A Rainha da Primavera

 

Leni David

Ela tinha uns oito anos e se chamava Iara. Era gorducha e usava óculos de lentes espessas como fundos de garrafa; os óculos eram amarrados a um pedaço de elástico que contornava a cabeça e mesmo assim ela os quebrava com muito frequência. Seu rosto rosado e rechonchudo, emoldurado por cabelos louros e encaracolados, lembrava aqueles anjos barrocos pintados nos tetos das velhas igrejas da Bahia. A rua onde morava era tranquila e cheia de crianças. Iara brincava com a meninada da vizinhança e muitas vezes as brincadeiras terminavam em tapas e choros, pois não aceitava que a chamassem de feia.

Iara tinha seis irmãs e três irmãos. Viviam todos numa casa antiga e espaçosa onde havia um quintal e onde sobravam estripulias de crianças. As histórias contadas depois do jantar pelos mais velhos falavam de almas penadas, de botijas enterradas cheias de dinheiro, no tempo de Lampião; histórias de lobisomens, de mulas sem-cabeça e de uma mãe d’água que morava na Gurunga, uma cachoeirinha muito bonita que ficava perto dali. Histórias povoadas por princesas sofredoras e madrastas perversas, contadas em tom solene e misterioso, na cozinha, ao pé do fogão antigo.

O padrinho de Iara, seu tio Jonas, era irmão do seu pai. Ele era solteirão, gorducho, tinha um defeito em uma das pernas que o fazia mancar um pouco, e sua voz era fanhosa. Tio Jonas não tinha filhos e paparicava muito a sua sobrinha-afilhada. Ele era viajado. Conhecia toda a América Latina, visitava sempre o Rio de Janeiro, e se hospedava no Hotel Quitandinha, numa época em que para se chegar até lá era preciso embarcar num navio e viajar durante uma semana, ou mais.

Tio Jonas não fazia contas quando se tratava de oferecer presentes, ou satisfazer os caprichos da menina. Quando ele vinha à cidade para visitar a família, usava um terno branco de diagonal e um chapéu de baeta, arranjado na cabeça com elegância. Tinha no dedo anular da mão direita um anel de ouro muito largo onde se viam gravadas, em relevo, as iniciais do seu nome. Para prender a gravata ele usava um alfinete de ouro adornado por um diamante que lançava faíscas cintilantes.

Sua presença era sempre notada, pois exalava um cheiro bom de perfume caro. Sorridente, chegava à cidade com muitas malas, às vezes tão numerosas que eram necessários dois carregadores para transportá-las. Repletas de pacotes de presentes. Os mais apreciados eram as guloseimas: maçãs argentinas, vermelhas e cheirosas, produto luxuoso para aqueles tempos; bombons enrolados em papéis coloridos, chocolates acondicionados em caixas que pareciam de ouro e prata. Naquela época só havia uma sorveteria na cidade e quase ninguém possuía uma geladeira. Mas o padrinho de Iara comprava tigelas enormes de sorvetes, quilos de sorvetes, de vários sabores e cores, uma orgia de regalos gelados e açucarados para a meninada e para os grandes também.

Iara frequentava uma escola próxima à sua casa. Num fim de tarde ela chegou em casa trazendo uma grande notícia; haveria uma festa no mês de setembro, quando seria escolhida a rainha da primavera entre as meninas mais bonitas da turma; a festa tinha como objetivo arrecadar fundos para melhorar as instalações do prédio escolar que estava degradado. Para eleger a rainha todas as crianças receberiam cartõezinhos que valeriam votos; assim, a candidata que vendesse mais votos seria coroada.

Iara decidiu que ia candidatar-se a rainha da primavera, mas a professora foi contra a sua candidatura:

- Você não pode! Você é loura, mas não é bonita!!!

Mas ninguém conseguiu dissuadi-la. Também em casa, toda a família tentou demovê-la da idéia; sem sucesso. Porém, ela foi apoiada plenamente pelo avô e pelo padrinho, que se encantaram com a novidade.

No dia seguinte ela comunicou à professora que seria candidata e esta, mesmo a contragosto, foi obrigada a aceitar a candidatura da menina e a entregar-lhe cem cartõezinhos para serem vendidos e transformados em votos. Muito compenetrada e confiante, Iara conseguiu vender votos aos familiares e vizinhos; vendeu todos os cartões. E mais uma vez chegou em casa com uma nova remessa de cartões, que foi comprada pelo avô e pelo tio Jonas. Daí em diante, todos os cartões que lhe eram confiados eram vendidos sem demora, perfazendo uma soma considerável de votos e de dinheiro.

No dia da apuração o padrinho acompanhou a afilhada. Desde o início da contagem dos votos, Iara vencia com larga vantagem, quando o pai de uma das candidatas ofereceu mais dinheiro para eleger a filha. O tio Jonas, então, proclamou diante dos presentes, com sua voz forte e fanhosa:

- Se vocês cobrirem a soma que ela arrecadou, estão perdendo tempo! Quantos vocês querem? Dois mil? Três mil?

O silêncio caiu sobre a sala. Todos se entreolharam em silêncio, quando a professora proclamou Iara a nova Rainha da Primavera da escola, com uma larga margem de votos a seu favor.

Alguns dias antes da festa o padrinho viajou para a capital visando os preparativos para a coroação. Na sua volta deixou toda a família estupefata com os objetos e ornamentos que adquirira para abrilhantar a festa da afilhada. Trouxe cetro prateado e coroa de pérolas; um manto de veludo azul marinho bordado de lantejoulas. Sapatos de verniz e um magnífico vestido de tafetá cor-de-rosa, de mangas bufantes, estampado de bolinhas da mesma cor do manto. Uma beleza! Ah, trouxe também  novos óculos, com armação prateada, que deixou a menina encantada.

No dia da festa o padrinho requisitou toda a família e amigos para organizar o desfile. “Sua Majestade” deveria chegar à escola em grande pompa. Toda a rua teve o privilégio de assistir ao cortejo singular: duas meninas vestidas de branco abriam o préstito projetando pétalas de rosas sobre o caminho por onde passaria a Rainha da Primavera; em seguida, uma outra menina vestida como princesa deslocava-se lentamente levando nas mãos uma almofada de veludo azul-marinho, onde estava acomodada a coroa de pérolas. A futura soberana, sorridente e feliz, caminhava devagar levando nas mãos o cetro prateado. Seis garotas da vizinhança também faziam parte do cortejo segurando as bordas do longo manto real.

Houve comes e bebes, danças e muitas brincadeiras durante a festa da coroação. Quando tudo acabou Iara voltou para casa com os pés descalços, os sapatos novos nas mãos e com a cabeça adornada pela coroa de pérolas. Ela estava cansada e feliz, as faces coradas e o rosto sorridente, iluminado. Algumas meninas portavam as outras peças da indumentária da Rainha, por puro prazer. A partir daquele dia, até que a coroa se desfizesse em pedaços e o manto se tornasse um trapo desbotado, muitas crianças foram coroadas reis e rainhas nas brincadeiras da criançada da rua. E nunca mais a chamaram de feia!