Um poema de Manoel de Barros

 

O apanhador de desperdícios

                                               Manoel de Barros*

Uso a palavra para compor meus silêncios.

 Não gosto das palavras

 fatigadas de informar.

 Dou mais respeito

 às que vivem de barriga no chão

 tipo água pedra sapo.

 Entendo bem o sotaque das águas

 Dou respeito às coisas desimportantes

 e aos seres desimportantes.

 Prezo insetos mais que aviões.

 Prezo a velocidade

 das tartarugas mais que a dos mísseis.

 Tenho em mim um atraso de nascença.

 Eu fui aparelhado

 para gostar de passarinhos.

 Tenho abundância de ser feliz por isso.

 Meu quintal é maior do que o mundo.

 Sou um apanhador de desperdícios:

 Amo os restos

 como as boas moscas.

 Queria que a minha voz tivesse um formato

 de canto.

 Porque eu não sou da informática:

 eu sou da invencionática.

 Só uso a palavra para compor meus silêncios.

 

* Manoel de Barros nasceu em Cuiabá em 1916 e morreu em 13 de novembro de 2014. Ele estreou em 1937 com o livro “Poemas Concebidos sem Pecado”. Sua obra mais conhecida é o “Livro sobre Nada”, publicado em 1996.

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E como dizia Cora Coralina…

 

“Nas palmas de tuas mãos leio as linhas da minha vida.

 Linhas cruzadas, sinuosas, interferindo no teu destino.

 Não te procurei, não me procurastes – íamos sozinhos por estradas diferentes.

 Indiferentes, cruzamos.

 Passavas com o fardo da vida…

 Corri ao teu encontro.

 Sorri. Falamos.

 Esse dia foi marcado com a pedra branca da cabeça de um peixe.

 E, desde então, caminhamos juntos pela vida…”

 Cora Coralina

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Porque hoje é sábado…

 

Dia da Criação

 

Hoje é sábado, amanhã é domingo

A vida vem em ondas, como o mar

Os bondes andam em cima dos trilhos

E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo

Não há nada como o tempo para passar

Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo

Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo

Amanhã não gosta de ver ninguém bem

Hoje é que é o dia do presente

O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade

Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios

Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas

Todos os maridos estão funcionando regularmente

Todas as mulheres estão atentas

Porque hoje é sábado.

II

Neste momento há um casamento

Porque hoje é sábado.

Há um divórcio e um violamento

Porque hoje é sábado.

Há um homem rico que se mata

Porque hoje é sábado.

Há um incesto e uma regata

Porque hoje é sábado.

Há um espetáculo de gala

Porque hoje é sábado.

Há uma mulher que apanha e cala

Porque hoje é sábado.

Há um renovar-se de esperanças

Porque hoje é sábado.

Há uma profunda discordância

Porque hoje é sábado.

Há um sedutor que tomba morto

Porque hoje é sábado.

Há um grande espírito de porco

Porque hoje é sábado.

Há uma mulher que vira homem

Porque hoje é sábado.

Há criancinhas que não comem

Porque hoje é sábado.

Há um piquenique de políticos

Porque hoje é sábado.

Há um grande acréscimo de sífilis

Porque hoje é sábado.

Há um ariano e uma mulata

Porque hoje é sábado.

Há um tensão inusitada

Porque hoje é sábado.

Há adolescências seminuas

Porque hoje é sábado.

Há um vampiro pelas ruas

Porque hoje é sábado.

Há um grande aumento no consumo

Porque hoje é sábado.

Há um noivo louco de ciúmes

Porque hoje é sábado.

Há um garden-party na cadeia

Porque hoje é sábado.

Há uma impassível lua cheia

Porque hoje é sábado.

Há damas de todas as classes

Porque hoje é sábado.

Umas difíceis, outras fáceis

Porque hoje é sábado.

Há um beber e um dar sem conta

Porque hoje é sábado.

Há uma infeliz que vai de tonta

Porque hoje é sábado.

Há um padre passeando à paisana

Porque hoje é sábado.

Há um frenesi de dar banana

Porque hoje é sábado.

Há a sensação angustiante

Porque hoje é sábado.

De uma mulher dentro de um homem

Porque hoje é sábado.

Há a comemoração fantástica

Porque hoje é sábado.

Da primeira cirurgia plástica

Porque hoje é sábado.

E dando os trâmites por findos

Porque hoje é sábado.

Há a perspectiva do domingo

Porque hoje é sábado.

III

Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.

De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas

E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra

E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra

Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.

Na verdade, o homem não era necessário

Nem tu, mulher, ser vegetal dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada

Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.

Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias

Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa

Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos

Seríamos talvez polos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.

Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes

Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia

Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo

Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia,

Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias

A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio

A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.

Ao revés, precisamos ser lógicos, frequentemente dogmáticos

Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas

Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade

Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo

E para não ficar com as vastas mãos abanando

Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança

Possivelmente, isto é, muito provavelmente

Porque era sábado.

Vinicius de Moraes


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O último conto de fadas

 

O ÚLTIMO CONTO DE FADAS

A palavra fugacidade

Um trem sem ninguém dentro

Fotos amarelecidas…

A solução para as vidas

desencontradas

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Uma batalha perdida

A inteira lida perdida

O ímpeto dos cavalos

A moça que ficou velha

e esquecida

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A arte de estar sozinho

O último conto de fadas

A estrada para a estrada

A mão, sobre o homem feito,

do menino.

(Antonio Brasileiro)

Novos poemas de Adélia Prado

 

A Paciência e seus limites

Dá a entender que me ama

mas não se declara.

Fica mastigando grama,

rodando no dedo sua penca de chaves,

como qualquer bobo.

Não me engana a desculpa amarela:

‘quero discutir lírica com você’.

Que enfado! Desembucha, homem,

 tenho outro pretendente

 e mais vale para mim vê-lo cuspir no rio

 que esse seu verso doente.

 

Senha

 Eu sou uma mulher sem nenhum mel

 eu não tenho um colírio nem um chá

 tento a rosa de seda sobre o muro

 minha raiz comendo esterco e chão.

 Quero a macia flor desabrochada

 irado polvo cego é meu carinho.

 Eu quero ser chamada rosa e flor

 Eu vou gerar um cacto sem espinho.

 

Humano

A alma se desespera,

mas o corpo é humilde;

ainda que demore,

mesmo que não coma,

dorme.

 

Poemas de Adélia Prado, do novo livro Miserere (Record – 2013) que será lançado nesta quinta-feira.

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Um livro, muitas história: Então…

Tive a honra de receber o mais novo livro de poemas do poeta Iderval Miranda, lançado em junho de 2013. Motivos diversos me obrigaram a deixa-lo na estante, espiando para mim e impondo a sua presença. Acontece que “Então”, não é um livro qualquer; não é para ser folheado. Ele é documento, memória, poesia, vida.

Publico hoje o primeiro poema, aquele que me prendeu. Aos poucos apresentarei as diversas facetas desse livro instigante.

Breve metafísica

já não me bastam as pequenas fantasias,

ou volúveis sonhos, as noites de desespero.

diante de mim,

o deserto da grande espera

e o infindável horizonte do nada.

assim caminharei,

por sobre pedras e espinhos,

buscando em carne e espírito

o que foi sem nunca ter sido.

In MIRANDA, Iderval. Então (poemas). Feira de Santana, Tulle, 2013, p. 83.

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Sobre Poemas e Poetas

 

Mario Quintana – Caricatura Arradium

 

“Às vezes você acha que está dizendo bobagens e está é fazendo poesias”

“A diferença entre um poeta e um louco é que o poeta sabe que é louco… Porque a poesia é uma loucura lúcida”.

                                                         (Mário Quintana)

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Um momento com Clarice

 

Meu Deus, me dê a coragem

Clarice Lispector

Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços

meu pecado de pensar

in: Um Sopro de Vida, 4. ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1978, pp. 154-155

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Razões de poeta

 

Razão de Ser

 Escrevo. E pronto.

 Escrevo porque preciso,

 preciso porque estou tonto.

 Ninguém tem nada com isso.

 Escrevo porque amanhece,

 E as estrelas lá no céu

 Lembram letras no papel,

 Quando o poema me anoitece.

 A aranha tece teias.

 O peixe beija e morde o que vê.

 Eu escrevo apenas.

 Tem que ter por quê?

 ( Paulo Leminski )

Um poema de Paulo Leminski

 

Atraso Pontual

Ontens e hojes, amores e ódio,

 adianta consultar o relógio?

 Nada poderia ter sido feito,

 a não ser o tempo em que foi lógico.

 Ninguém nunca chegou atrasado.

 Bençãos e desgraças

 vem sempre no horário.

 Tudo o mais é plágio.

 Acaso é este encontro

 entre tempo e espaço

 mais do que um sonho que eu conto

 ou mais um poema que faço?

.Paulo Leminski

Fernando Pessoa interpretado por Paulo Autran

Ressaca de injustiças!

 
Poema em Linha Reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado

Para fora da possibilidade do soco;

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos