Uefs divulga o resultado do vestibular

 

A Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) divulgou, na tarde desta terça-feira (30), o resultado do vestibular 2013.2 (ProSel). A lista dos convocados, os documentos exigidos e o escalonamento de matrícula estão publicados no portal www.uefs.br, nas seções Notícias e ProSel/Vestibular.

A matrícula da primeira chamada será realizada de 1º a 9 de agosto de 2013. Os documentos devem ser entregues, nos dias e horários determinados no escalonamento, no auditório do módulo 4, campus universitário.

Exposição – “100 x 100 Caribé ilustra Jorge Amado”

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Com entrada franca projeto visa a difundir a arte conjunta dos artistas, conhecidos por obras inesquecíveis e singular atuação nas áreas de literatura e artes plásticas

Feira de Santana será a segunda cidade a receber entre os dias 1º de agosto e 1º de setembro, no Centro Universitário de Cultura e Arte da Universidade Estadual de Feira de Santana, a exposição “100×100 Carybé Ilustra Jorge Amado”, que tem como objetivo promover uma reflexão sobre a importância da relação entre Carybé e Jorge Amado, e tornar este legado mais acessível à população.

A exposição tem a curadoria de Solange Bernabó, filha de Carybé, que no dia 1ºde agosto, às 19h, na Galeria Carlos Barbosa (CUCA), fará uma palestra sobre “Carybé e Jorge, uma amizade centenária”.

Com o projeto expográfico assinado pelo arquiteto Daniel Colina, a exposição mostra imagens das capas e ilustrações de livros como O Sumiço da Santa, Jubiabá, A Morte e A Morte de Quincas Berro D’água, O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, além de trechos dos textos, cartazes, croquis de cenários e figurinos para os balés Gabriela e Quincas, e também fotos que revelam diferentes momentos da amizade entre Jorge e Carybé.

“100×100 Carybé Ilustra Jorge Amado” é uma realização do Instituto Carybé, em parceria com a Hasta la Luna Iniciativas Culturais, apoio da Fundação Casa de Jorge Amado e patrocínio do Grupo LM, através da Lei Rouanet.

Segundo o representante do Grupo LM, o gerente da Concessionária Bravo Caminhões e Ônibus de Feira de Santana, João Márcio Pinheiro, é uma honra para o Grupo patrocinar essa grande homenagem, mostrando que acredita e incentiva a cultura.

 “O baiano Jorge Amado e o argentino Carybé, que amava muito a Bahia, marcaram sua época e deixaram um legado na história e na cultura do nosso país, valorizando nossa identidade. A expectativa é grande por Feira de Santana ter sido escolhida para sediar uma exposição dessa grandeza”, explica Pinheiro.

Caminhos da Itinerância

Ilhéus foi a primeira cidade a receber a exposição, seguida de Feira de Santana e por último Salvador, onde ocorrerá entre 6 de setembro e 6 de outubro, no Solar Ferrão.

 A cada cidade visitada, a obra de dois dos principais artistas nacionais reconhecidos internacionalmente poderá tocar diversos públicos, desde fãs a curiosos.

Sobre a Exposição  “100×100 Carybé Ilustra Jorge Amado”

O imaginário popular sobre a Bahia foi concebido a partir das palavras de Jorge Amado e das imagens de Carybé, que devido às suas singularidades, criaram obras de extrema originalidade e beleza, revelando características da cultura baiana capazes de apresentar o estado ao mundo.

Com sua narrativa particular, Jorge Amado revelou curiosidades sobre a Bahia que vão desde sua mescla de religiosidade e sensualidade, com cheiros, cores, sons e sabores eternizados em romances traduzidos e publicados em cerca de 60 países. Já Carybé materializou-a em imagens. Sua vasta obra, composta principalmente por pinturas, gravuras, ilustrações, murais e esculturas, desvendam o povo baiano de maneira única. Além de únicos em suas áreas, Jorge e Carybé são personagens da vida real que se cruzaram e tornaram-se irmãos, influenciando um ao outro, bebendo muitas vezes da mesma fonte e produzindo um magnífico legado.

 

Especialização em Sistemas Computacionais da Uefs inscreve até 2 de agosto

Estão abertas as inscrições para a primeira turma do Curso de Especialização em Sistemas Computacionais da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs). O prazo de inscrição, que seria encerrado sexta-feira (19), foi prorrogado até 2 de agosto de 2013. O início das aulas está previsto para o dia 22 de agosto.

O curso é oferecido pelo Departamento de Tecnologia sob a responsabilidade da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da Uefs. O objetivo é proporcionar aos participantes conhecimentos e habilidades na análise e desenvolvimento de sistemas computacionais de alta complexidade, de forma que os mesmos atinjam a excelência no desempenho de suas atividades alinhadas com os objetivos e estratégias ferramentais.

As 20 vagas disponíveis são destinadas aos profissionais de nível superior que atuam nas áreas de Engenharias, Informática e Computação, bem como profissionais de áreas afins atuantes no desenvolvimento de sistemas computacionais que queiram ampliar sua área de atuação e profissionais interessados em adquirir conhecimentos teóricos e práticos na área.

O edital de seleção pode ser conferido no portal do curso (http://cesic.uefs.br). Mais informações pelo telefone (75) 3161-8056 ou pelo email cesic@uefs.br.

 

Projeto Sonora Brasil 2013

 

O Sonora Brasil – Formação de Ouvintes Musicais é um projeto temático que tem como objetivo desenvolver programações identificadas com o desenvolvimento histórico da música no Brasil.

A cada nova edição, o Sonora Brasil consolida-se como o maior projeto de circulação musical do país. A ação possibilita às populações o contato com a diversidade da música brasileira e contribui para o conjunto de ações desenvolvidas pelo Sesc, visando à formação de plateia.

Em 2013, na sua 16ª edição, o projeto conta com a participação de 4 grupos: Raízes do Bolão, Samba de Cacete da Vacaria, Raízes do Samba de Tócos, Alabê Ôni. São grupos que se identificam com o desenvolvimento histórico da música no Brasil sob o tema Tambores e Batuques e que circulam pelos estados das regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste.

O Sonora Brasil tem a proposta de despertar um olhar crítico sobre a produção e sobre os mecanismos de difusão de música no país. Todas as apresentações são essencialmente acústicas, valorizando qualidade das obras e de seus intérpretes. Desde a sua primeira edição, em 1998, já passaram pelo Sonora Brasil cerca de 60 grupos, em mais de 3.500 apresentações por todo o país, alcançando um público superior a 500 mil espectadores.

Entre os nomes que já se apresentaram no projeto estão os grupos Terra Brasillis (RJ), Nelson da Rabeca e Conjunto (AL). Em uma das edições, o conjunto Suíço “Ensemble Turicum”, de Zurique, com o programa “O Amor Brasileiro”, se apresentou nos estados de Pernambuco, Ceará, Santa Catarina e Paraná.

Saiba mais sobre o Sonora Brasil e confira a programação em seu estado:

www.sesc.com.br/sonorabrasil

 

SERVIÇO:

Dia 22/07/13 (segunda-feira) com o Concerto Alabê Ôni – RS

Local: CUCA – Centro Universitário de Cultura e Arte

Horário: 19h30

Inteira: R$10,00 / Meia: R$5,00 extensiva a comerciários (carteira do SESC), Estudantes (carteira de estudante), Classe Artística, e Servidores do Sistema Fecomércio – Bahia (crachá funcional)).

INFORMAÇÕES: 3622.1077

 

Um poema de Álvaro de Campos

 

Não: devagar

Álvaro de Campos

Não: devagar.

Devagar, porque não sei

Onde quero ir.

Há entre mim e os meus passos

Uma divergência instintiva.

Há entre quem sou e estou

Uma diferença de verbo

Que corresponde à realidade.

Devagar…

Sim, devagar…

Quero pensar no que quer dizer

Este devagar…

Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.

Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.

Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima…

Talvez isso tudo…

Mas o que me preocupa é esta palavra devagar…

O que é que tem que ser devagar?

Se calhar é o universo…

A verdade manda Deus que se diga.

Mas ouviu alguém isso a Deus?

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Editora da UEFS lança seis novos títulos

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A UEFS Editora lança, quinta-feira (18), às 16h, mais seis títulos que tematizam aspectos relevantes da história da educação e da cultura da Bahia, da realidade fundiária do semiárido baiano, da administração financeira, da psicologia da infância e adolescência e da literatura brasileira. A solenidade será realizada no hall do prédio da Administração Central da Universidade Estadual de Feira de Santana.

As obras a serem lançadas são: A salvação pelo ensino primário: Bahia 1924-1928, de José Augusto Ramos da Luz; Instituto Geográfico e Histórico da Bahia: origem e estratégias de consolidação institucional, de Aldo José Morais Silva; Terra e territorialidade, de Paulo Torres; Folga orçamentária: conceitos e desafios, de Juliano Almeida de Faria e Sônia Maria da Silva Gomes; Pelas trilhas de ficção: a memória invencível e a invenção do nacional no romance Viva o povo brasileiro, de Edeildes Sena Nunes, e Violência e vitimização na infância e adolescência: a inclusão da escola no reconhecimento e prevenção, com organização de Maria Conceição Oliveira Costa.

Com estas obras e mais 14 que serão lançados ainda neste semestre, a UEFS Editora chegará ao final de 2013 com 105 livros publicados. “Este é um número bastante significativo, se considerarmos que o primeiro livro publicado por esta editora é de 2004 e o segundo, de 2006”, afirmou o professor doutor Eraldo Medeiros Costa Neto, diretor da UEFS Editora. Conforme salientou, “trata-se de avanços conquistados através dos recursos estruturais implantadas pela Uefs nos últimos anos, como espaço apropriado, equipamentos e pessoal técnico”.

Em 2009, quando a UEFS Editora se tornou membro da Associação Brasileira das Editoras Universitárias (Abeu) e começou a dispor de melhores condições de funcionamento, foram publicados dez novos livros. Em 2010, mais 13, e com o primeiro catálogo. Em 2011, foram 17 livros e participação em três bienais nacionais — a da Bahia, a de Alagoas e a do Rio de Janeiro.

“O crescimento que houve em 2012, com novo catálogo, foi muito expressivo: 39 livros editados e participação na Bienal Internacional de São Paulo”, ressaltou Eraldo Medeiros. Como toda editora universitária, a UEFS Editora publica livros em todas as áreas do conhecimento, fruto do trabalho de pesquisa dos professores desta universidade.

Ascom/Uefs

 

 

E por falar em futebol…

 Eu poderia ter evitado

 Luís Pimentel

 Não sei como foi que me descobriram naquele fim de mundo, entocado entre os xiquexiques, tatus pebas e preás, escondido na cabana de um tio lá pelos arredores do Gavião.

Eu acabara de fazer um serviço difícil em Feira de Santana, dado cabo de um empresário que vivia cercado de seguranças, tudo polícia, e tirava uns dias para assentar a poeira e descansar os dedos. Pouco antes, fora um sujeito envolvido com a política, desafeto do prefeito, segundo disseram, “metido a comunista, inimigo da lei e da ordem”.

Mil novecentos e oitenta e dois foi um ano complicado.

O sujeito que me procurou e me descobriu durante o banho de tanque, no mesmo alagadiço onde na infância contraí ameba e esquistossomose, se apresentou como enviado de um grupo estrangeiro “com ramificações” no mundo todo.

– Italianos – arrotou, como se fosse o emissário do Papa.

Pensei em dizer “Grandes merdas!”, mas não disse nada. Aprendi, com a idade e a experiência, que quem diz tudo o que pensa às vezes não vive nem para desdizer, e que tem horas na vida que a sabedoria manda se fingir de doente só para ser visitado.

Olhei o céu – fazia um sol de lascar! –, recolhi o suor com os dedos e despejei quase nos pés do mensageiro:

– E é, rapaz?…

Arranquei um talo de capim e comecei a chupar a cepa, sugando o líquido docinho. Outra mania que tenho desde menino.

Vi pelo jeitão que o sujeito tinha de coçar o saco, cuspir no chão e pisar com a ponta dos pés nos espinhos, que melhor seria economizar nos desaforos.

Banquei o santinho:

– Italianos? Tudo boa gente, né?

Sequer disse o seu nome, mas me entregou um pedaço de papel com um endereço, dizendo que eu tinha quarenta e oito horas para me apresentar em Salvador.

– Roupas limpas, barba bem feita e documentos no bolso. São necessários para a emissão do passaporte.

– Passaporte?!

– O serviço é no estrangeiro, Zé do Dedo.

O filho de uma égua sabia o meu nome. Mau sinal.

Um amigo que tinha uma Kombi especializada em transporte de trabalhadores rurais me deu carona até a rodoviária de Feira, onde eu pegaria o ônibus da empresa Santana para Salvador. Tinha um radinho bem xumbrega, ao lado do volante, sintonizado numa emissora barulhenta de Riachão do Jacuípe. O locutor incentivava a turma a vender suas rocinhas e comprar casa na cidade, a usar sabonete, procurar emprego em banco, jogar na loteria, beber cerveja da Brahma.

A cada cinco ou dez minutos ele anunciava uma música que ninguém conseguia entender o título, sempre alertando tratar-se de “sucesso retumbante no Sul do País”. Cada uma pior do que a outra. Um cantor fazia tremer o para-brisa com voz fininha, gritando “Cuida beeeemmm de miiiimmmm”.

A cantora, de voz até bonita, gemia um negócio que pedia “Me faz pequeeeeena, asa moreeeeena…”.

Um grupo, que parecia os cantores de puteiros da minha juventude, ficava repetindo “Você não sabe mamaaaarrrrr, você não sabe mamaaaaaarrr”. Eu ri e comentei que era engraçado, fazer uma música para alguém que não sabia mamar, e o meu amigo me corrigiu:

– É não soube “me amar”, abestado!

– Se eu fosse bom de pontaria como sou de ouvido, já teria morrido de fome.

Rimos. Pulei da Kombi, tomando cuidado para não amassar a roupa nova, e fui comprar o bilhete para a capital.

Parei mais uma vez para contemplar o belíssimo painel de Lênio Braga na parede da rodoviária, tomei um café, um conhaque, mijei e comprei o jornal A Tarde, para me acompanhar nos cento e poucos quilômetros. O caderno de esportes, meu preferido, tinha uma grande matéria sobre os preparativos da Seleção Brasileira de Futebol, que dali a alguns dias estaria embarcando para a Espanha, onde disputaria mais uma Copa do Mundo.  A disputa anterior, na Argentina, tinha sido uma cagada só, com a seleção do Peru abrindo as pernas para o dono da casa e empurrando o Brasil no caminho de volta, antes da hora.

Mil novecentos e oitenta e dois foi um ano complicado. Mas mil novecentos e setenta e oito foi muito pior.

Lembrei-me do meu filho dizendo “Um dia quero assistir a uma Copa do Mundo, pai, me leva, pai, meu sonho é ver o Brasil ser campeão”.

A expectativa de jornalistas,  jogadores, treinador e torcedores era que dessa vez a coisa fosse bem diferente, pois os espanhóis são muchachos porretas e a Espanha não é nenhuma republiqueta. Sempre quis conhecer a Espanha, desde a infância, quando tive dois amigos chamados Pepe e Constantino, donos da padaria da rua onde eu morava e que sempre me davam um pãozinho doce ou bolachas no fim do dia, depois que eu ajudava o pessoal a descarregar o caminhão de lenha.

Comecei a imaginar que seria bacana se os homens do estrangeiro trocassem o local do serviço e me mandassem para lá, em vez de para a Itália.

Mas não foi assim.

Explicaram mais ou menos a empreitada, que entendi mais ou menos, porque o conterrâneo encarregado de transformar em baianês o linguajar daqueles homens parecia bastante avexado com a tarefa. Mas deu para ficar sabendo que eu iria a Roma, não teria tempo de pedir a benção ao Papa, de lá seguiria no dia seguinte para uma cidade chamada Turim – eu entendia “durim” e o intérprete também – e que, ali, seria recebido pelo cerimonial da máfia local.

Aí pulei da cadeira:

– Máfia?!

Não sei por que, mas desde menino essa palavra me provoca arrepios.

Disseram que eu podia relaxar, que máfia naqueles dias não tinha mais nada a ver com a máfia da minha infância. Usavam o título apenas para impor respeito.

– Que nem coronel aqui. Ainda existe coronel, na política ou nas fazendas? Não. Mas ainda se usa o título, para não perder a tradição.

– Tutti buona gente! – disse o carcamano, bigode amarelo de nicotina e uma flâmula do Vitória em cima da mesa de trabalho.

Não gostei. Sou Bahia. Mas primeiro a obrigação e depois a devoção. Peguei passagens e papelada, até o passaporte que, sabe-se lá como, ficou pronto em vinte minutos. Entregaram-me uma sacola cheia de dinheiro e me mandei para o Aeroporto Dois de Julho.

No caminho, o intermediário finalmente me falou qual o serviço:

– Coisa de cinema, Zé do Dedo! É um jogador de futebol de fama internacional. Tu vai virar destaque no mundo do crime, vai pros livros e enciclopédias. Tá rebocado!

– Que jogador é esse, homem?

– Vem a ser um tal de Paulo Rossi, pronuncia-se “Paolo”, que joga em Turim, no maior time de lá, o Juventus ou a Juventus,  cada um lá diz de um jeito. É só o que eu sei, Zé. Lá eles te explicam direito.

– E qual é a bronca contra esse jogador?

– Não faça muitas perguntas, cabra. A máfia não gosta de nego curioso.

Aparelho de ouvir enfiado nos ouvidos, eu comecei a acompanhar no avião um filme que me levou novamente de volta à infância, ao Cine Íris, quando minha irmã me carregou para ver Candelabro italiano.  Senti uma puta vontade de chorar, sei lá por que, e me lembrei de Rita Pavone cantando Mio cuore, tu stai soffrendo, cosa posso fare per ter?

Troço bonito. E tão fácil de entender o significado, que até eu entendia. Depois, ao redor do poste – à luz de todos os nossos sonhos –, traduzia para os amigos e fazia um sucesso medonho”.

O sujeito de terno, gravata e tira de pano grosso enrolado em volta do pescoço, que me recebeu no Aeroporto de Roma, me chamou de Giuseppe Dedon e falou em criminalità, o que me incomodou. Pedi que me levasse logo ao hotel, pois estava cansado feito um corno.

– Corno se cansa muito? – perguntou, e eu vi que o almofadinha falava a minha língua, estava só debochando de mim.

Dia seguinte, partimos de carro para Turim. Ele perguntou se eu sabia manejar arma com silencioso, e eu disse que entendia mais de revólveres do que eles de macarrão. Não sorriu. Também não fez cara feia. Recebi credenciais para assistir ao treino dos jogadores, bem posicionado em local de onde teria visão privilegiada do campo e de um caminho de fuga garantida.

Algumas vezes coloquei na mira perfeita a cabeça do atacante.

Repeti a visita mais duas ou três vezes, pedindo ao emissário da máfia que tivesse paciência.

– Você é que sabe a hora certa de apertar o gatilho – ele disse.

São finíssimos.

Uma hora lá ousei perguntar o que aconteceria se eu desistisse de fazer o serviço, movido por questões religiosas – afinal, estava tão perto do Vaticano – ou tomado de simpatia pela quase vítima.

– Essa possibilidade não existe. Do ponto a que você chegou, não tem volta.

Pois foi o que aconteceu: contrariando a todos os princípios do meu ofício, me tomei de simpatia pelo jogador, um cracaço a quem os mafiosos queriam ver pelas costas. Esqueci a tarefa e passei a comparecer aos treinos para aplaudir os seus dribles, deslocamentos em diagonal, chutes cheios de manha e efeito.

O jeito que encontrei foi deixar a Itália, fugido, no dia exato em que a imprensa local noticiava a viagem da  Azurra para a campanha na Copa do Mundo daquele ano. Paolo Rossi era um dos ídolos da equipe e da torcida. Atravessando fronteiras, cheguei à Espanha e, não perguntem como – aprendi com a máfia a guardar certos segredos –, no primeiro fim de semana de julho, eu estava na cidade de Barcelona, assistindo ao espetáculo que ficou conhecido com “A tragédia de Sarriá”, vendo exatamente o cidadão de nome Paolo Rossi acabar com o sonho do meu filho.

E pensar que eu poderia ter evitado.

Escrito especialmente para a antologia 82 – uma copa, 15 histórias, que reuniu contistas baianos.

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