Música e teatro: “Nós sempre teremos Paris”

 

Vida Dupla

Artur Xexéo

Minha vocação jornalística foi tardia. Já havia cursado alguns anos de Engenharia, já trabalhava numa agência de turismo, levava o curso de Comunicação só pela obrigação de ter um diploma, o que eu acreditava ser o desejo da minha família, quando a profissão me interessou.

Dediquei-me a ela, por mais de 30 anos, com exclusividade. Nunca tive veleidades literárias. Meu texto não era sagrado. Queria apenas que ele fosse adequado ao veículo em que trabalhasse. Escrevi dois livros. Mas eles foram uma extensão do meu trabalho: uma biografia — praticamente uma reportagem — e uma série de crônicas ligadas à minha experiência profissional.

Há três anos, escrevi uma peça de teatro. Foi uma encomenda. Encarei a tarefa como a do meu livro-biografia. Uma reportagem. Com toques de ficção, mas uma reportagem. Eu estava sendo apenas um dramaturgo acidental. Desta peça, surgiu o convite para fazer, ainda no teatro, a adaptação de um musical da Broadway. Topei a parada. Seria divertido conviver com uma megaprodução. Nesta semana, terei uma nova peça estreando. Ao mesmo tempo, divido com um grupo de roteiristas do primeiro time, sob a batuta de Miguel Falabella, a tarefa de criar as tramas de um novo seriado de TV. Não é mais acidental. Mudei de profissão, nesta altura do campeonato? Não. Passei a levar vida dupla.

“Nós sempre teremos Paris” é o musicalzinho que estreia nesta terça-feira aqui no Rio. É uma comédia romântica, embalada por música francesa, com direção de Jacqueline Lawrence e uma dupla de atores/cantores no palco: Françoise Forton e Tadeu Aguiar. Sou de outros tempos. Cresci ouvindo música francesa. Os jovens de hoje certamente estranhariam muito as festas de minha adolescência. A gente dançava juntinho ao som de Alain Barrière e Gilbert Bécaud. Era animadíssimo. Mas não tenho dúvidas de que, para jovens do século XXI, aquelas festas teriam mais cara de velório.

Ao fazer a pesquisa musical para o espetáculo me dei conta do quanto a música francesa estava adormecida no meu inconsciente. Sou do tempo do iê iê iê e da balada romântica. Dançava ao som de Sylvie Vartan e Johnny Halliday. Mas por que então me lembrava de todas aquelas lindas canções de Charles Trenet, Edith Piaf, Charles Aznavour…? A França, até não muito tempo atrás, sempre esteve mais próxima de nós. Eu me lembro, mesmo naqueles tempos de iê iê iê, de ter assistido a um show de Maurice Chevalier no Teatro Record, em São Paulo. Chevalier não frequentava o meu hit parade. Mas eu sabia de sua importãncia. Não dava para deixar de ver.

Alguns anos depois, assistindo a um filme no Paissandu, descobri “La mer”. Não tinha nada a ver com a França. Era “O despertar amargo” (“A safe place”), com a Tuesday Weld e o Anthony Perkins. Na trilha sonora, estava a belíssima canção de Charles Trenet. Como imaginar uma cena romântica de despedida sem se lembrar do tema de amor de “Os guarda-chuvas de amor” composto por Michel Legrand? Nunca tive nenhum disco de Edith Piaf, mas, como todo mundo, conheço sua gravação de “La vie em rose”.

A música francesa é parte de nosso imaginário afetivo. Assim como a visão fantasiosa de Paris com seus garçons mal-educados, como a cidade em que todo mundo, mas todo mundo mesmo, fuma demais, como o paraíso dos cinéfilos. Conheci gente que viajava para Paris só para ir ao cinema! Não havia programação cinematográfica mais variada em em todo o resto do mundo.

É um pouco dessa música romântica e um outro tanto desta cidade-fantasia que eu pus na pecinha que estreia nesta terça-feira. Ninguém quer ganhar o Prêmio Shell. A gente só quer dividir com a plateia um imaginário musical que eu acredito ser comum a muitos brasileiros. Quem nunca sonhou com Paris ouvindo “C’est si bon”? Bem, pode ser que alguém que esteja chegando agora não tenha mesmo passado pela experiência. Eu passei. E queria dividir isso com mais gente.

Fonte: Blog de Artur Xexéo (O Globo)

 Músicas citadas no texto:

La vie en rose:

La mer:

C’est si bon:

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Les enfants du Pays – « Douce France »

 

« Douce France » Les enfants du Pays - Paroles et Musique: Charles Trenet 1943

Il revient à ma mémoire

Des souvenirs familiers

Je revois ma blouse noire

Lorsque j’étais écolier

Sur le chemin de l’école

Je chantais à pleine voix

Des romances sans paroles

Vieilles chansons d’autrefois
Douce France

Cher pays de mon enfance

Bercée de tendre insouciance

Je t’ai gardée dans mon cœur!

 

Mon village au clocher aux maisons sages

Où les enfants de mon âge

Ont partagé mon bonheur

Oui je t’aime

Et je te donne ce poème

Oui je t’aime Dans la joie ou la douleur

Douce France

Cher pays de mon enfance

Bercée de tendre insouciance

Je t’ai gardée dans mon cœur
J’ai connu des paysages

Et des soleils merveilleux

Au cours de lointains voyages

Tout là-bas sous d’autres cieux

Mais combien je leur préfère

Mon ciel bleu mon horizon

Ma grande route et ma rivière

Ma prairie et ma maison.

 

Uma canção antiga, três interpretações

 

Charles Trenet e Dalida

 

Gal Costa

Que Reste-t-il de Nous Amour, canção francesa muito antiga, de Charles Trenet. No primeiro vídeo ela é interpretada pelo próprio autor e pela cantora Dalida. No segundo vídeo quem canta é Gal Costa.
Uma outra interprtação, na voz de João Gilberto, pode ser vista aqui,  pois infelizmente a incorporação do vídeo foi desativada no youtube.

Essa música  foi trilha sonora do filme Baisers Volés, de Truffau. Para quem gosta, segue a letra:

Que reste-t-il de nos amours

Que reste-t-il de ces beaux jours

Une photo, vieille photo

De ma jeunesse

Que reste-t-il des billets doux

Des mois d’ avril, des rendez-vous

Un souvenir qui me poursuit

Sans cesse

Bonheur fané, cheveux au vent

Baisers volés, rêves mouvants

Que reste-t-il de tout cela

Dites-le-moi

Un petit village, un vieux clocher

Un paysage si bien caché

Et dans un nuage le cher visage

De mon passé…

 

Uma canção eterna

 

Petite fleur

Fernand Bonifay, Mario Bua, Sydney Bechet

Si les fleurs

Qui bordent les chemins

Se fanaient toutes demain

Je garderais au cœur

Celle qui

S’allumait dans tes yeux

Lorsque je t’aimais tant

Au pays merveilleux

De nos seize printemps

Petite fleur d’amour

Tu fleuriras toujours

Pour moi

Quand la vie

Par moment me trahit

Tu restes mon bonheur

Petite fleur

 Sur mes vingt ans

Je m’arrête un moment

Pour respirer

Ce parfum que j’ai tant aimé

Dans mon cœur

Tu fleuriras toujours

Au grand jardin d’amour

Petite fleur…

A canção Petite Fleur foi lançada em 1952 por Sidney Bechet em versão instrumental. A letra é de Fernand Bonifay et Mario Bua, de 1952, cantada originalmente por Henri Salvador.