Eterno Damário Dacruz

 

Observação do Tempo

Amanhecemos

com os olhos de amanhã

e o dia é hoje.

Anoitecemos

com os sonhos de ontem

e a noite é hoje.

E de tanta

falta de sintonia,

de tanta busca

e farta agonia,

rabiscamos no calendário

a morte dos dias

                                                 (Damário Dacruz)

 

Uma crônica de Clarice Lispector

 

Uma Galinha

Clarice Lispector

Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã.

Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio.

Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto vôo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço. Um instante ainda vacilou — o tempo da cozinheira dar um grito — e em breve estava no terraço do vizinho, de onde, em outro vôo desajeitado, alcançou um telhado. Lá ficou em adorno deslocado, hesitando ora num, ora noutro pé. A família foi chamada com urgência e consternada viu o almoço junto de uma chaminé. O dono da casa, lembrando-se da dupla necessidade de fazer esporadicamente algum esporte e de almoçar, vestiu radiante um calção de banho e resolveu seguir o itinerário da galinha: em pulos cautelosos alcançou o telhado onde esta, hesitante e trêmula, escolhia com urgência outro rumo. A perseguição tornou-se mais intensa. De telhado a telhado foi percorrido mais de um quarteirão da rua. Pouco afeita a uma luta mais selvagem pela vida, a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar, sem nenhum auxílio de sua raça. O rapaz, porém, era um caçador adormecido. E por mais ínfima que fosse a presa o grito de conquista havia soado.

Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia tão livre.

Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. É verdade que não se pode­ria contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista. Sua única vantagem é que havia tantas galinhas que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra tão igual como se fora a mesma.

Afinal, numa das vezes em que parou para gozar sua fuga, o rapaz alcançou-a. Entre gritos e penas, ela foi presa. Em seguida carregada em triunfo por uma asa através das telhas e pousada no chão da cozinha com certa violência. Ainda tonta, sacudiu-se um pouco, em cacarejos roucos e indecisos.

Foi então que aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, pare­cia uma velha mãe habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou, respirando, abotoando e desabotoando os olhos. Seu coração, tão pequeno num prato, solevava e abaixava as penas, enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo. Só a menina estava perto e assistiu a tudo estarrecida. Mal porém conseguiu desvencilhar-se do acontecimento, despregou-se do chão e saiu aos gritos:

— Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! ela quer o nosso bem!

Todos correram de novo à cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente. Esquentando seu filho, esta não era nem suave nem arisca, nem alegre, nem triste, não era nada, era uma galinha. O que não sugeria nenhum sentimento especial. O pai, a mãe e a filha olhavam já há algum tempo, sem propriamente um pensamento qualquer. Nunca ninguém acariciou uma cabeça de galinha. O pai afinal decidiu-se com certa brusquidão:

— Se você mandar matar esta galinha nunca mais comerei galinha na minha vida!

— Eu também! jurou a menina com ardor. A mãe, cansada, deu de ombros.

Inconsciente da vida que lhe fora entregue, a galinha passou a morar com a família. A menina, de volta do colégio, jogava a pasta longe sem interromper a corrida para a cozinha. O pai de vez em quando ainda se lembrava: “E dizer que a obriguei a correr naquele estado!” A galinha tornara-se a rainha da casa. Todos, menos ela, o sabiam. Continuou entre a cozinha e o terraço dos fundos, usando suas duas capacidades: a de apatia e a do sobressalto.

Mas quando todos estavam quietos na casa e pareciam tê-la esquecido, enchia-se de uma pequena coragem, resquícios da grande fuga — e circulava pelo ladrilho, o corpo avançando atrás da cabeça, pausado como num campo, embora a pequena cabeça a traísse: mexendo-se rápida e vibrátil, com o velho susto de sua espécie já mecanizado.

Uma vez ou outra, sempre mais raramente, lembrava de novo a galinha que se recortara contra o ar à beira do telhado, prestes a anunciar. Nesses momentos enchia os pulmões com o ar impuro da cozinha e, se fosse dado às fêmeas cantar, ela não cantaria mas ficaria muito mais contente. Embora nem nesses instantes a expressão de sua vazia cabeça se alterasse. Na fuga, no descanso, quando deu à luz ou bicando milho — era uma cabeça de galinha, a mesma que fora desenhada no começo dos séculos.

Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos.

A galinha 1

Texto extraído do livro “Laços de Família”, Editora Rocco — Rio de Janeiro, 1998, pág. 30. Selecionado por Ítalo Moriconi, figura na publicação “Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século”.

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O grande dia – Reinauguração do Museu Regional

 

1 A CUCA PRÉDIO FACHADA

É hoje!

 A Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), através do Centro Universitário de Cultura e Arte (Cuca), reinaugura, o Museu Regional de Arte de Feira de Santana (MRA). O coquetel comemorativo, que está marcado para começar às 20 horas, contará com uma vasta programação cultural. Além de um recital de música clássica, a ser executado pelo Grupo de Câmara do Cuca, serão realizadas diversas performances e intervenções artísticas.

2 A cesar_romero

Cesar Romero

Ontem, sexta-feira (8), a diretoria do Cuca convidou a imprensa a conhecer as novas instalações do prédio, que passou por um minucioso processo de restauração, sob a supervisão do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac), órgão responsável pela salvaguarda de bens culturais tangíveis e intangíveis e pela política pública estadual voltada ao patrimônio cultural. Na ocasião foi servido um café da manhã.

5 A raimundo_de_oliveira

Raimundo de Oliveira

Primeira instituição museológica do município, o Museu Regional de Arte foi fundado em 26 de março de 1967, pelo embaixador Assis Chateaubriand, magnata das comunicações no Brasil, que idealizou a Campanha Nacional dos Museus Regionais, com o objetivo de dotar as diferentes regiões do Brasil com expressivos acervos de arte. Por iniciativa de Chateaubriand, o Museu Regional de Arte de Feira de Santana tem hoje uma das mais importantes coleções de arte do mundo.

1 A carlo_barbosa

Carlo Barbosa

Inicialmente instalado no prédio onde hoje funciona o Museu de Arte Contemporânea (MAC), o Museu Regional de Arte foi incorporado ao Cuca em 1995, passando a funcionar no imponente prédio de estilo eclético que, no passado, abrigou a Escola Normal de Feira de Santana. Localizada na Rua Conselheiro Franco, antiga Rua Direita, a atual sede do Museu Regional permaneceu fechada por dois anos, período em que não apenas a sua estrutura física foi restaurada, mas também o seu imponente acervo, que passou por um meticuloso processo de limpeza e conservação, realizado pelo Studio Argolo Antiguidades e Restaurações, de Salvador, sob o comando do renomado restaurador José Dirson Argolo.

3 A gil_mario

Gil Mário

Acervo histórico

Com a reabertura do Museu Regional, o público terá a oportunidade de voltar a contemplar o valioso conjunto de obras assinadas por Di Cavalcanti e Vicente do Rego Monteiro, precursores do Movimento Modernista Brasileiro. A Coleção Inglesa, composta por 30 telas confeccionadas a óleo nas décadas de 50 e 60, pertencentes a consagrados artistas modernos ingleses, como Antony Donaldson, Alan Davie, Bary Burman, Bryan Organ, David Leverret, Derek Hirst, Derek Snow, Joe Tilson, John Kiki e John Piper, será um dos destaques da exposição de reinauguração, assim como a Coleção de Arte Naïf e a Coleção Nipo-Brasileira, que têm grande importância no cenário das artes plásticas mundial.

Juraci Dórea

Juraci Dórea

De acordo com Selma Oliveira, diretora do Cuca, também comporão a mostra obras pertencentes a importantes artistas estrangeiros naturalizados brasileiros, como Manabu Mabe, Carybé, Hansen Bahia e Reinaldo Eckenberger, e telas de artistas feirenses e outros artistas baianos que alcançaram projeção internacional, a exemplo de Raimundo de Oliveira, Carlo Barbosa, Juraci Dórea, César Romero, Gil Mário, Mario Cravo, Calasans Neto, Carlos Bastos, Jenner Augusto, Juarez Paraíso e Sante Scaldaferri. “A ideia é montar a exposição através de um recorte do acervo histórico. Vamos comemorar 48 anos de atuação institucional e contribuição para o imaginário cultural feirense”, salientou.

Com informações de Ísis Moraes – Ascom/Uefs

Mário Cravo

Mário Cravo

Calasans Neto

Calasans Neto

Hansen Bahia

Hansen Bahia

Vicente do Rego

Vicente do Rego

Carybé

Carybé

Di Cavalcante

Di Cavalcante

A. Reynoldes

A. Reynoldes

 

UEFS Editora lança novos livros na próxima quinta-feira

 

A convite_uefs_editora_14-5-15

A UEFS Editora lança, na próxima quinta-feira (14), a partir das 16h, oito novos títulos de diversas áreas do conhecimento. A solenidade de lançamento, aberta ao público, será realizada no hall do prédio da Reitoria da Universidade Estadual de Feira de Santana.

As obras focalizam a etnografia do candomblé, a história do protestantismo brasileiro, as artes sacras católicas, a antropoentomofagia, a ecologia humana, a herpetologia, a historiografia da cultura, da sociedade e da política e a competividade territorial no polo de desenvolvimento de Petrolina, em Pernambuco, e Juazeiro, na Bahia.

Julio Braga, em “Candomblé: a cidade das mulheres e dos homens”, mostra porque, no universo das religiões afrobaianas, a presença masculina, como a do babalaô Martiniano Eliseu do Bomfim, é tão relevante quanto a feminina, a exemplo das ialorixás Mãe Aninha e Mãe Menininha do Gantois. O ponto de partida da obra é o estudo “A cidade das mulheres”, da etnóloga norte-americana Ruth Landes, publicado em 1947.

“Fiel é a Palavra: leituras históricas dos evangélicos protestantes no Brasil”, organizado por Elizete da Silva, Lyndon de Araújo Santos e Vasni Almeida, está em sua 2ª edição e recupera a memória de anglicanos, luteranos, presbiterianos, congregacionais, batistas e metodistas no país, do século XIX até a atualidade.

Em “Imagens de roca: uma coleção singular da Ordem Terceira do Carmo de Cachoeira”, Selma Soares de Oliveira estuda a importância das imagens sacras que se destinam a procissões e são vestidas com trajes de tecido. Em sua pesquisa nos acervos católicos da Bahia, a autora encontrou nessa igreja histórica de Cachoeira, no Recôncavo, a coleção de peças que mais lhe chamou a atenção.

“Antropoentomofagia: insetos na alimentação humana”, 2ª edição, é organizado por Eraldo Medeiros Costa Neto e reúne textos de diversos pesquisadores. Os trabalhos ressaltam o fato de que os insetos são o grupo mais rico e diverso do reino animal, porém ainda muito pouco estudado do ponto de vista da etnoecologia e da cozinha entomofágica.

“Os anfíbios e répteis da Reserva Madeira, Estado de Alagoas, Nordeste do Brasil”, organizado por Geraldo Jorge Barbosa de Moura, Eliana Maria de Souza Nogueira e Eraldo Medeiros Costa Neto, reúne trabalhos de pesquisadores de várias universidades nordestinas. O livro se destina a herpetólogos e ao público interessado em conhecer mais sobre a fauna de anfíbios e répteis dos remanescentes de Mata Atlântica brasileira.

“Ecologia Humana: uma visão global”, organizado por Ronaldo Gomes Alvim, Ajibola Isau Badiru e Juracy Marques, é uma coletânea de artigos sobre o surgimento e a abrangência dessa nova ciência, que, como área de formação e pesquisa em sua perspectiva pluridisciplinar, estuda as complexas relações entre o ser humano e seu entorno.

“Cultura, sociedade e política: ideias, métodos e fontes na investigação histórica”, organizado por Elizete da Silva e Erivaldo Fagundes Neves, é uma antologia de ensaios que abordam a produção contemporânea em ciências humanas do ponto de vista historiográfico. Os trabalhos tematizam história e política, história e literatura, história e religião e metodologias da pesquisa em história agrária e história regional.

“Competividade territorial e federalismo na Região Integrada de Desenvolvimento Econômico (RIDE) Petrolina-Juazeiro”, de Reinaldo Santos Andrade, é um estudo analítico e interpretativo do espaço geográfico, no sentido de território usado, e sua relação com o capitalismo global contemporâneo, o ordenamento territorial-regional, os diferentes federalismos, a dinâmica do polo de desenvolvimento em Petrolina (PE) e Juazeiro (BA) e o problema das desigualdades socioeconômicas e territoriais.

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