Mário Quitana

 

Canção de outono

O outono toca realejo
No pátio da minha vida.
Velha canção, sempre a mesma,
Sob a vidraça descida…

Tristeza? Encanto? Desejo?
Como é possível sabê-lo?
Um gozo incerto e dorido
De carícia a contrapelo…

Partir, ó alma, que dizes?
Colher as horas, em suma…
Mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte nenhuma!

Mário Quitana

(Poema publicado originalmente no livro Canções, Poesia Completa – Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005, p. 131)

Aberto do Cuca – 24 horas de arte

 

O Centro Universitário de Cultura e Arte (Cuca) promove, sexta-feira (19), mais uma edição do Aberto, com 24 horas de música, dança, teatro, artes visuais, cultura popular, literatura e muito mais. As atividades do Aberto Virado, como é denominada a edição 2014, têm acesso livre do público e serão desenvolvidas em diversos pontos de Feira de Santana.

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O público poderá contemplar e participar de atividades no Cuca, campus da Universidade Estadual de Feira de Santana – Uefs (Biblioteca Julieta Carteado), Praça da Matriz, Biblioteca Monteiro Lobato, Casa do Sertão, Centro de Cultura Amélio Amorim (CCAAm), Museu de Arte Contemporânea (MAC) e Sesc.

A proposta é proporcionar espaço para pessoas que trabalham com arte e cultura nas mais diferentes linguagens, além de sinalizar para a comunidade que o Cuca/Uefs é totalmente aberto para todas as manifestações de cunho artístico e cultural.

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O Aberto é realizado desde 2007 pelo Cuca, órgão responsável pela execução da política cultural e artística da Uefs.  Nesse sentido, tem desempenhado papel importante na promoção e difusão da arte e da cultura no município, oferecendo à comunidade, gratuitamente, uma série de atividades nas mais diversas linguagens artísticas.

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Último texto de João Ubaldo Ribeiro

 

 

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O último texto de João Ubaldo, que deveria ser publicado no próximo domingo, fala sobre regras e teve sua publicação antecipara para hoje, 18/07/2014, dia da sua morte.

 

O correto uso do papel higiênico

 

O título acima é meio enganoso, porque não posso considerar-me uma autoridade no uso de papel higiênico, nem o leitor encontrará aqui alguma dica imperdível sobre o assunto. Mas é que estive pensando nos tempos que vivemos e me ocorreu que, dentro em breve, por iniciativa do Executivo ou de algum legislador, podemos esperar que sejam baixadas normas para, em banheiros públicos ou domésticos, ter certeza de que estamos levando em conta não só o que é melhor para nós como para a coletividade e o ambiente. Por exemplo, imagino que a escolha da posição do rolo do papel higiênico pode ser regulamentada, depois que um estudo científico comprovar que, se a saída do papel for pelo lado de cima, haverá um desperdício geral de 3.28 por cento, com a consequência de que mais lixo será gerado e mais árvores serão derrubadas para fazer mais papel. E a maneira certa de passar o papel higiênico também precisa ter suas regras, notadamente no caso das damas, segundo aprendi outro dia, num programa de tevê.

Tudo simples, como em todas as medidas que agora vivem tomando, para nos proteger dos muitos perigos que nos rondam, inclusive nossos próprios hábitos e preferências pessoais. Nos banheiros públicos, como os de aeroportos e rodoviárias, instalarão câmeras de monitoramento, com aplicação de multas imediatas aos infratores. Nos banheiros domésticos, enquanto não passa no Congresso um projeto obrigando todo mundo a instalar uma câmera por banheiro, as recém-criadas Brigadas Sanitárias (milhares de novos empregos em todo o Brasil) farão uma fiscalização por escolha aleatória. Nos casos de reincidência em delitos como esfregada ilegal, colocação imprópria do rolo e usos não autorizados, tais como assoar o nariz ou enrolar um pedacinho para limpar o ouvido, os culpados serão encaminhados para um curso de educação sanitária. Nova reincidência, aí, paciência, só cadeia mesmo.

Agora me contam que, não sei se em algum estado ou no país todo, estão planejando proibir que os fabricantes de gulodices para crianças ofereçam brinquedinhos de brinde, porque isso estimula o consumo de várias substâncias pouco sadias e pode levar a obesidade, diabetes e muitos outros males. Justíssimo, mas vejo um defeito. Por que os brasileiros adultos ficam excluídos dessa proteção? O certo será, para quem, insensata e desorientadamente, quiser comprar e consumir alimentos industrializados, apresentar atestado médico do SUS, comprovando que não se trata de diabético ou hipertenso e não tem taxas de colesterol altas. O mesmo aconteceria com restaurantes, botecos e similares. Depois de algum debate, em que alguns radicais terão proposto o Cardápio Único Nacional, a lei estabelecerá que, em todos os menus, constem, em letras vermelhas e destacadas, as necessárias advertências quanto a possíveis efeitos deletérios dos ingredientes, bem como fotos coloridas de gente passando mal, depois de exagerar em comidas excessivamente calóricas ou bebidas indigestas. O que nós fazemos nesse terreno é um absurdo e, se o estado não nos tomar providências, não sei onde vamos parar.

Ainda é cedo para avaliar a chamada lei da palmada, mas tenho certeza de que, protegendo as nossas crianças, ela se tornará um exemplo para o mundo. Pelo que eu sei, se o pai der umas palmadas no filho, pode ser denunciado à polícia e até preso. Mas, antes disso, é intimado a fazer uma consulta ou tratamento psicológico. Se, ainda assim, persistir em seu comportamento delituoso, não só vai preso mesmo, como a criança é entregue aos cuidados de uma instituição que cuidará dela exemplarmente, livre de um pai cruel e de uma mãe cúmplice. Pai na cadeia e mãe proibida de vê-la, educada por profissionais especializados e dedicados, a criança crescerá para tornar-se um cidadão exemplar. E a lei certamente se aperfeiçoará com a prática, tornando-se mais abrangente. Para citar uma circunstância em que o aperfeiçoamento é indispensável, lembremos que a tortura física, seja lá em que hedionda forma – chinelada, cascudo, beliscão, puxão de orelha, quiçá um piparote -, muitas vezes não é tão séria quanto a tortura psicológica. Que terríveis sensações não terá a criança, ao ver o pai de cara amarrada ou irritado? E os pais discutindo e até brigando? O egoísmo dos pais, prejudicando a criança dessa maneira desumana, tem que ser coibido, nada de aborrecimentos ou brigas em casa, a criança não tem nada a ver com os problemas dos adultos, polícia neles.

Sei que esta descrição do funcionamento da lei da palmada é exagerada, e o que inventei aí não deve ocorrer na prática. Mas é seu resultado lógico e faz parte do espírito desmiolado, arrogante, pretensioso, inconsequente, desrespeitoso, irresponsável e ignorante com que esse tipo de coisa vem prosperando entre nós, com gente estabelecendo regras para o que nos permitem ver nos balcões das farmácias, policiando o que dizemos em voz alta ou publicamos e podendo punir até uma risada que alguém considere hostil ou desrespeitosa para com alguma categoria social. Não parece estar longe o dia em que a maioria das piadas será clandestina e quem contar piadas vai virar uma espécie de conspirador, reunido com amigos pelos cantos e suspeitando de estranhos. Temos que ser protegidos até da leitura desavisada de livros. Cada livro será acompanhado de um texto especial, uma espécie de bula, que dirá do que devemos gostar e do que devemos discordar e como o livro deverá ser comentado na perspectiva adequada, para não mencionar as ocasiões em que precisará ser reescrito, a fim de garantir o indispensável acesso de pessoas de vocabulário neandertaloide. Por enquanto, não baixaram normas para os relacionamentos sexuais, mas é prudente verificar se o que vocês andam aprontando está correto e não resultará na cassação de seus direitos de cama, precatem-se.

 Fonte: Uol  

 

Noitada cultural

 

 

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Caminhando pela Memória de Feira de Santana                  

Programação de lançamento

Local: Casarão Fróes da Mota

Data: 04/04/14

Hora: 19h00

Mediadora: Cintia Portugal

I

Abertura:
Prévia do espetáculo: A cidade da rua Direita.

Grupo Conto em Cena,
direção de Geovane Mascarenhas,
Duração: 20 min. 

 II
Apresentação do livro Caminhando pela Cidade
Pela autora e bate-papo com leitores. 

O projeto de pesquisa Literatura de Jornal em Periódicos Brasileiros Pelo Prof. Doutor Adeítalo Manoel Pinho.”De mãos dadas com a memória“, Profª Mestre Leni David. “Falando de memórias” Uma prática com alunas da UATI /UEFS, Profª. Mestre Ana Angélica Vergne de Morais
Duração: 20 min. 

III
Entre Histórias e Memórias: Olney São Paulo e a peleja do cineasta do sertão.
Pela Profª. Mestre Maria David Santos.

A memória do Jornal Folha do Norte desde 1909.-
Pelos jornalistas Carlos Melo, Dalvaro Silva e Hugo Navarro.
Duração: 20 min.

                                               IV

O A, B, C de Feira de Santana – O livro Caminhando pela cidade.
Mesa com o escritor Cezar Ubaldo, Profª. Mestre Andréia Araújo e convidados
Duração: 20 min.

  V
Exposição do Clube da Fotografia: Exposição Fotográfica “Feira de Santana e o tempo levou!” de autoria dos Associados do Clube de Fotografia de Feira de Santana.

 VI
Encerramento: Apresentação musical Mano Gavazza.

Apoio: Fundação Senhor dos Passos. CUCA: Centro de Cultura e Arte., Mestrado em Estudos Literários (UEFS); Associados do Clube de Fotografia de Feira de Santana;

 

 

Versos de Luís Pimentel

 

Rio, Central do Brasil

 

Luís Pimentel

 Caras e culpas,

passos e abraços.

Sorrisos sem dentes

na boca da noite.

Vadios desencontros

e encontros vazios.

Na fria calçada,

calor de arrepio

e vida atrasada.

Leve suspiro.

Sapato apertado.

Um que é sem paradeiro.

Há quem conte mentiras,

enganando o silêncio.

Os que acordam cedo

vão bater continência

ante o busto do herói.

Têm as abstinências.

Vejo beijos e assaltos

sob o imenso relógio

Insigne

de um tempo tardio.

O sol sem remédio

morre lá na Gamboa.

Logo mais vem a lua

enxaguar a Baía,

sobre as luzes da Igreja.

As cotias do Campo.

A fumaça da Brahma.

O repique do Elite.

Os que bebem o sereno

não padecem de azia.

Entre o pão e o castigo,

entre o medo e a euforia,

ainda resta o elogio:

o Rio

é a Central

do Brasil.

Despedida poética

 

Último bilhete de Clarice Lispector, escrito no hospital da Lagoa no Rio de Janeiro, em 07/12/1977

 

“Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.”

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Um poema de Álvaro de Campos

 

Não: devagar

Álvaro de Campos

Não: devagar.

Devagar, porque não sei

Onde quero ir.

Há entre mim e os meus passos

Uma divergência instintiva.

Há entre quem sou e estou

Uma diferença de verbo

Que corresponde à realidade.

Devagar…

Sim, devagar…

Quero pensar no que quer dizer

Este devagar…

Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.

Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.

Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima…

Talvez isso tudo…

Mas o que me preocupa é esta palavra devagar…

O que é que tem que ser devagar?

Se calhar é o universo…

A verdade manda Deus que se diga.

Mas ouviu alguém isso a Deus?

.

 

E por falar em futebol…

 Eu poderia ter evitado

 Luís Pimentel

 Não sei como foi que me descobriram naquele fim de mundo, entocado entre os xiquexiques, tatus pebas e preás, escondido na cabana de um tio lá pelos arredores do Gavião.

Eu acabara de fazer um serviço difícil em Feira de Santana, dado cabo de um empresário que vivia cercado de seguranças, tudo polícia, e tirava uns dias para assentar a poeira e descansar os dedos. Pouco antes, fora um sujeito envolvido com a política, desafeto do prefeito, segundo disseram, “metido a comunista, inimigo da lei e da ordem”.

Mil novecentos e oitenta e dois foi um ano complicado.

O sujeito que me procurou e me descobriu durante o banho de tanque, no mesmo alagadiço onde na infância contraí ameba e esquistossomose, se apresentou como enviado de um grupo estrangeiro “com ramificações” no mundo todo.

– Italianos – arrotou, como se fosse o emissário do Papa.

Pensei em dizer “Grandes merdas!”, mas não disse nada. Aprendi, com a idade e a experiência, que quem diz tudo o que pensa às vezes não vive nem para desdizer, e que tem horas na vida que a sabedoria manda se fingir de doente só para ser visitado.

Olhei o céu – fazia um sol de lascar! –, recolhi o suor com os dedos e despejei quase nos pés do mensageiro:

– E é, rapaz?…

Arranquei um talo de capim e comecei a chupar a cepa, sugando o líquido docinho. Outra mania que tenho desde menino.

Vi pelo jeitão que o sujeito tinha de coçar o saco, cuspir no chão e pisar com a ponta dos pés nos espinhos, que melhor seria economizar nos desaforos.

Banquei o santinho:

– Italianos? Tudo boa gente, né?

Sequer disse o seu nome, mas me entregou um pedaço de papel com um endereço, dizendo que eu tinha quarenta e oito horas para me apresentar em Salvador.

– Roupas limpas, barba bem feita e documentos no bolso. São necessários para a emissão do passaporte.

– Passaporte?!

– O serviço é no estrangeiro, Zé do Dedo.

O filho de uma égua sabia o meu nome. Mau sinal.

Um amigo que tinha uma Kombi especializada em transporte de trabalhadores rurais me deu carona até a rodoviária de Feira, onde eu pegaria o ônibus da empresa Santana para Salvador. Tinha um radinho bem xumbrega, ao lado do volante, sintonizado numa emissora barulhenta de Riachão do Jacuípe. O locutor incentivava a turma a vender suas rocinhas e comprar casa na cidade, a usar sabonete, procurar emprego em banco, jogar na loteria, beber cerveja da Brahma.

A cada cinco ou dez minutos ele anunciava uma música que ninguém conseguia entender o título, sempre alertando tratar-se de “sucesso retumbante no Sul do País”. Cada uma pior do que a outra. Um cantor fazia tremer o para-brisa com voz fininha, gritando “Cuida beeeemmm de miiiimmmm”.

A cantora, de voz até bonita, gemia um negócio que pedia “Me faz pequeeeeena, asa moreeeeena…”.

Um grupo, que parecia os cantores de puteiros da minha juventude, ficava repetindo “Você não sabe mamaaaarrrrr, você não sabe mamaaaaaarrr”. Eu ri e comentei que era engraçado, fazer uma música para alguém que não sabia mamar, e o meu amigo me corrigiu:

– É não soube “me amar”, abestado!

– Se eu fosse bom de pontaria como sou de ouvido, já teria morrido de fome.

Rimos. Pulei da Kombi, tomando cuidado para não amassar a roupa nova, e fui comprar o bilhete para a capital.

Parei mais uma vez para contemplar o belíssimo painel de Lênio Braga na parede da rodoviária, tomei um café, um conhaque, mijei e comprei o jornal A Tarde, para me acompanhar nos cento e poucos quilômetros. O caderno de esportes, meu preferido, tinha uma grande matéria sobre os preparativos da Seleção Brasileira de Futebol, que dali a alguns dias estaria embarcando para a Espanha, onde disputaria mais uma Copa do Mundo.  A disputa anterior, na Argentina, tinha sido uma cagada só, com a seleção do Peru abrindo as pernas para o dono da casa e empurrando o Brasil no caminho de volta, antes da hora.

Mil novecentos e oitenta e dois foi um ano complicado. Mas mil novecentos e setenta e oito foi muito pior.

Lembrei-me do meu filho dizendo “Um dia quero assistir a uma Copa do Mundo, pai, me leva, pai, meu sonho é ver o Brasil ser campeão”.

A expectativa de jornalistas,  jogadores, treinador e torcedores era que dessa vez a coisa fosse bem diferente, pois os espanhóis são muchachos porretas e a Espanha não é nenhuma republiqueta. Sempre quis conhecer a Espanha, desde a infância, quando tive dois amigos chamados Pepe e Constantino, donos da padaria da rua onde eu morava e que sempre me davam um pãozinho doce ou bolachas no fim do dia, depois que eu ajudava o pessoal a descarregar o caminhão de lenha.

Comecei a imaginar que seria bacana se os homens do estrangeiro trocassem o local do serviço e me mandassem para lá, em vez de para a Itália.

Mas não foi assim.

Explicaram mais ou menos a empreitada, que entendi mais ou menos, porque o conterrâneo encarregado de transformar em baianês o linguajar daqueles homens parecia bastante avexado com a tarefa. Mas deu para ficar sabendo que eu iria a Roma, não teria tempo de pedir a benção ao Papa, de lá seguiria no dia seguinte para uma cidade chamada Turim – eu entendia “durim” e o intérprete também – e que, ali, seria recebido pelo cerimonial da máfia local.

Aí pulei da cadeira:

– Máfia?!

Não sei por que, mas desde menino essa palavra me provoca arrepios.

Disseram que eu podia relaxar, que máfia naqueles dias não tinha mais nada a ver com a máfia da minha infância. Usavam o título apenas para impor respeito.

– Que nem coronel aqui. Ainda existe coronel, na política ou nas fazendas? Não. Mas ainda se usa o título, para não perder a tradição.

– Tutti buona gente! – disse o carcamano, bigode amarelo de nicotina e uma flâmula do Vitória em cima da mesa de trabalho.

Não gostei. Sou Bahia. Mas primeiro a obrigação e depois a devoção. Peguei passagens e papelada, até o passaporte que, sabe-se lá como, ficou pronto em vinte minutos. Entregaram-me uma sacola cheia de dinheiro e me mandei para o Aeroporto Dois de Julho.

No caminho, o intermediário finalmente me falou qual o serviço:

– Coisa de cinema, Zé do Dedo! É um jogador de futebol de fama internacional. Tu vai virar destaque no mundo do crime, vai pros livros e enciclopédias. Tá rebocado!

– Que jogador é esse, homem?

– Vem a ser um tal de Paulo Rossi, pronuncia-se “Paolo”, que joga em Turim, no maior time de lá, o Juventus ou a Juventus,  cada um lá diz de um jeito. É só o que eu sei, Zé. Lá eles te explicam direito.

– E qual é a bronca contra esse jogador?

– Não faça muitas perguntas, cabra. A máfia não gosta de nego curioso.

Aparelho de ouvir enfiado nos ouvidos, eu comecei a acompanhar no avião um filme que me levou novamente de volta à infância, ao Cine Íris, quando minha irmã me carregou para ver Candelabro italiano.  Senti uma puta vontade de chorar, sei lá por que, e me lembrei de Rita Pavone cantando Mio cuore, tu stai soffrendo, cosa posso fare per ter?

Troço bonito. E tão fácil de entender o significado, que até eu entendia. Depois, ao redor do poste – à luz de todos os nossos sonhos –, traduzia para os amigos e fazia um sucesso medonho”.

O sujeito de terno, gravata e tira de pano grosso enrolado em volta do pescoço, que me recebeu no Aeroporto de Roma, me chamou de Giuseppe Dedon e falou em criminalità, o que me incomodou. Pedi que me levasse logo ao hotel, pois estava cansado feito um corno.

– Corno se cansa muito? – perguntou, e eu vi que o almofadinha falava a minha língua, estava só debochando de mim.

Dia seguinte, partimos de carro para Turim. Ele perguntou se eu sabia manejar arma com silencioso, e eu disse que entendia mais de revólveres do que eles de macarrão. Não sorriu. Também não fez cara feia. Recebi credenciais para assistir ao treino dos jogadores, bem posicionado em local de onde teria visão privilegiada do campo e de um caminho de fuga garantida.

Algumas vezes coloquei na mira perfeita a cabeça do atacante.

Repeti a visita mais duas ou três vezes, pedindo ao emissário da máfia que tivesse paciência.

– Você é que sabe a hora certa de apertar o gatilho – ele disse.

São finíssimos.

Uma hora lá ousei perguntar o que aconteceria se eu desistisse de fazer o serviço, movido por questões religiosas – afinal, estava tão perto do Vaticano – ou tomado de simpatia pela quase vítima.

– Essa possibilidade não existe. Do ponto a que você chegou, não tem volta.

Pois foi o que aconteceu: contrariando a todos os princípios do meu ofício, me tomei de simpatia pelo jogador, um cracaço a quem os mafiosos queriam ver pelas costas. Esqueci a tarefa e passei a comparecer aos treinos para aplaudir os seus dribles, deslocamentos em diagonal, chutes cheios de manha e efeito.

O jeito que encontrei foi deixar a Itália, fugido, no dia exato em que a imprensa local noticiava a viagem da  Azurra para a campanha na Copa do Mundo daquele ano. Paolo Rossi era um dos ídolos da equipe e da torcida. Atravessando fronteiras, cheguei à Espanha e, não perguntem como – aprendi com a máfia a guardar certos segredos –, no primeiro fim de semana de julho, eu estava na cidade de Barcelona, assistindo ao espetáculo que ficou conhecido com “A tragédia de Sarriá”, vendo exatamente o cidadão de nome Paolo Rossi acabar com o sonho do meu filho.

E pensar que eu poderia ter evitado.

Escrito especialmente para a antologia 82 – uma copa, 15 histórias, que reuniu contistas baianos.

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Um poema de Antero de Quental

 

Tu que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno.

Acorda! É tempo! O sol, já alto e pleno
Afugentou as larvas tumulares…
Para surgir do seio desses mares…
Um mundo novo espera só um aceno…

Escuta! É a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! São canções…
Mas de guerra… e são vozes de rebate!

Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!

 

O poeta conta um conto

 

GATO ROMEU

 

Antônio Brasileiro

 

Acastos Romeu ia fazer 60 anos. Não parecia. Parecia ter 40. Talvez pelo tipo de paixão que o dominava: as bolas de gude.

Acastos era carteiro, vivia com a mãe. Sua mania pelas bolas de gude vinha da infância – e, pelo visto, durava mais de 50 anos. Acastos para uns, Romeu para outros, Gato Romeu era como os meninos de cinco gerações o conheciam.  Diariamente, às cinco em ponto, lá estava ele, na praça, gudes no bolso. Aquilo lá era quase uma instituição: de pai para filho, conhecia-se o cantinho da praça: lá está o Gato, dizia-se. Romeu, sozinha, era uma palavra que indicava extrema habilidade, às vezes mesmo pintalgada de sagacidade, “sabedoria” – roubo enfim. Mas este sentido não se aplicava a Gato Romeu, que era decente, mesmo porque que só brincava, não apostava. O seu “romeu” é porque soava a voz de gato, só.

Então a mãe de Gato Romeu morreu. A velhinha ia fazer 90 anos, forte e saudável; mas começara de repente a espirrar – era missa de Santo Antônio – e no dia 13 mesmo morreu. Acastos herdou a casa e um pedaço de dinheiro vivo da poupança da velha. Não era muita coisa, claro, mas o suficiente para que duas mulheres se declarassem subitamente apaixonadas pelo carteiro.

E agora, Gato? – perguntavam-lhe os amigos de sua idade. – Glória te capa.

Glória, esclareçamos, era a puta mais simpática da zona. Cliente Acastos há muitos anos, ela era praticamente uma irmã, tal o cuidado como o tratava. – E agora, Gato? Mas as mulheres sérias de Arrozais conheciam Glória: “E Glória é boba?”, diziam.

As duas mulheres estavam mesmo empenhadas em se casar com o bom homem, agora gozosa notícia na cidadezinha de Arrozais. Que vai ser de nossos filhos? – clamavam os ex-meninos jogadores de gude, agora pais, e um ou dois avós. – E o cantinho da praça? Gato Romeu casado?

Torciam a boca.

Glória, claro, não era boba. As mulheres se estapearam e tudo acabou em gracejos da população. Aos domingos, Gato Romeu se vestia a rigor para jogar gude. Com gravata e tudo.

                                                                        29/05/2007

 

 

 

Sobre a amizade

 

Lya Luft

“A amizade é um meio-amor, sem algumas das vantagens dele mas sem o ônus do ciúme – o que é, cá entre nós, uma bela vantagem. Ser amigo é rir junto, é dar o ombro para chorar, é poder criticar (com carinho, por favor), é poder apresentar namorado ou namorada, é poder aparecer de chinelo de dedo ou roupão, é poder até brigar e voltar um minuto depois, sem ter de dar explicação nenhuma. Amiga é aquela a quem se pode ligar quando a gente está com febre e não quer sair para pegar as crianças na chuva: a amiga vai, e pega junto com as dela, ou até mesmo se nem tem criança naquele colégio.

Amigo é aquele a quem a gente recorre  quando se angustia demais, e ele chega confortando, chamando de “minha gatona” mesmo que a gente esteja um trapo. Amigo, amiga, é um dom incrível, isso eu soube desde cedo, e não viveria sem eles. Conheci uma senhora que se vangloriava de não precisar de amigos. “Tenho meu marido e meus filhos, e isso me basta”. O marido morreu, os filhos seguiram sua vida, e ela ficou num deserto sem oásis, injuriada como se o destino tivesse lhe pregado uma peça. Mais de uma vez se queixou, e nunca tive coragem de lhe dizer, àquela altura, que a vida é uma construção, também a vida afetiva. E que amigos não nascem do nada como frutos do acaso: são cultivados com… amizade. Sem esforço, sem adubos especiais, sem método nem aflição: crescendo como crescem as árvores e as crianças quando não lhes faltam nem luz nem espaço nem afeto.”

Duas histórias de carnaval

 

Luís Pimentel

1.
Foi num Carnaval que passou

O folião chegou no bar Bip-Bip, em Copacabana, e puxou uma cadeira. Arrasado, depois de “três dias de folia e brincadeira” e de se esbaldar no desfile do rancho Flor do Sereno, despejou os cotovelos sobre a mesa e grunhiu:

– Uma cerveja, estupidamente gelada.

Alfredo, dono do estabelecimento, conhecido e aplaudido pelo mau humor, grunhiu mais alto:

– Só tem quente.

– Serve – gemeu o folião, caindo imediatamente num pranto de derrubar encostas. Tão sincero que até o Alfredo se comoveu:

– Que foi, querido?

Acarinhado, o sujeito abriu o verbo:

– Você sabe o que é ter um amor, meu senhor, ter loucura por uma mulher, e depois encontrar esse amor, meu senhor, nos braços de um motorista de ônibus?

Corno em fim de festa é comum, mas plagiando Lupicínio Rodrigues, não é a toda hora que se encontra.

Alfredo tentou ajudar:

– Qual é a linha?

– Nenhuma. Piranha da pior espécie.

– Estou falando do Ricardão. Qual é a linha que ele pilota?

– 571, Glória-Leblon, via Jóquei.

O comerciante enxugou uma lágrima discreta:

– É duro mesmo. Sei o que você está passando.

Começando a se acostumar com o chifre, o amigo recente se animou:

– Você também já levou bola nas costas?

E o Alfredo, olhar distante, pôs mais uma dose de maldade no alfinete de pontinha fina:

– Só levei bola nas costas nos meus tempos de médio-volante do Bangu. Agora, se pelo menos a vadia tivesse escolhido um motorista do 572, que é via Copacabana…

2.

Paixão na avenida

Saio do Sambódromo na madrugada de terça-feira, depois de ver o desfile da última escola de samba da segunda, e me dirijo à estação do Metrô na Praça Onze. Na fila dos bilhetes, o folião me aborda, lata de cerveja na mão e cigarrinho apagado no canto da boca:

– Tu conheces a Doralice?

– Só a do samba: “Doralice, eu bem que te disse, que amar é tolice, é bobagem, é ilusão”.

– Falo sério, meu chapa. Doralice parece mulata do Lan, tu manja? Sorriso lindo, todos os dentes na boca, peitinhos de amora, coxas de italiana, balaio grande…

Estava musicalmente inspirado, atropelei novamente:

“Mexia um balaio grande, muito mais macio que o boto cor-de-rosa do Custeau”.

– E como é que tu sabes?

– Isso é de outro samba. Fala mais de Doralice.

– Conheci domingo, no desfile da Mangueira.

– Como diria o grande Wilson das Neves, “ô, sorte!”.

– E perdi ontem, no embalo da Mocidade.

Adoro essas histórias, desde menino. Vivia pedindo para minha mãe recontar o drama de um corno amigo, que se ajoelhou diante da infiel, aos prantos: “Volta, amor. E traz quem tu quiser contigo”. Quis saber como é que foi:

– Como ganhei ou como perdi?

– As duas. O importante é competir.

O folião não regateou:

– Ganhei de um sambista desatento, que marcou bobeira. E perdi para uma loura de cinema, que encostou no meu patrimônio, como quem não quer nada, e prometeu vaga de rainha de bateria pro ano que vem.

– E Doralice?

– Foi. A essa altura, já deve estar ensaiando com a louraça.

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Poema da tarde

 

RESPOSTA

Roberval Pereyr

 

Plantaste em mim estes sonhos

que a praga roeu.

Teu dedo magro resiste

e aponta a estrela triste

abaixo do Eu.

A tua safra perdida

gera em ti uma dívida

que me cobras, a gritos.

Mas nada te devo, eu sei.

Pois meu negócio é mesmo o infinito.

In: PEREYR, Roberval. Acordes. Ed. Tulle, Feira de Santana, 2009, p. 18.

 

Dois poemas de Roberval Pereyr

 

Órbitas

 O tempo é uma louca velha

delirando por dentro das memórias

(Mas é também um monte de vícios,

um punhado de pó

e uma festa).

CONVITE

Se vieres ao templo

me verás despido

sem nenhum sentido,

sem altar, sentado

só, comodamente,

manso como as feras

saciadas.

Poemas extraídos da obra antológica AMÁLGAMA;NAS PRAIAS DO AVESSO E POESIA ANTERIOR.  Salvador: SCT/ Fundação Cultural de Estado de Bahia, 2004.  266 p.  (Coleção Selo Editorial Letras da Bahia, 95).