Em defesa da educação: um artigo de Consuelo Novais Sampaio

O jornal A TARDE de hoje, 03 de julho, publicou o artigo “O AUTORITARISMO PREDOMINA NO GOVERNO”, da professora Consuelo Novais Sampaio. Autora de vários livros, a professora Consuelo Novais Sampaio é Doutora em História pelo The Johns Hopkins University; professora aposentada da Universidade Federal da Bahia, dirige o Centro de Memória da Bahia, da Fundação Pedro Calmon e é membro da Academia de Letras da Bahia desde 1992.

O AUTORITARISMO PREDOMINA NO GOVERNO

Consuelo Novais Sampaio

As medidas adotadas pelo governo da Bahia, através do secretario de Educação, agridem a democracia duplamente: pela intransigência substituindo o diálogo, e pelo autoritarismo, sinônimo de despotismo, substituindo a autoridade. Esta constatação se evidencia na falta de ética e de moral nos recentes atos do governo.

 A convocação de professores em estagio probatório e Reda, para substituir os professores da rede estadual, foi a mais recente tentativa de impor a autoridade pela força do poder. Queremos crer que os convocados honrarão a categoria, construtores que são da base educacional dos nossos jovens. Em contraste, os professores em greve, aguardam do governo o respeito ao direito que lhes cabe de ajuste salarial de 22,22% fixado por lei federal (11.738/08). Estão acampados no legislativo, aguardando a revogação da espúria lei estadual (12.364/11) que os engessou até a Copa de 2014. Subliminarmente, governo e legislativo dizem aos nossos jovens: larguem os livros; peguem a bola. É constrangedora a submissão do Legislativo ao Executivo, além de vivermos em 2011 aguardando 2014!

Não menos autoritária foi a propaganda enganosa, veiculada pelo governo em canal de TV, afirmando que os professores da rede pública estadual já haviam recebido ajuste salarial de 22% a 26%.! Não explicou o milagre. Recorreu ao nosso maior veículo de propaganda – tão grande que fez Lula aliar-se a um foragido da Interpol! Ao enganar o povo através da TV, o governo da Bahia assumiu o papel de Golias contra um Davi, cujo estilingue foi posto à venda em feira pública, visando a defesa de princípios básicos da educação. Depois, revivendo o Leviatã — monstro bíblico recriado por Thomas Hobbes para caracterizar as garras do Estado repressivo que se formava no século XVII — o governo da Bahia cortou o parco salário de professores indefesos. Ao invés de dialogar, preferiu humilhar. Tirar, ao invés de dar-lhes o que lhes pertence por lei federal que, constitucionalmente, se superpõe à estadual, mormente quando esta foi criada posteriormente, para a defesa de interesses circunstanciais. A humilhação a que foram submetidos os professores fortaleceu-lhes a dignidade, a honra, cujas noções transmitem aos seus alunos. É a justeza da causa que defendem — a educação, como pilar e cerne da sociedade e do próprio governo – que faz com que aguardem decisão favorável do governo.

 Pelo que tem sido exposto na mídia, deseja-se que a sórdida estratégia intentada pelo secretario de Administração (jogar funcionários públicos contra seus companheiros, lembram-se?) não faça escola. Que os professores convocados não se sintam como peças fracas e disponíveis de um exercito de reserva, das quais se lança mãos quando conveniente. Não permitam que sejam jogados contra seus colegas. O modo de ação do governo, manipulando a sociedade contra os que preparam os seus filhos para o futuro, é abominável, pela agressão, pela intransigência exacerbada.

 Nos primórdios da atual crise global, que feriu todo o sistema financeiro do planeta após a queda do Lehman Brother’s, este quarto maior banco do mundo, em desespero, reuniu-se com altos banqueiros coreanos, propondo-lhes comprar boa parte da massa podre de imóveis que, aos borbotões, eram-lhes devolvida. Convencidos que os asiáticos aceitariam sua proposta, decepcionaram-se quando, em silêncio, eles se retiraram da mesa de negociações. Correram atrás e ofereceram-lhes maiores vantagens. O líder coreano recusou. Continuou a andar e, virando a cabeça disse-lhes não se tratar de capital; apenas, concluiu, “não gostei do jeito como vocês conduziram as negociações”.

 Parafraseando o banqueiro coreano, está claro que não só os professores, mas a sociedade não gosta do “jeito como o governo está conduzindo as negociações”. A despeito da lei da Transparência e, conforme divulgado, os recursos do FUNDEB ultrapassarem 900 milhões de reais, além de vários bilhões ultimamente transferidos pelo governo federal, nada foi-nos dito sobre a aplicação de tais recursos. Que o bom senso prevaleça.

Fonte: Jornal A TARDE – 03/07/2012

 

 

5 ideias sobre “Em defesa da educação: um artigo de Consuelo Novais Sampaio

  1. O artigo da professora Consuele Novais é de uma lucidez espantosa. Ela conseguiu detectar os pontos fracos do governo e denunciar o autoritarismo explicito do governo da Bahia. Quem te viu, PT, aquem te vê!
    Eles conseguiram semear a desesperança no coraçao da familias baianas.

  2. Não há alternativa a greve? Porque os sindicatos só sabem pressionar os governos através de greves? Não dava pra fazer outra coisa que atingisse o governo e não a população? Eu vejo greve da seguinte maneira. Vamos amedrontar a população para que ela pressione o governo pela nossa causa. Vide PM e rodoviários. Porque não dar aulas de uma forma alternativa? Porque não pendurar nos quadros negros as fichas sujas dos políticos e seus apaniguados?

    • Na minha opinião, All, os trabalhadores apelam para a greve quando se sentem encurralados. No caso dos professores, segundo noticiado pela imprensa e pelos sindicatos, o governo desrespeitou o professorado; além de ser a categoria mais mal paga do Brasil, os professores foram traidos pelo governador, que além de não pagar o piso salarial 22.22%, confiscou as vantagens salariais adquiridas ao longo da carreira. Jaques Wagner, apesar de se dizer sindicalista esta tendo um comportamento ditatorial e desrespeitoso. Ele tem um comportamento irredutivel e se nega a negociar coma categoria. Não resta outra alternativa.

  3. Excelente artigo. Esperemos que o Tribunal de Justiça da Bahia tenha sensibilidade para analizar os fatos, pois afinal os professoresestão sendo humilhados e desrespeitado. Clamemos por justiça!

  4. Força! Um dia a casa cai! Parabéns aos bahianos, talvez principiem o início do fim dos canalhas.

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