Lançamento de livro

Sexta-feira  (27/07), lançamento de mais uma edição do livro do poeta Damário da Cruz – Todo Risco – pela Fundação Pedro Calmon, no Pouso da Palavra,  em Cachoeira. A solenidade terá início às 18:30 hs, com palestra do professor Ubiratan Castro, diretor da Fundação Pedro Calmon.

É bom lembrar que todos os livros de Damário Dacruz têm edições esgotadas e esta é uma excelente oportunidade de obter um exemplar e de contribuir para a manutenção do Pouso da Palavra, espaço cultural criado pelo poeta.

Compareçam e divulguem!!!

Wagner é vaiado por grevistas

 

 

 Como já era esperado, o governador Jaques Wagner foi recebido com vaias por um grupo de professores em greve ao chegar à Igreja do Convento do Carmo, em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, para assistir a um concerto da Camerata da Orquestra Sinfônica da Bahia, na manhã desta segunda (25), abrindo os festejos do Dois de Julho, a Independência da Bahia.

Cerca de 100 professores participaram do protesto, a maioria vinda de cidades vizinhas. De Feira de Santana, por exemplo, partiu, logo cedo, um ônibus fretado pela delegação local do sindicato da categoria.

Mais tarde, em entrevista, Wagner acusou os dirigentes sindicais de transformarem a greve em movimento político, rechaçou a acusação de intransigente e disse que está  faltando “compreensão” de parte dos professores.

“O que me choca é a covardia contra os alunos indefesos. É fácil dizer que a culpa é minha, pois o governador representa o poder, mas não sou eu que estou tirando as aulas dos meninos, são os professores”, afirmou.

Logo cedo, os professores se concentraram nas proximidades da entrada da igreja, onde ceria celebrado o Te Deum,  culto em reverência aos heróis das lutas pela independência da Bahia. Wagner, porém, não participou da cerimônia e foi representado por seu chefe de gabinete, Edmon Lucas.

Na porta, com faixas e cartazes, o grupo de grevistas gritava palavras de ordem, cantava paródias chamando o governador de “traidor” e vaiava deputados e secretários de estado que chegavam ao local.

Há cinco anos consecutivos, o governo baiano é transferido simbolicamente para Cachoeira no dia 25 de julho, por força da Lei 10.695/07. Em 25 de junho de 1822, os moradores de Cachoeira proclamaram a independência da Bahia e iniciaram as lutas para expulsar as tropas portuguesas, culminando com a batalha final, em 2 de julho de 1823, data magna do Estado.

Fonte: Bahiatodahora: http://www.bahiatodahora.com.br/noticias/wagner-e-vaiado-por-professores

Jaques Wagner é vaiado em Cachoeira

Wagner é alvo de protesto e se diz chocado com a “covardia” dos grevistas

Biaggio Talento l Agência A TARDE

Cachoeira  – O governador Jaques Wagner foi recebido com várias e gritos de “traíra”, por um grupo de 100 professores do Estado em greve, na manhã desta segunda-feira, 25, quando chegou à Igreja do Carmo, em Cachoeira, para assistir a um concerto alusivo aos festejos do Dois de Julho, a Independência da Bahia.

Em entrevista, Wagner ponderou que está faltando “compreensão” de parte dos professores. Alegou que não está sendo intransigente e acusou os sindicalistas do APLB-Sindicato de transformarem a greve em movimento político.

“Me parece que do lado de lá há uma queda de braço (entre as lideranças) e eu já disse que a luta política se resolve no processo eleitoral. O que mais me choca é a covardia contra os alunos indefesos. É fácil dizer que a culpa é do governador, pois o governador representa o poder, mas não sou eu que estou tirando as aulas dos meninos, são os professores. É como usassem os alunos como escudo”, criticou Wagner.

O clima em frente à Igreja do Carmo era de expectativa, desde o início da manhã, quando grevistas de vários municípios do Recôncavo Baiano começaram a se concentrar à espera do governador para o Te Deum, culto que exalta os heróis da guerra da Independência.

Wagner não apareceu, quebrando uma tradição dos anos anteriores. Foi representado pelo seu chefe de gabinete Edmon Lucas. Os professores passaram a cantarolar as músicas que vem vendo usadas nos atos dos grevistas: “Ele, ele é traidor, é traidor, é traidor” e “governo ordinário, não deu o piso e cortou o meu salário”.

Secretários estaduais e deputados da base governista que chegavam ao local eram vaiados. Um dos mais visados, o líder do governo na Assembleia Legislativa e candidato a prefeito de Feira de Santana, Zé Neto (PT), reagiu com bom humor. “Eu já tenho o casco duro”.

Fonte: http://atarde.uol.com.br/cidades/noticia.jsf?id=5848680&t=Wagner+leva+vaia+e+se+diz+chocado+com+a+

Cachoeira recebe exposição de Damário Dacruz

“A poesia não pede passagem” e faz suas rimas nas históricas ruas de Cachoeira, Recôncavo Baiano, de 5 a 22 de dezembro. A cada esquina, o verso se descortina a olhos nus, estampando postes, carrinhos de pipoca, barracas e bares com os escritos de Damário DaCruz.

Natural de Salvador, mas filho legítimo de Cachoeira, condecorado com o título de “Cidadão Cachoeirano” em 2005, Damário empresta seus poemas aos passantes e transeuntes, “poetizando” o dia a dia da cidade com uma exposição inédita. São mais de 30 poemas com temáticas ligadas ao tempo, à natureza, às relações humanas, ao amor… Enfim, à vida. E todos à disposição do público, em uma mostra a céu aberto.

 

A exposição é uma produção da Baluart, com curadoria de Graça Cruz. Em paralelo, acontecem ainda projeções de vídeo-poesia e curtas sobre poetas brasileiros, como Manuel de Barros e Fernando Sabino, nos dias 8, 9 e 10, no espaço Pouso da Palavra, fundado pelo próprio Damário. E, no dia 8, também tem show gratuito com o Samba da G.I.A, a partir das 22h.

 

Damário DaCruz – Jornalista, escritor, publicitário, fotógrafo e poeta, conquistou seu primeiro prêmio aos 16 anos, na Semana do Livro Baiano e, aos 23, o prêmio nacional Convívio de Poesia. Foi considerado o melhor poeta brasileiro universitário na década de 70 e suas obras estampam muros em diversos países da América Latina. Falecido em 2010, deixou de legado 500 poemas, mais de 30 posters-poemas e três livros
publicados; fruto de 40 anos dedicados a traduzir o mundo em rimas e versos.

Lançamento da Antologia Rabiscos de Desenhos e Arte Contemporânea

 

Dia  28 de outubro (sexta-feira), a partir das 19 horas, o Pouso da Palavra, em Cachoeira, receberá o lançamento da Antologia Rabiscos de Desenho e Arte Contemporânea.

O livro, que será distribuído gratuitamente, apresenta seleção de trabalhos de sete jovens artistas baianos que transitam entre diversas linguagens gráficas, tendo como expressão principal o desenho. Foram escolhidos quatro artistas provenientes do interior da Bahia – Marcio Junqueira, Don Guto, Carol Belmondo e Zé de Rocha – e três desenhistas soteropolitanos – Daiane Oliveira, Bruno Marcello e Davi Caramelo. As artes presentes na coletânea estão dividas em duas seções: uma que apresenta trabalhos coloridos e outra que reúne obras em preto-e-branco e tons de cinza, resultando em mais de quarenta desenhos reunidos nas cem páginas da edição.

Colaborou com a capa da Antologia Rabiscos o veterano artista argentino Jorge Abel Galeano, que também ilustrou as páginas que abrem e fecham a seção de trabalhos coloridos. O crítico de arte e pesquisador Leandro Furtado assina o texto de posfácio.

O lançamento contará com exibição oficina de desenho do artista Bruno Marcello .  As inscrições para a oficina serão feitas através do blog.

A Antologia Rabiscos é um projeto editorial ligado à Coleção Rabiscos, editada pelo Museu de Arte Contemporânea Raimundo de Oliveira – Feira de santana. Nascida em 2010, a Coleção Rabiscos publica pocket books de desenho. Esta antologia aposta num formato maior e com melhor acabamento e procura ampliar o alcance e divulgação das artes visuais baianas.

O projeto da Antologia Rabiscos é apoiado e financiado pela Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb), possui apoio do MAC e da Balão de 2 – Narrativas e Arte Sequencial .

O quê: Lançamento da Antologia Rabiscos de Desenho e Arte Contemporânea + oficina de Desenho

Quando: 28/10/2011 (sexta-feira) A partir das 19 horas, exceto a oficina que acontecerá das 14 às 17h (desenho).

Onde: Pouso da Palavra, Praça da Aclamação nº 8 – Cachoeira – Bahia

 Entrada franca no evento e oficina gratuita.

 

Contatos:

Inscrição na oficina e contato sobre o evento:

Telefone: (75) 8231-8552

 

Cachoeira em Festa

Celebração da literatura e difusão da cultura brasileira é o que propõe a Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica 2011), que acontece entre os dias 11 e 16 de outubro com programação de debates e atrações musicais gratuitas.

Cachoeira é o primeiro município da Bahia a sediar uma festa literária internacional, trazendo possibilidades de lucro e geração de empregos temporários para a população. Segundo o Secretário de Cultura de Cachoeira, Lourival Trindade, a cidade receberá investimentos em transporte, estrutura, turismo e na preparação de equipes qualificadas para atuar no evento. A expectativa é de  atrair 10 mil pessoas nos seis dias de festa.

Durante a Flica 2011, autores do Brasil e do mundo se encontrarão no Recôncavo Baiano para celebrar a literatura e discutir a cultura brasileira. Estão previstas na  programação, debates e atrações musicais gratuitas.

Para consultar a programação clique aqui

 

 

Festa da Irmandade da Boa Morte em Cachoeira

 

 

A Festa da Boa Morte acontece todos os anos na cidade de Cachoeira, no recôncavo baiano. Pensei em escrever alguma coisa sobre essa tradição, mas desisti do intento ao ler o texto que publico abaixo, escrito por Gustavo Falcon, pesquisador e professor da UFBa.

A Festa da Boa Morte ocorre desde 1820. A tradição foi reconhecida pelo governo como Patrimônio Imaterial da Bahia, em junho de 2010, passando a contar com o apoio do Estado. Este ano, o evento acontece a partir de hoje (13), até quarta-feira (17).

A Irmandade é composta por uma confraria de 23 mulheres, descendentes de escravos africanos e com mais de 50 anos de idade, unidas pela devoção a Nossa Senhora. De acordo com historiadores locais, a confraria surgiu quando um grupo de ex-escravas reuniu-se para conseguir a alforria de outros escravos de Cachoeira.

Vale a pena conhecer a história da Irmandade, sua luta, obrigações, hierarquia e suas manifestações

 

BOA MORTE, UMA IRMANDADE DE EXALTAÇÃO À VIDA! 

                                                      AIYÊ-ORUN

A história da confraria religiosa da Boa Morte se confunde com a maciça importação de negros da costa da África para o Recôncavo canavieiro da Bahia, onde o gênio aventureiro ibérico edificou belas cidades como a de Cachoeira, segunda em importância econômica na Bahia durante três séculos. O fato de ser constituída apenas por mulheres negras, numa sociedade patriarcal e marcada por forte contraste racial e étnico, emprestou a esta manifestação afro-católica, como querem alguns, notável fama, seja pelo que expressa do catolicismo barroco brasileiro, de indeclinável presença processional na rua, seja por certa tendência para a incorporação aos festejos propriamente religiosos de rituais profanos pontuados de muito samba e rega-bofe. Há que acrescentar ao gênero e raça dos seus membros a condição de ex-escravos ou descendentes deles, importante característica social sem a qual seria difícil entender tanto aspectos ligados aos compromissos religiosos da confraria, onde ressalta a enorme habilidade dos antigos escravos para cultuar a religião dos dominantes sem abrir mão de suas crenças ancestrais, como também aqueles aspectos ligados à defesa, representação social (porque não?) política dos interesses dos adeptos.

Origem Remota e uma Luta Antiga

No Brasil Colonial e depois, já no país independente mas ainda escravocrata, proliferaram irmandades. Para cada categoria ocupacional, raça, nação – sim, porque os escravos africanos e seus descendentes procediam de diferentes locais com diferentes culturas – havia uma. Dos ricos, dos pobres, dos músicos, dos pretos, dos brancos, etc. Quase nenhuma de mulheres, e elas, nas irmandades dos homens, entraram sempre como dependentes para assegurarem benefícios corporativos advindos com a morte do esposo. Para que uma irmandade funcionasse, diz o historiador João José Reis, precisava encontrar uma igreja que a acolhesse e ter aprovados os seus estatutos por uma autoridade eclesiástica. Muitas conseguiram construir a sua própria Igreja como a do Rosário da Barroquinha, com a qual a Boa Morte manteve estreito contato. O que ficou conhecido como devoção do povo de candomblé. O historiador cachoeirano Luiz Cláudio Nascimento afirma que os atos litúrgicos originais da Irmandade de cor da Boa Morte eram realizados na Igreja da Ordem Terceira do Carmo, templo tradicionalmente freqüentado pelas elites locais. Posteriormente as irmãs transferiram-se para a Igreja de Santa Bárbara, da Santa Casa da Misericórdia, onde existem imagens de Nossa Senhora da Glória e da Boa Morte. Desta, mudaram-se para a bela Igreja do Amparo desgraçadamente demolida em 1946 e onde hoje encontram-se moradias de classe média de gosto duvidoso. Daí saíram para a Igreja Matriz, sede da freguesia, indo depois para a Igreja da Ajuda.

O fato é que não se sabe ao certo precisar a data exata de sua origem. Odorico Tavares arrisca uma opinião: a devoção teria começado mesmo em 1820, na Igreja da Barroquinha, tendo sido os gêges, deslocando-se até Cachoeira, os responsáveis pela sua organização. Outros ressaltam a mesma época, divergindo quanto à nação das pioneiras, que seriam alforriadas Ketu. Parece que o “corpus” da irmandade continha variada procedência étnica já que fala-se em mais de uma centena de adeptas nos seus primeiros anos de vida. Historicamente essa data parece fazer sentido. Desde o início do século passado o Recôncavo viveu uma atmosfera de progresso e novas técnicas agrícolas e industriais ali são introduzidas. Em que se pese as dificuldades momentâneas da economia açucareira, o fumo ganhou novo alento quando começa a interessar, após a independência política do país, ao capital alemão. A inauguração do serviço de navegação a motor favorece esses bafejos de renovação econômica, estimulando a integração do Recôncavo com a Capital da Província e o aumento dos seus negócios, o que favorece a construção de sólidos laços entre os negros escravos de muitas cidades, sobretudo de Salvador e Cachoeira. Jeferson Bacelar chama a atenção para o fato de que a década de 20 do século passado, sobretudo os seus três primeiros anos, é marcada por acentuado processo de agitação e acirramento dos ânimos da população baiana, boa parte da qual, sem distinção social, encontra-se envolvida na luta pela Independência, aqui caracterizada por forte espírito anti-lusitano e refregas armadas. O clima de distensão entre senhores e escravos, suscitado por essa “unidade”  momentânea, contribuiu para permanentes deslocamentos dos negros pelas cidades do Recôncavo, onde os senhores manifestaram incomum atenção na resolução do conflito e, para defenderem seus interesses, armaram os escravos e os utilizaram contra os portugueses. Dessa excepcional conjuntura resultaram inúmeras iniciativas religiosas e civis dos escravos, entre as quais, quem sabe, a própria Irmandade da Boa Morte. O pesquisador Antônio Morais Ribeiro associa seu surgimento às senzalas, apostando na conjuntura abolicionista pós-Revolta dos negros islamizados na Bahia que se deu em 1835 e foi barbaramente esmagada. Quem sabe daí o toque claramente muçulmano na morfologia tradicional dos trajes de grande força e rara beleza, realçados pelo uso do turbante, como assinala Raul Lody.

Antônio Morares acredita que uma das presumíveis líderes da Revolta Islâmica, Luiza Mahim, em pessoa, esteve envolvida na constituição da Irmandade, após a sua fuga de Salvador para o Recôncavo. Conjecturas à parte, estas confrarias – religiosas ou não – como foi o caso da estudada pelo antropólogo Julio Braga – a Sociedade Protetora dos Desvalidos – faziam mais do que cultuar santos católicos e orixás patronos dos seus afiliados. Ao tempo que aparentemente atendiam exigências eclesiásticas e legais, constituíam-se em verdadeiras associações de classe, reservadas, e por trás de suas aparências de fachadas davam curso aos interesses secretos dos seus membros. Respeitadas instituições de solidariedade eram a um só tempo expressão viva da permuta interétnica e ambíguo instrumento de controle social cujos participantes “administravam” criativamente. A confraria sempre obrigou aos seus membros a colaborarem. Jóias de entrada, anuidades, esmolas coletadas e outras formas de renda sempre foram usadas para os mais diversos fins: compra de alforria, realização de festejos, obrigações religiosas, pagamento de missas, caridade, vestuário. No caso da Boa Morte, integrada por mulheres bastante simples e quase todas idosas – entre 50 e 70 anos – os recursos arrecadados em vida buscaram sempre, a concessão de um funeral decente, cujo preparo, face a dupla militância religiosa de suas adeptas, exige rigor e entendimento, além de um certo pecúlio fúnebre.

As Obrigações Corporativas e a Manifestação de Agosto

A historiografia dessas notáveis mulheres cachoeiranas continua a desafiar a inteligência de jovens pesquisadores. Seus rituais secretos ligados ao culto dos orixás também estão a requerer leitura etnográfica que respeite, naturalmente, os limites à manutenção dos segredos, tão importantes na manutenção dessa vertente religiosa. O que tem ressaltado é o aspecto externo do culto referido quase todo ao simbolismo católico e a sua apropriação afro-brasileira. Durante o começo do mês de agosto, uma longa programação pública atrai a Cachoeira gente de todos os lugares, no que Moraes Ribeiro considera o mais representativo documento vivo da religiosidade brasileira, barroca, íbero-africana. Ceias, cortejos, missas, procissões, samba-de-roda colocam cerca de 30 remanescentes da Irmandade, que já possuiu mais de 200, no centro dos acontecimentos da provinciana cidade e, ultimamente, nos principais órgãos noticiosos da capital e tele-jornais. A festa propriamente dita tem um calendário que inclui a confissão dos membros na Igreja Matriz, um cortejo representando o falecimento de Nossa Senhora, uma sentinela, seguida de ceia branca, composta de pão, vinhos e frutos do mar obedecendo a costumes religiosos que interditam o acesso a dendê e carne no dia dedicado a Oxalá, criador do Universo, e procissão do enterro de Nossa Senhora da Boa Morte, onde as irmãs usam trajes de gala. A celebração da assunção de Nossa Senhora da Glória, seguida de procissão, em missa realizada na Matriz dá curso à contagiante alegria dos cachoeiranos que irrompe em plenitude, nas cores, comida e bastante música e dança que se prolongam por diversos dias, a depender dos donativos arrecadados e das condições de pecúlio do ano.

Hierarquia e Culto

Como todas as confrarias religiosas baianas, a Irmandade da Boa Morte possui uma estrutura hierárquica interna para gerir a devoção diária e doméstica de seus membros. A direção é composta por quatro irmãs responsáveis pela organização da festa pública de agosto e substituídas anualmente. No topo da administração da vida da Irmandade da Boa Morte está a Juíza Perpétua, posição de maior destaque e atingida por status adquirido, ocupada pela mais idosa adepta. A seguir, situam-se os cargos de Procuradora-Geral, Provedora, Tesoureira e Escrivã, estando a Procuradora à frente das atividades executivas religiosas e profanas. Para serem aceitas as noviças, além de estarem vinculadas a alguma casa de candomblé – geralmente Gêge, Ketu ou Nagô-Batá, na região – e professarem o sincretismo religioso, deverão se submeter a uma iniciação que impõe um estágio preparatório de três anos, conhecido pelo nome de “irmã da bolsa”, aonde é testada a sua vocação. Uma vez aceita, poderá compor algum cargo de diretoria e a cada três anos ascender na hierarquia da Irmandade. Não é demais lembrar que todas dividem irmanamente as atividades da cozinha, coleta de fundos, organização das ceias cerimoniais, das procissões do cortejo, além dos funerais das adeptas seguindo os preceitos religiosos e uma determinação estatutária tácita. As eleições são realizadas anualmente procedendo-se a apuração dos votos pelo curioso sistema de contagem de grãos de milho e feijão, indicando o primeiro atitude de rejeição e o segundo aceitação. Em que pese as diferenças hierárquicas e os preceitos relativos a cada posição, todas as irmãs estão niveladas como empregadas de Nossa Senhora. Além de irmãs de devoção, são algumas vezes, irmãs de santo e quase sempre “parentes” – os africanos e seus descendentes no Brasil alargaram o conceito de parentela estendendo o vínculo a todos aqueles que são filhos de uma mesma nação. É notável como a ancestralidade africana se reelabora no interior das instituições religiosas baianas e como as irmandades leigas acabam prestando renovado serviço a esse processo de intercurso cultural. É admirável que, a propósito de celebrarem a morte, essas mulheres negras cachoeiranas tenham sobrevivido com tanta majestade e garbo. O mais incrível é que o sistema de crenças tenha absorvido com tamanha funcionalidade e criatividade os valores da cultura dominante, realizando, em nome da vida, complexos processos de apropriação como o evidenciado na descida da própria Nossa Senhora à Irmandade, a cada ciclo de sete anos, para dirigir em pessoa os festejos, investida da figura de Procuradora-Geral, celebrando entre os vivos a relatividade da morte. Tais elementos podem ser constatados tanto na simbologia do vestuário, quanto nas comidas de preceito que evidenciam recorrentes ligações entre este (Aiyê) e o outro mundo (Orun), para utilizar aqui duas expressões já incorporadas à linguagem popular da Bahia. Assim como as confrarias, a devoção a Boa Morte foi muito comum na Bahia Colonial e Imperial. Sempre foi uma devoção popular. Na Igreja de Nossa Senhora do Rosário na Barroquinha ela ganhou expressão e consistência. Aliás, ali era um espaço de notável presença gêge-nagô e as características dos festejos descritos por cronistas como Silva Campos atestam sua semelhança com os praticados ainda hoje em Cachoeira. Deve-se dizer que ali teve origem uma das mais respeitáveis casas de candomblé da Bahia; fundada no século XVIII, a Casa Branca do Engenho Velho da Federação que vem sendo estudada com muito brilhantismo por Renato da Silveira. Devoção popular e mais que isso, racial, na medida em que agregou principalmente negros e mestiços. Suas origens remontam ao Oriente tendo sido adotada por Roma no século VII. Já dois séculos depois a festa da Assunção de Nossa Senhora está disseminada por todo o mundo católico. Trazida de Portugal para o Brasil – onde era conhecida como Nossa senhora de Agosto – ganhou interpretação peculiar, características próprias e por causa disso, a devoção sempre criou atritos com as autoridades da Igreja. Sua difusão entre a comunidade baiana, entre outras coisas, deveu-se ao fato de que a mediunidade popular característica dos cultos africanos sempre relativizou o problema da morte, na medida em que os adeptos do candomblé acreditam em reencarnações sucessivas. Emprestou, portanto, ao culto originalmente católico elementos do seu sistema de crenças e componentes sócio-históricos da dura realidade escravista que fez do cativeiro sofrível martírio para os que vieram na diáspora. De sorte que a devoção a Nossa Senhora da Boa Morte passou a ter também um significado social, permitindo a agregação dos escravos, facultando a manutenção de sua religiosidade num ambiente hostil e delimitando um instrumento corporativo de defesa e de valorização do indivíduo, tornando-se, por todas essas razões, um inigualável meio de celebração da vida.

GUSTAVO FALCON

(Professor da UFBA e pesquisador do Centro de Estudos Afro-Orientais)

 

O Pouso da Palavra convida

 

Comidinha de Panela na Festa da Irmandade da Boa Morte

 

O tradicional “Comidinha de Panela” da Casa da Mãe, no boêmio bairro do Rio Vermelho, em Salvador, excepcionalmente terá novo dia e endereço. O Sarau de Panela acontece neste sábado (13), no Pouso da Palavra, na histórica cidade de Cachoeira, em virtude dos festejos da Festa da Irmandade da Boa Morte. No menu, um dos mais conhecidos pratos da região: a típica maniçoba. E o cardápio ainda traz o clássico sarapatel.

O “Pouso da Palavra” está sediado num sobrado do século XVIII, que foi restaurado com recursos próprios do poeta Damário Dacruz em 1991. O espaço funciona como uma galeria de arte que abriga obras de novos talentos de diversas linguagens artísticas da cultura popular do Reconcâvo. O ambiente externo do Pouso que foi batizado como “Jardim de Sócrates e Parque de Zumbi” é destinado a exibir, permanentemente, mostras de trabalho do próprio Damário, e também serve de palco para recitais, saraus e encontros musicais, programados ou espontâneos.

Considerada uma das mais importantes manifestações culturais da Bahia – e tombada Patrimônio Imaterial do Estado -, a Festa da Boa Morte segue de 12 a 15 de agosto. E o Pouso da Palavra convida todos a dar início aos festejos com boa música, resgatando o sabor e a tradição do tempero caseiro baiano. Artistas de renome como Márcio Valverde, Juliana Ribeiro, J. Veloso, Marília Sodré, Edu Alves, Juraci Tavares, Gil Vicente Tavares, Agnoell Criolo, Lívia Milena e Stella Maris dão o tom dos festejos, celebrando a data com poesia, em ritmo de samba e cantorias populares.

Seguindo a tradição, a entrada é gratuita e o microfone aberto a todos que desejarem “dar uma palhinha” e tornar a festa “gastromusical” ainda mais interativa. Portanto, tragam os seus instrumentos e sintam-se em casa!

Para finalizar o dia, haverá o Lançamento do Documentário “O Samba de Roda na Palma da Mão”, às 20h.

Após os festejos em Cachoeira, o “Comidinha de Panela” volta a ser realizada na Casa da Mãe, sempre às terças-feiras sob a produção de Luzia Moraes, a partir das 20h.

 

Serviço:

O quê: Comidinha de Panela na Festa da Irmandade da Boa Morte

Onde: Pouso da Palavra – Cachoeira

Quando: Sábado, 13 de agosto, das 12h às 18h

Entrada gratuita

Realização: Pouso da Palavra

Apoio: Baluart – Produtora Cultural | Luzia Moraes