Mudando de ares

 

Foto: Leni David

Hoje a neve sumiu, derreteu! A temperatura subiu um pouco (4 graus) e à tarde fomos levar nossa filha à estação, onde  ela embarcou em um trem para Paris. Aproveitamos para fazer um passeio em Issoire, uma pequena e charmosa cidade localizada perto de Clermont Ferrand.

Foto: Leni David

Depois do supermercado, questões de sobrevivência e de gulodices, nada melhor do que flanar um pouco pelas avenidas, saborear uma Chausson aux pommes e apreciar as luzes do Natal, que também vão iluminar o Ano-Novo.

 

Foto: Leni David

Domingo

 

Foto: Leni David

Notícias

Não tenho muitas novidades para contar, pois hoje passei a manhã na cozinha preparando o almoço; convidei  os familiares. O menu foi simples, mas diversificado: uma salada como entrada,  assado (com jeito brasileiro) acompanhado de espaguete ao pesto –receita italiana que aprendi com Admar, e como sobremesa uma torta de maçã com canela e açúcar, receita alemã. Para acompanhar, duas deliciosas garrafas de Château Peygontier 1997 (Bergerac Rouge), que guardei carinhosamente durante dez anos. Nos divertimos muito e saímos da mesa por volta das 15.30h.

Foto: Leni David

Mas a melhor surpresa foi descobrir, por volta das 10h da manhã, que a temperatura estava em 10 graus negativos, que o céu estava azul e que o sol brilhava. A paisagem continua branca e com  o contraste do azul do céu e os raios de sol ficou muito bonito. Para dar uma ideia publico algumas fotos:

 

Natal

 

 Foto: Leni David

O Natal tem como símbolo o nascimento de um menino. O nascimento de uma criança representa alegria, felicidade, ternura e muito amor. Nesse Natal estou a muitos quilômetros de distância da minha família biológica; sinto saudades, mas não posso me queixar, pois desfruto do carinho da minha  família por adoção.

Foto: Leni David

Confesso que me sinto novamente criança, ao improvisar uma árvore de Natal com garrafas vazias de água mineral, ou ao fotografar o pinheirinho, de verdade, ornamentado por minha sogra; ao observar a coroa natalina, comprada há muitos anos, enfeitando a porta de entrada da casa. Isso tudo sem esquecer dos presentes, dos prazeres da mesa, dos chocolates e vinhos.

Foto: Leni David

Estou feliz e quero agradecer os votos que recebi, retribuir calorosamente a todos e desejar às minhas famílias, a todos os amigos e a todos os leitores do blog, um Natal de paz, branco como a neve que cobre a paisagem francesa, colorido como as luzes que iluminam o Natal, generoso e brilhante como o sol que ilumina o Brasil.

Feliz Natal! 

Joyeux Noel!

Boas Festas!

Bonnes fêtes!

 

Quase Natal

 

Foto: Leni David 

Estou no centro da França, na montanha, rodeada de neve por todos os lados! Partimos de Paris no dia 21, no início da tarde; quatro horas mais tarde chegávamos ao destino: a simpática região conhecida como Auvergne, no Maciço Central.

 

Ontem, dia 20, a tarefa mais difícil foi esquentar a casa e descansar. Hoje fomos dar uma volta, mas esqueci a máquina fotográfica em casa. As fotos do post foram feitas com telefones celulares; assim, além da qualidade ruim, havia a neblina que cobria tudo.

 

O mais importante, porém, é que agora tenho um modem 3G (ganhei de presente), o que facilita a comunicação, visto que no village onde estamos não tem banda-larga. Mas a intenção é o que vale!

Amanhã darei notícias!

 

Obs. Esse post foi feito ontem à noite, mas na hora de publicar o Blog saiu do ar. Fui dormir frustrada!

Hemisfério Norte – Frio e Neve

 

Saímos da  Bahia no dia 16 de dezembro um pouco antes da meia-noite; chegamos em Paris  por volta das 16.30h do dia  17. Já sabíamos que o Natal e o  Ano-Novo  seriam frios, mas a gente só se dá conta, de verdade,  quando sente o nariz e as mãos geladas.

Ainda no avião fotografamos o sul de Paris e pelas fotos pode-se constatar que a França estava branca, branquinha, parecendo um bolo de noiva. As fotos que seguem foram feiras no dia 17, no final da tarde, quando nos aproximávamos de Orly.

Foto: Leni David

No aeroporto a nossa filha nos esperava; depois dos beijos e abraços  recheados pela saudade e pelo prazer da chegada, já dava para pressentir o que nos aguardava do lado de fora. Além do frio (2 graus negativos), a neve caía generosa, embranquecendo tudo!  Felizmente chegamos em casa, sãos e salvos.

Pelas ruas fui fotografando as luzes do Natal e a neve que caía; tudo bonito e alegre, diferente e aconchegante, apesar do frio, pois o coração estava quente, feliz.

 

 

Uma linda cena

 

Segundo soube, o  filme Amargo Pesadelo (Delivrance – 1972) estava sendo rodado no interior dos Estados Unidos. O diretor fez a locação de um posto de gasolina, onde aconteceria uma cena entre vários atores, que  contracenariam com o proprietário do posto, morador do local juunto à mulher  e o  filho.

Este último (o menino), autista, nunca saía do terreno da casa. A equipe parou no posto de gasolina para abastecer e aconteceu a cena mais marcante que o director teve a felicidade de encaixar no filme. Num dos cortes para refazer a cena  do abastecimento, um dos atores, que era músico e sempre andava acompanhado do seu instrumento de cordas, aproveitando o intervalo da gravação e já tendo percebido a presença de um garoto que dedilhava um banjo na varanda da casa, aproximou-se e começou a repetir a sequência musical do garoto.

Como houve uma “resposta musical” por parte do garoto, o diretor captou a importância da cena e mandou filmar. O restante vocês verão no vídeo.

Atentem para alguns detalhes: O garoto é verdadeiramente um autista; – ele não estava nos planos do filme; – A alegria do pai curtindo o duelo dos banjos… dançando.  A felicidade da mãe captada numa janela da casa; a reação autêntica de um autista quando o ator músico quer cumprimentá-lo.

Vale a pena o duelo, a beleza do momento e, mais que tudo, a alegria do garoto. No parece indiferente, mas, à medida que toca o seu banjo, ele cresce com a música e vai se deixando levar por ela, até transformar a sua expressão num sorriso contagiante,  que transmite a todos a sua alegria.

A alegria de um autista, que é resgatada por alguns momentos, graças a um violão forasteiro. O garoto brilha, cresce e exibe o sorriso preso nas dobras da sua deficiência, que a magia da música traz à superfície.  Depois, ele volta para dentro de si, deixando a sua parcela de beleza eternizada “por acaso” no filme “Amargo Pesadelo”

 

Colaboração enviada pelo meu primo-amigo, Antônio Isaias. Muito obrigada, Tonho, gostei muito!

 

Tempo de Natal

 

Tonde  lilás

Leni  David

 Era dezembro e o dia estava frio e cinzento; saiu do trabalho no final da tarde e pegou o metrô. O movimento era intenso. Algumas pessoas sorridentes, outras afobadas, quase todas carregavam sacolas onde se viam pacotes coloridos e decorados. Sentia-se cansada, mas não conseguira um lugar para sentar-se. Desceu na estação Palais Royal onde um músico tocava harpa. Andou durante algum tempo escutando a melodia e acompanhando o compasso do ritmo.

Sentiu frio. Ajeitou a bolsa à tiracolo, calçou as luvas e enfiou as mãos nos bolsos do casaco. Tomou a direção da rua de Rivoli onde as vitrines faiscavam exibindo brilhos e cores. Havia vitrines verdes, vermelhas, amarelas, azuis, como se os comerciantes houvessem decidido espalhar cores mágicas pelas ruas para magnetizar os passantes. Decoradas e iluminadas com esmero, as vitrines tinham uma aparência fantástica.

De vez em quando, seduzida como uma borboleta que gira em torno da chama incandescente, parava para apreciá-las. Era época de Natal e talvez comprasse alguma coisa interessante para presentear os familiares, mas não se sentia motivada a entrar nas lojas abarrotadas de pessoas que escolhiam objetos, jóias, e que rodopiavam frente aos espelhos. Olhando-as de longe pareciam crianças travessas, felizes com as traquinagens.

A rua de Rivoli era longa e a noite já se anunciava. Exposta ao frio sentia os pés e as mãos enregelados, apesar dos agasalhos; as faces e a boca dormentes e os olhos lacrimejantes. Diante de uma vitrine viu refletida a imagem de uma mulher, vestida com um casaco preto e longo. Ela usava uma cachecol colorido em volta do pescoço; tinha um aspecto elegante, mas parecia triste. Assustou-se quando percebeu que a imagem que via refletida no vidro era a sua. Sentiu vergonha e fugiu dali apressada, na direção do ponto de ônibus que a levaria para casa.

Enquanto andava convencia-se de mil razões para estar feliz; não havia motivo para tristeza. Estava vivendo um momento especial; a iluminação feérica deixava a cidade fascinante. Era Natal e ela podia comprar todos os presentes que quisesse. Nada lhe faltava! Sua casa estava decorada, a festa organizada e até havia na sala um lindo pinheiro natural, perfumado, ornado de bolas prateadas e azuis. Sabia que ganharia os presentes que havia escolhido. Além disso, estava em Paris – nome que soa como sinônimo de paraiso – e sabia que muitas pessoas dariam tudo para viver um momento como aquele. Bobagem! Estava apenas um pouco cansada…

Ainda pensando no privilégio de estar ali e convencida de que estava tudo bem, chegou à esquina da praça do Hôtel de Ville. Ficou petrificada no meio da calçada, quase sem fôlego, os olhos arregalados. Não acreditava no que via, pois jamais vira algo tão espetacular. A praça estava lilás! Vários tons de lilás misturados e difusos davam um aspecto inusitado ao local. O imenso prédio da prefeitura, ao fundo, parecia dourado à luz dos refletores. Os jatos d’água da fonte luminosa projetados no espaço refletiam as cores do arco íris e acompanhavam a melodia de uma música de Bach. Era um cenário de sonho.

Sentou-se num banco da praça como se estivesse hipnotizada pelas nuanças do lilás e pela dança das águas coloridas. Quanto tempo ficara absorta contemplando aquele espetáculo? Não sabia. Entrou no ônibus como um autômato e enquanto ele deslizava pelas ruas iluminadas chorou baixinho e admitiu que sofria. Sentia uma tristeza profunda que se insinuava no ânimo e no coração. Portanto, tudo era belo e ela gostava de estar ali. A  cidade não tinha culpa da sua agonia, ninguém tinha culpa. Compreendeu, porém, que era  impossível estar feliz, mesmo se o cenário era  de sonho e encantamento, pois sua presença não estava incorporada àquele espaço; faltava-lhe um pedaço. Ele se encontrava muito longe dali, bem longe, onde o sol esparramava raios dourados para iluminar o verão.

Paris, dezembro 1997

Um poema de Myriam Fraga

 

Banquete

O vinho
que  eu bebo
é  o preço
de  um  homem.

O prato que eu como,
sem  fome,
é  o salário
da  fome
de  um homem.

Mas,

o sonho que eu travo
com  fúria nos dentes

é  somente a metade
do sonho
de um homem.

 

 

  

 Myriam Fraga nasceu em Salvador, Bahia, em 09 de novembro de 1937. É membro da Academia de Letras da Bahia desde 1985 e dirige a Fundação Casa de Jorge Amado. A sua carreira literária teve início no final dos  anos 50, quando intelectuais da época, que frequentavam a Universidade, a Escola de Teatro e a Casa de Cultura localizada no bairro do Canela, se reuniam para trocar, ideias e escritos. O seu primeiro livro foi lançado em 1964, pela editora Macunaíma, criada por Glauber Rocha, Calazans Neto, Fernando da Rocha Perez e Paulo Gil Soares, com o objetivo de publicar as produções literárias dessa geração. 

Obra:

Poesia: Marinhas, Ed. Macunaíma, 1964, Bahia; Sesmaria, Ed. Imprensa Oficial da Bahia, prêmio Arthur Salles, 1969, Bahia; O livro dos Adynata, Ed. Macunaíma, 1975, Bahia. O Risco na Pele, Ed. Civilização Brasileira, 1979, Rio de Janeiro; A Cidade, Ed. Macunaíma, 1979, Bahia ; As Purificações ou o Sinal do Talião, Ed. Civilização Brasileira, 1981, Rio de Janeiro; A Lenda do Pássaro que Roubou o Fogo (Disco/Livro com música de Carlos Pita e monotipias de Calasans Neto), Ed. Macunaíma, 1983, Bahia; Six Poems: Tradução de Richard O’Connell, Ed. Macunaíma, 1985, Bahia.; Os Deuses Lares, Ed. Macunaíma, 1992, Bahia; Die Stadt, Ed. Macunaíma, 1994, Bahia; FEMINA, Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado/Copene, 1996.

Prosa:  Flor do Sertão, Salvador, Ed. Macunaíma, 1986, Bahia

Antologias: Cinco Poetas, Ed. Macunaíma, 1966, Bahia; Antologia da Moderna Poesia Baiana, Ed. Tempo Brasileiro, 1967, Rio de Janeiro; 25 Poetas da Bahia, Ed. DESC, 1968, Bahia; Sete Cantares de Amigos, Ed. Arpoador, 1975, Bahia; Antologia de Poetas da Bahia, em alfabeto Braille (Ed. Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1976, Bahia; Serial, 1978, Bahia; Em Carne Viva, Ed. Anima, 1984, São Paulo; Poetas Contemporâneos, Ed. Roswitha Kempf, 1985, São Paulo; Simulations Selected Translations, Ed. Atlantis, 1983, Estados Unidos; Sincretismo, a Poesia da Geração 60, Ed. Topboo

Brasil Pandeiro – Moraes Moreira

 

Sobre Moraes Moreira e os Novos Baianos

“Não, não é uma estrada: é uma viagem! São quarenta anos de bons serviços prestados à cultura popular brasileira. Entre Novos Baianos e a carreira solo, são quarenta discos e quase quinhentas músicas gravadas por Moraes Moreira e grandes nomes da nossa MPB. Ele é considerado, pelos pioneiros Dodô e Osmar, o responsável pela implantação da voz no som do Trio Elétrico. Isto ocasionou o surgimento de astros e estrelas formados a partir daquela escola.

Em dezembro de 2007, a editora Língua Geral publicou o livro A HISTÓRIA DOS NOVOS BAIANOS E OUTROS VERSOS. Utilizando a literatura de cordel e a poesia, Moraes Moreira passou a limpo sua rica trajetória, proporcionando, sobretudo às novas, o conhecimento da história de uma banda que revolucionou o som dos anos 1970. Ele ainda incluiu, nesse livro, letras e comentários sobre a sua atuação fora do grupo.

A boa receptividade desse livro por parte da crítica e do público fortaleceu a idéia de transformar todo esse material em DVD e CD, editados agora pela gravadora Biscoito Fino.

A gravação aconteceu em junho de 2008, na Feira de São Cristovão, ponto de resistência e divulgação da cultura nordestina. Ali, Moraes se sentiu em casa, apoiado pela maciça presença de um público fiel e entusiasmado, além de uma produção cuidadosa, com cenário, iluminação e sonorização sofisticados, contando também com a direção geral de João Falcão, profissional consagrado por seus trabalhos no teatro e no cinema.

Moraes sempre teve muito cuidado para que esse evento não tivesse um tom de volta, de revíval. A verdadeira intenção sempre foi de dar a sua versão para aquela intensa convivência que experimentou com seus manos dos Novos Baianos.

Escolheu, como parceiro para essa empreitada, o seu filho Davi Moraes, que nasceu e viveu os primeiros anos da sua vida na comunidade dos Novos Baianos. Davi costumava ficar mais tranquilo quando era colocado em seu carrinho, perto do som, perto daquela pauleira que rolava. Com certeza absorveu toda aquela energia, toda aquela alegria de tocar. Pepeu Gomes foi se tornando cada vez mais seu ídolo e mestre. De maneira precoce, Davi revelou seu talento e começou a colocar em prática todas essas influências. As presenças de Moraes e Davi no palco se tornaram a representação viva de duas gerações de uma verdadeira família musical.

O show foi dividido em duas partes. Na primeira, Moraes canta e conta, de forma poética e musical, a trajetória do grupo. Passeia por canções como Ferro na Boneca e Colégio de Aplicação, do primeiro disco, Dê um rolê, também gravada por  Gal Costa; A Menina Dança, Acabou Chorare, Mistério do Planeta, Brasil Pandeiro e o hino da geração paz amor, Preta Pretinha. Todas interpretadas com a autoridade de quem compôs, com seu parceiro Galvão, praticamente cem por cento daquele repertório.

Na segunda parte, Moreira abre de vez o seu baú, o seu bazar brasileiro de canções, demonstrando intimidade com as mais variadas formas e estilos da nossa música. Sucessos como Meninas do Brasil, Lá vem o Brasil Descendo a Ladeira, Sintonia, Forró do ABC, Eu Também Quero Beijar, além de homenagens a Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, prenunciam o momento mais empolgante do show. Duas inéditas, Spok Frevo Spok e Oi, fazem a ponte, e aí chega o carnaval. Forma-se o Bloco do Prazer. Nas asas de um Pombo Correio embarcam palco e platéia numa verdadeira Festa do Interior, festa da alma e do coração.

Uma banda formada por multi-instrumentistas garante, com competência e brilho, um vigoroso lastro instrumental, que embala e empolga. É o próprio Moraes quem afirma: Esse registro é uma prestação de contas de tudo que fiz, como cantor, compositor, instrumentista, poeta e cidadão, durante essa caminhada”.

Vamos comemorar!