Um poema de Paulo Leminski

 

Atraso Pontual

Ontens e hojes, amores e ódio,

 adianta consultar o relógio?

 Nada poderia ter sido feito,

 a não ser o tempo em que foi lógico.

 Ninguém nunca chegou atrasado.

 Bençãos e desgraças

 vem sempre no horário.

 Tudo o mais é plágio.

 Acaso é este encontro

 entre tempo e espaço

 mais do que um sonho que eu conto

 ou mais um poema que faço?

.Paulo Leminski

Domingo triste

 

Hoje pela manhã ao abrir a internet leio, incrédula, a notícia da tragédia em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Centenas de jovens perderam a vida quando buscavam distração. Imagino a dor e o sofrimento das famílias e amigos destes jovens e me solidarizo com eles. Quando leio numa manchete que “Celulares de vítimas do incêndio tocavam durante retirada de corpos”, sinto o coração apertar e prefiro silenciar.

Leio o texto do cronista Fabrício Carpinejar, Morri em Santa Maria  publicado em seu perfil no Facebook, sobre a tragédia em Santa Maria e penso: o Brasil ficou órfão de centenas de filhos; neste triste domingo os irmãos brasileiro(a)s sofrem a dor da perda. Cada um de nós morreu um pouco.

O dia em que nevou em Paris

Ana Carolina Peliz

Eu já estava atrasada para um jantar na casa de uma amiga e ainda tinha que comprar um presente. Tinha decidido que aproveitaria a ocasião para comemorar seu aniversário que tinha sido há algumas semanas.

Decisão que acabou complicando bastante minha vida. Na saída da biblioteca, as pessoas se amontoavam nas portas enquanto olhavam para o céu e conversavam entusiasmadamente pelos telefones.

Sem ter muito tempo para satisfazer minha curiosidade, me lancei na noite fria e escura. Um pequeno floco branco pousou delicadamente sobre meu nariz. Imediatamente uma mistura de apreensão e euforia tomou conta de mim. Estava nevando.

De repente todo o ruído do mundo parou para deixar o manto branco se estender na noite parisiense. Os passos se fizeram mais lentos ao mesmo tempo que os sorrisos, contornados de lábios arroxeados, se iluminaram um a um.

A neve em Paris é como o primeiro raio de sol da primavera, tem o poder de deixar tudo mais leve e opera uma transformação na alma do parisiense, maltratada pelo inverno. Um instante mágico e fugaz. A contemplação se faz obrigatória.

Todos achávamos que quando acordássemos no dia seguinte ela já teria nos abandonado como costuma fazer. Mas quando acordamos, qual não foi nossa surpresa, ela tinha decidido passar o fim de semana em Paris.

 “A última vez que vi algo assim foi em 1992”, dizia uma senhora no metrô. Durante todo o fim de semana nevou e nós ficamos divididos entre a vontade de sair para ver a neve e o desconforto do frio.

Parecia que um caprichoso gigante confeiteiro tinha jogado açúcar no austero Petit Palais e nos anjos da ponte Alexandre III. Na Butte Montmartre esquiadores se divertiam descendo o declive em uma paisagem alpina.

Uma bruma se elevava do Sena, cercado por margens brancas e bonecos de neve que saudavam felizes os passageiros do bonde no Boulevard Brune.

Toda a cidade foi banhada por uma luz única, mesmo assim, nenhuma máquina fotográfica foi capaz de registrar de maneira fiel a beleza de Paris coberta pela neve.

Quando acordamos na segunda-feira, ainda sob o efeito do espetáculo do fim de semana, percebemos que ela tinha partido.

E nós, com os olhos mais do que nunca repletos com a beleza única desta cidade, observávamos os últimos flocos de neve se desfazerem lentamente na calçada nos perguntando quando ela voltaria a nos visitar.

Fonte: Blog do Noblat – Ana Carolina Peliz é jornalista, mora em Paris há cinco anos onde faz um doutorado em Ciências da Informação e da Comunicação na Universidade Sorbonne Paris IV.

 Paris Neve

 

Antes que elas cresçam

Affonso Romano de Sant’Anna

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.

É que as crianças  crescem. Independentes de nós, como árvores, tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença. Crescem como a inflação, independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preços, os disparos dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.

Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente.

Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.

Onde e como andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal?

Ela está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos sobre as ancas. Essas são as nossas filhas, em pleno cio, lindas potrancas.

Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão elas, com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou, então com a suéter amarrada na cintura. Está quente, a gente diz que vão estragar a suéter, mas não tem jeito, é o emblema da geração.

Pois ali estamos, depois do primeiro e do segundo casamento, com essa barba de jovem executivo ou intelectual em ascensão, as mães, às vezes, já com a primeira plástica e o casamento recomposto. Essas são as filhas que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E elas crescem meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros.

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.

Longe já vai o momento em que o primeiro mênstruo foi recebido como um impacto de rosas vermelhas. Não mais as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre gírias e canções. Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa. Saíram do banco de trás e passaram  para o volante de suas próprias vidas. Só nos resta   dizer “bonne route, bonne route”, como naquela canção francesa narrando a emoção do pai quando a filha oferece o primeiro jantar no apartamento dela.

Deveríamos ter ido mais  vezes à cama delas ao anoitecer para ouvir  sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de colagens, posteres e agendas coloridas de pilô. Não, não as levamos suficientemente ao maldito “drive-in”, ao Tablado para ver “Pluft”, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas.

Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo o nosso afeto.

No princípio  subiam a serra ou iam à casa de  praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e sanduíches infantis. Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo  com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. Esse exílio  dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar sete anos bíblicos. Agora é hora de os pais na montanha  terem a solidão que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes.

O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso, os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.

Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam.

 

Uefs disponibiliza roteiros de ônibus dos locais de provas do vestibular

A Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) disponibilizou na internet o roteiro do transporte coletivo municipal com destino aos locais de provas do vestibular 2013.1 (ProSel) que será realizado de domingo a terça-feira (27 a29 de janeiro).  As informações estão disponíveis no site www.uefs.br/portal, na seção ProSel/Vestibular.

No roteiro, elaborado em parceria com a Secretaria Municipal de Transportes e Trânsito, constam o nome e o endereço do estabelecimento, as linhas e os horários, além do número de candidatos em cada local.

O roteiro foi disponibilizado para orientar, principalmente, os candidatos de outros municípios e estados que não estão familiarizados com as linhas do transporte público coletivo de Feira de Santana, conforme observa o pró-reitor de Ensino de Graduação da Uefs, Rubens Pereira. Ele aconselha ao candidato visitar o local da prova com antecedência, o que pode evitar atrasos.

Também continua disponível na internet o cartão de convocação do candidato. O documento informa o endereço do estabelecimento e a sala em que o candidato fará as provas. É preciso que seja digitado o número de inscrição ou o CPF do estudante.

O vestibular da Uefs começa domingo (27) com as provas de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, Língua Estrangeira e Redação; segunda-feira serão aplicadas as provas de História, Geografia e Matemática; na terça-feira (29), ultimo dia, os candidatos serão submetidos às provas de Física, Química e Biologia.

Fonte: Ascom/Uefs

 

Bahia – A lavagem do Bonfim

Todos os anos, na segunda quinta-feira de janeiro após o “dia de reis” (6 de janeiro), acontece em Salvador a Festa do Senhor do Bonfim da Bahia. Essa festa tradicional e de grande beleza, que é acompanhada por milhares de pessoas de todas as parte do mundo, consiste num enorme cortejo que sai da igreja da Conceição da Praia em direção à igreja do Bonfim, no alto da Colina Sagrada. Centenas de baianas, personagens tradicionais dos festejos, abrem o desfile e levam nas mãos vasos com flores e água de cheiro, usadas para lavar o adro da igreja e purificar os fiéis, num ritual de fé e esperança. Fogos de artifício anunciam o início do cortejo aberto pelas baianas e acompanhado pelo povo, num percurso de 8 km e a maioria das pessoas veste-se de branco, como manda a tradição.

Lavagem do Bonfim

A festa do Senhor do Bonfim, com a lavagem do adro da Igreja é considerada a mais importante das comemorações populares de Salvador. Os festejos religiosos (novenas e missas) têm início no dia seguinte à lavagem e se encerram no domingo.

Ao chegar ao Bonfim as baianas lavam as escadarias e o adro da Igreja  com água perfumada, e despejam essa mesma água sobre as cabeças de pessoas que buscam neste banho a purificação do corpo e da alma.  Após a lavagem, a festa prossegue com rodas de capoeira e samba, enquanto nas casas, os visitantes se deliciam com comidas populares, como o caruru, o cozido e a feijoada.

Origem da festa

Segundo o historiador Cid Teixeira, havia no Rio Vermelho uma capela consagrada à devoção de São Gonçalo, mas a mesma degradou-se e a festa de São Gonçalo foi transferida para o bairro do Bonfim. No passado, os devotos seguiam por mar, em saveiros e pequenos vapores da Companhia Baiana de Navegação. Desembarcavam no Porto da Lenha e subiam a ladeira do mesmo nome. Em razão da distância e por não haver estradas em boas condições, os romeiros chegavam ao Bonfim três dias antes da festa e daí o costume de lavar a igreja na quinta-feira, para prepará-la para a festa do domingo. Os que seguiam a pé também levavam água de toda a cidade, em potes, moringas ou latas, sobre as cabeças, dançando durante todo o trajeto.

A princípio essa lavagem era feita pelos moradores das vizinhanças e depois foi se tornando um ato cada vez mais difundido. Documentos e fotos antigas atestam a presença de aguadeiros, bondes e animais enfeitados com flores e bandeirolas, que deslocavam-se rumo ao Bonfim, além de baianas vestidas com as suas mais belas indumentárias, balangandãs e patuás.

Ao contrário do que acontece hoje, quando a água é carregada em potes, no século XIX e início do século XX, a água utilizada para a lavagem da igreja era retirada de uma fonte existente na Baixa do Bonfim e na noite de quarta-feira, romeiros de toda parte do Estado e de outras regiões do Brasil, além de apanhar a água, acendiam fogueiras, cantavam e dançavam ao som de cavaquinhos, pandeiros e violas. No dia seguinte a igreja era lavada e perfumada com água de colônia e o chão do templo era enxugado com panos brancos rendados.

No lado profano da festa, havia a apresentação de filarmônicas, de grupos com atabaques, capoeira e samba. No chamado sábado do Bonfim, começavam a chegar, à noite, numerosos ternos e ranchos que cantavam e dançavam até a manhã de domingo e permaneciam à espera da tradicional Segunda-Feira Gorda da Ribeira.

A festa, desde que se tem notícia, é marcada pelo sincretismo religioso. Ao lado dos devotos católicos, membros do candomblé prestam homenagem ao Senhor do Bonfim – Cristo, que no sincretismo corresponde a Oxalá. A Lavagem do Bonfim ainda guarda características do passado.

A Igreja do Bonfim

A Igreja Basílica do Senhor Bom Jesus do Bonfim, ou Igreja do Bonfim como é mais conhecida, um dos principais cartões-postais de Salvador, é um dos símbolos da religiosidade baiana. A construção do santuário teve início em 1740 com a vinda para a Bahia do Capitão de Mar e Guerra, Theodósio de Faria.

Segundo a Irmandade de Nosso Senhor do Bonfim, o Capitão de Mar e Guerra tinha grande devoção ao Senhor do Bonfim que se venera na cidade de Setúbal, em Portugal, e trouxe de Lisboa uma imagem semelhante esculpida em pinho de riga, medindo 1,06m de altura.

Em 1745, a imagem foi guardada na Igreja da Penha, em Itapagipe, onde permaneceu até a construção do novo templo. Nesse mesmo ano foi fundada uma irmandade que foi denominada “Devoção do Senhor do Bonfim”.
Situado na única colina de Itapagipe, o templo foi construído entre os anos de 1746 a 1772. A imagem foi transferida para o novo templo em 1754, em uma procissão que contou com a presença macissa da população baiana da época. A imagem de Nossa Senhora da Guia, também trazida de Portugal por Theodósio de Faria e também foi colocada na Igreja de Nosso Senhor do Bonfim.

Conta-se que o Capitão trouxe a imagem como agradecimento por haver sobrevivido a uma tempestade em alto-mar. Prometeu então construir uma igreja no ponto mais alto que avistasse, de onde pudesse ver a entrada da Baía de Todos os Santos.

 Festa e proibições

Mas nem sempre a festa se desenrolou em paz e harmonia. Desde o século XIX houve proibições da lavagem da igreja, com a polícia apreendendo vassouras, potes, violões, atabaques e cavaquinhos. Em 1889, ano da Proclamação da República, o Arcebispo da Bahia, Dom Luís Antônio dos Santos, baixou portaria proibindo a lavagem do interior da igreja, contando com a ajuda da Guarda Cívica. Em razão da proibição, houve espancamentos, brigas e feridos e os motivos alegados pelo então Arcebispo, é que a festa era freqüentada por gente embriagada, da pior espécie. Durante dez anos a lavagem da igreja do Bonfim ficou proibida e nos dias que antecediam os festejos, o local era cercado pela polícia, com o objetivo de impedir qualquer tipo de manifestação. Dez anos depois, em 1899, a lavagem voltou a ser realizada, graças à persistência dos moradores do local, fiéis e comunidades afro-baianas vinculadas ao candombé.

Aos olhos da Igreja, porém, a lavagem era considerada como uma profanação do templo e um atentado aos dogmas cristãos. Mas o povo continuava a participar dos festejos, apesar do temor à repressão policial.


Em 1940 com a chegada dos “Redentoristas” à Salvador, o povo sentiu-se encorajado a realizar a lavagem do templo. Palanques foram armados para a apresentação de ranchos, ternos e orquestras. A presença das babalorixás, como símbolo do sincretismo com Oxalá, o pai de todos os orixás, levou o clero, mais uma vez, a proibir a lavagem, com intervenção da polícia. No entanto, para surpresa de todos, nesse ano de 1940, os comerciantes do local se uniram ao povo fechando as portas dos seus comércios e liberando os empregados, que se juntaram aos fiéis em protesto pela proibição. O impasse foi resolvido pelo então interventor Juracy Magalhães que, sensibilizado, conseguiu junto ao clero a abertura da basílica.

Hoje, vários afoxés e grupos musicais, entre eles um dos mais antigos, os Filhos de Gandhi participam dos festejos do Bonfim. A comissão de frente é formada por mais de quinhentas baianas vestidas à rigor. Turistas de todas as partes do mundo, fiéis e o povo em geral, acompanham o cortejo a pé, em carroças, bicicletas ou caminhões enfeitados.

A dois dias da lavagem do Bonfim, segundo os jornais baianos, o clima de festa já havia tomado conta da Colina Sagrada. A manhã da terça-feira começou movimentada com turistas lotando a Basílica em busca de bênçãos e na quinta-feira o cortejo desceu pelas principais ruas da cidade baixa rumo ao Bonfim, inundando de beleza os olhos dos que apreciavam o desfile.

A Igreja Católica, em ato histórico de confraternização religiosa baniu sua intolerância para com os rituais de origem africana incorporados à Lavagem do Bonfim. Foram desfeitos os equívocos de atitudes do passado emanadas de autoridades religiosas e até do poder oficial em várias escalas. A aceitação clara da presença heterogênea de crenças e seitas religiosas no Bonfim desmonta a discriminação,  participação do candomblé na lavagem, e outras expressões de raiz africana marcantes, em cidade de alto contingente negro, ganha significado de marco histórico – vitória do ardor místico sobre a discriminação. E para esse gesto muito contribuiu a vontade manifestada no ano passado pelo padre Menezes em tornar-se arauto de uma fraternidade religiosa raríssima neste mundo de radicalismos extremados, segundo o jornal A Tarde.

Para nós, independente das crenças e da fé que motiva o povo a participar do cortejo, da lavagem e da festa do Bonfim, tanto do ponto de vista religioso quanto do profano, o mais bonito é a preservação da tradição, é a alegria traduzida nos olhos das velhas baianas, é o colorido das flores e fitas esvoaçando ao vento.Todo esse conjunto de símbolos faz da Bahia uma terra singular.

 

Festa do Bonfim – Alegria, devoção e protesto

                                                  Foto: Raul Spinassé 

Nesta quinta-feira, 17, após o Culto Ecumênico realizado em frente à Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, padroeira de Salvador, uma queima de fogos iniciou a caminhada dos fiéis em direção à Colina Sagrada, onde fica localizada a Igreja do Bonfim. Dezenas de baianas puxam o cortejo de baianos, turistas e autoridades até a Igreja. Cerca de 34 entidades culturais, entre bandas de sopro, afoxés, grupos de samba e percussão, além dos 1.500 integrantes do Bloco Afoxé Filhos de Ghandy, desfilam pela Cidade Baixa.

O culto reuniu milhares de fiéis que desde o início da manhã desta quinta-feira, 17, aguardavam em frente à Conceição da Praia, no Comércio. Participaram da cerimônia representantes de diferentes religiões, entre católicos, evangélicos, mulçumanos, espíritas e do candomblé, além políticos e autoridades locais, como o governador em exercício, Otto Alencar, do chefe da Casa Civil, Rui Costa, da senadora Lídice da Mata e do prefeito de Salvador, ACM Neto.

                                                        Foto: Eric Salles

 “Quem tem fé vai a pé”

Além de preparo físico, é preciso fé para enfrentar o percurso de oito quilômetros, da Conceição da Praia à Colina Sagrada. O cortejo tem início após a celebração do culto inter-religioso. São quase três horas de uma peregrinação que segue o fluxo da Rua Miguel Calmon, no Comércio, encontra a Avenida Jequitaia (Calçada) e converge na Avenida Fernandes da Cunha (Mares). Na reta final, a Avenida Dendezeiros é o caminho para a multidão chegar à igreja ao som de bandinhas, conjuntos de percussão e muito samba.

Estrutura

Para receber a multidão de devotos e turistas que acompanham a lavagem, os poderes públicos municipal e estadual prepararam um esquema especial de trânsito e transporte, saúde e segurança. Por parte da Secretaria da Segurança Pública, cerca de 1.900 policiais (1.811 militares e 85 civis) vão assegurar a tranquilidade no cortejo. São três postos da Polícia Civil e 38 postos elevados de observação da Polícia Militar (PM).

A Secretaria Municipal da Saúde (SMS) montou três postos (Conceição da Praia, Estação da Calçada e Colina Sagrada). Duas ambulâncias também estão de prontidão para casos graves .

Políticos testam popularidade na festa do Bonfim.

A tradicional Lavagem do Bonfim será marcada, nesta quinta-feira, 17, pela estreia de ACM Neto (DEM) como  prefeito de Salvador  na festa religiosa e pela ausência do governador Jaques Wagner (PT), que está em viagem à China.

Manifestação de fé, mas que serve de palco para testar a popularidade dos políticos, a caminhada funciona como um termômetro tanto para Neto medir a avaliação dos 17 primeiros dias de sua gestão, como para Wagner auferir os seis anos de seu governo, o qual estará no comando até 2014.

Wagner, que só retorna à Bahia na próxima terça-feira, vai escapar de ser acusado de “pecador” pelos servidores do Estado. No 7 de Setembro de 2012 o governador também agendou uma viagem à Espanha e Singapura (Ásia) e se livrou das vaias dos professores e dos policiais – categorias que comandaram as duas maiores greves, no ano passado, contra o governo do petista. Desta vez, as críticas vão sobrar para o vice-governador Otto Alencar (PSD), que estará representando Wagner na Lavagem do Bonfim. Disposição é o que não falta aos servidores. “Vamos denunciar ao Senhor do Bonfim que o governador não paga a URV dos funcionários”, avisa a coordenadora da Federação dos Trabalhadores Públicos do Estado da Bahia (Fetrab), Marinalva Nunes.

Para os 43 vereadores eleitos em outubro será a chance de reencontrar o eleitor e ratificar os compromissos de campanha eleitoral. Quanto aos que estão mirando a eleição de 2014, não custa nada pedir, desde já, as bênçãos do Senhor do Bonfim.

 Fonte: Com informações do jornal A Tarde online.

Observação: Publicarei ainda hoje a história da Lavagem do Bonfim, da origem aos nossos dias.

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Universidades Estaduais da Bahia – Manifestação dos docentes na Lavagem do Bonfim

O Movimento Docente (MD) das Universidades Estaduais da Bahia (Ueba) continua realizando mobilizações como parte da campanha salarial de 2012, cuja pauta foi protocolada junto ao governo em junho do ano passado. Nesta quinta (17), vão realizar uma manifestação na tradicional Lavagem do Bonfim para denunciar a condição de piores salários pagos aos professores entre as Universidades estaduais nordestinas. A concentração será às 8h, em frente ao Elevador Lacerda.

Vestindo as camisas da campanha salarial, que trazem as principais reivindicações do movimento, e portando faixas, pirulitos, balão e cartazes, ao som de uma banda de fanfarra, os professores irão denunciar a política de descaso do governo com as universidades estaduais, em particular o estrangulamento orçamentário das Ueba e a desvalorização do trabalho docente.

As mobilizações ganham mais força principalmente porque a Mesa de Negociação com o governo sobre a incorporação do restante da CET, instalada em 8 de janeiro deste ano, e a discussão do reajuste salarial de 28% precisam ser aceleradas, pois existe um indicativo de greve para ser avaliado nas assembleias das quatro universidades no início de abril.

Segundo a diretoria da Adufs, a participação nas festas populares da Bahia é muito importante para dar visibilidade à luta dos professores, além de manter um diálogo com a população baiana e contribuir para que o Movimento Docente se fortaleça ainda mais.

Para os que residem em Feira de Santana, a Adufs disponibilizará transporte. Os veículos sairão da Uefs, em frente ao Módulo IV, às 6h30, retornando de Salvador às 15 horas. O DCE e o Sintest também estão convidados a participar da manifestação.

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Uefs abre inscrições para o 6º Festival de Sanfoneiros

A Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) lançou editais de eventos do Centro Universitário de Cultura e Arte (Cuca) programados para 2013. Dentre os destaques está o 6º Festival de Sanfoneiros, realizado anualmente e consolidado como iniciativa de resgate de uma das principais culturas de raiz do Nordeste, a musicalidade praticada através da sanfona, que atrai artistas de diversos estados.

O 6º Festival de Sanfoneiros será disputado nas categorias até oito baixos e acima de oito baixos, em diversas etapas, com final no dia 24 de maio, no Auditório Central da Uefs. Nas duas categorias, além de troféus, o primeiro colocado recebe R$ 4.500, o segundo R$ 3.500 e o terceiro R$ 2.500. Também serão premiados os vencedores do júri popular, com R$ 1.500 e troféu em cada categoria.

Os interessados podem se inscrever, gratuitamente, até 12 de abril de 2013, no horário das 8 às 11h30 e das 14 às 17h30, de segunda a sexta-feira, no Cuca, localizado na rua Conselheiro Franco, 66, Centro, Feira de Santana, BA.

Galeria Carlo Barbosa

Também estão abertas as inscrições de projetos de exposição para a pauta 2013 da Galeria Carlo Barbosa, que funciona no Cuca. Podem participar artistas com propostas individuais ou coletivas. A iniciativa integra a política cultural da Uefs de valorização e difusão das diferentes linguagens artísticas e formas de expressão cultural, oferecendo espaços alternativos ao circuito das galerias comerciais de arte e abrindo o campo para novos talentos.

O terceiro edital lançado pelo Cuca diz respeito a inscrições para seleção de oficineiros, a fim de ministrarem aulas de natureza artística e cultural em turmas formadas em diversas categorias.

Os editais foram publicados no Diário Oficial do Estado da Bahia de 5 e 6 de janeiro de 2013 e estão disponíveis no site www.uefs.br/cuca. Contato com o Cuca pode ser mantido através dos telefones (75) 3221-9766 e 3221-9744.

Ascom/Uefs

 

 

Os poetas de Feira de Santana

 

Comentário de Affonso Romano de Sant’Anna na Radio Metrópole (BA), em 4/1/2013

 

Já estive uma vez em Feira de Santana fazendo conferências, mas não podia supor que ali havia uma insólita revista literária – Hera – e um consistente grupo de poetas . Agora o reitor da Universidade Estadual de Feira de Santana Jose Carlos Barreto de Santana acaba de editar um grosso volume, mais de 700 páginas, fazendo-nos conhecer esses poetas agrupados entre 1972 e 2005.

Isto é o que se chama “diferença”. Tudo começou quando Antonio Brasileiro foi em `1967 lecionar Moral e Cívica no Colégio Estadual de Feira de Santana. Transformou a chatura daquela disciplina imposta pela ditadura em algo atrativo. Fez um concurso de redação, selecionou os aspirantes a escritor trabalhou com eles os textos que deram origem à revista “ Hera. Resultado: apareceu ali geração de poetas. Alguns surpreendentes. O leitor Nivaldo Moura, sempre atento, descobriu que havia até uma tese de Jecilma Alves Lima sobre esses poetas baianos. Tese que li e apreciei.

Essa publicação dos poetas de “Hera”, me lembrou dos antigos cancioneiros medievais que reuniam o melhor de uma época. Também nesta edição história de “Hera” são dezenas de poetas, uma safra significativa. Recebi o volume através de Roberval Pereira, poeta e teórico que sabe das coisas. Botei no facebook uma noticia dessa publicação e gostaria que os jornais do Rio e São Paulo acordassem, porque essas antologia de “Hera é imprescindível à historia da moderna poesia brasileira. No livro “Musica Popular e moderna poesia brasileira” estudei os grupos dominantes na poesia brasileira, mas a poesia brasileira não se limita àqueles grupos vanguardistas que se digladiavam naquela época. O crítico piauiense Assis Brasil mostrou isto numa série de antologias.

Gostei de saber que a geração mais velha de poetas baianos, como Ruy Espinheira e Florisvaldo Mattos deram força a esse movimento nascente. Tanta bobagem passando por poesia é publicada com destaque na imprensa do Rio e São Paulo, que ler esses poetas de “Hera” é um refrigério.

A poesia é um mistério. Ela sopra onde quer. Enquanto alguns zumbis perdidos na pós-modernidade ficam alardeando a morte da arte e a morte da poesia ela surge generosa, jovem e necessária. Como nesses poetas de Feira de Santana.

 

Observação: Agradeço particularmente à minha amiga Alana Freitas pelo envio da notícia. O comentário de Affonso Romano de Sant’Anna me deixou muito feliz. Sou fã do grupo desde os anos 70 e vibrei com a publicação da Antologia do Grupo Hera no ano passado; em minha modesta opinião, um documento histórico. Esta alegria é ainda mais forte, pois a minha cidade – Feira de Santana – está na origem de tudo. Parabéns aos poetas de Feira de Santana!

Ps. Aproveitei para publicar fotos dos jovens poetas.

Atualização: Recebi do poeta Iderval Miranda  mais três fotos dos jovens poetas da Hera, provavelmente dos anos 70 (as calças “boca de sino” e os os cabelos black-power atestam isso), para o “meu baú”. Muito obrigada Iderval!

 

Quando o poder dá as cartas

Tavinho Paes

quando o poder dá as cartas

falta um coringa no baralho

os ases se sentem reis

as rainhas andam com valetes

a sueca vira buraco

onde cada canastrão bate

pega o morto

e sai atrás de ouros

onde sobram copas, paus e espadas

até perder o que era pra ganhar

sem saber o que foi apostado

quando o poder dá as cartas

o baralho está sempre marcado

joga-se a paixão contra a ilusão

e quem tem as cartas na mão

nem sempre tem a sorte

ao seu lado

e trapaceia

por pura falta de opção

quando o poder dá as cartas

o jogo vira trabalho

a carta que cada um tem na manga

é sempre aquele coringa

que falta no baralho.

Tavinho Paes é poeta e compositor. Como poeta publicou mais de 100 títulos em edições independentes. Fez parte da chamada “geração mimeógrafo” dos anos 70. Como compositor, assina letras de mais de 200 músicas gravadas por artistas como Caetano Veloso, Gal Costa, Bethânia, Marina Lima, Marisa Monte, Gilberto Gil, Lobão, Rita Lee, Ney Matogrosso. Foi editor de O Pasquim e Rio Capital. Tavinho é um poeta multimídia, tem mais de 10 canais ativos na web e figura emblemática da cena poética do Rio de Janeiro.

Fonte: Blog do Noblat

Um grande homem, um amigo inesquecível: Bira

 

Vamos lembrar sempre do sorriso largo desse intelectual do povo

Patrícia Moreira*

 

O momento é de pesar, mas, certamente, Bira, como todos os seus alunos, amigos e colegas chamavam o mestre Ubiratan Castro de Araújo, certamente tiraria da manga uma pilhéria inteligente sobre os desígnios da morte, como que a desdenhar, ou a acreditar que por trás dela haveria algo de bom. E a despeito da perda e da saudade, é preciso, mais do que nunca, honrar seu nome e fechar este ciclo, lembrando um pouco de quem foi este homem de sorriso largo, que  partiu para longe nestes primeiros passos de um novo ano.

Conheci Bira, ainda menina, quando ele fazia doutorado na França, por intermédio de minha mãe, Leni David; ambos alunos da também saudosa professora Kátia Mattoso. Anos depois, em 1999, quando ensaiava entrar no Mestrado em História da Ufba, tive o privilégio de ser aceita como aluna especial na turma da disciplina Escravidão e Liberdade, que o professor Ubiratan Castro de Araújo ministrava.

Aulas

Ali, a História (com H maiúsculo), me conquistou de vez. Nas deliciosas aulas do professor Bira, ele sempre recheava os acontecimentos históricos com alguma curiosidade sobre os personagens, ou relatava detalhes pitorescos que davam às suas quatro horas de aula um toque diferente, que nos levava a esquecer do tempo.

Nesta ocasião, tive a honra de ler e traduzir, como trabalho acadêmico, alguns capítulos de sua tese de doutorado, sobre a economia escravagista na Bahia, dois volumes de mais de 600 páginas, escritos em francês, que, salvo engano, continuam inéditos. Do seu trabalho foi publicado A Guerra da Bahia: uma narrativa histórica sobre o processo de conflito social, econômico e racial que aconteceu em Salvador e no Recôncavo entre os anos de 1820 e 1823. Trata-se de textos extraídos da sua tese de doutorado que  integram a série de publicações” Capítulos”, lançada pelo Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia e reeditada pela Fundação Gregório de Mattos (da Prefeitura de Salvador), com o objetivo de valorizar a importância da participação popular negra na independência do Brasil,  nos quais retratava de modo particular os acontecimentos do 2 de Julho.

Lutas

Naquelas páginas, a participação dos negros nas lutas pela Independência da Bahia ganharam uma luz especial, contada também de uma forma singular, pois ele também tinha um jeito original de contar a História oficial.

Aliás, Bira não contava, vivia a História. Todos os anos, quando tive a oportunidade de acompanhar o 2 de Julho, lá estava ele desfilando seu entusiasmo pelas ladeiras do Pelourinho, saudando a memória do Batalhão dos Periquitos.

Além do ser querido e amigo, do seu papel como mestre de algumas gerações de historiadores, Bira também tinha seu lado militante, em defesa da cultura afrobrasileira. Mais uma vez, era um militante diferente, destes que dispensam clichês e bandeiras.

Fundação Palmares

À frente da Fundação Palmares, que presidiu nos primeiros anos do governo Lula, e depois à frente da Fundação Pedro Calmon, fez valer sua origem negra ao desenhar e tocar projetos que valorizavam a africanidade da nossa gente. Foi um militante ímpar. Dispensava os radicalismos dos movimentos negros e trabalhava no dia a dia pelo reconhecimento de um legado cultural, pela valorização do negro na sociedade e pela repartição do bolo social.

Bira também levou seu jeito bonachão para a sisuda Academia de Letras da Bahia e escreveu um livro, Histórias de Negro, que sintetiza sua luta e prova aquilo que ele sempre buscou em toda a sua vida: contar a história do povo da Bahia, sob a ótica do negro. Reação à opressão.

Sabedoria

Por tudo isso e muito mais, a velha cidade da Bahia, como ele gostava de dizer, ficou mais vazia, mais triste; perdeu um intelectual e um homem do povo. Bira leva consigo uma sabedoria de vida por fazer as coisas acontecerem de um jeito inusitado. Deixa-nos sua sabedoria acadêmica, sua obra, que ainda está para ser revelada para os historiadores de hoje e de amanhã.

*Patrícia Moreira é jornalista e mestre em História pela Ufba.

Fonte: O texto foi publicado originalmente no Jornal A Tarde de 04/01/2013, p. 7.

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