Dodô, Osmar e a história do Trio Elétrico

No dia 25 de julho de 1996 tive a honra de conversar, emocionada, com Osmar Macedo (22/03/1923–30/06/1997), um dos “pais” do Trio Elétrico. A entrevista tinha como objetivo um trabalho acadêmico. Nessa ocasião, Osmar, uma pessoa amável e simpaticíssima, contou-me a história do Trio Elétrico, (cerca de 4.00h de gravação), sua trajetória ao longo daqueles quarenta e seis anos  de participação em carnavais. Aqui será apresentado apenas um resumo, pois a história é longa e não caberia no espaço do blog.

Enquanto admiradora de Osmar Macedo, que brilhava no Trio Elétrico durante as festas momescas, a emoção daquele momento era indescritível; fiquei simplesmente encantada diante da simplicidade e da disponibilidade daquele homem, na época com 73 anos de idade, que não era somente um músico, mas alguém que teve uma vida profissional intensa e permeada de atuações importantes em todo o Brasil e também no exterior.

 

                                 Conjunto Três e Meio”

Como tudo começou

Em 1938 Dodô, radiotécnico e músico, e Osmar, técnico em engenharia mecânica e músico, participaram do conjunto “Três e Meio”, que tocava em festas e programas de rádio em Salvador. Mas a idéia do novo instrumento que seria conhecido como “pau elétrico” e, posteriormente, como guitarra baiana, só surgiu algum tempo depois. Eles tinham visto em 1942, o violonista Benedito Chagas, do Rio de Janeiro, que se apresentara no Cinema Guarany, em Salvador. O seu violão era equipado com um captador, uma novidade para a época. Eles ficaram curiosos com o funcionamento daquele engenho, mas descobriram que, mesmo com amplificadores de maior alcance, o captador provocava a “microfonia” – uma espécie de apito muito forte - sempre que o volume era aumentado.

 

                                 Os amigos Dodô e Osmar

Em sua entrevista Osmar conta que, nessa época, ele e Dodô foram à loja A Primavera, na Praça da Sé, com o objetivo de comprar um violão e um cavaquinho, pois descobriram que era a caixa acústica do instrumento que provocava a “microfonia”; logo, era preciso encontrar um pedaço de madeia maciço, sem caixa acústica. Na loja A Primavera, compraram os instrumentos, dos quais somente os braços seriam aproveitados, visto que era muito trabalhoso confeccioná-los… e quebraram os dois instrumentos na quina do balcão, na própria loja. O vendedor, um espanhol recém-chegado ao Brasil, perperxo, foi se queixar ao proprietário, dizendo que estava ali, ”um maluco que comprava e quebrava os instrumentos”. – Ele está pagando? O dono da loja perguntou. – Está, sim senhor!  – Então deixa ele quebrar…

Mas, na realidade, ele estava fazendo aquilo, porque queria que os braços dos instrumentos fossem empacotados, para poder levá-los para casa pois, “quem andava com um violão debaixo do braço, naquela época, principalmente numa segunda-feira pela manhã, era vagabundo e malandro”. Essa história também foi contada, segundo Osmar, numa entrevista concedida à  Revista Veja, em 1972.

O “Pau elétrico” já havia sido confeccionado quando, em 1950, uma semana antes do Carnaval, uma orquestra de Recife, chamada Clube Vassourinhas, de passagem para o Rio de Janeiro, fez uma apresentação em Salvador. Segundo Osmar, essa orquestra “incendiou” as ruas da Bahia com a sua música e eles próprios ficaram entusiasmados com o que viram e ouviram: “Eu e Dodô, saímos atrás, junto com o povão, pulando, vendo a beleza do Clube Vassourinhas, com a orquestra de metais, cerca de 100 metais tocando pela avenida… pela Avenida Sete… Foi uma beleza, tocando frevos!”

 

 Na mesma noite, após muitas confabulações, concluíram que, se ligassem os “paus elétricos” numa bateria para aumentar a potência do som, eles poderiam brincar o carnaval de uma maneira diferente. Uma semana depois, a velha Fobica de Osmar, na realidade um Ford 1929, participou do carnaval da Bahia equipada com dois alto-falantes; a “Dupla Elétrica” saiu às ruas da cidade e encantou a todos, principalmente àqueles que acompanharam a novidade, cantando e dançando. Até ali, não havia participação popular no carnaval local. As famílias se contentavam em apreciar o corso, desfile de automóveis abertos e decorados, onde moças bonitas e fantasiadas, filhas de famílias ricas, desfilavam pelas ruas da cidade jogando confetes, serpentinas e lança-perfume. Também havia o cortejo de carros alegóricos, patrocinados pelos grandes clubes da capital, entre eles, os “Fantoches de Euterpe”, o “Cruz Vermelha” e os “Inocentes em Progresso”.

Alguns anos depois, Moraes Moreira, o primeiro cantor do Trio Elétrico, comporia Vassourinha Elétrica, contando a história para quem não conhecia.

Varre, varre, varre Vassourinhas 

Varreu um dia as ruas da Bahia 

Frevo, chuva de frevo e sombrinha 

Metais em brasa, brasa brasa que ardia 

Varre, varre, varre Vassourinhas 

Varreu um dia as ruas da Bahia 

Abre alas e caminhos 

Pra deixar passar 

O trio de Armandinho, Dodô e Osmar…  

 Mas, voltando ao nascimento do Trio, em 1953, a dupla se transformaria em “trio elétrico”, quando o amigo e arquiteto pernambucano, Temístocles Aragão*, foi convidado para participar da festa. Naquele momento, o palco não era mais a Fobica, mas uma camionete. Aragão, porém,  abandonou o trio algum tempo depois.

Na contracapa do CD Filhos da Alegria (1996), Osmar comenta: “Minha obra musical foi pequena, a atividade mecânica, que foi o sustentáculo da família, tolheu-me o tempo que poderia ter dedicado à música [...] A maioria das minhas composições foram instrumentais, seguindo a linha do “frevo rasgado”, de Nelson Ferreira. Espero gravá-las em outra oportunidade. Nas capas dos LP’s onde foram gravadas essas músicas, desde o Carnaval de 1975 e também nos shows onde me apresento pelo mundo afora, faço uma carinhosa referência ao frevo pernambucano como peça fundamental na criação do trio elétrico”.

Osmar passou onze anos longe do circuito carnavalesco. Na década de 60, desgostoso com as dificuldades para sair com o trio e preocupado com a excessiva dedicação dos filhos à música, ele abandonou temporariamente seu invento. Nos anos 60, entrou em cena Orlando Campos, que viria a ser conhecido como Orlando Tapajós. Em 1969, Caetano Veloso compôs a famosa marchinha “Atrás do Trio Elétrico”, em homenagem ao trio de Dodô e Osmar.

  

  O Trio patrocinado pelo guaraná Fratelli Vita (1952), com Dodô e Osmar, em Feira de Santana

Orlando Tapajós, por outro lado, foi o responsável pela profissionalização do trio elétrico, adotando placas de metal no lugar da carroceria do caminhão e vendendo publicidade. Em 1972 ele saiu com um trio que tinha a forma de uma nave espacial, que foi batizada como a Caetanave, em homenagem a Caetano Veloso que voltara do exílio imposto pela ditadura militar.

Depois dessa longa ausência, em 1974, a dupla Dodô e Osmar retornou ao Carnaval baiano com uma nova formação: “Trio Elétrico Armandinho, Dodô e Osmar”. Na ocasião, eles gravaram o disco “Jubileu de Prata”, que foi lançado no início de 1975, em comemoração aos 25 anos de criação do Trio.

Da Fobica à Caetanave e, a partir daí, cada vez mais sofisticados, os trios começaram a mudar de aparência e a adotar o luxo, entre eles, camarim com ar condicionado, geradores potetíssimos e sanitários modernos;  hoje eles são responsáveis por uma movimentação de milhões de reais e enquanto palco móvel, permite que os artistas ofereceam espetáculos na rua para milhares de pessoas. Osmar, que sempre viveu do seu trabalho na construção civil, confessa que nunca ganhou dinheiro com o invento e que ele e Dodô nunca pensaram em patentear o “Trio Elétrico”. Em suas apresentações na Bahia, dependiam de patrocínio, sempre conquistado a duras penas.  Tampouco Dodô, que morreu em 1978, se beneficiou financeiramente da “maquina da alegria”.

Em 1983, um Trio Elétrico se apresentou pela primeira vez no exterior, na  Piazza Navona, em Roma, diante cerca de 80 mil pessoas, ao som de Armandinho, Dodô e Osmar. No ano de 1985 foi a vez da França, onde o trio tocou para mais de 100 mil pessoas, em Toulouse, viajando em seguida, para outras cidades como Nice e Toulon. Daí em diante, as viagens internacionais foram muita e, em uma delas, no festival de Montreux, ele conheceu pessoalmente Paco de Lucia, de quem era fã; segundo Osmar, esta foi  uma das  grandes alegrias da sua vida

 

         Foto oferecida à autora em 1996 – Osmar, a Fobica e o “pau elétrico”

Em 1997, aos 74 anos, Osmar Macedo faleceu. O seu corpo foi velado no Palácio da Aclamação, em Salvador e o cortejo, acompanhado por vários trios elétricos, parou na Praça Castro Alves, onde ocorre o tradicional encontro dos trios durante o carnaval e onde  Osmar foi homenageado pelos músicos baianos. Ele foi sepultado no Jardim da Saudade, ao som de “Brasileirinho”, uma das suas músicas preferidas, tocada por seu filho e companheiro de trio, Armandinho. Em 1998 foi inaugurado, na Praça Castro Alves, palco de grandes espetáculos da dupla, um monumento em homenagem à  Dodô e Osmar.

 Um “desafilho” entre Osmar e Armandinho no final dos anos 70 (o vídeo é antigo e de má qualidade, mas o duelo entre os dois músicos é extraordinário).

Em 2000, quando foi comemorado o Jubileu de Ouro, Osmar, que tanto desejou participar dessa festa, não estava mais entre nós. No entanto, a Fobica estava lá; em 2010 foram  festejados os 60 anos de existência do Trio. Os seus nomes continuam lembrados e festejados, não somente como os criadores do Trio Elétrico, mas como os músicos que transformaram o carnaval da Bahia.

* – Segundo o leitor João Campos de Aragão, em comentário neste post, Temístocles não era Pernambucano e sim baiano: “Temistocles Campos de Aragão não era pernambucano e sim cidadão soteropolitano, nascido em 09 de julho de 1928 no bairro da Liberdade e falecido tragicamente em um acidente automobilístico com sua esposa Edna Bouças de Aragão, ocorrido em 23 de maio de 1976″.

Post publicado originalmente em “Leni David – De Tudo um Pouco” em 14/02/2010

Angola em foco

 

Recebi da minha amiga Tania Scofield, que no momento reside em  Angola, a foto que publico abaixo; a imagem, segundo Tania, é bem representativa desse país e de seu povo. O flagrante é de Lobito, uma cidade portuária que fica ao sul de Luanda. Uma cidade bonita, limpa, urbanizada, bem diferente de Luanda (cujo caos não deixa de ser interessante!).

A foto foi realizada em um período de seca, o chamado “Cacimbo” (são quatro meses sem chuva e paraticamente sem sol) e como se pode perceber o cenário é meio monocromático, o que contraste com o colorido das roupas das mulheres africanas. Para a fotógrafa, tudo é muito diferente e bonito.

 

Muito obrigada pela colaboração, Amiga!

Poemas de Antônio Brasileiro

 

ESTUDO 165

 

Compor um homem

com suas tramas, seus dramas,

teogonias, gramáticas, soluços;

compor um homem,

do orvalho matinal compor um homem,

do céu cheio de estrelas, do mistério

do homem

compor o homem; compor um homem

da criança que há no homem, do homem

a adivinhar-se em antiqüíssimas retinas;

compor um homem

com seus soluços, gramáticas, teogonias

– e recitá-lo perante os outros homens.

 

 

LOUCURA E POESIA

 

Furtava as cores de todas as paisagens

que colhia.

Um dia morreu

e um arco-íris bebia

seus olhos.

 

MELOPÉIA

   

Ai esta vontade imensa de calar!

 

De esparramar o pó dos pensamentos

tão longa e longamente arquivados;

 

de apagar os rastos e os projetos

e incendiar a estante de mil livros;

 

de consumar o amor num esquecimento

geral, completa e desprendidamente –

 

ai, semear beldroegas na avenida

e apascentar rebanhos de mamutes;

 

ai, gargalhar nas noites novilunas

como se louco ou iluminado;

 

adormecer serenamente: nu,

liberto, vasto, inverossímil.

 

Ah esta vontade imensa de falar!

                  (Antônio Brasileiro)

 

Para ler mais sobre Antônio Brasileiro, clique aqui,  aqui  e aqui.

 

As verdades de Martha Medeiros

 

Gente Fina

 

“Gente fina é que tinha que virar tendência. Porque, colocando na balança, é quem faz a diferença.”

Martha Medeiros

 

Gente fina é politicamente correta? Se for, não sou gente fina, porque fico muito impaciente com certas cortesias exageradas. Por exemplo, outro dia estava no aeroporto e uma  voz no alto-falante convidou a embarcar os passageiros da melhor idade. Se eu tivesse cem anos, entenderia que todos deveriam passar na minha frente. Que melhor idade? Claro que alguém pode estar mais satisfeito aos 80 anos do que quando tinha 40, mas isso é levar em conta o específico. Na hora de generalizar, sejamos menos franciscanos. Milhares de pessoas idosas têm a cabeça ótima e estão realizadas, mas se tiverem bom humor, vão dispensar o consolo: pô, melhor idade é provocação.

 O mesmo sobre magros e gordos. Cada um faz o que bem entender com o próprio corpo. Comer com liberdade é um direito e ninguém tem que se sacrificar para atender a um padrão estético, mas que ser magro é melhor do que ser gordo, é.

Pra saúde é melhor, pra se vestir é melhor, pra se locomover é melhor, pra dançar é melhor. Não quer dizer que um gordo não seja feliz. Geralmente, são felizes à beça, mais do que muito varapau.

 Mas se fosse possível escolher entre ser magro e ser gordo sem nenhum efeito colateral de felicidade ou infelicidade, sem nenhum esforço, só  abracadabra, todo mundo iria querer ser magro, assim como todo mundo preferiria se cristalizar entre os 30 e os 50 anos. Eu acho. A não ser que eu esteja louca, o que é uma hipótese a considerar.

Porém, melhor que tudo é ser gente fina. Finíssima. Isso nada tem a ver com a tendência atual de ser seca, de parecer um esqueleto  ambulante. Gente fina é outra coisa.

Gente fina é aquela que é tão especial que a gente nem percebe se é gorda, magra, velha, moça, loira, morena, alta ou baixa. Ela é gente fina, ou seja, está acima de qualquer classificação. Todos a querem  por perto. Tem um astral leve, mas sabe aprofundar as questões quando necessário. É simpática, mas não bobalhona. É uma pessoa direita, mas não escravizada pelos certos e errados: sabe transgredir sem agredir.

Gente fina é aquela que é generosa, mas não banana. Te ajuda, mas permite que você cresça sozinho. Gente fina diz mais sim do que não, e faz isso naturalmente, não é para agradar. Gente fina se sente  confortável em qualquer ambiente: num boteco de beira de estrada e num  castelo no interior da Escócia.

Gente fina não julga ninguém – tem opinião, apenas. Um novo começo de era, com gente fina, elegante e sincera. O que mais se pode querer?

Gente fina não esnoba, não humilha, não trapaceia, não compete e, como o próprio nome diz, não engrossa. Não veio ao mundo pra colocar areia no projeto dos outros. Ela não pesa, mesmo sendo gorda, e não é leviana, mesmo sendo magra.

Gente fina é que tinha que virar tendência. Porque, colocando na balança, é quem faz a diferença.

 

   Fonte: Jornal “Zero Hora” nº. 15763, 19/10/2008

 

 

José Angelo Leite Pinto – Poesia em imagens

José Angelo Leite Pinto, natural de Feira de Santana, Bahia. Tem formação acadêmica superior e atuou, por muitos anos, como professor de ciências e biologia; é membro de várias entidades nacionais na área das ciências biológicas.

Ainda garoto, com uns 10 anos de idade, começou a utilizar uma câmera Rolleiflex do seu pai, que sempre gostou de fotografar, apesar de ser daqueles que, às vezes, até o dedo ficava registrado nas fotos, embora sempre tivesse sua câmera por perto. Isto lhe despertou uma curiosidade e vontade cada vez maior de fotografar.

Interessou-se por variadas técnicas de fotografia através de livros e revistas, e sempre se exercitando nesta câmera Rolleiflex, ganhou de presente de aniversário uma câmera Yashica-D de filme 120mm, passando a fazer experiências fotográficas com fundos, luzes, variações de diafragma, velocidade, etc.

Ainda garoto, fez um curso de revelação em câmera escura preto & branco, montou um pequeno laboratório e adaptou um projetor de slides para ser o ampliador, já que um ampliador profissional custava muito caro. Sua mãe Profª. Bernadete Pinto, disponibilizou um pequeno quarto nos fundos da casa onde moravam, para que montasse seu laboratório fotográfico e, no meio dos tanques de revelador, fixador, varais, etc. começou a exercitar incansavelmente a arte da fotografia.

Já na universidade no final da década de 70, fez um curso de extensão em Microfotografia, produzindo fotografias e slides para os laboratórios de biologia, zoologia, botânica e geociências. Exercitou como mergulhador, filmagem em formato Super-8 e fotografia submarina, utilizando equipamentos Minolta, quando participava de viagens de estudo para coleta de exemplares para os laboratórios da universidade. Também trabalhou durante anos no Observatório Astronômico Antares, onde atuou na área de fotografia astronômica através de câmeras analógica Pentax 35mm e digital CCD acopladas aos telescópios.


Conhecedor de aplicativos (softwares) de tratamento e manipulação de imagens, com o advento das câmeras digitais, passou a trabalhar com equipamentos digitais Nikon e Sony, com os quais fotografa para ilustrações de livros, catálogos, outdoors, cartazes, folders, web sites, etc.

Participa periodicamente de concursos e exposições de fotografia a nível nacional e internacional, exerceu o cargo de Diretor Secretário do Sindicato dos Fotógrafos Profissionais de Feira de Santana e atualmente é Presidente do Clube de Fotografia Gerson Bullos, filiado à Confederação Brasileira de Fotografia.


Em 2006 participou do Concurso Fotográfico da Revista Trade em Miami, Florida; em 2007 da XV Bienal de Arte Fotográfica Brasileira em Cores; em 2008 da Mostra de Fotografia “Panorama 2008″ do Museu de Arte Contemporânea Raimundo de Oliveira em Feira de Santana; em novembro de 2008 representou o Brasil, junto com mais dois fotógrafos de Feira de Santana na 39ª Exposition Internationale D’Art Photographique e do 6º Salon d’Auteurs sur Invitation na França, além de algumas exposições virtuais em Lisboa e Budapest.

Se considera um fotógrafo amador em constante evolução e amante da fotografia.


“Fotografar é fazer poesia através de uma imagem.
O poema não é feito de letras, mas das cores que ficam no papel”

Observação: Postado originalmente no blog “Leni David – De tudo um pouco” , em 16/09/2009 às 14:29h

 

Poemas de Jorge Araújo

 

Munição e víveres

 

(fragmentos)

I

não desvenda, nem deslinda

o poeta inquieta-se ainda

  

III

contígua ferida

a morte

desnomeia a vida

 IV

tempo, espaço, memória

O homem

Será isca da história?

 

V

solidão, se ainda não disse

não  é descobrir-se e só

mas não descobrir-se

  

VIII

ai ai caralho

como viver

dá trabalho

 

(Jorge Araújo)

 

 

 

Poeminha invariável

 

este é o mundo colorido

de todos os circos

todos os horrores

todos os tumores

lindo,lido,visto, ouvido

este é o mundo dolorido

da tv a cores

 

(Jorge Araújo)

 

Livro do poeta baiano Cyro de Mattos é publicado na Itália

 

 

 “Canti della terra e dell’acqua” é uma antologia do poeta Cyro de Mattos. Ela  reune 38 poemas, e foi publicada recentemente pela Editora Romar, de Milão,  (www.romar.editrice.it) com seleção e tradução de Mirella Abriani. Ela  já traduziu para o italiano, autores como Cecília Meireles e Carlos Drummond de Andrade.

Com  esta antologia, Cyro de Mattos alcança a marca de cinco livros de poesia publicados no exterior. Os livros são os seguintes: “Vinte Poemas do Rio”, edição bilíngüe, com tradução do poeta Manoel Portela para o inglês, e “Ecológico,  ambos editados pela Palimage, de Coimbra, Portugal; “Zwanzig Gedichte von Rio und andere Gedichte”, da Projekte-Verlag, Halle, Alemanha, com tradução de Curt Meyer Claso;, e “Poesie della Bahia”, publicação da  Runde Taarn Edizoni, em Gerenzano (Varese), Itália, com tradução de Mirella Abriani.

A antologia “Canti della terra e dell’acqua” é constituída de quatro partes: Os Sinais da Terra, Águas do Rio, Alguns Bichos e Águas do Mar. No livro estão presentes poemas inspirados na infância, rio Cachoeira, bichos e meio ambiente.  Sobre o autor Cyro de Mattos disse Jorge Amado: “Cantor da terra e das águas. Cantor do amor. Pastor de diversos bichos. Tão esplêndido poeta, tão esplêndido ficcionista”. Já a escritora e professora Graziella Corsinovi, da Universidade de Genova, presidente do júri do XII Prêmio Internacional de Poesia Maestrale Marengo d’Oro, assim opinou: “Poesia do mais amplo horizonte histórico e existencial, que evoca mistérios da epopéia brasileira com grande poder de sugestão”.

Matryoshka, Baboushka, Matriosca… Mãe, Mulher

 

 Para Mabel

Quando eu era menina, certo dia encontrei uma caixa diferente entre as coisas da minha tia. Ela era de madeira fina, dourada, e tinha a forma de um cubo de aproximadamente dez centímetros de lado. Abri e dentro dela encontrei outra caixinha, um pouco menor. Retirei-a do interior da primeira, abri a tampa e outra caixinha apareceu. A última era uma caixinha minúscula e dentro dela havia um papelzinho dobrado onde estava escrito: “você é a razão do meu viver”.

Não lembro quantas vezes realizei o gesto, mas sei que foram muitas caixas que abri, pois o canto onde realizei essa façanha ficou repleto das mesmas.

Confesso que esperava encontrar alguma coisa mais valiosa, como um broche, ou um anel. Aquele papelzinho me pareceu insignificante; dobrei direitinho e o acomodei dentro da caixa minúscula, um pouco frustrada;  comecei a fechá-las, uma por uma, para devolvê-las ao lugar onde as havia encontrado, mas as tampas não encaixavam corretamente, apesar do meu empenho. Não consegui, e para meu desespero fui surpreendida, repreendida severamente, chamada de enxerida, buliçosa e ainda levei uns tapas.

 

Muitos anos depois recebi um presente de uma amiga que havia chegado da então União soviética. Era uma Matryoshka, uma boneca típica, símbolo nacional e muito reputada como souvenir. A minha amiga explicou que dentro daquela bonequinha de madeira haviam outras iguais, mas de tamanhos menores, numa sequência que variava de cinco a oito e que se repetia em escala decrescente. Nessa época eu morava muito longe da minha terra natal e aquele presente me trouxe de volta à infância. Sorri, comecei a abrir as bonecas e o episódio das caixas da minha tia vieram à tona. Arrumei-as com muito carinho, enfileiradas, sobre a estante.

Guardo essas bonequinhas com muito carinho; primeiro, porque a amiga que me ofereceu o presente, Myriam, não se encontra mais entre nós. Faleceu, vítima de uma leucemia, aos vinte e sete anos de idade. Era uma pessoa muito querida,  e o seu desaparecimento provocou em mim uma dor enorme, além da saudade que perdura até hoje. Segundo, porque essas bonecas têm o dom de me apaziguar e de me encorajar, quando preciso. Gosto também de mostrar as minhas Matryoshkas às crianças que vêm à minha casa e como eu, no passado, com as caixinhas da minha tia, raramente elas conseguem encaixá-las e recompô-las para que se tornem personagem única.

 

Depois aprendi que essas bonecas surgiram na época do Império Russo, em 1890, quando instituiu-se a produção de brinquedos educativos e folclóricos. As primeiras Matryoshkas reproduziam as camponesas com seus trajes coloridos. Aprendi, também, que a primeira Matryoshka foi pintada por Serguei Malútin  para ser exposta na feira internacional de Paris, em 1900 – onde ganhou medalha de ouro por sua originalidade. Atualmente  ela se encontra no Museu do Brinquedo em Serguiev Posad. E a partir daí as Matryoshkas vêm sendo cultuadas como  símbolo nacional e objetos de desejo dos colecionadores.

Essas bonecas representam a família. A tradução literal do nome Matryoshka é “mãezinha” (mãe = mater; e oshka, o diminutivo). Também aprendi que apesar da importância dessas bonequinhas no artesanato russo, elas têm sua origem no Japão. Em 1890 um brinquedo que representava um sábio budista, foi trazido do Japão e presenteado à família Mamôntov, grandes patrocinadores das artes no virar do século. Usando o boneco japonês como modelo, o artesão Vassily Zvyôzdotchkin e o pintor Serguei Malútin criaram então a primeira Matryoshka russa, batizando-a  com uma variação do nome russo Matryona, que deriva de mat’ (mãe). Mostrada com grande sucesso no pavilhão do Império Russo na exposição internacional de 1900 em Paris, desde então as Matryoshkas são meio de vida para os artesãos e fazem a alegria de quem as recebe como presente.

Há pouco tempo descobri que a famosa Matryoshka, também é conhecida como Baboushka. Finalmente, também descobri que carregamos conosco muitas Matryoshcas. Temos uma aparência externa, a grande matriosca, a que todo mundo vê, e no interior, várias outras, parecidas, cada uma delas carregando consigo predicados e defeitos. São elas que nos fazem fortes, destemidas, ousadas, desaforadas, sábias, justas, ou inconsequentes. São elas também que vacilam, sofrem e choram. O importante, porém, é o renascer constante; é a sabedoria de olhar lá fora e descobrir saídas possíveis. E como diz Adélia Prado, “Mulher é desdobrável. Eu sou”.E temos várias camadas, digo eu, como as Matrioscas!

Leni David

 Observação: Publicado originalmente no “De tudo um pouco” em 25/08/2009

Duas histórias de meninos – Luís Pimentel

 

  

Boniteza

 

A menina ficou olhando a mãe, enquanto ela espremia laranja, cortava o mamão, colocava a fatia de pão na torradeira e despejava pó de café no coador.

A mãe andava de um lado para o outro, entre a copa e a cozinha, a mesa e o fogão. A menina acompanhava com os olhos cada passo da mãe. A mãe percebeu e perguntou por que você me olha tanto, minha filha? Está me achando bonita?

A menina respondeu que sim e quis saber:

– Será que um dia vou ser tão bonita quanto você?

– Você já é bonita, meu amor. Você é linda – disse a mãe, dando um beijo na testa da menina e levantando com os dedos os fios de sua franja.

A menina bebeu suco, comeu mamão, tomou café com pão, colocou a mochila da escola nas costas e, antes de sair, parou diante da porta:

– Sou bonita mesmo?

– A mais bonita que eu conheço.

– Que bom. Vou dizer isto ao Serginho, um menino bobo que está me esnobando.

  

Alecrim

 O menino seguia com o cachorro, conduzindo-o por uma coleirinha improvisada de corda, e o homem que estava parado na esquina quis saber:

De quem é esse cachorro?

– É meu – respondeu o menino.

– Como é o nome dele?

– Alecrim.

– Isso não é nome de cachorro.

– Não?

– Não. Nome de cachorro é Rex, Guerreiro, Tupy… Alecrim é nome de tempero.

– Lá é casa é nome de cachorro…

– Está bem. Que idade tem ele?

– É novo. Tem a minha idade.

– Sei. Você empresta para eu dar umas voltas?

– Não.

– Eu sempre  quis passear com um cachorro. Eu te empresto a minha bicicleta.

– De jeito nenhum.

– Tem medo de eu não devolver? Se eu sumir com ele, você fica com a bicicleta. É bem mais nova do que o Alecrim.

– Pode até ser. Mas ela não lambe o meu pé.

 Para ler mais sobre Luís Pimentel, clique aqui.

  

Um poema de Florisvaldo Mattos

 

“Liberdade é meu ser

e tempo. É o meu nome.

Razão – o meu sobrenome.”

         

 (Florisvaldo Mattos)

 

Florisvaldo Mattos nasceu  e vive na Bahia. Formado em direito, cedo ele optou pelo jornalismo, atividade que exerce até o presente. Por muitos anos dirigiu o caderno Cultural do Jornal A Tarde. Nos anos 60, integrou em Salvador o grupo da chamada Geração Mapa, liderado pelo cineasta Glauber Rocha. Entre suas obras publicadas, estão Reverdor (1965); Fábula Civil (1975); A Caligrafia do Soluço & Poesia Anterior (1996); e Mares Acontecidos (2000). Galope Amarelo e outros poemas (2001) e Travessia de Oásis – A sensualidade na poesia de Sosígenes  Costa (2004).

 

Oiticica – Um Breve Depoimento

 

Festival de Inverno da Universidade católica do Recife, julho de 1979.

 Entre os convidados, Hélio Oiticica para realizar experiências com “parangolé” e fazer uma rápida retrospectiva de sua obra através de slides. Eu estava no festival realizando uma pequena exposição que… tinha um pé na arte conceitual e outro na arte construtiva, com o título “Manias de Narciso”, que muito impressionou o Oiticica. Conversamos muito sobre arte, a partir daí.

No seu trabalho com “parangolé”, queria um público da periferia, marginal, livre de influências culturais acadêmicas, já que via na marginalidade uma idéia de liberdade. Sem dúvida, era um inventor que mantinha certo domínio intelectual sobre seu próprio trabalho. Sabia o que queria e não queria fazer qualquer coisa. Uma noite circulamos pela periferia da cidade do Recife, na busca de uma escola de samba, Oiticica, Paulo Bruscky, Jomard Muniz de Brito e Almandrade. Uma aventura, papos e papos pela madrugada a dentro, de bar em bar nos arredores da cidade. A vida e a arte, os agitados anos de 1960, a mangueira, a tropicália, Londres, Nova York etc. A arte era, para ele, uma experiência quase cotidiana contra toda e qualquer forma de opressão: social, intelectual, estética e política. Na projeção de slides na Universidade Católica, as ilustrações dos papos da madrugada anterior, as imagens de uma obra que a arte jamais se livrará. Arte concreta, neo-concreta, penetráveis, ambientes coloridos, bólides, arte ambiental, tropicália etc.

No princípio era Mondrian, Malevith, depois Duchamp. Uma trajetória exemplar na arte brasileira. Uma tensão entre fazer arte e habitar o mundo. Foi assim, uma das últimas performances do Hélio. Quase oito meses depois, misturado com suas obras na solidão de um apartamento/ninho/penetrável, agonizou por três dias vítima de um derrame cerebral. Ficou a lembrança de uma brilhante e discreta presença num festival de inverno em pleno calor do nordeste brasileiro.

 

Almandrade (artista plástico, poeta e arquiteto)

Publicado no Suplemento Literário, Belo Horizonte, novembro de 1997

Observação: Colaboração enviada pelo fotógrafo George Lima. Muito obrigada, George!