O tempo segundo Adélia Prado

 

Tempo

 Adélia Prado

A mim que desde a infância venho vindo

como se o meu destino

fosse o exato destino de uma estrela

apelam incríveis coisas:

pintar as unhas, descobrir a nuca,

piscar os olhos, beber.

Tomo o nome de Deus num vão.

Descobri que a seu tempo

vão me chorar e esquecer.

Vinte anos mais vinte é o que tenho,

mulher ocidental que se fosse homem

amaria chamar-se Eliud Jonathan.

Neste exato momento do dia vinte de julho

de mil novecentos e setenta e seis,

o céu é bruma, está frio, estou feia,

acabo de receber um beijo pelo correio.

Quarenta anos: não quero faca nem queijo.

Quero a fome.

Simplesmente por amor…

 

AMAR

 

Ana Jácomo

 ”Procure me amar quando eu menos merecer, porque é quando eu mais preciso”

Falamos à beça de amor. Apesar das nossas singularidades, temos pelo menos esse desejo em comum: queremos amar e ser amados. Amados, de preferência, com o requinte da incondicionalidade. Na celebração das nossas conquistas e na constatação dos nossos fracassos. No apogeu do nosso vigor e no tempo do nosso abatimento. No momento da nossa alegria e no alvorecer da nossa dor. Na prática das nossas virtudes e no embaraço das nossas falhas. Mas não é preciso viver muito para percebermos nos nossos gestos e nos alheios que não é assim que costuma acontecer.

Temos facilidade para amar o outro nos seus tempos de harmonia. Quando realiza. Quando progride. Quando sua vida está organizada e seu coração está contente. Quando não há inabilidade alguma na nossa relação. Quando ele não nos desconcerta. Quando não denuncia a nossa própria limitação. A nossa própria confusão. A nossa própria dor. Fácil amar o outro aparentemente pronto. Aparentemente inteiro. Aparentemente estável. Que quando sofre não faz ruído algum.

Fácil amar aqueles que parecem ter criado, ao longo da vida, um tipo de máscara que lhes permite ter a mesma cara quando o time ganha e quando o cachorro morre. Fácil amar quem não demonstra experimentar aqueles sentimentos que parecem politicamente incorretos nos outros, embora costumem ser justificáveis em nós. Fácil amar quando somos ouvidos mais do que nos permitimos ouvir. Fácil amar aqueles que vivem noites terríveis, mas na manhã seguinte se apresentam sem olheiras, a maquiagem perfeita, a barba atualizada.

É fácil amar o outro na mesa de bar, quando o papo é leve, o riso é farto, e o chope é gelado. Nos cafés, após o cinema, quando se pode filosofar sobre o enredo e as personagens com fluência, um bom cappuccino e pão de queijo quentinho. Nos corredores dos shoppings, quando se divide os novos sonhos de consumo, imediato ou futuro. É fácil amar o outro nas férias de verão, no churrasco de domingo, nos encontros erotizados, nas festas agendadas no calendário do de vez em quando.

Difícil é amar quando o outro desaba. Quando não acredita em mais nada. E entende tudo errado. E paralisa. E se vitimiza. E perde o charme. O prazo. A identidade. E fala o tempo todo do seu drama com a mesma mágoa. Difícil amar quando o outro fica cada vez mais diferente do que habitualmente ele se mostra ou mais parecido com alguém que não aceitamos que ele esteja. Difícil é permanecer ao seu lado quando parece que todos já foram embora. Quando as cortinas se abrem e ele não vê mais ninguém na plateia. Quando até a própria alma parece haver se retirado.

Difícil é amar quando já não encontramos motivos que justifiquem o nosso amor, acostumados que estamos a achar que o amor precisa estar sempre acompanhado de explicação. Difícil amar quando parece existir somente apesar de. Quando a dor do outro é tão intensa que a gente não sabe o que fazer para ajudar. Quando a sombra se revela e a noite se apresenta muito longa. Quando o frio é tão medonho que nem os prazeres mais legítimos oferecem algum calor. Quando ele parece ter desistido principalmente dele próprio.

Difícil é amar quando o outro nos inquieta. Quando os seus medos denunciam os nossos e põem em risco o propósito que muitas vezes alimentamos de não demonstrar fragilidade. Quando a exibição das suas dores expõe, de alguma forma, também as nossas, as conhecidas e as anônimas. Quando o seu pedido de ajuda, verbalizado ou não, exige que a gente saia do nosso egoísmo, do nosso sossego, da nossa rigidez, para caminhar ao seu encontro.

Difícil é amar quando o outro repete o filme incontáveis vezes e a gente não aguenta mais a trilha sonora. Quando se enreda nos vícios da forma mais grosseira e caminha pela vida como uma estrela doída que ignora o próprio brilho. Quando se tranca na própria tristeza com o aparente conforto de quem passa um feriadão à beira-mar. Quando sua autoestima chega a um nível tão lastimável que, com sutileza ou não, afasta as pessoas que acreditam nele. Quando parece que nós também estamos incluídos nesse grupo.

Difícil é amar quem não está se amando. Mas esse talvez seja o tempo em que o outro mais precise se sentir amado. Para entender, basta abrirmos os olhos para dentro e lembrar das fases em que, por mais que quiséssemos, também não conseguíamos nos amar. A empatia pode ser uma grande aliada do amor.

Um poema de Roberval Pereyr

EXERCÍCIO

O ser é um sopro?

Um eco? A contraparte

do ego

              ferido?

O ser é um não

falseado? Um passo

em vão

          no Vazio? Um rio

constelado de enigmas?

O ser é um mito

oco? Um grito

aviltado nos vãos de vinte séculos?

O ser é um erro

de cálculo, um simulacro

do si, que é, já este,

um simulacro?

O ser é um só? Um nó

que se desfaz em infinitos

nós?

Que é, afinal, o ser

além desta vontade

mórbida, imensa

                          de esquecer?

Extraído do livro Amálgama (Nas praias do avesso e Poesia anterior), 2004, p. 21.

Roberval Pereyr reside em Feira de Santana. Co-fundador da revista Hera (1972), que dirigiu, quase sempre em parceria, desde 1973. Criou ainda as coleções literárias Olho D’Água (1982) e Bocapio (1991), além da revista de poesia Duas Águas, com Pablo Simpson (Campinas – SP, 1997). Fundou e dirige as editoras alternativas Estrada e Tulle. Estudante de flauta doce e compositor (parceiros: o catarinense Márcio Pazin, além de Tito Pereira e Carol Pereyr, seus filhos). Tem poemas publicados em antologias nacionais e internacionais, entre as quais Roteiro da poesia brasileira – anos 60, da Global Editora. Entre seus livros de poesia encontram-se As roupas do nu (1981), Ocidentais (1987), O súbito cenário (1996) Concerto de ilhas (1997), Saguão de mitos (1998), Amálgama – Nas praias do avesso e poesia anterior (2004) e Acordes (2010). Publicou ainda A unidade primordial da lírica moderna (teoria da literatura, 2000). Está no prelo o livro A mão no escuro (desenho artístico). Doutor em Letras e Professor Pleno da Universidade Estadual de Feira de Santana.

Roberval Pereyr é o vencedor do Prêmio Braskem de Poesia.

O poeta feirense Roberval Pereyr é o ganhador do Prêmio Nacional de Poesia 2011, promovido pela Braskem e pela  Academia de Letras da Bahia. O livro “Mirantes” do pseudônimo Pedro P.P., que foi mantido sob sigilo, foi o escolhido pela Comissão Julgadora composta pelos acadêmicos Antonio Carlos Secchin, José Carlos Capinan e Ruy Espinheira Filho.

Logo após o anúncio do vencedor, o envelope foi aberto pelo Presidente da ALB, Dr. Aramis Ribeiro Costa, que identificou o autor da obra como o Sr. Roberval Alves Pereira, poeta feirense conhecido como “Roberval Pereyr.”

Os envelopes foram abertos no dia 12/01/2011 às 17:00h pelo Presidente da ALB, na presença da Comissão Julgadora, da Secretária e da Coordenadora da Biblioteca da ALB.

Mais de 100 inscritos concorreram ao Prêmio e os estados com maior representatividade foram Bahia, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul.

A premiação será dupla. Caberá ao vencedor uma quantia em dinheiro e a publicação do livro por uma editora de projeção nacional.

Muito sucesso para Roberval Pereyr!

Conto em gotas – Luís Pimentel

CENAS DE CINEMA

Luís Pimentel

 1.

O homem entra no ônibus pela porta dianteira. Cumprimenta o motorista, que não responde, e estira a mão para o trocador, passando-lhe o dinheiro que trazia enrolado entre os dedos.

A câmera em seu encalço.

O homem gira a roleta com dificuldade, pois o coletivo está bem congestionado, e vai avançando lentamente, dá licença, obrigado, dá licença, obrigado, tentando chegar ao final do corredor – onde espera encontrar um canto que comporte seus dois pés.

A câmera atenta.

O homem que parece estar fugindo de alguém ou de alguma coisa respira aliviado quando consegue ajeitar as pernas, rente ao encosto de um banco, levanta os braços em direção à barra elevada de apoio em busca da segurança que se espatifa em um segundo. Exatamente quando reconhece o passageiro que está sentado à frente, a arma na direção do seu peito:

– Quem diria! Fugiu tanto para cair no meu laço.

O primeiro disparo foi na câmera.

 

2.

Uma voz de comando pediu silêncio no set e informou que não ia tolerar comentários maledicentes.

O homem pede à mulher que erga um pouco mais a bunda, pois do jeito que está ela foge do foco da câmera. Depois sugere que ela diminua o ritmo, porque frenético do jeito que está fica parecendo uma dança de nuvens, artístico demais para o momento.

– Pornô moderno não dá tesão em ninguém – ele diz.

Ela pergunta se não está na hora de mudar de posição, mostrar outras partes dos corpos, outro viés de penetração. Ele, que além de ator é produtor e diretor da fita, argumenta que o público dá preferência a volumes e que jamais se cansa de uma cena com bundão na tela.

Ela diz que está cansada, com cãibras na coxa esquerda, dormência no pé direito e com vergonha da insistência com a qual exibe tão explicitamente suas celulites. Levanta-se, vai ao banheiro, toma banho, troca de roupa e sai batendo a porta. A câmera não pegou, mas da escada ainda escutava ele gritando:

– E o contrato?! Você assinou um contrato!

Esta cena final fez o público dar ótimas gargalhadas.

Do livro “Cenas de cinema – conto em gotas” (Ed. Myrrha), recém-lançado

 

Parabéns para a Jornalista!

 

Comentário da apresentadora Neila Medeiros revoltada com a declaração do Secretário de Obras de Luiziânia. Ele afirmou que a imprensa atrapalha o trabalho dos governantes e que por essa razão os problemas não são sanados.

Comentário meu: com uma dezena de jornalista como Neila Medeiros na grande mídia brasileira, certamente muitas coisas  mudariam no Brasil.

 

Festa do Bonfim

Todos os anos, na segunda quinta-feira de janeiro, acontece em Salvador a Festa do Senhor do Bonfim da Bahia. Essa festa tradicional e de grande beleza, que é acompanhada por milhares de pessoas de todas as parte do mundo, consiste num enorme cortejo que sai da igreja da Conceição da Praia em direção à igreja do Bonfim, no alto da Colina Sagrada. Centenas de baianas, personagens tradicionais dos festejos, abrem o desfile e levam nas mãos e na cabeça, vasos com flores e água de cheiro, usadas para lavar o adro da igreja e purificar os fiéis, num ritual de fé e esperança. Fogos de artifícios anunciam o início do cortejo aberto pelas baianas e acompanhado pelo povo, num percurso de 8 km. Carroças enfeitadas conduzem os devotos e milhares de pessoas vestem-se de branco, como manda a tradição.

 

Lavagem do Bonfim

A festa do Senhor do Bonfim, com a lavagem das escadarias da Igreja é considerada a mais importante das comemorações populares de Salvador. Os festejos profanos têm início na quinta-feira e os religiosos (novenas e missas) têm início no dia seguinte, sexta-feira e se encerram no domingo.

Ao chegar, as baianas lavam as escadarias e o adro da Igreja de Nosso Senhor do Bonfim com água perfumada e despejam água sobre as cabeças de pessoas que buscam neste banho a purificação do corpo e da alma. Durante o resto do dia muitas pessoas continuam se dirigindo ao Bonfim, em blocos ou seguindo as carroças. Após a lavagem, a festa prossegue com rodas de capoeira e samba, enquanto nas casas, os visitantes se deliciam com comidas populares, como o caruru, o cozido e a feijoada.

 

Origem da festa

 Segundo o historiador Cid Teixeira, havia no Rio Vermelho uma capela consagrada à devoção de São Gonçalo, mas a mesma degradou-se e a festa de São Gonçalo foi transferida para o bairro do Bonfim. No passado, os devotos seguiam por mar, em saveiros e pequenos vapores da Companhia Baiana de Navegação. Desembarcavam no Porto da Lenha e subiam a ladeira do mesmo nome. Em razão da distância e por não haver estradas em boas condições, os romeiros chegavam ao Bonfim três dias antes da festa e daí o costume de lavar a igreja na quinta-feira, para prepará-la para a festa do domingo. Os que seguiam a pé também levavam água de toda a cidade, em potes, moringas ou latas, sobre as cabeças, dançando durante todo o trajeto.

A princípio essa lavagem era feita pelos moradores das vizinhanças e depois foi se tornando um ato cada vez mais difundido. Documentos e fotos antigas atestam a presença de aguadeiros, bondes e animais enfeitados com flores e bandeirolas, que deslocavam-se rumo ao Bonfim, além de baianas vestidas com as suas mais belas indumentárias, balangandãs e patuás.

Ao contrário do que acontece hoje, quando a água é carregada em potes, no século XIX e início do século XX a água utilizada para a lavagem da igreja era retirada de uma fonte existente na Baixa do Bonfim e na noite de quarta-feira, romeiros de toda parte do Estado e de outras regiões do Brasil, além de apanhar a água, acendiam fogueiras, cantavam e dançavam ao som de cavaquinhos, pandeiros e violas. No dia seguinte a igreja era lavada e perfumada com água de colônia e o chão do templo era enxugado com panos brancos rendados.

No lado profano da festa, havia a apresentação de filarmônicas, de grupos com atabaques, capoeira e samba. No chamado sábado do Bonfim, começavam a chegar, à noite, numerosos ternos e ranchos que cantavam e dançavam até a manhã de domingo e permaneciam à espera da tradicional Segunda-Feira Gorda da Ribeira.

A festa, desde que se tem notícia, é marcada pelo sincretismo religioso. Ao lado dos devotos católicos, membros do candomblé prestam homenagem ao Senhor do Bonfim – Cristo, que no sincretismo corresponde a Oxalá. A Lavagem do Bonfim ainda guarda características do passado.

 

A Igreja do Bonfim

A Igreja Basílica do Senhor Bom Jesus do Bonfim, ou Igreja do Bonfim como é mais conhecida, um dos principais cartões-postais de Salvador, é um dos símbolos da religiosidade baiana. A construção do santuário teve início em 1740 com a vinda para a Bahia do Capitão de Mar e Guerra, Theodósio de Faria.

Segundo a Irmandade de Nosso Senhor do Bonfim, o Capitão de Mar e Guerra tinha grande devoção ao Senhor do Bonfim que se venera na cidade de Setúbal, em Portugal, e trouxe de Lisboa uma imagem semelhante esculpida em pinho de riga, medindo 1,06m de altura.

Em 1745, a imagem foi guardada na Igreja da Penha, em Itapagipe, onde permaneceu até a construção do novo templo. Nesse mesmo ano foi fundada uma irmandade que foi denominada “Devoção do Senhor do Bonfim”. Situado na única colina de Itapagipe, o templo foi construído entre os anos de 1746 a 1772. A imagem foi transferida para o novo templo em 1754, em uma procissão que contou com a presença macissa da população baiana da época. A imagem de Nossa Senhora da Guia, também trazida de Portugal por Theodósio de Faria e também foi colocada na Igreja de Nosso Senhor do Bonfim.

Conta-se que o Capitão trouxe a imagem como agradecimento por haver sobrevivido a uma tempestade em alto-mar. Prometeu então construir uma igreja no ponto mais alto que avistasse, de onde pudesse ver a entrada da Baía de Todos os Santos.

 

Festas e proibições

Mas nem sempre a festa se desenrolou em paz e harmonia. Desde o século XIX houve proibições da lavagem da igreja, com a polícia apreendendo vassouras, potes, violões, atabaques e cavaquinhos. Em 1889, ano da Proclamação da República, o Arcebispo da Bahia, Dom Luís Antônio dos Santos, baixou portaria proibindo a lavagem do interior da igreja, contando com a ajuda da Guarda Cívica. Em razão da proibição, houve espancamentos, brigas e feridos e os motivos alegados pelo então Arcebispo, é que a festa era freqüentada por gente embriagada, da pior espécie. Durante dez anos a lavagem da igreja do Bonfim ficou proibida e nos dias que antecediam os festejos, o local era cercado pela polícia, com o objetivo de impedir qualquer tipo de manifestação. Dez anos depois, em 1899, a lavagem voltou a ser realizada, graças à persistência dos moradores do local, fiéis e negros africanos.

E como dizem os baianos, “quem tem fé vai a pé”!