e participar dos mercados das cidades vizinhas sendo, inclusive, boas comerciantes o que lhes permite amealhar somas consideráveis, até superiores àquelas ganhas por seus cônjuges.

Verger acrescenta que no Brasil existe uma situação análoga entre as mulheres de descendência africana, embora já não haja espaço para a grande família que gira em torno do pai polígamo. São as mulheres que mandam em casa e criam os filhos, geralmente de pais diferentes. E Verger conclui que, “elas vendem nos mercados e nas ruas, alimentos cozidos idênticos aos da África, tais como os acarajés”[2]… explicando que essas mulheres, descendentes dos nagôs preservaram o mesmo espírito de iniciativa do seu país de origem e as mesmas tendências dominadoras, tanto na família como nas suas relações com os outros. Essas observações permitem, em contrapartida, identificar características próprias das “baianas de acarajé” a trabalhadora das ruas da Bahia, que veremos no decorrer desse trabalho.

A venda ambulante de produtos diversos não é uma atividade recente; no passado, era uma atividade característica das escravas e libertas que, segundo Vilhena[3], era financiada pelos patrões, o que lhes garantia a liberdade de preços e a não interferência de terceiros em seus negócios. A atividade dessas vendedoras remonta, segundo vários pesquisadores à época colonial, quando as escravas de ganho se deslocavam pelas ruas das cidades com o objetivo de vender mercadorias diversas. Kátia de Queirós Mattoso[4] explica que no século XIX a maioria das mulheres brancas não exerciam atividades fora dos limites de suas casas; porém, quando eram obrigadas a reforçar o orçamento familiar, realizavam trabalhos de bordados, costuras e doces para serem vendidos nas ruas pelas ganhadeiras. Estas senhoras, oriundas das classes médias, não se expunham a vender o fruto do seu trabalho na rua, delegando essas tarefa às suas cativas,[5] que, exercendo essa atividade, conseguiam por vezes comprar a própria liberdade utilizando a quota de lucro que lhes cabia como recompensa do trabalho que executavam. Tânia Gandon,[6] num trabalho sobre a comunidade de Itapuã, recolheu preciosas informações, através da memória coletiva do bairro, sobre as antigas vendedoras de peixes, conhecidas também como ganhadeiras, mostrando a trajetória dessas mulheres, que foram, certamente, as predecessoras das baianas dos dias atuais.

 

As três baianas: personagens do passado, da rua e da canção

No sentido dicionarizado, a palavra baiana é identificada como “feminino substantivado do adjetivo baiano”, e como designação da “negra mestiça da Bahia, em especial a vendedora de quitandas, cuja indumentária consta de saia rodada, bata de renda, turbante, pano da costa, colares e balangandãs”. Um olhar sobre as fontes iconográficas que retratam as escravas do passado, confirma que a indumentária usada pelas vendedoras atuais quase não sofreu transformações e muitos testemunhos sobre a elegância dessas mulheres chegaram até nós através de viajantes e visitantes que percorreram as terras brasileiras[7].

Pierre Verger[8] esclarece que esse traje típico das mestiças baianas certamente seria originário das etnias nagô-ioruba,[9] cuja presença na Bahia do passado era considerável. Ele observa ainda que as pessoas dessa etnia africana vivem sobretudo em meio urbano, levando uma existência permeada de relações quotidianas, não só com vizinhos, mas também em encontros de caráter social nos mercados das cidades, atitudes que contrastam dos habitantes mais próximos do Daomé, onde a vida tinha, geralmente, um caráter rural; logo, a origem urbana da maioria dos escravos trazidos para a Bahia, poderia explicar o esmero no vestir das negras baianas que, ao que tudo indica, era mais evidente nessa cidade do que nas demais cidades brasileiras.[10]

Apesar de considerado como luxuoso e bonito, esse traje, no entanto, era peculiar às negras e mulatas, sendo utilizados ocasionalmente pelas brancas tidas como “sem sorte”, ou seja, pelas brancas pobres. Na realidade, ser uma “mulher de saia” – em oposição à “mulher de vestido”[11] – representava determinar simbolicamente a origem social dessas mulheres pertencentes às camadas pobres da população. Esta marca de distinção entre as camadas sociais não impediu, no entanto, à princesa real brasileira, Dona Isabel, de vestir-se de “preta baiana” num baile à fantasia realizado em 07 de fevereiro de 1865, em Londres, fato que foi comunicado por carta ao seu pai, o imperador Pedro II e que provocou surpresa e comentários da corte brasileira da época.[12]

Nina Rodrigues, descrevendo os usos e costumes das escravas baianas também faz alusão às roupas observando, por exemplo, que as trabalhadoras negras usavam saias largas e coloridas, batas de algodão e pano da Costa; as negras ricas, porém, acrescentavam ricos adornos à sua indumentária: as saias, nesse caso, eram de seda, a camisa de alvo linho e o pano da costa de rico tecido. Além disso, enfeitavam-se com braceletes de ouro que cobriam os braços até à metade e na cintura traziam uma penca de berloques com a imprescindível figa. Esses berloques são os famosos balangandãs, palavra que se tornou popular nos aos 30 graças à canção O que é que a Baiana tem?,[13] de Dorival Caymmi.

Segundo o historiador baiano Cid Teixeira a denominação “baiana” designando a vendedora ambulante é recente e ele explica que a sua geração, oriunda dos anos 20, não conhecia outra forma senão “crioula,” para designar a vendedora de pratos típicos daquela época. E ele acrescenta: “Ora, baiana ela já era, antes de qualquer coisa! Nós importamos a designação “baiana”, que era utilizada sobretudo no Rio de Janeiro.”[14] Em 1939, quando Dorival Caymmi, grava a canção A preta do acarajé,[15] que conquista um grande sucesso em todo o país, a vendedora que oferece os seus petiscos mercando em nagô, também não é identificada por Caymmi como a “baiana” e ele esclarece em o Cancioneiro da Bahia,[16] que aqueles versos faziam parte das lembranças da sua infância, quando escutava na rua em que morava, o canto triste da negra vendedora de acarajés: “ô acarajé ecô, olalaí ó[17]… tendo inclusive, conservado na canção que compôs as mesmas palavras e a mesma música do pregão.

Thales de Azevedo[18] em trabalho publicado em 1953, também discorre sobre o assunto o que reitera a declaração de Cid Teixeira. Eis aqui as informações do antropólogo baiano: “Aos filhos de africanos nascidos no Brasil, chamava-se de crioulos, termo ainda hoje aplicado na sua forma feminina às pretas e mulatas que se vestem como “baianas”, com torso à cabeça, saia muito ampla, camisa alva bordada e muito decotada e um chale de cores nos ombros… As crioulas típicas baianas são figuras típicas das ruas das cidades, onde podem ser vistas ao transitarem para os centros de culto fetichistas ou sentadas junto a tabuleiros em que expõem à venda, especialmente durante as festas populares, os manjares da famosa cozinha local, em grande parte de origem africana.

Existe porém, outra forma de designar as mulheres naturais da Bahia, extensiva às vendedoras das ruas da cidade, muito utilizada nos textos das canções; trata-se do substantivo iaiá, uma deformação da palavra senhora – sinhá – que no sentido dicionarizado “é um tratamento dado às meninas e às moças, de largo uso no tempo da escravidão e hoje quase abolido”.[19] Ora, sinhá, ou iaiá, era portanto a “senhorita” e não a escrava. O uso, entretanto, banalizou o termo, sendo o mesmo utilizado para expressar a naturalidade das filhas da Bahia, como forma de tratamento carinhoso e mesmo como diminutivo, quando utilizado como apelido, de uso freqüente ainda nos dias atuais, principalmente nas cidades do interior do estado. Certo é que o número de canções cujos versos fazem referência às “Iaiás da Bahia”[20] é extenso, sendo a forma utilizada também no masculino – ioiô. Em canções como O coco de Iaiá,[21] fica claro o propósito afetuoso: “Quero provar minha iaiá/ doce de coco açucarado”… Já em canções como Iaiá formosa,[22] Iaiá baianinha,[23] Iaiá, ioiô e a cuíca[24], Iaiá da Bahia[25] e Iaiá do Cais dourado[26], fica evidente a designação da mulher natural da Bahia, embora haja alusões à vendedora visto que o traje da baiana é evocado, da mesma maneira que algumas das especialidades culinárias locais preparadas por ela. Essas evocações parecem, no entanto, querer reforçar a imagem da “iaiá”, a filha da Bahia que usa saia rodada, bata rendada e sandália dourada, talvez conhecedora da cozinha típica, uma vez que a sua imagem é sempre associada a ela, mas sobretudo, exímia conhecedora dos segredos dos feitiços e requebros capazes de conquistar corações, como confirmam os versos da canção : “baiana é aquela que entra no samba de qualquer maneira, que mexe e remexe dá nó nas cadeiras e deixa a moçada com água na boca”…

Pode-se deduzir, no que concerne a indumentária e às denominações dadas à baiana que existe uma estreita afinidade entre os nomes – crioula e baiana – e a profissão dessas mulheres, ou seja, a de vendedoras ambulantes urbanas de comidas típicas, que se tornaram figuras obrigatórias das ruas da cidade, conquistado o status de símbolo da Bahia e até do Brasil.[27] Desse modo, a “crioula” e a “preta do acarajé”, do passado personificam a “baiana do acarajé” dos dias atuais, com algumas variantes do traje que as identifica e do comportamento, no que diz respeito às obrigações e preceitos de cunho religioso, pois nem todas as mulheres que exercem essas atividades, no presente, estão vinculadas ao candomblé, fato que era comum no passado.[28]

Quanto à iaiá, ela seria a “baiana ideal”, a imagem exótica do cartão postal, e da letra da canção popular, estereotipada e superficial, mas que tem boa aceitação junto ao público consumidor; a iaiá, na realidade, não tem traços afins com a baiana tradicional, a comerciante, trabalhadora de longas jornadas, capaz de enfrentar os desafios das intempéries e as dificuldades comuns àqueles que trabalham na rua.

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Artigo publicado:

DAVID Maria Lenilda Carneiro S. A Baiana do acarajé : imagens do real e do ideal, Revista da Biblioteca Mário de Andrade, v. 57, São Paulo, jan./dez., 1999, p. 147-155.


[1] – VERGER, Pierre Fatumbi. Artigos, São Paulo, Corrupio, Coleção Baianada, Vol. I, 1992.

[2] – VERGER, Pierre Fatumbi. A contribuição especial das mulheres ao candomblé do Brasil, in Artigos, op. cit. p. 98-101.

[3] – VILHENA, Luís dos Santos. A Bahia no século XVIII. Salvador, Itapuã, 1969, p. 237; citado por Tânia Gandon, Un parcours de femme dans la ville. L’Itinéraire de la ganhadeira dans la culture bahianaise, in Les femmes dans la ville – Un dialogue franco-brésilien, (Centre d’Etudes sur le Brésil), Presses de l’Université de Paris – Sorbonne, 1997, p. 65.

[4] – QUEIROS MATTOSO, Kátia. Bahia, século XIX – Uma província no Império, 2a ed., Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, p. 536. 

[5]QUEIRÓS MATTOSO, Kátia. História da vida privada no Brasil (coleção dirigida por Fernando A. Novais, vol. organizado por Luís Felipe de Alencastro), São Paulo, Companhia das Letras, 1997, p. 163.

[6] – GANDON Tânia. Un parcours de femme à travers la mémoire de la ville – L’itinéraire de la ‘ganhadeiras’ dans la culture bahianaise, in Les femmes dans la ville, un dialogue franco-brésilien, Centre d’Etudes sur le Brésil, Presses Universitaires de Paris – Sorbonne, 1997.

[7] – São muitos os comentários sobre a elegância das negras baianas, deixados por viajantes estrangeiros, entre eles, BARBINAIS Le Gentil de la. Voyage autour du monde, Paris, 1728, Tomo III, p. 203; AVE-LALLEMENT Robert. Viagem pelo norte do Brasil, Rio 1961, Tomo I, p. 21: WETHERELL James. Notes from Bahia, Liverpool, 1860, p. 72. Citados por Pierre Verger, in Artigos, Ed. Corrupio, Coleção Baianada, São Paulo, 1992.

[8] – VERGER Pierre Fatumbi. A origem africana da elegância das mulheres negras da Bahia, in Artigos, op. cit, p. 106-107.

[9] – Existe uma polêmica em torno da origem do traje da baiana; alguns autores atribuem a sua origem ao Daomé, divergindo deste pesquisador.

[10] – Por volta de 1830, Debret assinalava que « com as perturbações políticas ocorridas na Bahia em 1822, verificou-se uma grande imigração de trânsfugas… elas distinguiam-se pela sua ‘toilette’. As negras da Bahia reconhecem-se facilmente pelos seus turbantes e ela largura dos seus lenços de seda; quanto ao demais do vestuário, ele é composto por uma blusa de musselina bordada, sobre a qual elas colocam uma baeta bordada cujas riscas caracterizam o fabrico da Bahia. O valor da blusa e a quantidade das jóias em ouro são os principais objetos da sua coqueteria” .DEBRET Jean-Baptiste. Voyage pittoresque au Brésil, Paris, 1834, Vol. II, p. 223.

[11] – VIANNA, Hildegardes. A Bahia já foi assim, 2a ed. São Paulo, GDR / Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1979, p. 146, citado por Tânia Gandon, op. cit. p. 66.

[12] – AULER Guilherme. « A Redentora e o Recife », Arquivos 21, 47 e 84, Secretaria de Educação e Cultura, Recife, 1925-1965, citado por Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do folclore brasileiro, Rio de Janeiro, Ediouro, 1972, p. 126.

[13]O que é que a baiana tem ? Canção de Dorival Caymmi, gravada pelo autor em parceria com Carmen Miranda, disco Odeon 11.710a, em 1939.

[14] – Cid Teixeira concedeu-me uma entrevista, que foi devidamente registrada em fita cassete, no dia 7 de agosto de 1996 em seu escritório no bairro da Pituba em Salvador, entre 9h e 13.30h.

[15] – A preta do acarajé – Música e letra de Dorival Caymmi, disco Odeon n° 11710b, gravada em 1939 e cantada pelo autor e por Carmen Miranda. “Dez horas da noite / Na rua deserta / A preta mercando / Parece um lamento… (Iê abará) Na sua gamela / Tem molho cheiroso, Pimenta-da-costa / Tem acarajé – Todo mundo gosta de acarajé / O trabalho que dá pra fazer é que é / Todo mundo gosta de acarajé – Todo mundo gosta de abará / Ninguém quer saber o trabalho que dá / Todo mundo gosta de abará / Todo mundo gosta de acarajé… Dez horas da noite / Na rua deserta / Quanto mais distante / Mais triste o lamento (Iê abará)”

[16] – CAYMMI Dorival. Cancioneiro da Bahia, prefácio de Jorge Amado, 5a ed., Rio de Janeiro, Record, 1978, p. 160.

[17] – O pregão das vendedoras ambulantes das ruas da Bahia era cantado em iorubá; “ô acará jê ecô”, que significa “vem comer acará”; à palavra acará acabou sendo incorporado o verbo “jê” – comer – resultando hoje em acarajé. Esclarecimento de Cid Teixeira em entrevista concedida à autora em 07/08/96.

[18] – AZEVEDO, Thales. As elites de cor numa cidade brasileira : um estudo de ascensão social & classes sociais e grupos de prestígio, apresentação e prefácio de Maria de Azevedo Brandão, 2a ed., Salvador, EDUFBA – EGBA, 1996, p. 37; título original da 1a edição, Les élites de couleur dans une ville brésilienne, Paris, UNESCO, 1953.

[19] BUARQUE DE HOLANDA, Aurélio. Dicionáriio da Língua Portuguesa, Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1979, p. 254. Verbete: iaiá -  (ià-iá)[De sinhá.] – S. f. Bras. Fam. 1. Tratamento dado às meninas e às moças, de largo uso no tempo da escravidão e hoje quase abolido; nhanhá, nhanhã, nanã.

[20] – Repertoriei cerca de oitenta canções onde são encontradas as palavras iaiá e ioiô.

[21]O coco de Iaiá, composição de Américo Jacomino, cantada por Pilé, disco n° 10.015a, Odeon, 1927.

[22] – “Que iaiá formosa / teu ioiô eu hei de ser… Com sandália cor de ouro / Saia cheia de babado / Oh baiana és um tesouro, quando dança o requebrado”… Iaiá formosa, samba de A de Souza Rego, cantada par Silvio Pinto, disco Colúmbia, N° 22.260, 1934.

[23] – “Iaiá baianinha, pimenta de cheiro,/ Cheirando a leite de coco, arruda e manjericão / Machuca, machuca meu coração / Sacode mulata a saia engomada”… Iaiá baianinha – Humberto Porto, cantada pelo Trio de Ouro ; disco Odeon n° 11.611a, 1938.

[24] – “-Pimenta de cheiro, com vatapá!/ -Pra quem iaiá?/ -Pra você ioiô”… Iaiá, Ioiô e a cuíca –Fausto Vasconcelos e F. Martins, cantada em dupla por J. B. de Carvalho e Nena. Robledo, disco Odeon n° 11.882a, gravado em 1940.

[25] – “Iaiá da Bahia chegou/ Batuque não pode parar/ Levanta a poeira do chão/ Bate surdo o pandeiro e o ganzá“…Iaiá da Bahia. Ary Barroso, cantada por Deo, disco Sinter n° 00000080a, 1951.

[26] – « No cais dourado da velha Bahia/ Onde estava o capoeira/ a Iaiá também se via / Juntos na feira ou na romaria, no banho de cachoeira e também na pescaria/ dançavam juntos em todo fandango e festinha »…Iaiá do Cais Dourado, samba-enredo de Martinho da Vila e Rodolfo de Souza, apresentado pela Escola de Samba Vila Isabel no  carnaval de 1969, gravado pelo selo Arabela BMG, disco n° 60034335, 1972.

[27] – O samba exaltação que ocupa um lugar de destaque na música popular dos anos 30-40, canta o Brasil e sua natureza, sua riqueza, suas mulheres e tradições, focalizando na Bahia através da imagem de Carmen Miranda e com a ajuda dos baianos, uma série de valores ideológicos que são sistematicamente exploradas para a propaganda do Brasil no exterior, sendo inclusive, incentivados pelo DIP, enquanto o Brasil escuta ao pé do rádio, as proezas do Brasil mulato e da baiana de saia rendada. A este respeito, consultar: Música – O nacional e o popular na cultura brasileira, Enio Squeff e José Miguel Wisnik, São Paulo, Brasiliense, 1982; Afonso Romano de Santana, Música popular e moderna poesia brasileira, Petrópolis, Vozes, 1986.

[28] – Sobre as práticas e preceitos religiosos das “baianas de acarajé”, ver LODY, Raul. Santo também come, 2a ed. Rio de Janeiro, Editora Pallas, 1998. (Prefácio de Gilberto Freyre para a 1a edição (1978) e de Maria Stella de Azevedo (Mãe Stella, do Axé Opô Afonjá), para a 2a ed.

A Baiana do Acarajé: imagens do real e do ideal

 

 Parte III (Final)

A “baiana” no cenário da cidade

 

Em Bahia, imagens da Terra e do povo,[1] coletânea de crônicas publicadas originalmente na revista O Cruzeiro, Odorico Tavares, no capítulo dedicado à cozinha baiana, lamenta a escassez de bons restaurantes na cidade no início dos anos 50, elogia a cozinha das casas tradicionais e aconselha ao visitante que, não podendo usufruir de uma refeição em uma residência local de cozinha afamada, a procurar os restaurantes no Mercado Modelo, advertindo ainda: se o viajante “não é muito exigente e está entusiasmado pelo pitoresco, em muito pé de escada, nas Laranjeiras e no Pelourinho, encontrará quem faça uma moqueca bem feita”. Elogia as “baianas” Odília, “que vende a melhor cocada preta da Bahia” e Vitorina, instalada em frente ao bar “Anjo Azul”, no Cabeça, cujo acarajé “é o que há de melhor”. Pela descrição de Odorico Tavares presume-se que o número de baianas era expressivo e que as mesmas podiam ser encontradas facilmente em vários pontos da cidade: “Também em frente ao Elevador Lacerda , nas feiras populares, há quituteiras que fazem ótimos acarajés… No terreiro de Jesus, à tarde ou à noite, também se encontram ‘baianas’ sentadas à beira dos passeios, com suas vestimentas próprias, sua higiene impecável, preparado seus quitutes para boêmios, para transeuntes, altas horas da noite”[2].

Foto:   Everaldo Luis

Se a economia baiana havia atingido no início da década de 50 o máximo da letargia na qual mergulhara há quase 100 anos, a criação da Petrobrás representou o marco de uma nova era.

A “vocação turística” da cidade passou a ser explorada pela administração estadual e municipal, a implantação do Centro Industrial de Aratu alimentou os sonhos de modernidade de grande parte da população que via na chegada do progresso, a saída para as suas dificuldades e do ponto de vista cultural, o Reitor da Universidade Federal da Bahia, Edgard Santos, vai representar o grande passo para a realização de projetos extraordinários na área cultural.

O surto de transformação da economia estadual então deflagrado, como não poderia deixar de ser, e que se estendeu até as décadas de 60 e 70 com a implantação do Centro Industrial de Aratu, alcançou a cidade e sua Região Metropolitana, marcando-as profundamente.

Nessa época, opulência e pobreza, subdesenvolvimento e modernidade, exibiam-se insolentemente. Definitivamente, Salvador mudava de aspecto a partir da aventura industrial e da implantação dos projetos de modernização. Grandes cadeias de lojas passaram a dominar o setor comercial, que também deslocou-se do Centro Histórico para a região da Pituba e para as novas avenidas. Os shoppings centers recém instalados conquistaram a população que podia fazer compras sem se expor às dificuldades comuns do antigo centro da cidade. Tudo mudou, a cidade transformou-se e o setor turístico também recebeu um impacto muito grande à partir de então. Segundo Scheinowitiz,[3] a cidade antiga com estruturas arcaicas, a primeira cidade fundada na Terra de Santa Cruz, a Salvador das ruas estreitas e sinuosas, a cidade da poesia e do langor, a sonhadora e a mística, entra de vez no ritmo célere da modernização e um exército de operários fura os morros, cava túneis e constrói viadutos.

Em oposição à esse surto de modernização a sociedade brasileira, segundo Prandi[4] participará ativamente de um projeto de recuperação das origens que remete diretamente à Bahia. Valoriza-se a cultura negra, sobretudo a cultura negro-baiana e essa mudança de rumos seria determinada pelas classes médias, ou seja, pela intelectualidade brasileira de maior legitimidade dos anos 60. Além disso, da modernidade da Bossa Nova à Tropicália, os baianos lideram os movimentos renovatórios da música popular brasileira. A Bahia ganha espaço na mídia, fala-se do Cinema Novo e da literatura de Jorge Amado; as ialorixás são homenageadas por artistas em evidência no cenário artístico nacional. E as “baianas”? Que espaço elas ocupam no cenário “novo” da cidade?

Até 1975, as notícias que evocam a “baiana de acarajé” fazem referência, principalmente, à sua participação no cortejo da lavagem do Bonfim, aspergindo com água perfumada as cabeças dos políticos em voga. Em 1975, no entanto, publica-se matéria com o seguinte título: Baiana do acarajé será cadastrada pela prefeitura.[5] O texto inclui declarações de Waldeloir Rego, diretor do Departamento do Folclore, Festas Populares e Esportes da Prefeitura Municipal do Salvador, entidade fundada em 1973, justificando a medida como necessária para a preservação dos valores culturais, além de garantir um produto de qualidade, pois algumas baianas inescrupulosas estavam adulterando a massa do acarajé, acrescentando à mesma, farinha de mandioca e de milho, o que alterava o sabor e a consistência dessa iguaria.

Em julho de 1977[6], aparecem números oficiais da prefeitura de Salvador, mais precisamente do Departamento do Folclore, Festas Populares e Esportes da Prefeitura Municipal do Salvador, informando que cerca de quinhentas “baianas” estavam cadastradas nesse organismo[7] e que as inscrições isentavam as interessadas do pagamento de taxas, “exigindo-se apenas que a cadastrada vista-se de acordo com a tradição e que mantenha rigoroso asseio pessoal, como também dos seus objetos de trabalho.” O mesmo jornal, em reportagem do mês de setembro do mesmo ano, publica nova matéria sobre o tema cujo título, Prefeitura não exigirá das “baianas” o traje típico,[8] deixa claro que houve reação das “baianas” com relação às medidas impostas pelo órgão público. A declaração é da senhora Sônia Garrido, diretora da Divisão de Folclore, fato que demonstra que a entidade responsável pela medida não era mais a mesma e que a sua direção havia mudado. Informa-se também que há cerca de seiscentas baianas cadastradas e que metade delas vendem iguarias em cumprimento à obrigação do candomblé apresentado-se devidamente trajadas com a indumentária tradicional, em obediência aos preceitos da crença.

A partir de 1978 a Federação do Culto Afro-Brasileiro assume a responsabilidade do cadastramento e fiscalização das “baianas.” Porém, no início do mesmo ano, a reportagem tendo como título Baianas condenam discriminação religiosa na vendagem de comidas típicas,[9] denuncia a pretensão da entidade de afastar as vendedoras que não fossem filiadas ao candomblé e vinculadas a um terreiro. Houve protestos da maioria das vendedoras de comidas típicas que, indignadas, justificavam: “quem trabalha com tabuleiro é porque precisa de uma ocupação para garantir o seu sustento e da sua família, independente da seita ou religião a que pertença.” Mesmo as baianas vinculadas ao candomblé se mostraram descontentes com a entidade por considerá-la injusta, discriminando as “baianas” não adeptas do candomblé, num desrespeito à liberdade religiosa garantida por lei. Os objetivos da entidade não foram adiante e até novembro de 1998 ela foi a responsável pelo cadastramento, fiscalização e concessão de “pontos” para as “baianas de acarajé” de Salvador.

Em 1982 é criado o “Dia da Baiana,”[10] promoção da Bahiatursa, órgão oficial de turismo do estado, tendo sido escolhido o dia 25 de novembro para os festejos e homenagens. As comemorações do dia da baiana repetem-se a cada ano, com missa festiva na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no Pelourinho, café da manhã, apresentações de sambas de roda, cânticos, sorteios e distribuição de prêmios entre as participantes. Segundo as reportagens dos jornais locais,[11] esta festa conta com a participação de baianas idosas e jovens, algumas com mais de cinqüenta aos de profissão, todas elas vestidas à rigor, exibindo suas mais belas indumentárias. Além disso são muitos os testemunhos destas mulheres que não poupam comentários sobre as dificuldades os prazeres nas duras jornadas de trabalho que começa, em geral, nas primeiras horas do dia, quando a maior parte da população ativa ainda dorme.

O título da matéria que anuncia a criação do “dia da baiana”, não necessita de explicações para que se possa entender as razões que motivaram a Bahiatursa a criar essa data festiva homenageado as trabalhadoras urbanas mais famosas da Bahia. No texto, a explicação é clara: “Com o objetivo de valorizar e estimular a figura da baiana típica, que através do seu trabalho difunde a culinária, a cultura e os costumes dos baianos, a Bahiatursa instituiu o dia 25 de novembro como o ‘Dia da Baiana do Acarajé’, quando será desenvolvida uma intensa programação nos principais centros emissores do fluxo turístico para o estado da Bahia.” A programação em questão visava atrair turistas de outras cidades brasileiras, principalmente Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Brasília e Recife. “O vôo da Baiana” deu início à programação e sete baianas típicas embarcavam em companhias aéreas com destinação prevista para as capitais mencionadas acima, distribuindo entre os passageiros fitas do Senhor do Bonfim, programas anunciando os eventos festivos do verão baiano. Durante o vôo os passageiros escutavam canções cujos temas versavam sobre a própria baiana e na cidade de destino elas eram recebidas por uma personagem típica local. À noite era oferecido um coquetel à imprensa, às autoridades, aos diretores de agências de turismo e viagens, onde saboreava-se acarajés e batida de limão, havendo distribuição de brindes e folhetos promocionais. Esta programação foi repetida durante alguns anos, na mesma época, garantindo o sucesso das programações turísticas idealizadas pela Bahiatursa. No aeroporto de Salvador, nas saídas dos desembarques nacionais e internacionais, “baianas” distribuíam fitinhas do Bonfim aos passageiros, enquanto conjuntos de samba batucavam alegremente, despertado a curiosidade dos viajantes que desembarcavam na cidade, mesmo em plena madrugada.

Muitas coisas mudaram nestes últimos anos. Convidar “baianas” para servir iguarias nas festas refinadas e oficiais, tornou-se comun. Os jornais do Sul publicam reportagens sobre as “baianas.”[12] Até uma delicatessen[13] de Salvador, especializada em produtos finos, adotou o acarajé como chamariz para a clientela, vendendo em média cerca de seiscentos acarajés por tarde, que são confeccionados pelo setor de produção e não pela “baiana” que serve o petisco, como acontece habitualmente. Os acarajés são expostos em tabuleiros elétricos, permanecem quentes pois são conservados em banho-maria e cada compartimento apresenta uma iguaria diferente “sem aquela miscelânea que se pode observar nos tabuleiros tradicionais”. A “baiana”, é jovem, meiga e bonita tendo sido escolhida pela gerência do estabelecimento comercial para exercer a função. Uma experiência que deu certo, segundo os idealizadores.

Enquanto isso, algumas “baianas de acarajé”, como Cira[14] e Dinha,[15] estabelecidas respectivamente no Rio Vermelho e em Itapuã, chegam a comercializar mil acarajés por dia, durante a semana e mil e quinhentos acarajés diários nos fins de semana. Cira por exemplo tem uma rede de distribuição em vários pontos da cidade. As garçonetes fardadas servem os petiscos mediante fichas vendidas num caixa especial. Dinha, em contrapartida, tem um celular para atender os pedidos dos “clientes vips” e transporta o seu material de trabalho em carro de sua propriedade e é convidada com frequência para participar de eventos no sul do país.

Cursos de higiene alimentar (o primeiro realizado em 11 de abril 1992),[16] são oferecidos a cada ano. Surgiram associações, entre elas a ABA – Associação das Baianas de Acarajé, fundada em 1992,[17] contando com mil e duzentas associadas em 1998, entre as quatro mil vendedoras de comidas típicas trabalhando na região metropolitana do Salvador.

Já é possível comprar acarajés a quilo e sob encomenda e muitas baianas, que modernizaram, inclusive, o tabuleiro, aceitam vales de transportes como pagamento e oferecem um refrigerante gratuito na compra de um acarajé.[18] Em contrapartida, pode-se ler reportagens com título provocador – “’Baianas empresárias’ esquecem tradição.”[19]

Finalmente, a briga entre Dinha e Regina pela disputa da clientela no Largo de Santana no Rio Vermelho ocupou a primeira página da imprensa local[20] sendo notícia até no Jornal Nacional da Globo. Em razão dessa disputa a prefeitura, através da Secretaria de Serviços Públicos – SESP, chamou para si a responsabilidade pelas baianas. Em 25 de novembro de 1998, foi assinado pelo prefeito de Salvador, Antônio Imbassahy, decreto regulamentando, pela primeira vez na história do município, o uso e a ocupação do solo.[21] As “baianas” terão um prazo de um ano para adotar as novas normas. Foi criada uma taxa destinada ao licenciamento para a exploração do comércio de iguarias, devendo a mesma ser renovada anualmente, haverá padronização do equipamento e obrigatoriedade do uso do traje típico.

Foto: Lucila Moreira

OBSERVAÇÕES FINAIS

Apesar do romantismo que envolve a “baiana,” – não só pelo carisma dessa personagem que conquistou a simpatia de baianos e brasileiros e que soube preservar ao longo dos tempos traços marcantes da cultura da Bahia, no mundo moderno e com a “globalizaçao” invadindo os mais recônditos rincões do planeta, a sua imagem poderia ser interpretada como irreal e ultrapassada. Essa baiana nostálgica lembra a Salvador do passado, escondendo mistérios nas ruelas estreitas.

A cidade e a baiana mudaram de fisionomia e de hábitos, modernizaram-se. As ladeiras do Pelourinho também já não escondem mistérios e segredos, estão iluminadas e policiadas. A “baiana” idealizada, a mulher-desejo percebida através dos cheiros, pelo paladar, pela sedução e da dança rica de meneios e requebros já não encanta tanto. Mas baianas como a Odilia e a Vitorina da época de Odorico Tavares existem ainda. A “baiana” personificada por Verger, capaz de enfrentar desafios e de transpor obstáculos pode ser encarnada pela maioria das “baianas”, sejam elas modestas, ou empresarias promissoras, sobretudo a mulher trabalhadora que enfrenta a rua carregando tabuleiro, fogareiro e a matéria prima para a confecção dos pratos, ferramentas do seu trabalho quotidiano, necessárias às solicitações mais elementares da família.

A “baiana de acarajé” das ruas da cidade do Salvador tornou-se personagem pública, real e imaginária, uma mulher trabalhadora e uma escultura simbólica feita de versos rimados e de lembranças saudosas, sobre um fundo permanente de precariedade social e econômica.

 

Artigo Publicado:

DAVID Maria Lenilda Carneiro S. A Baiana do acarajé : imagens do real e do ideal, Revista da Biblioteca Mário de Andrade, v. 57, São Paulo, jan./dez., 1999, p. 147-155.

 


[1] – TAVARES Odorico, Bahia, Imagens da terra e do povo, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1951, p. 131- 140.

[2] TAVARES Odorico, Bahia, imagens da terra e do povo, op. cit. p. 137.

[3] – Scheinowitiz, A.S., O macroplanejamento da aglomeração de Salvador, Salvador, Secretaria da Cultura e Turismo, EGBA, 1998.

[4] – PRANDI, Reginaldo. As religiões negras do Brasil, in Dossiê povo negro – 300 anos, Revista da USP , Coordenadoria de Comunicação social, Universidade de São Paulo, N° 1 (mar./mai. 1989, p. 74.

[5] – Jornal A Tarde, 16/07/1975 “Baiana do acarajé será cadastrada pela prefeitura. »

[6] – Jornal A Tarde, 8/07/1977, « O que é que a « baiana » tem ?, texto de Marcos Luedy..

[7] – Lista dos principais « pontos », com o número de « baianas » em suas zonas específicas : Avenida Sete de Setembro, 15 ; Amaralina : 14 ; Nazaré : 18 ; Baixa dos sapateiros : 17 ; Barroquinha : 27 ; Brotas : 16 ; Comércio :81 ; Estação Rodoviária :12 ; Itapuã : 84 ; Praça da Sé : 17 ; Terreiro de Jesus : 11 ; Vila Olímpica : 10

[8] – Jornal A Tarde, 05/09/77.

[9] – Jornal A Tarde, 31/07/1998.

[10] – Dia da « baiana do acarajé » para estimular o turismo », Jornal A Tarde, 21/11/1982.

[11] – “Baiana” tem paz de espírito e esperança, Jornal A Tarde, 26/11/83; Cidade homenageia baianas do acarajé com muito samba, Correio da Bahia, 24/11/85 ; Dia de festa para asbaianas”, A Tarde, 25/11/89; Percussão afro dá ritmo à missa no dia da baiana, Correio da Bahia, 26/11/1992; Profissão de féBaianas de acarajé fazem festa no Pelourinho, Correio da Bahia, 2/11/97; Hoje é dia da « baiana do acarajé » festejar, Jornal A Tarde, 25/11/97; Missa para homenagear as baianas revela sincretismo, A Tarde, 26/11/98;

[12] – Raimunda quer vender acarajé na praça – Acervo do Norte. Diário da Noite, São Paulo, 29/08/70; Baiana: em cada banca um mistério, Raul Lody, Jornal Última Hora, Rio de Janeiro, 10/05/80; Algumas das « baianas » mais conhecidas de Salvador, O Globo, 30/05/91.

[13] Delicatessen invadida por baiana de acarajé, Jornal A Tarde, 04/02/96.

[14] – Cira dá mais o que falar na briga entre as baianas., A Tarde, 17/11/98.

[15] – Imperatriz do acarajé – Grife do dendê, Correio da Bahia, 29/03/96.

[16] – « Baianas concluem curso sobre noções de higiene » Jornal A Tarde, 11/04/92. Das 2.067 baianas cadastradas pela Federação do Culto Afro Brasileiro, 538 baianas inscreveram-se no curso oferecido pela Secretaria de Saúde da Prefeitura do Salvador.

[17] – Entidade quer organizar « baianas” Jornal A Tarde, 16/10/98.

[18] – Baiana de acarajé inova para vencer concorrência, Jornal A Tarde, 13/11/96.

[19] – Reportagem publicada no Jornal A Tarde em 27/09/97, denunciando o marketing e as novas técnicas de comércio como responsáveis pela descaracterização da « baiana do tabuleiro » tradicional.

[20] – « Guerra do acarajé » na disputa de ponto no Largo de Santana, A Tarde, 16/10/98 ; Baiana vai à justiça para ficar no Largo de Santana, A Tarde, 21/10/98 ; Regina mantém –tabuleiro próximo ao de Dinha no Largo de Santana, A Tarde, 22/10/98 ; Novela das baianas pode render novos capítulos, A Tarde, 24/10/98; Guerra das baianas esquenta, Correio da Bahia, 24/10/98.

[21] – Decreto acaba com a guerra do acarajé em Salvador, A Tarde, 25/11/98.

Uma coisa puxa outra

 

                                                        Leni David

Liguei o computador. Olhei se havia correspondência e dei uma olhada nas manchetes do dia: assassinatos, prisões, catástrofes e corrupção; no tempo do Vinícius lia-se “muito sangue nos jornais”, mas hoje ele também invade as nossas casas sem pedir licença e nem é preciso comprar jornal.

Alguém na rua passou assobiando uma canção antiga. Lembrava da letra, mas não sabia o seu nome, então digitei a palavra “cantareira” no Google e entre outras respostas, encontrei a que queria: “Mambo da Cantareira”, antigo sucesso de Gordurinha, regravado por Macalé em 1974, no disco Aprender a nadar. Rememorei os versos:

 

“Só vendo como é que dói

Só vendo mesmo como é que dói

Trabalhar em Madureira

Viajar na Cantareira

E morar em Niterói

Eh, Cantareira

Eh Cantareira

Vou aprender a nadar”…

 

Só agora me dava conta de que o Mambo da Cantareira, do baiano Gordurinha, fazia uma crítica social. Falava das barcas que atravessavam a Baía de Guanabara, as Cantareiras e das dificuldades enfrentadas pelo trabalhador urbano, morador de Niterói, que trabalhava na periferia do Rio – Madureira – e que era obrigado a enfrentar a travessia da Baía para ganhar o seu sustento. E a música era quente, um mambo dançante e animado.

Mas a recordação que eu guardava da música estava relacionada ao meu irmão, que na época tinha uns nove anos. Ele estava sentado no banco, os cotovelos apoiados sobre a mesa, o rosto entre as mãos e escutava com atenção a música que tocava no rádio, o Mambo da Cantareira; eu engomava a blusa da farda do colégio e também cantarolava a canção.

De repente ele perguntou:

- Lelene, se eu pedir pra o rádio tocar uma música, ele toca?

Distraída, respondi que sim. Ele então deu um pulo, subiu no tamborete e com a boca bem próxima à  tomada elétrica, gritou:

- Seu homem, toca Cantareira de novo que eu quero ouvir!

Lembro da minha gargalhada, da sua carinha de decepção e da frase desconsolada:

-Você disse que tocava!…

 

Ciro de Mattos – Um poeta grapiúna

  Ao poder quem pode se apega.

Dois pratos, nenhum equilíbrio.

Visível mesmo é o muro divisor.

Uma justiça que se diz cega,

carece do escuro e nele permanece

               ******

 

Da cabeceira à foz

Com tantas explicações

Para saber enfim

Que nada sei de mim

 ********

 

PREGUIÇA

Nasce,
come,
dorme.

Cresce,
come,
dorme.

Cria,
come,
dorme.

Na mesma
árvore
pende
e morre.

 Cyro de Mattos nasceu em Itabuna, na zona cacaueira da Bahia, em 1939. Seus  versos falam do cotidiano, coisas, lugares e pessoas. Cyro de Mattos trabalhou na imprensa diária carioca e colaborou com diversas publicações literárias. Sua obra, entre livros de crônicas, contos e poesia, ultrapassa os 20 títulos.

 

Feira do Livro supera expectativa e empolga o público participante

 

Um evento acima da expectativa, em que o público de Feira de Santana e de outros municípios respondeu com participação ativa nos cinco dias de realização. A avaliação da 3ª Feira do Livro – Festival Literário e Cultural, feita pelo coordenador de Extensão da Uefs, Genival Corrêa, reflete a satisfação tanto das pessoas que visitaram os estandes da Feira, armados na Praça João Barbosa de Carvalho (Praça do Fórum), quanto dos expositores, artistas e autores que fizeram lançamentos de obras.

A 3ª Feira do Livro recebeu um grande número de visitantes. Foram debates, mesas redondas, apresentação teatral, lançamentos de livros, recitais de cordel, shows musicais, além da venda de livros. Estimativas indicam que a participação do público superou a expectativa inicial de 10 mil pessoas.

Na tarde de quinta-feira, o escritor Washington Queiroz proferiu palestra com o tema Bahia dos Vaqueiros: um Débito. Na oportunidade falou da importância do vaqueiro na formação das principais cidades do Nordeste do Brasil, especialmente da Bahia, e lamentou o não reconhecimento desta atividade como uma profissão legítima.

Na sexta-feira pela manhã, uma mesa redonda com Aleilton Fonseca, Antonio Brasileiro, Raymundo Luiz Lopes, Valdomiro Santana e Washington Queiroz, coordenada por Roberval Pereyr, abordou o tema O Evento do Livro na Bahia.

No sábado, foi realizada mesa-redonda com o tema Tecendo Cordas: dos Pioneiros à Regulamentação da Profissão do Cordelista (conversa de poetas), com a participação do cordelista Antônio Alves da Silva, do xilógrafo e artista plástico Luiz Natividade e do folheteiro Jurivaldo Alves da Silva.

Novos talentos da literatura

Dentre as atividades da 3ª Feira do Livro, a Oficina de Criação Literária ministrada pelo jornalista e escritor Luís Pimentel atraiu um público diversificado. Participaram estudantes de Letras, História, Direito, Enfermagem e outros cursos, unidos no gosto pela literatura. Eles produziram contos e poemas que serão selecionados para publicação pelo Museu de Arte Contemporânea Raimundo Oliveira.

Para a estudante de odontologia da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), Deborah Abreu, a oficina representou um momento importante para escritores iniciantes vivenciarem a dimensão artística. “Foi um encontro oportuno que criou uma atmosfera agradável para o debate e a criação literária”, reconheceu.

 

O escritor Washington Queiroz visitou o evento e afirmou que é muito importante a participação de estudantes numa oficina de criação literária. Na oportunidade, recebeu do jovem escritor, Ricardo Thadeu, o livro de poemas, D’antes. Queiroz aprovou a obra e disse que estava se deliciando com os poemas.

 

Para Thadeu, que é estudante de Letras da Uefs, “a oficina, bem como a Feira, se mostrou de fundamental importância, permitindo o contato com escritores e com o público em geral”.

Luís Pimentel elogiou os trabalhos produzidos pelos participantes da oficina e disse que aquele momento não podia parar ali. “É importante que o grupo continue se encontrando e produzindo sempre”. O ministrante destacou que encontros como este já revelou escritores que seguem ganhando prêmios de literatura pelo país.

Oportunidade de monitoria

A Feira também é uma oportunidade para estudantes da Uefs atuarem como monitores. A estudante de letras, Laís Cristina, disse que a monitoria é uma experiência muito boa. “Permite conhecer pessoas de outros cursos e é uma oportunidade de contribuir para um evento da instituição”, destacou.

A 3ª Feira do Livro é fruto de parceria entre a Uefs, Arquidiocese de Feira de Santana, Prefeitura Municipal, Direc, Sesc, Sesi e Sest/Senat.

 Luciano Ferreira – Ascom/Uefs.

 

Filmes inaugurais da Nouvelle Vague francesa no Teatro do CUCA

24/08 – 19h – Acossado  (À Bout de Souffle) 1959. França. 90 min.

Direção: Jean-Luc Godard.

 

A Nouvelle Vague francesa foi inaugurada com com “Acossado” (À Bout de Souffle), de Jean-Luc Godard (França, 1959), em exibição hoje, no Teatro do CUCA. O objetivo de Godart era quebrar regras e chamar a atenção da juventude inquieta e politizada do final dos anos 50. A realização foi um divisor de águas na história do cinema. De forma inovadora o filme narra a fuga de um ladrão parisiense, representado por Jean-Paul Belmondo.

 (Não recomendado para menores de 12 anos).

 

Na semana que vem, dia 31 de agosto, o filme que será apresentado é de Truffaut; veja a ficha:

 31/08  Os Incompreendidos  (Les Quatre Cents Coups)1959. França. 99 min.

Direção François Truffaut.

O filme é quase um documentário autobiográfico, com várias ações retiradas da própria vida do diretor. A narrativa enfoca um dos temas mais caros à Nouvelle Vague, técnica e liberdade.

(Não recomendado para menores de 14 anos).

A iniciativa é do SESC – BA, com o apoio do CUCA  

Noite de valorização da música

Este é a segunda edição do Quinta Autoral Caiubi. Abrem-se as cortinas para a celebração de mais uma noite de boa música produzida pelos artistas de Feira de Santana. Um momento único cuja magia se espraia e energiza este espaço com o encontro do público e seus artistas preferidos.

Tudo isso graças à participação de artistas associados ou convidados do Clube Caiubi de Compositores, a maior rede de relacionamentos de músicos, jornalistas e produtores culturais existente no mundo, reunindo mais de 6.000 associados. Fundado em 2002, em São Paulo, por Osmar Lazarini (Sonekka), o clube busca a valorização da música autoral.

A realização do Quinta Autoral Caiubi conta com o apoio cultural da Universidade Estadual  de Feira de Santana (Uefs), por meio do Centro Universitário de Cultura e Arte (Cuca).

Esta noite será abrilhantada com as presenças de Carlos Pitta, Cescé, Dionorina e Ânima Trio.

Uma crônica de Aleilton Fonseca

 

CARTA A UM JOVEM POETA

 

Aleilton Fonseca

Releio sempre a carta que o poeta Carlos Drummond de Andrade me enviou em 1981. Naquele tempo eu tinha 22 anos e havia publicado o primeiro livro de poemas. A idade ardia numa vontade doida de traduzir a vida em versos. Hoje, após tantos janeiros, as musas me cutucam e esbravejam, mas já sei que é difícil comover o vasto mundo, este vale de lágrimas, desamor e enormes cifras.

O poeta gostou do livro e me mandou, em sua letra e estilo inconfundíveis, um voto de confiança, um estímulo, um sopro de vida numa chama que mal balbuciava. Com o envelope inesperado na mão, fiquei atônito entre a alegria trêmula e uma súbita responsabilidade. O carteiro não estivesse já longe e eu o abraçaria, convidá-lo-ia a entrar, conversaríamos sobre o autor daquela carta, eu lhe recitaria os poemas da Rosa do Povo.

Planejei responder ao poeta, mas a surpresa me ofuscou as idéias. E agora, José? Eu lia e relia a mensagem, lembrava de minhas primeiras incursões por sua poesia no ginásio e na biblioteca pública. Aquele nome tão longínquo agora me parecia estranhamente tão próximo. Não consegui inventar palavras para expressar o meu estado de espírito. A missiva, hoje amorosamente amarelada, ficou sem resposta para sempre.

No final daquele ano fui ao Rio e planejei fazer uma visita de surpresa ao poeta. Um dia, saí com o endereço anotado, decidido a ir bater em sua residência. Mas, à medida que avançava pelas ruas, a coragem se perdia pelas esquinas. Acabei perambulando o dia todo, sem encarar o caminho definitivo de um encontro com  o admirado autor de Boitempo. E se ele não me atendesse? E se não passasse de um “como vai?”, um “prazer em conhecê-lo” formais? Seria uma situação constrangedora, – o poeta diante de um jovem desconhecido que vinha de certa forma importuná-lo, logo ele, tão discreto e avesso aos cultos da personalidade. Não fui.

Até hoje oscilo quanto ao acerto daquela decisão: ora me arrependo de haver desistido, ora acho que assim foi melhor. O encontro poderia ter sido a quebra de todo encanto. Guardei na distância a admiração e a gratidão pelo gesto de incentivo, embora sentisse também um enorme vazio. Em 1987, quando recebi a notícia de que o poeta havia falecido, senti um choque, uma sensação pontiaguda de perda irreparável, um abismo me engolia e as lágrimas brotavam de meu olhar fatigado. O poeta se foi e eu fiquei cativo de minha não-resposta, da perda de sua presença e de sua palavra. Mas, por outro lado, algo valioso eu ganhei: o sentido poético dessa falta, que se conforma e se alimenta na leitura da velha carta, na lembrança de uma resposta não escrita, de uma visita não realizada, de um poema-homenagem que se escreve para sempre em minha memória.

 

 Drummond encantado

 

Há tantos anos,

o coração do poeta desistiu

de lutar com palavras.

 

Não lhe mandei minha letra,

nem recolhi sua imagem viva

em meu olhar.

 

O poeta encantou-se,

liberto de nós e de si mesmo.

 

E a mim só me resta

a letra íntima da página muda

que nunca lhe escrevi.

Posts da Semana

 

Clique no título para acessar o post ou leia abaixo

 

Leitura para o fim de semana: Martha Medeiros

11ª Caminhada do Folclore leva manifestações populares às ruas – 29 de agosto

 Tango – acrobacia e sedução

Dave Brubeck – Take Five

Clube de fotografia Gerson Bullos realiza exposição

Autorizada Ordem de Serviço para restauração da Igreja Senhor dos Passos

Feira de Santana – Começa hoje a terceira Feira do Livro

Luiz Melodia e Cássia Eller

O homem bom e o vestido de flores

Um poema de Drummond – O amor antigo

Ney Matogrosso canta Cartola

 

Boa leitura e divirta-se

Leitura para o fim de semana: Martha Medeiros

 

Martha Medeiros

 

Você conhece um chato. Ou dois. Ou meia-dúzia. E até gosta deles, viraram figuras folclóricas na sua vida. Talvez seja um cunhado, um amigo de um amigo, um colega de trabalho. Os chatos são bem-intencionados, não se pode negar. E é justamente essa boa intenção fora da medida que faz deles… chatos. O chato nada mais é que um exagerado. Ele é prestativo demais, ele é piadista demais, ele leva muito tempo para contar algo que lhe aconteceu, ele fica hooooras no telefone, ele se leva a sério além do razoável, ele ocupa o tempo dos outros com histórias que não são interessantes. O chato é, basicamente, um cara (ou uma mulher) sem timing.

Estava pensando nisso quando escutei alguém citando uma das coisas mais chatas que existe. Tive que concordar: colocar um filho pequeno no telefone pra falar com a dinda, com a vovó, com o titio, é muito chato. A gente ama aquela criança – talvez seja até o nosso filho! – mas ao telefone, esquece. Tentamos entabular um diálogo minimamente inteligível e nada rola. Ou ele não fala nada que se compreenda, ou não abre o bico, e só nos resta ficar idiotizados do outro lado da linha.

Todo mundo sabe que isso é chato. Mas todo mundo que já teve um filho comete essa mesma chatice com os outros. Por quê? Porque pai e mãe de primeira viagem são chatos por natureza. Ninguém escapa. Se não for chato, será considerado um sem-coração. Todos irão apontar: olha lá, aquele ali esconde o filho. Põe ele no telefone!

Outra chatice é mostrar 3.487 fotos do bebê. Dá nos nervos quando o filho não é nosso. Todos os bebês são iguais, menos para seus pais. Seja bem sincero: dá pra aguentar ver foto de bebê pelo celular? Basta perguntar educadamente pra alguém: e seu filhinho, vai bem? Pronto. Num segundo o celular ou iPhone será sacado e apontado direto para seus olhos: veja você mesmo.

A gente sabe que é chato, mas toleramos com sorrisos parcialmente sinceros porque faremos a mesma coisa quando chegar a nossa vez – ou já fizemos um dia. Se você passou dessa fase, segure a onda e compreenda os que ainda não passaram. Nada de reclamar. Aqui se faz, aqui se paga.

Outras chatices? Quando alguém pergunta: lembra de mim? Se está perguntando, é porque a chance é remota. Mas já não fizemos isso diante de alguém que gostaríamos muuuuito que lembrasse? E esticar as letras das palavras quando se está escrevendo? E quando a gente começa uma frase com “adivinha”. Adivinha pra onde eu vou nas próximas férias. Adivinha quem me convidou pra jantar. Adivinha com quem eu sonhei hoje.

Falando em sonho, tem coisa mais chata do que ouvir o sonho dos outros? Mas você já contou os seus. Váááárias vezes.

Agora adivinha qual o próximo exemplo que vou dar (rsrs). Precisamos mesmo colocar risadas entre parênteses para que os outros entendam nossas piadinhas cretinas?

Alguns menos, outros mais, chatos somos todos.

 

Fonte: Jornal “Zero Hora” nº. 16184, 13/12/2