Oficinas de artes do Cuca ainda dispõem de vagas

 

O Centro Universitário de Cultura e Arte (Cuca), entidade da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), realiza até a próxima terça-feira (3) matrícula para preenchimento de vagas remanescentes das oficinas de criação artística e teatro. As vagas são para as turmas de Desenho Básico, Desenho de Observação Intermediário, Produção em Vídeo Básico, Mosaico Básico, Teatro Brasileiro – história de letras e vozes e Teatro Adolescente.

O atendimento é das 8 às 12h e das 13 às 17h. Será cobrada taxa única de R$ 80, válida para o semestre. Servidores, estudantes bolsistas e residentes da Uefs estão isentos. Dependentes de servidores e os demais estudantes da Uefs têm desconto de 50%.

No ato da matrícula é preciso apresentar original de comprovante de residência e de documento de identificação com foto ou certidão de nascimento.

O Cuca funciona na rua Conselheiro Franco, nº 66, Centro.

 

Lápis de cores

 

A foto que ilustra este post foi feita por mim em 2012, na cidade de Issoire, no Maciço Central (Auvergne), interior da França. A cesta cheia de lápis coloridos fica numa  rotatória e eu imaginei, na época, que era uma homenagem ao período letivo que se iniciava naquele momento. Recentemente constatei que a escultura permanece lá, no mesmo lugar. Com o fim do Carnaval aqui no Brasil e com o início do ano normal – e letivo –  aproveito para homenagear os estudantes que voltam às aulas. Afinal, lápis de cores são sempre bem-vindos; lembram desenhos coloridos, arte, beleza…

Auvergne Issoire (15)

Júlio César, um brasileiro: na porta do hospital, sem atendimento

 

 

A foto blog-marcelo-auler

 

Fonte: Blog do Mário Magalhães

18/02/2015 12:51

Marcelo Auler, um dos mestres brasileiros do gênero mais nobre do jornalismo, a reportagem, publicou no Facebook o relato abaixo.

Enquanto muitos jornalistas fingiam não saber que o desfile da Beija-Flor foi pago com dinheiro de uma ditadura sanguinária, o bravo Marcelo Auler contava a vida como ela é.

 

Na porta do hospital Miguel Couto, mas sem atendimento

 

Por Marcelo Auler

Na emergência do Hospital Municipal Miguel Couto, no sábado à noite, em pleno carnaval carioca, havia um entre e sai de pessoas. Na maioria, foliões vítimas de pequenos acidentes durante a folia momesca. Chegavam em grupos, alguns mais falantes que outros, os jovens nitidamente “alegres” por conta do teor alcóolico, promoviam algazarra maior, com um volume de voz mais alto. Mas, mesmo entre os acidentados, predominava o espírito alegre.

O curioso é que no entra e saí ninguém reparava em um senhor, aparentando mais do que os seus 52 anos, que permanecia sentado nos primeiros degraus da escada de acesso ao prédio, na Rua Bartolomeu Mitre, no Leblon, zona sul do Rio. Tratava-se de mais um dos cidadãos invisíveis que circulam entre nós sem que os reparemos.

Eu mesmo, que ali aguardava notícias de uma paciente, embora já o tivesse visto, só me interessei por ele quando, com a voz baixa e de forma educada perguntou-me se poderia encher sua garrafinha de água dentro hospital.

Ao entregar-lhe uma nova garrafa d’água, soube que estava por ali há dois dias, queixando-se de febre e apresentando uma ferida na perna direita da qual, na penumbra da noite, e de longe, me pareceu escorrer pus.

Segundo suas explicações, procurou o hospital, na sexta-feira, em busca de atendimento, mas não mereceu qualquer atenção médica. Na triagem o teriam encaminhado para a UPA de Botafogo, sem se preocuparem se ele teria como transpor os cerca de 6 quilômetros que separam o hospital da Unidade de Pronto Atendimento. Não tinha. Com apenas R$ 5,00 no bolso, confessou o medo de gastar o dinheiro na passagem de ida – R$ 3,40 – e depois não ter como voltar com o trocado que restaria. Por ali permaneceu, dormindo na porta do Pronto Socorro, sem ser incomodado.

Já mais tranquilo com relação à situação da paciente que eu acompanhava, procurei entender o que se passava com Júlio César Saniba Peralva, um mineiro de Belo Horizonte, solteiro, nascido em maio de 1962, que segundo contou, por 26 anos foi motorista de ônibus, até que uma “pneumonia mal tratada” o “encostou” no INSS (Beneficio número 700.985.054-3). Desde dezembro recebe R$ 788,00 mensais.

Diz morar em um quarto na comunidade do Pavão-Pavãozinho, em Copacabana. Um irmão reside em outra casa na mesma comunidade. O resto da família, como definiu, “está espalhada”. A ferida na perna ele creditou a um tombo, no caminho do hospital, em busca de atendimento para a febre que sentia e o deixava sem forças.

No Miguel Couto, porém, não mereceu qualquer atendimento. A explicação do segurança é de que ali não tem atendimento ambulatorial, apenas emergencial. Nem mesmo um analgésico qualquer lhe foi dado para diminuir o desconforto. Pelo jeito, o maior hospital público da Zona Sul não possui também qualquer atendimento de assistência social, a ponto de dispensarem um cidadão com aparente mal-estar sem qualquer preocupação de como ele chegará ao local indicado.

Tampouco médicos, funcionários, seguranças e os próprios pacientes que recorrem ao Pronto Socorro se preocuparam com a figura que passou o dia sentado na escada e, à noite, recolheu-se em um pequeno corredor entre a parede do prédio e um canteiro sem plantas. Usando sua sacola de plástico como travesseiro, dormiu da noite de sexta-feira (dia13 de fevereiro) para sábado e pretendia fazer o mesmo naquela noite seguinte, apesar de ao deixar o hospital ter lhe inteirado a passagem de ônibus até Botafogo.

Pelo jeito, não foi a primeira vez que Júlio César foi dispensado de um atendimento. Nos seus pertences estava um encaminhamento concedido pela CAP 2.1 endereçando-o a um tratamento clínico no Centro Municipal de Saúde João Barros Barreto, Rua Tenreiro Aranha s/n Copacabana. Não tinha data, nem especificava quem o endereçava, além do código CAP 2.1. (Foto em anexo)

Na página da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) da Prefeitura do Rio verifica-se que AP 2.1 podem ser duas coisas distintas. Uma é o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) III Maria do Socorro Santos, na estrada da Gávea 520. Sua área de atuação abrange Rocinha, Vidigal, São Conrado e Gávea (AP 2.1). Trata-se de unidade especializada em saúde mental para tratamento e reinserção social de pessoas com transtorno mental grave e persistente. Ou seja, se Júlio César esteve ali, ele deve ter algum problema mental. Mas ainda assim foi deixado à própria sorte.

Mas há também referência ao Centro Médico de Saúde Pindaro de C. Rodrigues – AP 21, na Avenida Padrel Leonel Franca, na Gávea. Neste Centro Médico, segundo a página da SMS, são feitas consultas individuais e coletivas; visita domiciliar; saúde bucal; vacinação; pré-natal; exames de raios-x; eletrocardiograma; exames laboratoriais: sangue, urina e fezes; ultrassonografia; curativos; planejamento familiar; vigilância em saúde; teste do pezinho; tratamento e acompanhamento de pacientes diabéticos e hipertensos. Em sendo ali que Júlio César foi atendido, não há explicação plausível para enviá-lo a outra unidade de saúde.

O atendimento médico que ele buscava não lhe foi dado, mas durante o tempo em que ficou na porta do Hospital Miguel Couto, Júlio César só tinha merecido a solidariedade de uma única pessoa. Trata-se de um morador de rua, alto e magro, pela sua descrição, que cuida das motos que estacionam no outro lado da Avenida Bartolomeu Mitre. Foi dele que recebeu o único alimento do dia: metade de um prato de macarrão com carne moida, que o guardador de motos dividiu com o desconhecido. Pelo menos entre eles a solidariedade existe e, como se trata de dois moradores da cidade, conclui-se que nem tudo está perdido na chamada Cidade Maravilhosa: ainda restam pessoas a se preocuparem com quem está ao seu lado, embora sejam dois necessitados.

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Para começar a festa

 

Um Homem e seu Carnaval

Deus me abandonou

no meio da orgia

entre uma baiana e uma egípcia.

Estou perdido,

Sem olhos, sem boca

sem dimensões.

As fitas, as cores, os barulhos

passam por mim de raspão.

Pobre poesia.

O pandeiro bate

é dentro do peito

mas ninguém percebe.

Estou lívido, gago.

Eternas namoradas

riem para mim

demonstrando os corpos,

os dentes.

Impossível perdoá-las,

sequer esquecê-las.

Deus me abandonou

no meio do rio.

Estou me afogando

peixes sulfúreos

ondas de éter

curvas curvas curvas

bandeiras de préstitos

pneus silenciosos

grandes abraços largos espaços

eternamente.

Poema de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) publicado no seu primeiro livro, Brejo das Almas.

carnaval1

 

Quando o carnaval chegar…

 

Chico Buarque

Quem me vê sempre parado,
Distante garante que eu não sei sambar…
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Eu tô só vendo, sabendo,
Sentindo, escutando e não posso falar…
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Eu vejo as pernas de louça
Da moça que passa e não posso pegar…
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Há quanto tempo desejo seu beijo
Molhado de maracujá…
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

E quem me ofende, humilhando, pisando,
Pensando que eu vou aturar…
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

E quem me vê apanhando da vida,
Duvida que eu vá revidar…
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Eu vejo a barra do dia surgindo,
Pedindo pra gente cantar…
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Eu tenho tanta alegria, adiada,
Abafada, quem dera gritar…
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar…

 

 

Domingo com a sabedoria de Rubem Alves

 

“Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre”.

A Pipoca

Rubem Alves

A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras do que com as panelas.

Por isso tenho mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-me a algo que poderia ter o nome de “culinária literária”. Já escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo da cozinha: cebolas, ora-pro-nobis, picadinho de carne com tomate feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas, churrascos.

Cheguei mesmo a dedicar metade de um livro poético-filosófico a uma meditação sobre o filme A Festa de Babette que é uma celebração da comida como ritual de feitiçaria. Sabedor das minhas limitações e competências, nunca escrevi como chef. Escrevi como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo — porque a culinária estimula todas essas funções do pensamento.

As comidas, para mim, são entidades oníricas.

Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu.

A pipoca, milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimensões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas ideias começaram a estourar como pipoca. Percebi, então, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevisível.

A pipoca se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela. Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca tem sentido religioso? Pois tem.

Para os cristãos, religiosos são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não é vida…). Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir juntas.

Lembrei-me, então, de lição que aprendi com a Mãe Stella, sábia poderosa do Candomblé baiano: que a pipoca é a comida sagrada do Candomblé…

A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido.

Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a ideia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos.

Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado.

Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!

E o que é que isso tem a ver com o Candomblé? É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.

Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.

Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF!! — e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.

Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro.

“Morre e transforma-te!” — dizia Goethe.

Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas, descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar.

Meu amigo William, extraordinário professor pesquisador da Unicamp, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia, as explicações científicas não valem.

Por exemplo: em Minas “piruá” é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: “Fiquei piruá!” Mas acho que o poder metafórico dos piruás é maior.

Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.

Ignoram o dito de Jesus: “Quem preservar a sua vida perdê-la-á”. A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo a panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.

Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira…

“Nunca imaginei que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu”.

 

Texto extraído do livro O Amor Que Acende a Lua, lançado em 1999.

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