{"id":1000,"date":"2010-08-22T17:27:36","date_gmt":"2010-08-22T20:27:36","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=1000"},"modified":"2011-09-15T21:05:27","modified_gmt":"2011-09-16T00:05:27","slug":"uma-cronica-de-aleilton-fonseca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=1000","title":{"rendered":"Uma cr\u00f4nica de Aleilton Fonseca"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<h1 style=\"padding-left: 60px;\">CARTA A UM JOVEM POETA<\/h1>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 240px;\"><strong>Aleilton Fonseca<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Releio sempre a carta que o poeta Carlos Drummond de Andrade me enviou em 1981. Naquele tempo eu tinha 22 anos e havia publicado o primeiro livro de poemas. A idade ardia numa vontade doida de traduzir a vida em versos. Hoje, ap\u00f3s tantos janeiros, as musas me cutucam e esbravejam, mas j\u00e1 sei que \u00e9 dif\u00edcil comover o vasto mundo, este vale de l\u00e1grimas, desamor e enormes cifras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">O poeta gostou do livro e me mandou, em sua letra e estilo inconfund\u00edveis, um voto de confian\u00e7a, um est\u00edmulo, um sopro de vida numa chama que mal balbuciava. Com o envelope inesperado na m\u00e3o, fiquei at\u00f4nito entre a alegria tr\u00eamula e uma s\u00fabita responsabilidade. O carteiro n\u00e3o estivesse j\u00e1 longe e eu o abra\u00e7aria, convid\u00e1-lo-ia a entrar, conversar\u00edamos sobre o autor daquela carta, eu lhe recitaria os poemas da <em>Rosa do Povo<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Planejei responder ao poeta, mas a surpresa me ofuscou as id\u00e9ias. E agora, Jos\u00e9? Eu lia e relia a mensagem, lembrava de minhas primeiras incurs\u00f5es por sua poesia no gin\u00e1sio e na biblioteca p\u00fablica. Aquele nome t\u00e3o long\u00ednquo agora me parecia estranhamente t\u00e3o pr\u00f3ximo. N\u00e3o consegui inventar palavras para expressar o meu estado de esp\u00edrito. A missiva, hoje amorosamente amarelada, ficou sem resposta para sempre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">No final daquele ano fui ao Rio e planejei fazer uma visita de surpresa ao poeta. Um dia, sa\u00ed com o endere\u00e7o anotado, decidido a ir bater em sua resid\u00eancia. Mas, \u00e0 medida que avan\u00e7ava pelas ruas, a coragem se perdia pelas esquinas. Acabei perambulando o dia todo, sem encarar o caminho definitivo de um encontro com\u00a0 o admirado autor de <em>Boitempo<\/em>. E se ele n\u00e3o me atendesse? E se n\u00e3o passasse   de um \u201ccomo vai?\u201d, um \u201cprazer em conhec\u00ea-lo\u201d formais? Seria uma situa\u00e7\u00e3o constrangedora, \u2013 o poeta diante de um jovem desconhecido que vinha de certa forma importun\u00e1-lo, logo ele, t\u00e3o discreto e avesso aos cultos da personalidade. N\u00e3o fui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">At\u00e9 hoje oscilo quanto ao acerto daquela decis\u00e3o: ora me arrependo de haver desistido, ora acho que assim foi melhor. O encontro poderia ter sido a quebra de todo encanto. Guardei na dist\u00e2ncia a admira\u00e7\u00e3o e a gratid\u00e3o pelo gesto de incentivo, embora sentisse tamb\u00e9m um enorme vazio. Em 1987, quando recebi a not\u00edcia de que o poeta havia falecido, senti um choque, uma sensa\u00e7\u00e3o pontiaguda de perda irrepar\u00e1vel, um abismo me engolia e as l\u00e1grimas brotavam de meu olhar fatigado. O poeta se foi e eu fiquei cativo de minha n\u00e3o-resposta, da perda de sua presen\u00e7a e de sua palavra. Mas, por outro lado, algo valioso eu ganhei: o sentido po\u00e9tico dessa falta, que se conforma e se alimenta na leitura da velha carta, na lembran\u00e7a de uma resposta n\u00e3o escrita, de uma visita n\u00e3o realizada, de um poema-homenagem que se escreve para sempre em minha mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 150px;\">\u00a0<strong>Drummond encantado <\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 150px;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"padding-left: 150px;\">H\u00e1 tantos anos,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 150px;\">o cora\u00e7\u00e3o do poeta desistiu<\/p>\n<p style=\"padding-left: 150px;\">de lutar com palavras.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 150px;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"padding-left: 150px;\">N\u00e3o lhe mandei minha letra,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 150px;\">nem recolhi sua imagem viva<\/p>\n<p style=\"padding-left: 150px;\">em meu olhar.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 150px;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"padding-left: 150px;\">O poeta encantou-se,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 150px;\">liberto de n\u00f3s e de si mesmo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 150px;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"padding-left: 150px;\">E a mim s\u00f3 me resta<\/p>\n<p style=\"padding-left: 150px;\">a letra \u00edntima da p\u00e1gina muda<\/p>\n<p style=\"padding-left: 150px;\">que nunca lhe escrevi.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; CARTA A UM JOVEM POETA \u00a0 Aleilton Fonseca Releio sempre a carta que o poeta Carlos Drummond de Andrade me enviou em 1981. 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