A nevasca

Leni David

     Nas minhas andanças por aqui encontrei a crônica que publico abaixo, esquecida numa gaveta, gravada num disquete. Embora esteja aproveitando o sol gostoso do verão francês, de férias e curtindo tudo que tenho direito, vou publicá-la no blogue com o objetivo de resgatá-la.

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 A nevasca

      Às dez da manhã o telefone tocou. Era uma brasileira que havia chegado a Paris naquela manhã. Ela buscava informações a respeito de uma pós-graduação e pedia sua ajuda. Tinha conseguido o seu número de telefone por intermédio de uma amiga que morava na Bahia e que também era sua amiga. Para quem vive no exterior, a visita dos amigos queridos reconforta o coração. Mas quando se trata de receber amigos dos amigos, o prazer se transforma em dever.

      É preciso lembrar que na Europa as pessoas não são muito disponíveis. Elas trabalham, cuidam dos filhos, da casa, das compras e da cozinha. Mesmo os idosos e as pessoas abastadas não costumam ter serviçais. Até o lixo, cada um transporta o seu até o subsolo do prédio, de onde é recolhido pelo responsável por este serviço. Quem tem filhos pequenos, contrata uma baby-sitter para tomar conta das crianças quando vai ao teatro, ou a um jantar em casa de amigos; senão, contrata-se uma faxineira para trabalhar quatro horas por dia, pois o custo desse privilégio tem um custo semanal de cerca de meio salário mínimo em moeda brasileira. Apesar do frio glacial que fazia naquele mês de janeiro, ela estava de folga e concordou em encontrar a visitante num Café da Praça da Sorbonne, próximo ao hotel onde ela estava hospedada. Combinaram as roupas que vestiriam e concordaram em levar nas mãos uma revista brasileira para facilitar a identificação.

      Como os outros membros da família almoçavam nos locais de trabalho e de estudo, almoçou rapidamente e preparou-se para enfrentar o frio. Desceu a rua que dava acesso ao ponto do ônibus, de onde se tinha uma linda vista de Paris nos dias claros e ensolarados. Naquela tarde, porém, a paisagem era lúgubre, tendo como pano de fundo um céu cinzento, quase branco; a cidade parecia envolvida numa cortina de fumaça. As árvores nuas mostravam galhos ressequidos e espetados que lembravam mãos voltadas para o céu, como se pedissem socorro. E o vento gelado dava alfinetadas no rosto e maltratava os olhos.

      O ônibus que lhe levaria ao centro da cidade era de grande valia pois dispensava o uso do metrô, num momento em que as ameaças de atentados eram constantes. Reconfortada pelo aquecimento do veículo, olhava a rua, as vitrines decoradas e as pessoas que passavam encolhidas, sérias, vestidas com roupas escuras. Chegou ao Café e instalou-se numa mesa próxima à entrada. Pediu um cafezinho e deixou a revista brasileira sobre a mesa. Logo depois entraram duas jovens senhoras e ela adivinhou, vendo as roupas que vestiam, que uma delas era a pessoa com quem havia marcado encontro: calças jeans, tênis, muitas blusas sobrepostas que davam um aspecto recheado ao corpo e um casaco antigo, muito largo. Esse tipo de indumentária, era o “uniforme”, preferido pela maioria dos brasileiros que visitavam Paris. Elas sentaram-se numa mesa próxima e uma delas retirou da sacola uma revista brasileira. Não teve dúvidas; aproximou-se, identificou-se e cinco minutos depois já conversavam e tomavam vinho quente como se já se conhecessem há muitos anos.

      Pode ser exagerado repetir que o frio era glacial, mas, a cada vez que alguém entrava ou saía do café, uma rajada de vento frio invadia o recinto; preferiram, então, continuar conversando ali. A conversa estava animada quando, olhando através do vidro, uma das brasileiras comentou, num tom alegre, se os floquinhos brancos que caiam rua eram neve. Olhou para a rua e constatou que começara a nevar; a visitante ficou maravilhada pois embora já tivesse visitado a Europa em outras ocasiões, aquela era a primeira vez que via a neve cair.

      Pensou nos transtornos que a neve provocava na cidade, apesar de ser linda, mas não fez nenhum comentário. Lembrou que muitos se machucam porque as calçadas ficam escorregadias; lembrou da mistura de areia e sal que pulverizavam nas ruas para permitir a circulação de veículos e do lamaçal abominável que se formava em poucos minutos. Pensou em outros inconvenientes, mas preferiu dizer que a neve era muito bem-vinda quando se estava numa estação de sky, ou instalado diante de uma lareira, com bons livros para ler, amigos para conversar e um chocolate fumegante para saborear.

      Quando a calçada se cobriu totalmente de branco, alguns jovens começaram a formar bolas que atiravam nos companheiros. Riam muito, escorregavam, corriam numa algazarra descontraída. Então a brasileira comentou, como se conseguisse ler seus pensamentos negativos, que apesar do frio medonho, as pessoas conseguiam se divertir. Concordou com ela e aceitou a incumbência de fotografá-la na paisagem nevada.

      Eram cinco e meia quando decidiu voltar para casa. Despediu-se das brasileiras prometendo que se encontrariam dentro de dois dias e deixou-as na entrada do Jardim de Luxemburgo, onde algumas crianças modelavam bonecos engraçados, daqueles que ilustram os cartões de boas-festas. As visitantes estavam embevecidas com a paisagem branca da cidade e decididas a comprar mais filmes para novas fotografias e a jantar olhando a paisagem através da vidraça de um restaurante próximo ao hotel onde estavam hospedadas, ali mesmo, no Quartier Latin. Andou na direção do ponto de ônibus e levantou o cachecol de lã para proteger a boca e o nariz, dormentes, como se estivessem anestesiados. Apesar de manter as mãos enluvadas nos bolsos, a sensação de frio era intensa e os pés doloridos incomodavam devido aos sapatos leves que usava, inadequados para aquele tempo.

      Numa cidade onde os ônibus são pontuais, aquele demorava a chegar. Impaciente, decidiu voltar de metrô pois começava a escurecer. Desceu em Montparnasse onde faria a conexão para a linha do seu bairro. A estação de Montparnasse estava cheia e as pessoas andavam apressadas pelos corredores. De repente ouviu-se os altos-falantes anunciarem a suspensão dos serviços do metrô em algumas linhas externas, pois a nevasca havia provocado panes na rede elétrica.

      Resolveu telefonar para a empresa onde o marido trabalhava e pedir para que viesse busca-la, mas ele estava em reunião e o colega que atendera ao telefonema prometera dar o recado, caso o encontrasse ainda, visto que já passava das dezoito horas. Concluiu que era preciso agir rapidamente e sair da estação para pegar um ônibus, ou mesmo um táxi. Enquanto esperava no ponto tentou ligar para o marido, mais uma vez, mas o telefone público não funcionava. Decidiu andar até o ponto seguinte, onde talvez houvesse mais opções. Andava como se estivesse pisando em pregos, os pés enrijecidos pelo frio. Tentou telefonar mais uma vez. Inútil! O telefone do trabalho não respondia. Decidiu ligar para casa e deixar uma mensagem na secretária eletrônica; possivelmente ele já estaria lá e certamente viria ao seu encontro.

      O tempo passava, a neve caía cada vez mais forte e ela constatou que só chegaria em casa se encontrasse um táxi. No entanto, eles também haviam desaparecido. Começou a desesperar-se. Entrou num café e pediu um chocolate, mas as mãos estavam tão dormentes que dificultavam até o manuseio da xícara. Foi ao sanitário e abriu a torneira de água quente deixando o líquido escorrer sobre os dedos, na esperança de diminuir o desconforto. Reconfortada pela bebida quente, decidiu continuar a caminhada em busca de um transporte. Numa esquina viu um táxi do qual descia um passageiro e precipitou-se na direção do veículo; o motorista impediu-a de entrar, explicando que acabara de dispensar um cliente pois não havia condições de circular na cidade devido ao engarrafamento e aos acidentes. Ele tencionava ir para casa. Ela perguntou onde morava e ele respondeu que morava em Choysi. Sorriu esperançosa pois o caminho para Choysi era o mesmo da sua residência; assim, convenceu o motorista de que não custava nada conduzi-la; ele concordou em leva-la, mas sem nenhuma garantia de que chegariam ao destino.

      Já instalada e agradecendo a Deus por ter lhe concedido a graça de encontrar ajuda naquele momento de aflição, escutou no radio do carro que a cidade estava completamente paralisada. Várias linhas de metrô haviam sido interditadas e os ônibus impossibilitados de circular, mesmo com correntes nos pneus. Falava-se nos esforços da prefeitura diante daquela nevasca imprevista, mas quase nada podia ser feito pois os caças-neve não podiam circular devido ao congestionamento do trânsito. Acreditou que tinha muita sorte, já aquecida e instalada confortavelmente, à caminho de casa.

      O carro rodava a dez quilômetros por hora. O barulhinho dos pneus na neve fresca era macio e agradável de ouvir. Rodaram cerca de quinhentos metros, mas logo ficaram bloqueados. Passaram cerca de vinte minutos sem sair do lugar. De repente, o telefone do motorista tocou e depois de falar durante algum tempo, ele avisou: “infelizmente, a senhora vai ter que descer. Vou estacionar o carro na primeira vaga que encontrar e vou dormir num hotel; a direção da empresa nos proibiu de circular.”

      Engoliu a vontade de chorar e desceu do carro. Entrou num Café em Gobelins, com a intenção de telefonar para casa, mais uma vez. Já passava das dezenove horas e dessa vez, a sua filha adolescente respondeu ao apelo telefônico. Seu pai ainda não havia chegado e ela explicava que também tinha sofrido para chegar em casa na volta da escola e aconselhou, com naturalidade, que só havia um meio de voltar para casa: fazer o percurso andando, pois não havia transporte e a camada de neve já atingia os 40 centímetros. Entrou em desespero; era impossível andar cerca de cinco quilômetros açoitada pelo vento, pela neve e tremendo de frio. Era impossível! Quis chorar, mas mesmo as lágrimas pareciam congeladas.

      Mais uma bebida quente num Café do caminho, mais um quarteirão de caminhada; outro Café, outra caminhada; mais um esforço, muita revolta e muitas injúrias balbuciadas ao vento. Os Cafés fechando as portas e os aparelhos telefônicos cada vez mais mudos… finalmente, cerca de duas horas depois, chegava à estação de metrô do seu bairro onde uma pequena multidão se aglomerava. Pessoas idosas, mães carregando crianças; crianças chorando; adolescentes sorridentes numa algazarra infernal. Novas tentativas para usar os telefones públicos, mas diante deles as filas se alongavam pelos corredores da estação. Na lanchonete não se encontrava mais nada de comer ou de beber. Decidiu que ficaria ali pois não tinha mais condições de fazer qualquer esforço físico e para chegar à sua casa havia ainda cerca de um quilômetro e meio de caminhada. Sentia fome, sede, frio e revolta. Preferia imaginar que logo seu marido chegaria em casa e que certamente viria buscá-la. Resolveu entrar na fila do telefone, e após meia hora de longa espera, a filha insistia para que fizesse mais um “pequeno esforço” pois a avenida que dava acesso ao metrô estava completamente bloqueada e mesmo que seu pai já estivesse em casa, seria impossível chegar até lá. Decidiu então que só sairia dali quando a nevasca acabasse.

      Colocou o fone no gancho e acomodou-se num canto para proteger-se do vento frio. Uma mulher loura, simpática e bem vestida aproximou-se; começou a conversar, coisa que não era muito natural por ali. Contou a sua maratona para aquela desconhecida amável e pensou que quando as pessoas estavam em dificuldade, se tornavam solidárias. A loura disse que o seu marido estava estacionado perto dali e que eles poderiam lhe dar uma carona, desde que ela concordasse em utilizar caminhos secundários, que alongariam o percurso; mas, como moravam num bairro próximo ao seu, não custava nada transportá-la. Agradeceu comovida e aceitou a oferta; andaram uns trezentos metros sobre a neve alta. Entraram numa camionete que estava estacionada ao longo do meio fio. A loura havia dito que morava depois de Clamart, desse modo passaria perto da sua residência, de onde andaria mais uns cem metros e estaria a salvo no aconchego do seu lar.

      A camionete potente começou a circular por ruas secundárias, cheias de obstáculos. Tentou conversar com os benfeitores, mas eles não alimentaram a conversa. Mas começaram a falar entre si, numa língua estranha, que poderia ser russo, polonês, dinamarquês… mas certamente uma língua diferente que jamais escutara antes. No carro havia um equipamento que transmitia mensagens e, de vez em quando, uma delas interrompia a conversa dos dois. Tentou convencer-se de que estavam usando ruas secundárias para evitar o congestionamento. De repente, avistou o mercado de Clamart onde costumava ir aos sábados. Constatou que a sua rua havia ficado para trás há muito tempo. Disse ao casal que estava perto de casa e que queria descer ali. Foi ignorada.

      Tornou a repetir que precisava descer pois já estava longe da casa; a loura então perguntou se ela tinha dinheiro para pagar a corrida; perguntou quanto custaria e disse que tinha apenas um pouco de dinheiro na bolsa. A loura olhou na sua direção e respondeu que custaria caro, muito caro. Abriu o porta-luvas e mostrou-lhe um revólver. Ela emudeceu, sentiu um aperto no coração e pediu ajuda ao seu anjo-da-guarda, em silêncio: “Santo anjo do Senhor, meu zeloso guardador… Entraram por uma avenida larga, conhecida, que dava acesso à estrada de Orleans. O homem, num sotaque carregado, anunciou que na saída da cidade havia um caixa eletrônico. Sentiu medo pois seu saldo bancário era insignificante e tremeu mais ainda, quando imaginou que poderia ser maltratada e até assassinada.

      O trânsito da avenida era denso e desordenado. Os carros rodavam lentamente. Via as pessoas que estavam em outros carros e olhava para elas com olhos de desespero; seu olhar devia traduzir uma imagem medonha, porque as pessoas olhavam para ela com um ar encabulado e começavam a dizer coisas que ela não escutava, pois, os vidros estavam fechados. Começou a chorar compulsivamente, muito alto, como uma criança aterrorizada. O marido da loura falou qualquer coisa num tom brusco e ela replicou, nervosa, olhando para os lados e fazendo gestos com as mãos. Concluiu então, que era melhor morrer ali, diante de todo mundo, do que num local deserto e escuro, onde poderia ser vitima de crueldades. Os carros se deslocavam lentamente e ela pedia a Deus que o engarrafamento continuasse, enquanto chorava um choro incontrolável que chamava a atenção dos ocupantes dos outros veículos. De repente a loura gritou descontrolada: “Fora daqui! Desça do meu carro! Saia! Saia logo, você é louca! Saia!!! Fora!!!”

      Abriu a porta da camionete e caiu de joelhos; tentou levantar-se, mas as pernas não obedeciam. Como um animal rastejou sobre a neve, até que num esforço desesperado conseguiu ficar de pé e chegar, cambaleante, ao outro lado da rua onde havia um Café na esquina. Ofereceram-lhe um grog, uma mistura quente feita à base de rhum e perguntavam-lhe o que havia acontecido. Descabelada e suja, com a voz embargada pelas lágrimas, resumiu a sua aventura para um grupo de pessoas que se encontravam no local. Um motorista de táxi ofereceu-se para transporta-la, mas sem garantia de que chegariam até a sua casa. Entrou no carro chorando e escutou o motorista repetir que já estava tudo bem, que não havia mais razão para chorar.

      Conseguiram chegar nas imediações da sua residência por volta da meia-noite, mas teve que caminhar umas duas quadras com um pé descalço, pois na fuga desesperada havia perdido um dos sapatos. Entrou no prédio achando que tinha vivido um pesadelo. Sentia-se ridícula com aquele pé descalço, uma Cinderela pelo avesso! Entrou em casa e viu a sua filha que assistia televisão deitada no sofá. O seu pé esquerdo estava completamente morto, congelado. As unhas completamente roxas. Seu marido ainda não dera notícias. O que teria acontecido com ele?

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      Meia hora depois ele chegava contando as suas peripécias; havia deixado o trabalho às dezoito e trinta, mas ficara bloqueado, além do carro ter deslizado na neve e machucado o pára-choques. Tentou relatar a sua aventura, mas os dois estavam cansados e não ficaram impressionados com a narrativa. Todos haviam passado por grandes dificuldades e o sofrimento do outro era sempre insignificante se comparado ao seu. Tomou um banho e uma sopa quente e foi para a cama chorar baixinho. Sentia-se a mais injustiçada das criaturas, a mais incompreendida das mulheres, a maior vitima da natureza. Ao mesmo tempo sentia-se reconfortada por ter escapado ilesa e por ter encontrado ajuda. As pernas doíam em conseqüência do esforço físico; os pés, doloridos e inchados. A cabeça também doía. E o coração doía mais ainda ao constatar, que além de vítima das intempéries havia sido vítima da sua tolice, da sua ingenuidade. Será que eles haviam acreditado na sua história? Seu marido dissera que era uma aventura mirabolante…

      Preferiu acreditar que tudo aquilo não passou de um pesadelo e que ao despertar sob o calor aconchegante do edredom do seu leito, vislumbrava lá fora a cidade majestosa, decorada como um magnífico bolo confeitado, todo branco.

      Châtillon, 29 de março de 2005

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