Luís Pimentel presenteia o Baú

 

Espinhoso e delicado ofício de escrever

                                                                       Luís Pimentel

Brindando o acontecimento recente de mais uma Flip, a festa literária que anualmente transforma a nossa linda Paraty em capital mundial da cultura, ofereço esta crônica a todos aqueles que têm o hábito de escrever. Seja por obrigação (jornalistas), devoção (escritores) ou curtição (amadores e diletantes).

Pincei e ofereço graciosamente três dicas primorosas, de três mestres da palavra (em prosa e em verso): o patrício e mestre absoluto Graciliano Ramos, o mexicano Juan Rulfo e o nosso poeta João Cabral de Melo Neto.

Vamos primeiro ao bom e velho Graça, que disse assim:

“Quem escreve deve ter cuidado para a coisa não sair molhada. Quero dizer que da página que foi escrita não deve pingar nenhuma palavra, a não ser as desnecessárias. É como pano lavado que se estira no varal. Naquela maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lava. Molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Depois colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Depois batem o pano na laje ou na pedra limpa e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar com ouro falso, a palavra foi feita para dizer.”

E a dica de Rulfo, o autor do fundamental romance “Pedro Páramo” e do volume de contos “Chão em chamas”, ambos traduzidos divinamente por Eric Nepomuceno:

“No começo, você deve escrever levado pelo vento, até sentir que está voando. A partir daí, o ritmo e a atmosfera se desenham sozinhos. É só seguir o voo. Quando você achar que chegou aonde queria chegar, é que começa o verdadeiro trabalho: cortar, cortar muito.”

É só isso. Parece fácil, não é?

E vamos à receita deliciosa de João Cabral, para fechar a crônica e abrir o dia com poesia:

“Catar feijão se limita com escrever:

joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.”

Então, é isso. Fica combinado que o leve, o oco, a palha e o eco não servem para nada mesmo; nem na panela nem no papel.

 

Versos de Luís Pimentel

 

Rio, Central do Brasil

 

Luís Pimentel

 Caras e culpas,

passos e abraços.

Sorrisos sem dentes

na boca da noite.

Vadios desencontros

e encontros vazios.

Na fria calçada,

calor de arrepio

e vida atrasada.

Leve suspiro.

Sapato apertado.

Um que é sem paradeiro.

Há quem conte mentiras,

enganando o silêncio.

Os que acordam cedo

vão bater continência

ante o busto do herói.

Têm as abstinências.

Vejo beijos e assaltos

sob o imenso relógio

Insigne

de um tempo tardio.

O sol sem remédio

morre lá na Gamboa.

Logo mais vem a lua

enxaguar a Baía,

sobre as luzes da Igreja.

As cotias do Campo.

A fumaça da Brahma.

O repique do Elite.

Os que bebem o sereno

não padecem de azia.

Entre o pão e o castigo,

entre o medo e a euforia,

ainda resta o elogio:

o Rio

é a Central

do Brasil.

Amizade para sempre

 

Feliz Ano Novo

Luís Pimentel

 

A turma de seis, que se encontrava com muita frequência, se reuniu para uma confraternização de Ano Novo no bar de sempre, nas imediações da faculdade. O ano era 1964, estavam todos muito jovens, cheios de disposição, saúde e projetos.

Eram cinco rapazes e a Sylvinha, a linda Sylvinha, que participava com os amigos de todos os assuntos – inclusive futebol e mulher – e bebia igual a todos eles, adorava todos eles, não dava para nenhum. A turma, em peso, também adorava a Sylvinha, mas detestava sua determinação nesse último quesito.

O sexteto entornou todas, comeu mais ainda, e prometeu repetir a dose dali a 50 anos se estivessem vivos (claro que estariam! Ninguém pensa que pode morrer um dia quando se está em torno dos dezenove anos). Cada um falou muito de seus projetos futuros, quem ia exercer a profissão no interior, quem faria doutorado na Europa ou nos Estados Unidos, quem seria o primeiro a ficar rico e, especialmente, quem seria o primeiro a pegar a Sylvinha.

Os planos dela eram os mais singelos:

– Quero apenas casar e ter filhos. Mas não será com nenhum de vocês.

Três meses depois daquele encontro, no dia 31 de março, o golpe militar desaguou na ditadura cuja história é hoje conhecida de jovens e de velhos,  desencadeou ações, reações e dilacerações de todos os planos e projetos. Os amigos, divididos entre a porra-louquice, casamento, luta-armada, exílio, etc, se perderam.

Mas se acharam em 2014, depois de pesquisas nas redes oficiais, e voltaram ao velho pé-sujo – agora um boteco de grife metido a besta, mas funcionando no mesmo endereço. Foram se chegando, um a um (até porque alguns já caminhavam com certa dificuldade), até darem conta de que só faltava a Sylvinha. Abriram os trabalhos e as garrafas com a seção-confissões: três entraram e saíram do PT, dois não podiam mais beber, todos haviam casado e se separado, um ficara rico, nenhum pegara a Sylvinha.   

Que, aliás, chegou nesse exato momento, mais bonita do que nunca, agora de óculos grossos e cabelos brancos:

– Feliz Ano Novo, meninos!

Bonito ver aqueles quase setentões, todos comovidos e derretidos diante do tempo, da amizade e da beleza.

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Um personagem de Luís Pimentel

 

O carioca de Feira de Santana

 

Luís Pimentel

Toda vez que ouço Jackson do Pandeiro cantando sua parceria com Elias Soares Filomena, dê um jeito em Fedegoso, tá fanhoso parecendo uma taboca/Passou dois meses lá no Rio e veio embora, agora tá falando carioca”, me lembro de Belarmino.

Nosso herói (herói é assim, cada um pode eleger o seu) morava no bairro da Kalilândia, em Feira de Santana, e um dia decidiu que estava na hora de tentar  sorte no Rio de Janeiro. Um amigo disse que tinha um primo em Vaz Lobo e um concunhado na Rocinha, poderia fazer uma ponte para garantir o teto. Belarmino não fez por menos:

– Ou o Leblon ou nada!

Gostava de um hit do Luis Reis, na voz de Miltinho, garantindo que “quem é bom de samba lá no Leblon, senta na mesa e puxa o tom, e o samba sai no guardanapo…” É que Belarmino tinha projetos de virar compositor, guardava suas ideias para desenvolver quando tivesse clima. E em termos de clima propício o Rio dava show, especialmente com aqueles bares repletos de “intelectuais, poetas consagrados e escritores geniais”, como nos versos da canção.

Por isso, depois das vinte e oito horas e quase mil e quinhentos quilômetros no lombo da Viação São Geraldo, Belarmino se instalou no apartamentinho que alugava quartos a rapazes solteiros nas imediações da Bartolomeu Mitre. Dali era um pulo até o Bracarense, o Jobi, o Diagonal, a Pizzaria Guanabara, pontos sempre lotados de artistas, a praia, a boemia, mulheres capazes de inspirar qualquer criador.

Belarmino bateu muita perna pelas ruas do bairro, mostrou composições suas a uns e a outros, sem conseguir empolgar ninguém, até a esperança e o dinheiro economizados para a aventura acabarem e ele fazer o caminho de  volta. O Rio e o Leblon renderam pouco em termos de experiência de vida, mas o nosso herói tinha facilidade para pegar sotaque alheio. De volta a Feira de Santana, Belarmino ficou logo marcado por um jeitão dolente de fazer desfilar os verbos e um grunhido chiado de pronunciar certas sílabas parecendo uma taboca. Ganhou logo o apelido pouco original de Carioca e viveu o resto dos seus dias nos bares da Kalilândia, Queimadinha e Getúlio Vargas.

Entre uma cerveja (que ele pronunciava Ceeeerrrva) e outra, contava histórias vividas por ele no que chamava de “metro quadrado mais musical do planeta” (o maix era assim, meio axizelado), o Leblon para quem é bom. A galera ia ao delírio quando ele pronunciava expressões como “mermão”, “meeexmo”, “Mengô”, “Futibó”, “feixoada”, “Poxto Seix”, ethicetera.

– As historinhas – diziam – ninguém aguenta mais escutar. Mas o carioquês do Belarmino é impagável…

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E por falar em futebol…

 Eu poderia ter evitado

 Luís Pimentel

 Não sei como foi que me descobriram naquele fim de mundo, entocado entre os xiquexiques, tatus pebas e preás, escondido na cabana de um tio lá pelos arredores do Gavião.

Eu acabara de fazer um serviço difícil em Feira de Santana, dado cabo de um empresário que vivia cercado de seguranças, tudo polícia, e tirava uns dias para assentar a poeira e descansar os dedos. Pouco antes, fora um sujeito envolvido com a política, desafeto do prefeito, segundo disseram, “metido a comunista, inimigo da lei e da ordem”.

Mil novecentos e oitenta e dois foi um ano complicado.

O sujeito que me procurou e me descobriu durante o banho de tanque, no mesmo alagadiço onde na infância contraí ameba e esquistossomose, se apresentou como enviado de um grupo estrangeiro “com ramificações” no mundo todo.

– Italianos – arrotou, como se fosse o emissário do Papa.

Pensei em dizer “Grandes merdas!”, mas não disse nada. Aprendi, com a idade e a experiência, que quem diz tudo o que pensa às vezes não vive nem para desdizer, e que tem horas na vida que a sabedoria manda se fingir de doente só para ser visitado.

Olhei o céu – fazia um sol de lascar! –, recolhi o suor com os dedos e despejei quase nos pés do mensageiro:

– E é, rapaz?…

Arranquei um talo de capim e comecei a chupar a cepa, sugando o líquido docinho. Outra mania que tenho desde menino.

Vi pelo jeitão que o sujeito tinha de coçar o saco, cuspir no chão e pisar com a ponta dos pés nos espinhos, que melhor seria economizar nos desaforos.

Banquei o santinho:

– Italianos? Tudo boa gente, né?

Sequer disse o seu nome, mas me entregou um pedaço de papel com um endereço, dizendo que eu tinha quarenta e oito horas para me apresentar em Salvador.

– Roupas limpas, barba bem feita e documentos no bolso. São necessários para a emissão do passaporte.

– Passaporte?!

– O serviço é no estrangeiro, Zé do Dedo.

O filho de uma égua sabia o meu nome. Mau sinal.

Um amigo que tinha uma Kombi especializada em transporte de trabalhadores rurais me deu carona até a rodoviária de Feira, onde eu pegaria o ônibus da empresa Santana para Salvador. Tinha um radinho bem xumbrega, ao lado do volante, sintonizado numa emissora barulhenta de Riachão do Jacuípe. O locutor incentivava a turma a vender suas rocinhas e comprar casa na cidade, a usar sabonete, procurar emprego em banco, jogar na loteria, beber cerveja da Brahma.

A cada cinco ou dez minutos ele anunciava uma música que ninguém conseguia entender o título, sempre alertando tratar-se de “sucesso retumbante no Sul do País”. Cada uma pior do que a outra. Um cantor fazia tremer o para-brisa com voz fininha, gritando “Cuida beeeemmm de miiiimmmm”.

A cantora, de voz até bonita, gemia um negócio que pedia “Me faz pequeeeeena, asa moreeeeena…”.

Um grupo, que parecia os cantores de puteiros da minha juventude, ficava repetindo “Você não sabe mamaaaarrrrr, você não sabe mamaaaaaarrr”. Eu ri e comentei que era engraçado, fazer uma música para alguém que não sabia mamar, e o meu amigo me corrigiu:

– É não soube “me amar”, abestado!

– Se eu fosse bom de pontaria como sou de ouvido, já teria morrido de fome.

Rimos. Pulei da Kombi, tomando cuidado para não amassar a roupa nova, e fui comprar o bilhete para a capital.

Parei mais uma vez para contemplar o belíssimo painel de Lênio Braga na parede da rodoviária, tomei um café, um conhaque, mijei e comprei o jornal A Tarde, para me acompanhar nos cento e poucos quilômetros. O caderno de esportes, meu preferido, tinha uma grande matéria sobre os preparativos da Seleção Brasileira de Futebol, que dali a alguns dias estaria embarcando para a Espanha, onde disputaria mais uma Copa do Mundo.  A disputa anterior, na Argentina, tinha sido uma cagada só, com a seleção do Peru abrindo as pernas para o dono da casa e empurrando o Brasil no caminho de volta, antes da hora.

Mil novecentos e oitenta e dois foi um ano complicado. Mas mil novecentos e setenta e oito foi muito pior.

Lembrei-me do meu filho dizendo “Um dia quero assistir a uma Copa do Mundo, pai, me leva, pai, meu sonho é ver o Brasil ser campeão”.

A expectativa de jornalistas,  jogadores, treinador e torcedores era que dessa vez a coisa fosse bem diferente, pois os espanhóis são muchachos porretas e a Espanha não é nenhuma republiqueta. Sempre quis conhecer a Espanha, desde a infância, quando tive dois amigos chamados Pepe e Constantino, donos da padaria da rua onde eu morava e que sempre me davam um pãozinho doce ou bolachas no fim do dia, depois que eu ajudava o pessoal a descarregar o caminhão de lenha.

Comecei a imaginar que seria bacana se os homens do estrangeiro trocassem o local do serviço e me mandassem para lá, em vez de para a Itália.

Mas não foi assim.

Explicaram mais ou menos a empreitada, que entendi mais ou menos, porque o conterrâneo encarregado de transformar em baianês o linguajar daqueles homens parecia bastante avexado com a tarefa. Mas deu para ficar sabendo que eu iria a Roma, não teria tempo de pedir a benção ao Papa, de lá seguiria no dia seguinte para uma cidade chamada Turim – eu entendia “durim” e o intérprete também – e que, ali, seria recebido pelo cerimonial da máfia local.

Aí pulei da cadeira:

– Máfia?!

Não sei por que, mas desde menino essa palavra me provoca arrepios.

Disseram que eu podia relaxar, que máfia naqueles dias não tinha mais nada a ver com a máfia da minha infância. Usavam o título apenas para impor respeito.

– Que nem coronel aqui. Ainda existe coronel, na política ou nas fazendas? Não. Mas ainda se usa o título, para não perder a tradição.

– Tutti buona gente! – disse o carcamano, bigode amarelo de nicotina e uma flâmula do Vitória em cima da mesa de trabalho.

Não gostei. Sou Bahia. Mas primeiro a obrigação e depois a devoção. Peguei passagens e papelada, até o passaporte que, sabe-se lá como, ficou pronto em vinte minutos. Entregaram-me uma sacola cheia de dinheiro e me mandei para o Aeroporto Dois de Julho.

No caminho, o intermediário finalmente me falou qual o serviço:

– Coisa de cinema, Zé do Dedo! É um jogador de futebol de fama internacional. Tu vai virar destaque no mundo do crime, vai pros livros e enciclopédias. Tá rebocado!

– Que jogador é esse, homem?

– Vem a ser um tal de Paulo Rossi, pronuncia-se “Paolo”, que joga em Turim, no maior time de lá, o Juventus ou a Juventus,  cada um lá diz de um jeito. É só o que eu sei, Zé. Lá eles te explicam direito.

– E qual é a bronca contra esse jogador?

– Não faça muitas perguntas, cabra. A máfia não gosta de nego curioso.

Aparelho de ouvir enfiado nos ouvidos, eu comecei a acompanhar no avião um filme que me levou novamente de volta à infância, ao Cine Íris, quando minha irmã me carregou para ver Candelabro italiano.  Senti uma puta vontade de chorar, sei lá por que, e me lembrei de Rita Pavone cantando Mio cuore, tu stai soffrendo, cosa posso fare per ter?

Troço bonito. E tão fácil de entender o significado, que até eu entendia. Depois, ao redor do poste – à luz de todos os nossos sonhos –, traduzia para os amigos e fazia um sucesso medonho”.

O sujeito de terno, gravata e tira de pano grosso enrolado em volta do pescoço, que me recebeu no Aeroporto de Roma, me chamou de Giuseppe Dedon e falou em criminalità, o que me incomodou. Pedi que me levasse logo ao hotel, pois estava cansado feito um corno.

– Corno se cansa muito? – perguntou, e eu vi que o almofadinha falava a minha língua, estava só debochando de mim.

Dia seguinte, partimos de carro para Turim. Ele perguntou se eu sabia manejar arma com silencioso, e eu disse que entendia mais de revólveres do que eles de macarrão. Não sorriu. Também não fez cara feia. Recebi credenciais para assistir ao treino dos jogadores, bem posicionado em local de onde teria visão privilegiada do campo e de um caminho de fuga garantida.

Algumas vezes coloquei na mira perfeita a cabeça do atacante.

Repeti a visita mais duas ou três vezes, pedindo ao emissário da máfia que tivesse paciência.

– Você é que sabe a hora certa de apertar o gatilho – ele disse.

São finíssimos.

Uma hora lá ousei perguntar o que aconteceria se eu desistisse de fazer o serviço, movido por questões religiosas – afinal, estava tão perto do Vaticano – ou tomado de simpatia pela quase vítima.

– Essa possibilidade não existe. Do ponto a que você chegou, não tem volta.

Pois foi o que aconteceu: contrariando a todos os princípios do meu ofício, me tomei de simpatia pelo jogador, um cracaço a quem os mafiosos queriam ver pelas costas. Esqueci a tarefa e passei a comparecer aos treinos para aplaudir os seus dribles, deslocamentos em diagonal, chutes cheios de manha e efeito.

O jeito que encontrei foi deixar a Itália, fugido, no dia exato em que a imprensa local noticiava a viagem da  Azurra para a campanha na Copa do Mundo daquele ano. Paolo Rossi era um dos ídolos da equipe e da torcida. Atravessando fronteiras, cheguei à Espanha e, não perguntem como – aprendi com a máfia a guardar certos segredos –, no primeiro fim de semana de julho, eu estava na cidade de Barcelona, assistindo ao espetáculo que ficou conhecido com “A tragédia de Sarriá”, vendo exatamente o cidadão de nome Paolo Rossi acabar com o sonho do meu filho.

E pensar que eu poderia ter evitado.

Escrito especialmente para a antologia 82 – uma copa, 15 histórias, que reuniu contistas baianos.

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Cem vezes Vinicius de Moraes

 

 Luís Pimentel

Letrista/poeta? Poeta/letrista? Aqui, a ordem das letras não altera os versos. E o grande compositor da MPB que ficou conhecido como Poetinha não rivaliza com o grande poeta que, juntamente com parceiros musicais do gabarito de Tom Jobim, Baden Powell, Carlos Lyra ou Toquinho criou momentos preciosos do nosso cancioneiro.

Também advogado, diplomata, cronista, crítico de cinema, dramaturgo, cidadão do mundo e amigo de seus amigos em todas as horas, Vinicius de Moraes, o grande brasileiro de quem este ano se festeja o centenário, botou a poesia no centro dos acontecimentos, mesmo tendo sido perseguido pela burocracia do Itamarati – por ser poeta – e depois pelos poetas mais conservadores – por escrever letras de música popular. Independente da data redonda, Vinicius será sempre lembrado por suas canções, que não param de merecer regravações, e também pelo relançamento de sua obra literária ou a remontagem de seu musical clássico, Orfeu do Carnaval.

Vinicius de Moraes ressuscitou a parceria, que andava fora de moda, a necessidade do músico sem muita intimidade com a palavra se juntar a um poeta em busca da complementação da obra de arte. Dos primeiros sucessos ao lado de Tom Jobim na década de 50, onde surgiram pérolas como Garota de Ipanema, Se todos fossem iguais a você, Chega de saudade e Eu sei que vou te amar, os “afro-sambas” com Baden, até o casamento com Toquinho, consolidado com Tarde em Itapoã, o poeta se firmou como uma das maiores vocações de letrista que já vimos.

Vinicius nasceu no dia 19 de outubro de 1913, no Rio de Janeiro, mesma cidade onde morreu, em 1980. Consta que era um menino bonito. Tinha olhos verdes, “talvez ausentes, mas determinados como se vissem logo adiante um grande dever a cumprir e o tempo fosse pouco”, como declarou certa feita sua irmã mais velha, Laetitia. Deixou muitas viúvas e inúmeros discos gravados. Também se destacou na criação de trilhas sonoras, tendo deixado pelo menos cinco LPs com esses registros.

Trabalhador, criativo e profícuo, foi um gênio da raça.

 

 

Duas histórias de carnaval

 

Luís Pimentel

1.
Foi num Carnaval que passou

O folião chegou no bar Bip-Bip, em Copacabana, e puxou uma cadeira. Arrasado, depois de “três dias de folia e brincadeira” e de se esbaldar no desfile do rancho Flor do Sereno, despejou os cotovelos sobre a mesa e grunhiu:

– Uma cerveja, estupidamente gelada.

Alfredo, dono do estabelecimento, conhecido e aplaudido pelo mau humor, grunhiu mais alto:

– Só tem quente.

– Serve – gemeu o folião, caindo imediatamente num pranto de derrubar encostas. Tão sincero que até o Alfredo se comoveu:

– Que foi, querido?

Acarinhado, o sujeito abriu o verbo:

– Você sabe o que é ter um amor, meu senhor, ter loucura por uma mulher, e depois encontrar esse amor, meu senhor, nos braços de um motorista de ônibus?

Corno em fim de festa é comum, mas plagiando Lupicínio Rodrigues, não é a toda hora que se encontra.

Alfredo tentou ajudar:

– Qual é a linha?

– Nenhuma. Piranha da pior espécie.

– Estou falando do Ricardão. Qual é a linha que ele pilota?

– 571, Glória-Leblon, via Jóquei.

O comerciante enxugou uma lágrima discreta:

– É duro mesmo. Sei o que você está passando.

Começando a se acostumar com o chifre, o amigo recente se animou:

– Você também já levou bola nas costas?

E o Alfredo, olhar distante, pôs mais uma dose de maldade no alfinete de pontinha fina:

– Só levei bola nas costas nos meus tempos de médio-volante do Bangu. Agora, se pelo menos a vadia tivesse escolhido um motorista do 572, que é via Copacabana…

2.

Paixão na avenida

Saio do Sambódromo na madrugada de terça-feira, depois de ver o desfile da última escola de samba da segunda, e me dirijo à estação do Metrô na Praça Onze. Na fila dos bilhetes, o folião me aborda, lata de cerveja na mão e cigarrinho apagado no canto da boca:

– Tu conheces a Doralice?

– Só a do samba: “Doralice, eu bem que te disse, que amar é tolice, é bobagem, é ilusão”.

– Falo sério, meu chapa. Doralice parece mulata do Lan, tu manja? Sorriso lindo, todos os dentes na boca, peitinhos de amora, coxas de italiana, balaio grande…

Estava musicalmente inspirado, atropelei novamente:

“Mexia um balaio grande, muito mais macio que o boto cor-de-rosa do Custeau”.

– E como é que tu sabes?

– Isso é de outro samba. Fala mais de Doralice.

– Conheci domingo, no desfile da Mangueira.

– Como diria o grande Wilson das Neves, “ô, sorte!”.

– E perdi ontem, no embalo da Mocidade.

Adoro essas histórias, desde menino. Vivia pedindo para minha mãe recontar o drama de um corno amigo, que se ajoelhou diante da infiel, aos prantos: “Volta, amor. E traz quem tu quiser contigo”. Quis saber como é que foi:

– Como ganhei ou como perdi?

– As duas. O importante é competir.

O folião não regateou:

– Ganhei de um sambista desatento, que marcou bobeira. E perdi para uma loura de cinema, que encostou no meu patrimônio, como quem não quer nada, e prometeu vaga de rainha de bateria pro ano que vem.

– E Doralice?

– Foi. A essa altura, já deve estar ensaiando com a louraça.

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Um conto de Luís Pimentel

Eastweek em Botafogo

Luís Pimentel

Foi num réveillon que passou. Ela estava deitada ao meu lado no sofá, que ficava na sala da minha casa, mas não sei como havíamos chegado ali. Pela janela do apartamento, na Rua São Clemente, via-se as luzes do Morro Dona Marta e mais algumas ruas de Botafogo. Via-se o brilho e quase ouvia-se o pipocar dos fogos na Lagoa. Imaginava-se o que poderia estar acontecendo nas areias de Copacabana.

O vento invadia a sala pelas frestas da janela e fazia balançar os xaxins pendurados no teto. Às vezes era um cheiro de enxofre e temores. Às vezes o gosto horrível da mistura de cigarro e conhaque. As luzes do Morro Dona Marta não me diziam muita coisa, pois era um tempo em que eu ainda não tinha medos. Primeira vez que deitávamos no sofá, era a primeira vez que deitávamos juntos onde quer que fosse, primeira vez que eu via aquela mulher.

Começou a me contar As bruxas de Eastweek, que assistira recentemente, e estava muito empolgada com a coragem e ousadia das mulheres-bruxas no filme, com o talento e a sensualidade do Jack Nicholson no filme, com a cor, a luz, a fotografia do filme, tudo muito sombras, uivos, ventos muito fortes e nevoeiros. Ela estava com a cabeça encostada em meu ombro e eu não tirava os olhos da janela. Também não tirava o ouvido de sua cabeça, de onde pareciam vir os barulhos de carros lá embaixo, do vento gritando lá fora. Falava e falava sem parar do filme, as maestrias todas do roteiro, do diretor e dos atores, e o meu braço repousava dormente sob o seu ombro. Minha mão encostou inocentemente em seu peito e aí pareceu que o vento soprou mais brando, que o mundo já não ia se acabar.

Então fui até a janela e acompanhei atentamente os movimentos de um avião que circulava o Pão de Açúcar antes de apontar o bico para o Aeroporto Santos Dumont, como se o 31 de dezembro fosse um dia qualquer. Deu vontade de viajar, lugares distantes, essa tal de Eastweek, quem sabe. Freada brusca e alguém gritando “quer morrer, filho da mãe, olha por onde anda”, ela falando, falando, falando. Comecei a alisar o seu peito e minha mão suava muito. Lembrei que precisava aparar as unhas e apertei o bico do seu peito. Que ficava duro, pontudo e enrugado nas pontas dos meus dedos. Seu sexo era o mundo à minha espera. Morcegos e vampiros me convidavam insistentemente a entrar. Eu já não sentia qualquer inveja do cretino do Jack Nicholson.

Sabia que o vento ia voltar com toda a febre, que minhas plantas morreriam de susto, mas era último dia do ano e me agarrei em seus cabelos, que tinham um cheiro bom. Seu peito tinha um cheiro bom, não me importava que ela desse cabo de todo o conhaque, de todo o meu cigarro, depois desaparecesse como desapareceu, sem abrir a porta, enquanto eu adormecia entre o gozo e o delírio e abria os olhos muitas horas depois para o sol terrivelmente carioca no primeiro dia de um novo ano, para a dormência da rua e a poeira das obras do Metrô.

O susto no olhar do porteiro me levou a encarar o espelho da recepção: não havia um pingo de sangue em meu corpo, mas eu ainda buscava nos bolso um endereço que a trouxesse de volta.

Eu sei que Eastweek é um bocado longe daqui.

 

Conto em gotas – Luís Pimentel

CENAS DE CINEMA

Luís Pimentel

 1.

O homem entra no ônibus pela porta dianteira. Cumprimenta o motorista, que não responde, e estira a mão para o trocador, passando-lhe o dinheiro que trazia enrolado entre os dedos.

A câmera em seu encalço.

O homem gira a roleta com dificuldade, pois o coletivo está bem congestionado, e vai avançando lentamente, dá licença, obrigado, dá licença, obrigado, tentando chegar ao final do corredor – onde espera encontrar um canto que comporte seus dois pés.

A câmera atenta.

O homem que parece estar fugindo de alguém ou de alguma coisa respira aliviado quando consegue ajeitar as pernas, rente ao encosto de um banco, levanta os braços em direção à barra elevada de apoio em busca da segurança que se espatifa em um segundo. Exatamente quando reconhece o passageiro que está sentado à frente, a arma na direção do seu peito:

– Quem diria! Fugiu tanto para cair no meu laço.

O primeiro disparo foi na câmera.

 

2.

Uma voz de comando pediu silêncio no set e informou que não ia tolerar comentários maledicentes.

O homem pede à mulher que erga um pouco mais a bunda, pois do jeito que está ela foge do foco da câmera. Depois sugere que ela diminua o ritmo, porque frenético do jeito que está fica parecendo uma dança de nuvens, artístico demais para o momento.

– Pornô moderno não dá tesão em ninguém – ele diz.

Ela pergunta se não está na hora de mudar de posição, mostrar outras partes dos corpos, outro viés de penetração. Ele, que além de ator é produtor e diretor da fita, argumenta que o público dá preferência a volumes e que jamais se cansa de uma cena com bundão na tela.

Ela diz que está cansada, com cãibras na coxa esquerda, dormência no pé direito e com vergonha da insistência com a qual exibe tão explicitamente suas celulites. Levanta-se, vai ao banheiro, toma banho, troca de roupa e sai batendo a porta. A câmera não pegou, mas da escada ainda escutava ele gritando:

– E o contrato?! Você assinou um contrato!

Esta cena final fez o público dar ótimas gargalhadas.

Do livro “Cenas de cinema – conto em gotas” (Ed. Myrrha), recém-lançado

 

Um lindo conto de Luís Pimentel

 

Mania de outono

 Luís Pimentel

Outono era a moringa na mesa forrada de papel crepom. A caneca de alumínio deixava a água mais fresquinha, gosto de terra no fundo mais fundo, cheiro de chuva no gargalo. Vento encanado que podia constipar, menino remelento de nariz a escorrer pelos lábios. Peito apertado na cor doce e melancólica de um quase maio.

Essa mania de outono eu tenho desde muito cedo. Desde bem pequeno mesmo, lá na província, onde as pessoas nem davam muita bola para essa história de estação do ano. Tinha o verão, com aquele calor medonho dos tempos sem ar-condicionado nem ventilador, e o inverno que trazia frio de doer nos dedos e obrigar a dormir de pijama. Outono e primavera também existiam, mas a esses ninguém dava muita confiança.

Eu dava. Comecei a prestar atenção no outono no dia em que a professora Alda exibiu o livrão cheio de fotos coloridas, mostrando como a natureza reagia às boas e más influências climáticas, como se comportava diante de cada uma delas, se derretendo toda quando o outono anunciava a chegada triunfal. O papel do livro ficava mais  cheiroso nas páginas que mostravam árvores se descabelando, montanhas abrindo  os braços para os dentes do sol que banhava tudo de um amarelo meio laranja  avermelhado, sol que parecia vir de outro mundo e que jamais passara nem mesmo
de passagem pela minha cidade.

Peguei mania e comecei a colecionar folhas caídas na praça, sobre calçadas e muros da alameda que acompanhava o caminho da escola. E passei a observar, encantado, que aquelas folhas meio marrons amareladas disputavam em beleza com os frutos da última primavera, foram verdes sobre verdes no verão que acabou de acabar e estarão renascendo daqui a pouco, no inverno que o vento mais fino já anuncia. Fazia as contas e cálculos das transformações pelas quais deveria passar a minha vida até a  explosão do próximo outono.

Por que o declínio e a decadência?
De onde tiraram as explicações encontradas no verbete do primeiro dicionário  que me caiu às mãos? Até aquele dia, outono para mim era beleza e renascimento.  Coloquei as impressões no poeminha outonal que fez os colegas rirem bastante e  a professora condescender um “ele é sensível”. Também li para minha mãe, à  noite, enquanto ela lavava pratos. Depois do ponto final disse “vá dormir, você  está cansado”, e até hoje não sei se o comentário significou uma aprovação. Mas  a reação generalizada me mostrou que a compreensão do outono é para poucos.

Quantas vezes, ainda no meu pequeno mundo, me deitei à tardinha sobre a esteira de folhas das palmeiras, da cajazeira, dos umbuzeiros? Cabeça recostada no travesseiro improvisado de outono e os olhos na impenetrável luz dos fotógrafos e dos pintores, até o sol se cansar de mim e fugir para detrás das montanhas. Logo, logo vem o inverno e eu me fecho em copas, que nem as árvores, escondo os meus frutos.

Catei folhas na volta da escola, na ida para o trabalho, na vinda dos filhos, na despedida dos pais, sem precisar dar explicações para ninguém. Hoje não mais. Recolho apenas as que as máquinas de limpeza não enxergam, escondidas na grama da beira da piscina. Quando eles descuidam, recolho algumas no tonel de lixo. Só que pouco descuidam e os olhos de verão são fogo em brasa nos meus calcanhares.

Declínio e decadência. O segurança chuta para longe a belíssima folha da mangueira que veio caindo, caindo e se aproximando de mim. A bota do animal quase esmaga os meus dedos, enquanto se aproxima o enfermeiro vestido de inverno, sem uma gota de luz no semblante, bordando um sorriso de falsa primavera, o mundo girando, girando e me devolvendo o outono que ele traz na pontinha da agulha.

CENAS DE CINEMA – CONTO EM GOTAS

 Lançamento de livro

A vida miúda, em sua desconcertante grandeza; o homem em fúria, em êxtase, perdendo-se e encontrando-se nas mesmas curvas incertas; o amor, o ódio, esperanças e incertezas.

A matéria-prima dessas histórias é a mais substancial possível: o homem com seus dramas, medos, contemplações. Contista muitas vezes premiado (Cruz e Souza, Literatura Para Todos e Prêmio Cidade de Belo Horizonte, entre outros), Luís Pimentel volta às narrativas curtas (neste livro, curtíssimas), com histórias eletrizantes.

Vamos ao cinema – Conto em gotas é um livro para estantes e mesas de cabeceira de quem gosta da melhor literatura brasileira. “Luís Pimentel escreve contos em que a suprema sofisticação se realiza, muitas vezes, na simplicidade, no desenho despretensioso da vida, em que todo mistério dela cabe numa cena de rua (…) Poucos contistas têm a medida exata do conto. Entre eles, Luís Pimentel”.

André Sefrin

PIMENTEL,Luís. Cenas de Cinema – Conto em gotas. ISBN 978-85-89125-17-8

128 páginas / R$ 25,00 Formato: 13 x 17 Edição: Myrrha / Distribuição: Mauad 21) 2220.4609 3479.7422

Lançamento dia 20/12/2011, das 19 ÀS 22h Livraria do Museu da República (Rua do Catete, 153, Metrô: Estação Catete) Rio de Janeiro.

Mini-contos de Luís Pimentel

 

Partidas

Um dia ele foi. Seria só para melhorar de vida, voltaria para buscá-la. Ela ficou contando as noites, depois as rugas, as varizes, a espera infinita. Um dia, a carta: “Não volto mais, nunca mais, para esse fim de mundo”.

Lágrimas pingando no café, ela rabiscou no papel de pão: “Nem eu”. E morreu pouco depois de colocar a resposta nos Correios.

 

Sagrado Coração

Da parede, espetado no prego, o Sagrado Coração de Jesus assistia a tudo: as mãos escorriam do joelho pelas coxas, dedos de unhas sujas invadindo pelas beiradas da calcinha. – Estou conferindo o dever de casa da menina, meu bem.

Não doía tanto a mãe se fazer de sonsa, mas o comentário: “O seu padrasto é um pai para você”.

 O Sagrado Coração vermelho de raiva.

Um poema de Luís Pimentel

 

O poema Canto Menor foi publicado na revista Hera, nos anos 70. Gosto muito do poema e quis fazer uma surpresa ao poeta; em um daqueles momentos de paz e ócio imaginei como ele ficaria na língua de Voltaire. O resultado está no post que ora publico.

CANTO MENOR

p/ Antonio Brasileiro

Eu que recitava

ser maior que o mundo,

hoje me concentro:

sou menor que a água.

Só que menos clara,

só que menos calma,

só que menos

e só.

             (Luís Pimentel)

 

Chant  mineur

p/ Antonio Brasileiro

Moi qui m’imaginais

plus grand que le monde,

aujourd’hui je me concentre :

Je suis plus petit que l’eau.

Bien que moins clair,

bien que moins calme,

bien que plus petit

c’est tout.

(Luis Pimentel)