Parte 4: A volta ao Brasil

Por Simone

Voltou ao Brasil em 2000, se ouvia as “Meninas do Brasil” de Morais Moreira no frescor de sua sala de estar em Feira de Santana.

“Três meninas do Brasil, três corações democratas

Tem moderna arquitetura ou simpatia mulata

Como um cinco fosse um trio, como um traço, um fino fio

No espaço seresteiro da elétrica cultura

Deus me faça brasileiro, criador e criatura

Um documento da raça pela graça da mistura

Do meu corpo em movimento, as três graças do Brasil

Têm a cor da formosura

Se a beleza não carece de ambição e escravatura

E a alegria permanece e a mocidade me procura

Liberdade é quando eu rio na vontade do assobio

Faço arte com pandeiro, matemática e loucura

Deus me faça brasileiro, criador e criatura

Um documento da raça pela graça da mistura

Do meu corpo em movimento, as três graças do Brasil

Têm a cor da formosura”

Patricia_Lucila_Simone-reduzida

Lucila, Simone e Patricia

Em Julho de 2014, Mainha declarou mais uma vez o seu amor à Denis cantando “Eu não existo sem você ” de Vinicius.

“… Assim como o oceano

Só é belo com luar

Assim como a canção

Só tem razão se se cantar

Assim como uma nuvem

Só acontece se chover

Assim como o poeta

Só é grande se sofrer

Assim como viver

Sem ter amor não é viver

Não há você sem mim

E eu não existo sem você.

Uma das músicas de seu lindo repertório. Em 2018, sua neta Juliette canta:

“Eu sou uma borboleta pequenina e feiticeira

Ando no meio das flores procurando quem me queira

Borboleta pequenina saia fora do rosal

Venha ver quanta alegria que hoje é noite de Natal”

Juliette não teve o tempo de ouvir sua Mamy interpretando “Borboleta feiticeira”.

Juliette_Avril-2017-reduzidaJuliette

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Parte 3: Ida e volta

Por Simone

No dia do meu aniversário de 8 anos, lembro da minha surpresa e felicidade quando descobri na minha cama, um belo conjunto, uma camisa marrom franzida e uma saia trapézio. Meu presente de aniversário. Meu bolo de aniversário foi uma boneca com cabelos de ameixa.

A radiola tocava:

“…Reconhece a queda

e não desanima,

Levanta, sacode a poeira

e ainda volta por cima…”

Paulo Vanzolini

Nos anos 90 a música continuava presente no nosso Lar, estávamos no Brasil.

Se ouvia, Paulo Diniz, Geraldo Azevedo…

“Um chope, pra distrair…”

Com, 14 anos, escolhi minha própria música, pois era adolescente, gritava nas músicas de Rage Against the Machine. Nada muito suave e sensível. Quero me desculpar de ter feito dano muitos ouvidos nesse período.

Dez anos mais tarde, quando passava meus domingos à noite dançando no clube de Salsa nos Champs-Elysées, O Montecristo, minha Mãe me acordava no dia seguinte cantando:

“Dáme música Latina,

 porque me siento muy bien…”

(autor desconhecido)

Seu canto me acordava enquanto abria a janela do meu quarto, já era hora do almoço.

Tableau_de_Leni-3-reduzidoAuvergne

Houveram dias mais tristes quando minha Mãe soluçava ouvindo o Ciúme, ou Cajuína de Caetano Veloso,

“Existirmos,

a que será que se destina? “

 A melodia levava a tristeza pra lá, ou pelo menos tentava.

Juraci-10-reduzidoJuraci Dórea

Entre Villalobos e suas Bachianas Brasileiras, Ravel e seu Bolero, As Quatro estações de Vivaldi, os cantores de MPB iluminavam essa sala de Châtillon, no sul de Paris, onde a saudade Brasileira era palpável apesar da linda vista para Montmartre.

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Parte 2: O Brasil em Paris

Por Simone

Naquela época, para matar a saudade de casa, nos dias de festa, se dançava em

 “O balancê, balancê,

quero dansar com você!

entra na roda, morena pra ver,

ô balancê, balancê…”

Interpretado por Gal Costa.

Para ajudar, minhas irmãs mais velhas, trocavam as garrafas de plástico no supermercado, por algumas moedas, essas mesmas garantiam a baguette do dia. Foi então que um anjo então apareceu, ele se chama Denis.

Apesar de se sentir amada, a saudade de casa sempre estava presente. Ela cantava para liberar sua dor.

“Canta, Canta,

passarinho, canta,

canta miudinho,

na palma da minha mão,

quero ver você voando,

 quero ouvir você cantando,

 quero paz no coração…”

Se ouvia também nos dias de alegria

“C’est si bon,

se promener à Montmartre,

boire un verre de Cognac,

mon amour c’est si bon !

com a sua adaptação original!

Leni_Alma Marceau 81

Lene em Alma-Marceau (1981)

Quando morávamos em Fontenay aux Roses, a Java de Edith Piaf, se espalhava pela sala de estar:

“Entraînés par la foule

qui s’élance

Et qui danse,

Une folle farandole

 Nos deux mains restent soudées…”

Naquela época, houve muito acarajé parisiense, feijoadas internacionais e fantasias de Baiana…

Nos domingos durante os almoços, com a turma dos Brasileiros de Paris, se ouvia samba o que chamo hoje de Música de Domingo, música que esverdeava o céu cinzento de Paris.

Leni_Ana-Rosa_5768-reduzidaAniversário de Simone

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Parte 1: Exílio

Por Simone

Para Mainha,
Leninho, Lene, Leny,

Minha mãe era uma mulher maravilha. Era uma mulher de numerosos talentos. Excelente professora, irmã dedicada, uma mãe amante que nos ensinou a não ter medo e alcançar nossos sonhos.

Foi junto com ela que fui pela primeira vez à universidade pois ela me carregava no seu ventre em 1976.

Difícil descrevê-la, com simples palavras. Não tendo a habilidade que ela tinha para manipular a Língua Portuguesa.

Durante muitos anos pensava que minhas decisões eram próprias, mas a minha educação, cultura, e simplesmente meu jeito de ser foi, sem me dar conta, constituído por tudo que ela me ensinou.

Talvez consiga descrevê-la com algumas músicas que nos acompanharam esses últimos 42 anos.

Em 1981, quando tinha 5 anos, cantávamos juntas “Pégaso” de Morais Moreira. Lembro que era minha preferida.

“Era uma vez, vejam vocês,

um passarinho feio, que não sabia o que era,

nem de onde veio…”

Simone_1982Simone aos 6 anos

Chegamos na França em 1982, eu tinha 6 anos. Nas noites de muita saudade, Mainha me contava que durante o meu sono, eu viajava para o Brasil. Acreditava então, que passava minhas noites brincando na casa de minha Vó Hilda com meus primos. Corria pela varanda, que parecia verdadeiro labirinto para uma criança da minha idade, inventava brincadeiras entre as inúmeras plantas, flores e arbustos daquele lindo jardim.

Minha mãe viveu um exílio e acabou não se sentindo em casa, em lugar nenhum.

Em 1983 nos mudamos para a Torre Tokyo no bairro chinês de Paris. Inocente, pois não entendia a gravidade da situação, eu roubava os salgadinhos que minha Mãe preparava para vender a uma cooperativa. Era sua fonte de renda enquanto seu salário do Brasil não chegava. Mainha estava sozinha num país estrangeiro com suas três filhas.

Leni_chegada em Paris-reduzidaLene em Paris (1983)

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