Mário Quitana

 

Canção de outono

O outono toca realejo
No pátio da minha vida.
Velha canção, sempre a mesma,
Sob a vidraça descida…

Tristeza? Encanto? Desejo?
Como é possível sabê-lo?
Um gozo incerto e dorido
De carícia a contrapelo…

Partir, ó alma, que dizes?
Colher as horas, em suma…
Mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte nenhuma!

Mário Quitana

(Poema publicado originalmente no livro Canções, Poesia Completa – Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005, p. 131)

Eterno Damário Dacruz

 

Observação do Tempo

Amanhecemos

com os olhos de amanhã

e o dia é hoje.

Anoitecemos

com os sonhos de ontem

e a noite é hoje.

E de tanta

falta de sintonia,

de tanta busca

e farta agonia,

rabiscamos no calendário

a morte dos dias

                                                 (Damário Dacruz)

 

Libertação da poesia?

 

B Amigos e Grupo Hera

 

    Manifesto do Grupo Hera

 

“Não somos poetas de enredo – confiamos nas palavras.

As palavras: com sua carne e seu cerne, com suas roupas azuis e verdes e escarlates, com seus passos de dança no ar, sua mágica, máxima alvura, negror profundo.

Confiamos nas palavras que não dizem nada e nas que matam.

Porque somos eminentemente poetas, espécies de deuses, buscando domar o caos – o nosso e o vosso. As estrelas estão em paz onde estão.

Porque nossa matéria é o homem.

O homem no Universo, bem mais que entre seus pares: o homem consigo mesmo, a revolver-se, descobrir-se, odiar-se – o homem a perdoar-se e a apaziguar-se dos seus remorsos e iras.

Daí sermos terríveis, às vezes.

Duros, duríssimos, na nossa sede de compreender o próximo. De fazer aflorar a verdadeira alma das pessoas, suja de lama na maioria das vezes, mas a verdadeira.

E que fazer daqueles que temem defrontar-se consigo mesmo?

Já o dissemos, não?: não somos poetas de enredo.

A grande poesia, ao fim e ao cabo, não é acessível ao grande público – fato que, aliás, se dá independentemente da classe social, da formação mobralesca ou universitária, partido ou time a que se está filiado.

Perdoem-nos, pois, os tementes a si mesmos. E conservem-se nos seus cantos.

E, no entanto, como somos líricos!

Entre o que se convencionou chamar de Romantismo e o que ainda está por receber um nome: eis onde nos sentimos inseridos.

Precursores de um possível Século XXI, em que os verdadeiros poetas serão enfim saudados como os decifradores

dos mitos

esquecidos.

Os guias da Psique.

Profetas de nós mesmos, aguardamos solenemente as conclusões.

E contemplamos – atentem ao verbo: contemplamos – os boníssimos mistérios da natureza.

Não ao supérfluo.

Não ao mero artifício.

Não aos modismos.

Encomendamos nossa alma a Deus ou ao Diabo. Às multinacionais, nunca! Ah, os poetas do Rio e suas gloriazinhas de isopor –

Não aos padrões estéticos das metrópoles,

Não a essa arte que embevece “a todos”.

Abaixo esses conceitos que nos vendem a cada dia como se caracterizassem a literatura do nosso século.

Sobretudo nas universidades. sob a forma de teses para mestrado, manuais da mais pura literatura, etc e tal.

Mas tudo, tudo, tudo

Água passada. Estagnada. Estável.

Sossegada. Inofensiva. Marioswaldeana.

A poesia do próximo milênio abolirá todos os ismos.

E as Histórias da Literatura nem saberão mais onde encaixá-la.”

                                                                      Feira de Santana, setembro de 1982.

Assinado: Antonio Brasileiro, Roberval Pereyr, Juraci Dórea, Wilson Pereira, Rubens Alves Pereira, Washington Queiroz, Moacyr de Moura Freitas, Trazíbulo H. P. Casas, Elieser Cesar, Cremildo Souza, Fernando Hora, Pedro Carneiro, Antonio Gabriel E. de Souza, Marcos Pôrto.

Iderval Miranda

 

 Diário

 

o homem. as palavras. o amor. as mercadorias.

troca. essência. essência. essência. vida.

aqui e agora. a mão. a arma. a fome.

o medo. o medo. o medo. sempre.

portagradecadeadodoportãoportalpistola. defesa

defensa devesa. pesadelo e pesar.

longe. pendor e precipício. viver perigosamente.

o homem. a fera. a moeda. a pobreza. o negro

horizontes do caos. simples palavras.

                                   Iderval Miranda

 Poema extraído do livro “Então” (poemas).1972/2012, Feira de Santana, Ed. Tulle, 2013, p. 88.

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Alberto Caeiro – O meu olhar II

 

Alberto Caeiro

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender …

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos… Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar …
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar…

 

Alberto Caeiro (Fernando Pessoa). “O Guardador de Rebanhos”, 8-3-1914

 

Alberto Caeiro

Alberto Caeiro, é considerado o mestre de todos os heterônimos de Fernando Pessoa. Segundo o seu criador “nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão, nem educação quase alguma, só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia avó. Morreu tuberculoso.”

O homem e seu carnaval

 

Carlos Drummond de Antrade

 

Deus me abandonou

 no meio da orgia

 entre uma baiana e uma egípcia.

 Estou perdido.

 Sem olhos, sem boca

 sem dimensões.

 As fitas, as cores, os barulhos

 passam por mim de raspão.

 Pobre poesia.       

 

O pandeiro bate

 é dentro do peito

 mas ninguém percebe.

 Estou lívido, gago.

 Eternas namoradas

 riem para mim

 demonstrando os corpos,

 os dentes.

 Impossível perdoá-las,

 sequer esquecê-las.

 

Deus me abandonou

 no meio do rio.

 Estou me afogando

 peixes sulfúreos

 ondas de éter

 curvas curvas curvas

 bandeiras de préstitos

 pneus silenciosos

 grandes abraços largos espaços

 eternamente.

Capinan – Balança mas Hai-Kai

 

Chaplin

Um vagabundo

Tira do bolso imundo

Um mapa-mundi

 

Poesis

A flor sustenta o caule

Eu não sei como fazer

(Quem sabe se a flor nem sabe?)

 

Intervalo

Entre nós existiria

O precipício de uma ponte

Ou somente travessia?

 

Relâmpagos

Aves que não voam

Lá se vão os trovões

Pássaros que soam

José Carlos Capinan. Poemas. Salvador:  FCJA, COPENE (Col. Casa de Palavras, Série Poesias, 10), 1996, p. 109

O amor antigo vive de si mesmo

 

O Amor Antigo

 O amor antigo vive de si mesmo,

não de cultivo alheio ou de presença.

Nada exige, nem pede. Nada espera,

mas do destino vão nega a sentença.

 

O amor antigo tem raízes fundas,

feitas de sofrimento e de beleza.

Por aquelas mergulha no infinito,

e por estas suplanta a natureza.

 

Se em toda parte o tempo desmorona

aquilo que foi grande e deslumbrante,

o antigo amor, porém, nunca fenece

e a cada dia surge mais amante.

 

Mais ardente, mas pobre de esperança.

Mais triste? Não. Ele venceu a dor,

e resplandece no seu canto obscuro,

tanto mais velho quanto mais amor.

Carlos Drummond de Andrade

 

A dor é inevitável, o sofrimento é opcional

Definitivo

 

Carlos Drummond de Andrade

 

Definitivo, como tudo o que é simples.

Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.

Sofremos por quê?

Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos, por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos, por todos os beijos cancelados pela eternidade.

Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo, para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam, todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.

Por que sofremos tanto por amor?

O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável, um tempo feliz.

Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um

verso:

Se iludindo menos e vivendo mais!!!

“A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade.”

A dor é inevitável, o sofrimento é opcional…

 

 

Para começar 2014

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Receita de Ano Novo

                               Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo

 cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,

 Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido

 (mal vivido ou talvez sem sentido)

 para você ganhar um ano

 não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,

 mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,

 novo até no coração das coisas menos percebidas

 (a começar pelo seu interior)

 novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,

 mas com ele se come, se passeia,

 se ama, se compreende, se trabalha,

 você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,

 não precisa expedir nem receber mensagens

 (planta recebe mensagens?

 passa telegramas?).

 Não precisa fazer lista de boas intenções

para arquivá-las na gaveta.

 Não precisa chorar de arrependido

 pelas besteiras consumadas

 nem parvamente acreditar

 que por decreto da esperança

 a partir de janeiro as coisas mudem

 e seja tudo claridade, recompensa,

 justiça entre os homens e as nações,

 liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,

 direitos respeitados, começando

 pelo direito augusto de viver.

 Para ganhar um ano-novo

 que mereça este nome,

 você, meu caro, tem de merecê-lo,

 tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,

 mas tente, experimente, consciente.

 É dentro de você que o Ano Novo

 cochila e espera desde sempre.

 

 Texto extraído do “Jornal do Brasil”, Dezembro/1997.

 

 

Um poema de Roberval Pereyr

 

                          Canção

“Habito a mansão dos tristes, dos inconciliáveis”.

                                  T. S. Rausto

 

Não tenho muitas vontades:

contemplo a brisa;

às vezes me dói (à tarde) a vida.

 

São poucos meus companheiros,

eles estão perdidos –

e eu perdido com eles. Comigo.

 

São poucos e nunca os tive

nem os conheci –

apenas nos reunimos: para existir.”

 

                                   Roberval Pereyr

 

 

 

 

Eterno Damário Dacruz

 

Observação do Tempo

Amanhecemos

com os olhos de amanhã

e o dia é hoje.

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Anoitecemos

com os sonhos de ontem

e a noite é hoje.

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E de tanta

falta de sintonia,

de tanta busca

e farta agonia,

rabiscamos no calendário

a morte dos dias

                                   (Damário da Cruz)

Despedida poética

 

Último bilhete de Clarice Lispector, escrito no hospital da Lagoa no Rio de Janeiro, em 07/12/1977

 

“Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.”

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