{"id":1053,"date":"2010-08-28T22:19:22","date_gmt":"2010-08-29T01:19:22","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=1053"},"modified":"2010-08-28T22:28:54","modified_gmt":"2010-08-29T01:28:54","slug":"a-baiana-do-acaraje-imagens-do-real-e-do-ideal-parte-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=1053","title":{"rendered":"A Baiana do acaraj\u00e9: Imagens do real e do ideal &#8211; Parte II"},"content":{"rendered":"<p>\u00a0<\/p>\n<h3 style=\"padding-left: 90px;\">O percurso identit\u00e1rio da baiana<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">A vendedora ambulante foi parte integrante da paisagem brasileira e, principalmente, de cidades como Rio de Janeiro, Salvador e Recife no passado, embora essa tradi\u00e7\u00e3o persista nos dias atuais, por ser uma atividade capaz de garantir a subsist\u00eancia para uma parcela significativa da popula\u00e7\u00e3o de baixa renda, exclu\u00edda do processo produtivo convencional. Esta vendedora ambulante, no entanto, segundo Pierre Verger,<a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftn1\">[1]<\/a> desenvolveu no Brasil atividades que j\u00e1 lhe eram familiares na \u00c1frica e ele explica tamb\u00e9m, que, a partir de meados do s\u00e9culo XVIII os africanos importados para a Bahia e Recife eram origin\u00e1rios do golfo do Benin ou da Costa dos Escravos, enquanto que as outras regi\u00f5es do Brasil continuavam a receber escravos do Congo e de Angola.<\/p>\n<p style=\"text-align: center; padding-left: 30px;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1054\" title=\"Ganhadeira\" src=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/Ganhadeira.jpg\" alt=\"\" width=\"266\" height=\"514\" srcset=\"https:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/Ganhadeira.jpg 266w, https:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/Ganhadeira-155x300.jpg 155w\" sizes=\"auto, (max-width: 266px) 100vw, 266px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Segundo esse autor, esse pormenor tem import\u00e2ncia fundamental visto que a proced\u00eancia dos escravos desembarcados na Bahia contribuiu para a originalidade da vida local e para justificar porque a Bahia tem caracter\u00edsticas diferentes de outras cidades brasileiras. Verger alerta ainda para o fato de que \u00e9 imprescind\u00edvel conhecer o espa\u00e7o ocupado pelas mulheres da sociedade iorub\u00e1, na \u00c1frica, onde a organiza\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia nessa etnia \u00e9 pol\u00edgama, o que colabora para que a mulher desfrute de maior liberdade, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s liga\u00e7\u00f5es mon\u00f3gamas. Estas mulheres s\u00e3o vistas apenas como progenitoras, capazes de preservar a linhagem familiar, n\u00e3o se integrando totalmente \u00e0 fam\u00edlia do marido, fato que lhes confere, tamb\u00e9m, uma certa independ\u00eancia. Nas sociedades nag\u00f4-ioruba, por exemplo, estas mulheres podem circular livremente e participar dos mercados das cidades vizinhas sendo, inclusive, boas comerciantes o que lhes permite amealhar somas consider\u00e1veis, at\u00e9 superiores \u00e0quelas ganhas por seus c\u00f4njuges.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Verger acrescenta que no Brasil existe uma situa\u00e7\u00e3o an\u00e1loga entre as mulheres de descend\u00eancia africana, embora j\u00e1 n\u00e3o haja espa\u00e7o para a grande fam\u00edlia que gira em torno do pai pol\u00edgamo. S\u00e3o as mulheres que mandam em casa e criam os filhos, geralmente de pais diferentes. E Verger conclui que, \u201celas vendem nos mercados e nas ruas, alimentos cozidos id\u00eanticos aos da \u00c1frica, tais como os acaraj\u00e9s\u201d<a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftn2\">[2]<\/a>\u2026 explicando que essas mulheres, descendentes dos nag\u00f4s preservaram o mesmo esp\u00edrito de iniciativa do seu pa\u00eds de origem e as mesmas tend\u00eancias dominadoras, tanto na fam\u00edlia como nas suas rela\u00e7\u00f5es com os outros. Essas observa\u00e7\u00f5es permitem, em contrapartida, identificar caracter\u00edsticas pr\u00f3prias das \u201cbaianas de acaraj\u00e9\u201d a trabalhadora das ruas da Bahia, que veremos no decorrer desse trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: center; padding-left: 30px;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1055\" src=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/BaianasDesenhoAntigo.jpg\" alt=\"\" width=\"356\" height=\"516\" srcset=\"https:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/BaianasDesenhoAntigo.jpg 396w, https:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/BaianasDesenhoAntigo-207x300.jpg 207w\" sizes=\"auto, (max-width: 356px) 100vw, 356px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">A venda ambulante de produtos diversos n\u00e3o \u00e9 uma atividade recente; no passado, era uma atividade caracter\u00edstica das escravas e libertas que, segundo Vilhena<a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftn3\">[3]<\/a>, era financiada pelos patr\u00f5es, o que lhes garantia a liberdade de pre\u00e7os e a n\u00e3o interfer\u00eancia de terceiros em seus neg\u00f3cios. A atividade dessas vendedoras remonta, segundo v\u00e1rios pesquisadores \u00e0 \u00e9poca colonial, quando as escravas de ganho se deslocavam pelas ruas das cidades com o objetivo de vender mercadorias diversas. K\u00e1tia de Queir\u00f3s Mattoso<a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftn4\">[4]<\/a> explica que no s\u00e9culo XIX a maioria das mulheres brancas n\u00e3o exerciam atividades fora dos limites de suas casas; por\u00e9m, quando eram obrigadas a refor\u00e7ar o or\u00e7amento familiar, realizavam trabalhos de bordados, costuras e doces para serem vendidos nas ruas pelas ganhadeiras. Estas senhoras, oriundas das classes m\u00e9dias, n\u00e3o se expunham a vender o fruto do seu trabalho na rua, delegando essas tarefa \u00e0s suas cativas,<a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftn5\">[5]<\/a> que, exercendo essa atividade, conseguiam por vezes comprar a pr\u00f3pria liberdade utilizando a quota de lucro que lhes cabia como recompensa do trabalho que executavam. T\u00e2nia Gandon,<a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftn6\">[6]<\/a> num trabalho sobre a comunidade de Itapu\u00e3, recolheu preciosas informa\u00e7\u00f5es, atrav\u00e9s da mem\u00f3ria coletiva do bairro, sobre as antigas vendedoras de peixes, conhecidas tamb\u00e9m como ganhadeiras, mostrando a trajet\u00f3ria dessas mulheres, que foram, certamente, as predecessoras das baianas dos dias atuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u00a0<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">As tr\u00eas baianas: personagens do passado, da rua e da can\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">No sentido dicionarizado, a palavra baiana \u00e9 identificada como \u201c<em>feminino substantivado do adjetivo baiano<\/em>\u201d, e como designa\u00e7\u00e3o da \u201cnegra mesti\u00e7a da Bahia, em especial a vendedora de quitandas, cuja indument\u00e1ria consta de saia rodada, bata de renda, turbante, pano da costa, colares e balangand\u00e3s\u201d. Um olhar sobre as fontes iconogr\u00e1ficas que retratam as escravas do passado, confirma que a indument\u00e1ria usada pelas vendedoras atuais quase n\u00e3o sofreu transforma\u00e7\u00f5es e muitos testemunhos sobre a eleg\u00e2ncia dessas mulheres chegaram at\u00e9 n\u00f3s atrav\u00e9s de viajantes e visitantes que percorreram as terras brasileiras<a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftn7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: center; padding-left: 30px;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1056\" src=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/baianaslavagembonfim6.jpg\" alt=\"\" width=\"462\" height=\"289\" srcset=\"https:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/baianaslavagembonfim6.jpg 513w, https:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/baianaslavagembonfim6-300x187.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 462px) 100vw, 462px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Pierre Verger<a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftn8\">[8]<\/a> esclarece que esse traje t\u00edpico das mesti\u00e7as baianas certamente seria origin\u00e1rio das etnias nag\u00f4-ioruba,<a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftn9\">[9]<\/a> cuja presen\u00e7a na Bahia do passado era consider\u00e1vel. Ele observa ainda que as pessoas dessa etnia africana vivem sobretudo em meio urbano, levando uma exist\u00eancia permeada de rela\u00e7\u00f5es quotidianas, n\u00e3o s\u00f3 com vizinhos, mas tamb\u00e9m em encontros de car\u00e1ter social nos mercados das cidades, atitudes que contrastam dos habitantes mais pr\u00f3ximos do Daom\u00e9, onde a vida tinha, geralmente, um car\u00e1ter rural; logo, a origem urbana da maioria dos escravos trazidos para a Bahia, poderia explicar o esmero no vestir das negras baianas que, ao que tudo indica, era mais evidente nessa cidade do que nas demais cidades brasileiras.<a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftn10\">[10]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Apesar de considerado como luxuoso e bonito, esse traje, no entanto, era peculiar \u00e0s negras e mulatas, sendo utilizados ocasionalmente pelas brancas tidas como \u201csem sorte\u201d, ou seja, pelas brancas pobres. Na realidade, ser uma \u201cmulher de saia\u201d \u2013 em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201cmulher de vestido\u201d<a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftn11\">[11]<\/a> &#8211; representava determinar simbolicamente a origem social dessas mulheres pertencentes \u00e0s camadas pobres da popula\u00e7\u00e3o. Esta marca de distin\u00e7\u00e3o entre as camadas sociais n\u00e3o impediu, no entanto, \u00e0 princesa real brasileira, Dona Isabel, de vestir-se de \u201cpreta baiana\u201d num baile \u00e0 fantasia realizado em 07 de fevereiro de 1865, em Londres, fato que foi comunicado por carta ao seu pai, o imperador Pedro II e que provocou surpresa e coment\u00e1rios da corte brasileira da \u00e9poca.<a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftn12\">[12]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Nina Rodrigues, descrevendo os usos e costumes das escravas baianas tamb\u00e9m faz alus\u00e3o \u00e0s roupas observando, por exemplo, que as trabalhadoras negras usavam saias largas e coloridas, batas de algod\u00e3o e pano da Costa; as negras ricas, por\u00e9m, acrescentavam ricos adornos \u00e0 sua indument\u00e1ria: as saias, nesse caso, eram de seda, a camisa de alvo linho e o pano da costa de rico tecido. Al\u00e9m disso, enfeitavam-se com braceletes de ouro que cobriam os bra\u00e7os at\u00e9 \u00e0 metade e na cintura traziam uma penca de berloques com a imprescind\u00edvel figa. Esses berloques s\u00e3o os famosos balangand\u00e3s, palavra que se tornou popular nos aos 30 gra\u00e7as \u00e0 can\u00e7\u00e3o <em>O que \u00e9 que a Baiana tem?<\/em>,<a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftn13\">[13]<\/a> de Dorival Caymmi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Segundo o historiador baiano Cid Teixeira a denomina\u00e7\u00e3o \u201cbaiana\u201d designando a vendedora ambulante \u00e9 recente e ele explica que a sua gera\u00e7\u00e3o, oriunda dos anos 20, n\u00e3o conhecia outra forma sen\u00e3o \u201ccrioula,\u201d para designar a vendedora de pratos t\u00edpicos daquela \u00e9poca. E ele acrescenta: \u201cOra, baiana ela j\u00e1 era, antes de qualquer coisa! N\u00f3s importamos a designa\u00e7\u00e3o \u201cbaiana\u201d, que era utilizada sobretudo no Rio de Janeiro.\u201d<a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftn14\">[14]<\/a> Em 1939, quando Dorival Caymmi, grava a can\u00e7\u00e3o <em>A preta do acaraj\u00e9<\/em>,<a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftn15\">[15]<\/a> que conquista um grande sucesso em todo o pa\u00eds, a vendedora que oferece os seus petiscos mercando em nag\u00f4, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 identificada por Caymmi como a \u201cbaiana\u201d e ele esclarece em o <em>Cancioneiro da Bahia<\/em>,<a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftn16\">[16]<\/a> que aqueles versos faziam parte das lembran\u00e7as da sua inf\u00e2ncia, quando escutava na rua em que morava, o canto triste da negra vendedora de acaraj\u00e9s: \u201c<em>\u00f4<\/em> <em>acaraj\u00e9 ec\u00f4, olala\u00ed \u00f3<\/em>\u201d<a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftn17\">[17]<\/a>\u2026 tendo inclusive, conservado na can\u00e7\u00e3o que comp\u00f4s as mesmas palavras e a mesma m\u00fasica do preg\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center; padding-left: 30px;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1059\" title=\"Foto: ATarde - ThiagoTeixeira\" src=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/BomfimATardeThiagoTeixeira.jpg\" alt=\"\" width=\"487\" height=\"319\" srcset=\"https:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/BomfimATardeThiagoTeixeira.jpg 541w, https:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/BomfimATardeThiagoTeixeira-300x196.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 487px) 100vw, 487px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Thales de Azevedo<a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftn18\">[18]<\/a> em trabalho publicado em 1953, tamb\u00e9m discorre sobre o assunto o que reitera a declara\u00e7\u00e3o de Cid Teixeira. Eis aqui as informa\u00e7\u00f5es do antrop\u00f3logo baiano: \u201cAos filhos de africanos nascidos no Brasil, chamava-se de crioulos, termo ainda hoje aplicado na sua forma feminina \u00e0s pretas e mulatas que se vestem como \u201cbaianas\u201d, com torso \u00e0 cabe\u00e7a, saia muito ampla, camisa alva bordada e muito decotada e um chale de cores nos ombros\u2026 As crioulas t\u00edpicas baianas s\u00e3o figuras t\u00edpicas das ruas das cidades, onde podem ser vistas ao transitarem para os centros de culto fetichistas ou sentadas junto a tabuleiros em que exp\u00f5em \u00e0 venda, especialmente durante as festas populares, os manjares da famosa cozinha local, em grande parte de origem africana<em>\u201d<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Existe por\u00e9m, outra forma de designar as mulheres naturais da Bahia, extensiva \u00e0s vendedoras das ruas da cidade, muito utilizada nos textos das can\u00e7\u00f5es; trata-se do substantivo iai\u00e1, uma deforma\u00e7\u00e3o da palavra senhora \u2013 sinh\u00e1 \u2013 que no sentido dicionarizado \u201c\u00e9 um tratamento dado \u00e0s meninas e \u00e0s mo\u00e7as, de largo uso no tempo da escravid\u00e3o e hoje quase abolido\u201d.<a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftn19\">[19]<\/a> Ora, sinh\u00e1, ou iai\u00e1, era portanto a \u201csenhorita\u201d e n\u00e3o a escrava. O uso, entretanto, banalizou o termo, sendo o mesmo utilizado para expressar a naturalidade das filhas da Bahia, como forma de tratamento carinhoso e mesmo como diminutivo, quando utilizado como apelido, de uso freq\u00fcente ainda nos dias atuais, principalmente nas cidades do interior do estado. Certo \u00e9 que o n\u00famero de can\u00e7\u00f5es cujos versos fazem refer\u00eancia \u00e0s \u201cIai\u00e1s da Bahia\u201d<a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftn20\">[20]<\/a> \u00e9 extenso, sendo a forma utilizada tamb\u00e9m no masculino \u2013 ioi\u00f4. Em can\u00e7\u00f5es como O <em>coco de Iai\u00e1,<a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftn21\">[21]<\/a><\/em> fica claro o prop\u00f3sito afetuoso: \u201cQuero provar minha iai\u00e1\/ doce de coco a\u00e7ucarado\u201d\u2026 J\u00e1 em can\u00e7\u00f5es como <em>Iai\u00e1 formosa,<a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftn22\">[22]<\/a><\/em> <em>Iai\u00e1<\/em> <em>baianinha,<a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftn23\">[23]<\/a> Iai\u00e1, ioi\u00f4 e a cu\u00edca<\/em><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftn24\">[24]<\/a>, <em>Iai\u00e1 da Bahia<\/em><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftn25\">[25]<\/a> e<em> Iai\u00e1 do Cais dourado<a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftn26\">[26]<\/a>, <\/em>fica evidente a designa\u00e7\u00e3o da mulher natural da Bahia, embora haja alus\u00f5es \u00e0 vendedora visto que o traje da baiana \u00e9 evocado, da mesma maneira que algumas das especialidades culin\u00e1rias locais preparadas por ela. Essas evoca\u00e7\u00f5es parecem, no entanto, querer refor\u00e7ar a imagem da \u201ciai\u00e1\u201d, a filha da Bahia que usa saia rodada, bata rendada e sand\u00e1lia dourada, talvez conhecedora da cozinha t\u00edpica, uma vez que a sua imagem \u00e9 sempre associada a ela, mas sobretudo, ex\u00edmia conhecedora dos segredos dos feiti\u00e7os e requebros capazes de conquistar cora\u00e7\u00f5es, como confirmam os versos da can\u00e7\u00e3o : \u201cbaiana \u00e9 aquela que entra no samba de qualquer maneira, que mexe e remexe d\u00e1 n\u00f3 nas cadeiras e deixa a mo\u00e7ada com \u00e1gua na boca\u201d\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: center; padding-left: 30px;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1057\" title=\"Foto: Thiago Teixeira - Jornal A Tarde\" src=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/BaianasATarde.jpg\" alt=\"\" width=\"487\" height=\"319\" srcset=\"https:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/BaianasATarde.jpg 541w, https:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/BaianasATarde-300x196.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 487px) 100vw, 487px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Pode-se deduzir, no que concerne a indument\u00e1ria e \u00e0s denomina\u00e7\u00f5es dadas \u00e0 baiana que existe uma estreita afinidade entre os nomes \u2013 crioula e baiana \u2013 e a profiss\u00e3o dessas mulheres, ou seja, a de vendedoras ambulantes urbanas de comidas t\u00edpicas, que se tornaram figuras obrigat\u00f3rias das ruas da cidade, conquistado o <em>status<\/em> de s\u00edmbolo da Bahia e at\u00e9 do Brasil.<a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftn27\">[27]<\/a> Desse modo, a \u201ccrioula\u201d e a \u201cpreta do acaraj\u00e9\u201d, do passado personificam a \u201cbaiana do acaraj\u00e9\u201d dos dias atuais, com algumas variantes do traje que as identifica e do comportamento, no que diz respeito \u00e0s obriga\u00e7\u00f5es e preceitos de cunho religioso, pois nem todas as mulheres que exercem essas atividades, no presente, est\u00e3o vinculadas ao candombl\u00e9, fato que era comum no passado.<a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftn28\">[28]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Quanto \u00e0 iai\u00e1, ela seria a \u201cbaiana ideal\u201d, a imagem ex\u00f3tica do cart\u00e3o postal, e da letra da can\u00e7\u00e3o popular, estereotipada e superficial, mas que tem boa aceita\u00e7\u00e3o junto ao p\u00fablico consumidor; a iai\u00e1, na realidade, n\u00e3o tem tra\u00e7os afins com a baiana tradicional, a comerciante, trabalhadora de longas jornadas, capaz de enfrentar os desafios das intemp\u00e9ries e as dificuldades comuns \u00e0queles que trabalham na rua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><strong><span style=\"color: #ff0000;\">Continua na p\u00e1gina seguinte<\/span>.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><strong>Artigo publicado<\/strong>:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><strong>DAVID Maria Lenilda Carneiro S. <em>A Baiana do acaraj\u00e9 : imagens do real e do ideal<\/em>, Revista da Biblioteca M\u00e1rio de Andrade, v. 57, S\u00e3o Paulo, jan.\/dez., 1999, p. 147-155.<\/strong><\/p>\n<hr style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\" size=\"1\" \/>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftnref1\">[1]<\/a> &#8211; VERGER, Pierre Fatumbi. <em>Artigos<\/em>, S\u00e3o Paulo, Corrupio, Cole\u00e7\u00e3o Baianada, Vol. I, 1992.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftnref2\">[2]<\/a> &#8211; VERGER, Pierre Fatumbi. <em>A contribui\u00e7\u00e3o especial das mulheres ao candombl\u00e9 do Brasil<\/em>, in <em>Artigos<\/em>, op. cit. p. 98-101.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftnref3\">[3]<\/a> &#8211; VILHENA, Lu\u00eds dos Santos. <em>A Bahia no s\u00e9culo XVIII<\/em>. Salvador, Itapu\u00e3, 1969, p. 237; citado por T\u00e2nia Gandon, <em>Un parcours de femme dans la ville. L\u2019Itin\u00e9raire de la <\/em><em>ganhadeira dans la culture bahianaise<\/em>, in <em>Les femmes dans la ville \u2013 Un dialogue franco-br\u00e9silien<\/em>, (Centre d\u2019Etudes sur le Br\u00e9sil), Presses de l\u2019Universit\u00e9 de Paris \u2013 Sorbonne, 1997, p. 65.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftnref4\">[4]<\/a> &#8211; QUEIROS MATTOSO, K\u00e1tia. <em>Bahia, s\u00e9culo XIX \u2013 Uma prov\u00edncia no Imp\u00e9rio<\/em>, 2a ed., Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, p. 536.<strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftnref5\"><strong><em>[5]<\/em><\/strong><\/a><strong><em> &#8211; <\/em><\/strong>QUEIR\u00d3S MATTOSO, K\u00e1tia.<em><strong> <\/strong>Hist\u00f3ria<\/em> <em>da vida privada no Brasil<\/em> (cole\u00e7\u00e3o dirigida por Fernando A. Novais, vol. organizado por Lu\u00eds Felipe de Alencastro), S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras, 1997, p. 163.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftnref6\">[6]<\/a> &#8211; GANDON T\u00e2nia. <em>Un parcours de femme \u00e0 travers la m\u00e9moire de la ville \u2013 L\u2019itin\u00e9raire de la \u2018ganhadeiras\u2019 dans la culture bahianaise<\/em>, in <em>Les femmes dans la ville, un dialogue franco-br\u00e9silien<\/em>, Centre d\u2019Etudes sur le Br\u00e9sil, Presses Universitaires de Paris &#8211; Sorbonne, 1997.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftnref7\">[7]<\/a> &#8211; S\u00e3o muitos os coment\u00e1rios sobre a eleg\u00e2ncia das negras baianas, deixados por viajantes estrangeiros, entre eles, BARBINAIS Le Gentil de la. <em>Voyage autour du monde<\/em>, Paris, 1728, Tomo III, p. 203; AVE-LALLEMENT Robert. <em>Viagem pelo norte do Brasil<\/em><strong><em>,<\/em><\/strong> Rio 1961, Tomo I, p. 21: WETHERELL James. <em>Notes from Bahia<\/em>, Liverpool, 1860, p. 72. Citados por Pierre Verger, in <em>Artigos<\/em>, Ed. Corrupio, Cole\u00e7\u00e3o Baianada, S\u00e3o Paulo, 1992.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftnref8\">[8]<\/a> &#8211; VERGER Pierre Fatumbi. <em>A origem africana da eleg\u00e2ncia das mulheres negras da Bahia<\/em>, in <em>Artigos<\/em>, op. cit, p. 106-107.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftnref9\">[9]<\/a> &#8211; Existe uma pol\u00eamica em torno da origem do traje da baiana; alguns autores atribuem a sua origem ao Daom\u00e9, divergindo deste pesquisador.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftnref10\">[10]<\/a> &#8211; Por volta de 1830, Debret assinalava que \u00ab\u00a0com as perturba\u00e7\u00f5es pol\u00edticas ocorridas na Bahia em 1822, verificou-se uma grande imigra\u00e7\u00e3o de tr\u00e2nsfugas\u2026 elas distinguiam-se pela sua \u2018toilette\u2019. As negras da Bahia reconhecem-se facilmente pelos seus turbantes e ela largura dos seus len\u00e7os de seda; quanto ao demais do vestu\u00e1rio, ele \u00e9 composto por uma blusa de musselina bordada, sobre a qual elas colocam uma baeta bordada cujas riscas caracterizam o fabrico da Bahia. O valor da blusa e a quantidade das j\u00f3ias em ouro s\u00e3o os principais objetos da sua coqueteria\u201d .DEBRET Jean-Baptiste. <em>Voyage pittoresque au Br\u00e9sil<\/em>, Paris, 1834, Vol. II, p. 223.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftnref11\">[11]<\/a> &#8211; VIANNA, Hildegardes. <em>A Bahia j\u00e1 foi assim<\/em>, 2a ed. S\u00e3o Paulo, GDR \/ Bras\u00edlia, Instituto Nacional do Livro, 1979, p. 146, citado por T\u00e2nia Gandon, op. cit. p. 66.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftnref12\">[12]<\/a> &#8211; AULER Guilherme. \u00ab\u00a0<em>A Redentora e o Recife<\/em>\u00a0\u00bb, Arquivos 21, 47 e 84, Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o e Cultura, Recife, 1925-1965, citado por Lu\u00eds da C\u00e2mara Cascudo, <em>Dicion\u00e1rio do folclore brasileiro<\/em>, Rio de Janeiro, Ediouro, 1972, p. 126.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftnref13\">[13]<\/a> &#8211; <em>O que \u00e9 que a baiana tem<\/em>\u00a0? Can\u00e7\u00e3o de Dorival Caymmi, gravada pelo autor em parceria com Carmen Miranda, disco Odeon 11.710a, em 1939.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftnref14\">[14]<\/a> &#8211; Cid Teixeira concedeu-me uma entrevista, que foi devidamente registrada em fita cassete, no dia 7 de agosto de 1996 em seu escrit\u00f3rio no bairro da Pituba em Salvador, entre 9h e 13.30h.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftnref15\">[15]<\/a> &#8211; A preta do acaraj\u00e9 \u2013 M\u00fasica e letra de Dorival Caymmi, disco Odeon n\u00b0 11710b, gravada em 1939 e cantada pelo autor e por Carmen Miranda. \u201c<em>Dez horas da noite \/ Na rua deserta \/ A preta mercando \/ Parece um lamento\u2026 (I\u00ea abar\u00e1) Na sua gamela \/ Tem molho cheiroso, Pimenta-da-costa \/ Tem acaraj\u00e9 \u2013 Todo mundo gosta de acaraj\u00e9 \/ O trabalho que d\u00e1 pra fazer \u00e9 que \u00e9 \/ Todo mundo gosta de acaraj\u00e9 \u2013 Todo mundo gosta de abar\u00e1 \/ Ningu\u00e9m quer saber o trabalho que d\u00e1 \/ Todo mundo gosta de abar\u00e1 \/ Todo mundo gosta de acaraj\u00e9\u2026 Dez horas da noite \/ Na rua deserta \/ Quanto mais distante \/ Mais triste o lamento (I\u00ea abar\u00e1<\/em>)\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftnref16\">[16]<\/a> &#8211; CAYMMI Dorival. <em>Cancioneiro da Bahia<\/em>, pref\u00e1cio de Jorge Amado, 5a ed., Rio de Janeiro, Record, 1978, p. 160.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftnref17\">[17]<\/a> &#8211; O preg\u00e3o das vendedoras ambulantes das ruas da Bahia era cantado em iorub\u00e1; \u201c\u00f4 acar\u00e1 j\u00ea ec\u00f4\u201d, que significa \u201cvem comer acar\u00e1\u201d; \u00e0 palavra acar\u00e1 acabou sendo incorporado o verbo \u201cj\u00ea\u201d \u2013 comer &#8211; resultando hoje em acaraj\u00e9. Esclarecimento de Cid Teixeira em entrevista concedida \u00e0 autora em 07\/08\/96.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftnref18\">[18]<\/a> &#8211; AZEVEDO, <em>Thales. As elites de cor numa cidade brasileira\u00a0: um estudo de ascens\u00e3o social &amp; classes sociais e grupos de prest\u00edgio<\/em>, apresenta\u00e7\u00e3o e pref\u00e1cio de Maria de Azevedo Brand\u00e3o, 2a ed., Salvador, EDUFBA \u2013 EGBA, 1996, p. 37; t\u00edtulo original da 1<sup>a<\/sup> edi\u00e7\u00e3o, <strong><em>Les \u00e9lites de couleur dans une ville br\u00e9silienne<\/em><\/strong>, Paris, UNESCO, 1953.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftnref19\">[19]<\/a> BUARQUE DE HOLANDA, Aur\u00e9lio. <em>Dicion\u00e1riio<\/em> <em>da L\u00edngua Portuguesa<\/em>, Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1979, p. 254. Verbete: iai\u00e1 &#8211;\u00a0 (i\u00e0-i\u00e1)[De sinh\u00e1.] &#8211; S. f. Bras. Fam. 1. Tratamento dado \u00e0s meninas e \u00e0s mo\u00e7as, de largo uso no tempo da escravid\u00e3o e hoje quase abolido; nhanh\u00e1, nhanh\u00e3, nan\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftnref20\">[20]<\/a>   &#8211; Repertoriei cerca de oitenta can\u00e7\u00f5es onde s\u00e3o encontradas as palavras iai\u00e1 e ioi\u00f4.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftnref21\">[21]<\/a> &#8211; <em>O coco de Iai\u00e1<\/em>, composi\u00e7\u00e3o de Am\u00e9rico Jacomino, cantada por Pil\u00e9, disco n\u00b0 10.015a, Odeon, 1927.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftnref22\">[22]<\/a> &#8211; \u201cQue iai\u00e1 formosa \/ teu ioi\u00f4 eu hei de ser<em>\u2026 Com sand\u00e1lia cor de ouro \/ Saia cheia de babado \/ Oh baiana \u00e9s um tesouro, quando dan\u00e7a o requebrado<\/em>\u201d\u2026 <em>Iai\u00e1 formosa<\/em>, samba de A de Souza Rego, cantada par Silvio Pinto, disco Col\u00fambia, N\u00b0 22.260, 1934.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftnref23\">[23]<\/a> &#8211; \u201c<em>Iai\u00e1 baianinha, pimenta de cheiro,\/ Cheirando a leite de coco, arruda e manjeric\u00e3o \/ Machuca, machuca meu cora\u00e7\u00e3o \/ Sacode mulata a saia engomada<\/em>\u201d\u2026 <em>Iai\u00e1 baianinha<\/em> \u2013 Humberto Porto, cantada pelo Trio de Ouro\u00a0; disco Odeon n\u00b0 11.611a, 1938.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftnref24\">[24]<\/a> &#8211; \u201c-<em>Pimenta de cheiro, com vatap\u00e1!\/ -Pra quem iai\u00e1?\/ -Pra voc\u00ea ioi\u00f4<\/em>\u201d\u2026 <em>Iai\u00e1, Ioi\u00f4 e a cu\u00edca<\/em> \u2013Fausto Vasconcelos e F. Martins, cantada em dupla por J. B. de Carvalho e Nena. Robledo, disco Odeon n\u00b0 11.882a, gravado em 1940.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftnref25\">[25]<\/a> &#8211; \u201c<em>Iai\u00e1 da Bahia chegou\/ Batuque n\u00e3o pode parar\/ Levanta a poeira do ch\u00e3o\/ Bate surdo o pandeiro e o ganz\u00e1<\/em>\u201c\u2026<em>Iai\u00e1 da Bahia<\/em>. Ary Barroso, cantada por Deo, disco Sinter n\u00b0 00000080a, 1951.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftnref26\">[26]<\/a> &#8211; \u00ab\u00a0<em>No cais dourado da velha Bahia\/ Onde estava o capoeira\/ a Iai\u00e1 tamb\u00e9m se via\u00a0\/ Juntos na feira ou na romaria, no banho de cachoeira e tamb\u00e9m na pescaria\/ dan\u00e7avam juntos em todo fandango e festinha<\/em>\u00a0\u00bb\u2026<em>Iai\u00e1 do Cais Dourado<\/em>, samba-enredo de Martinho da Vila e Rodolfo de Souza, apresentado pela Escola de Samba Vila Isabel no\u00a0 carnaval de 1969, gravado pelo selo Arabela BMG, disco n\u00b0 60034335, 1972.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftnref27\">[27]<\/a> &#8211; O samba exalta\u00e7\u00e3o que ocupa um lugar de destaque na m\u00fasica popular dos anos 30-40, canta o Brasil e sua natureza, sua riqueza, suas mulheres   e tradi\u00e7\u00f5es, focalizando na Bahia atrav\u00e9s da imagem de Carmen Miranda e com a ajuda dos baianos, uma s\u00e9rie de valores ideol\u00f3gicos que s\u00e3o sistematicamente exploradas para a propaganda do Brasil no exterior, sendo inclusive, incentivados pelo DIP, enquanto o Brasil escuta ao p\u00e9 do r\u00e1dio, as proezas do Brasil mulato e da baiana de saia rendada. A este respeito, consultar: <em>M\u00fasica &#8211; O nacional e<\/em> <em>o popular na cultura brasileira<\/em>, Enio Squeff e Jos\u00e9 Miguel Wisnik, S\u00e3o Paulo, Brasiliense, 1982; Afonso Romano de Santana, <em>M\u00fasica popular e moderna poesia brasileira<\/em>, Petr\u00f3polis, Vozes, 1986.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/paste\/pasteword.htm?ver=327-1235#_ftnref28\">[28]<\/a> &#8211; Sobre as pr\u00e1ticas e preceitos religiosos das \u201cbaianas de acaraj\u00e9\u201d, ver LODY, Raul. <em>Santo tamb\u00e9m come<\/em>, 2a ed. Rio de Janeiro, Editora Pallas, 1998. (Pref\u00e1cio de Gilberto Freyre para a 1a edi\u00e7\u00e3o (1978) e de Maria Stella de Azevedo (M\u00e3e Stella, do Ax\u00e9 Op\u00f4 Afonj\u00e1), para a 2a ed.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 O percurso identit\u00e1rio da baiana A vendedora ambulante foi parte integrante da paisagem brasileira e, principalmente, de cidades como Rio de Janeiro, Salvador e Recife no passado, embora essa tradi\u00e7\u00e3o persista nos dias atuais, por ser uma atividade capaz &hellip; <a href=\"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=1053\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[18,12],"tags":[349,400,34],"class_list":["post-1053","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-coisas-da-bahia","category-memoria","tag-bahia","tag-baiana-do-acaraje","tag-leni-david"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1053","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1053"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1053\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1063,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1053\/revisions\/1063"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1053"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1053"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1053"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}