{"id":1178,"date":"2010-10-16T17:27:57","date_gmt":"2010-10-16T20:27:57","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=1178"},"modified":"2011-09-15T15:43:02","modified_gmt":"2011-09-15T18:43:02","slug":"a-rainha-da-primavera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=1178","title":{"rendered":"A Rainha da Primavera"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1179\" src=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/10\/Nara2.jpg\" alt=\"\" width=\"212\" height=\"243\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 360px;\"><em>Leni David<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Ela tinha uns oito anos e se chamava Iara. Era gorducha e usava \u00f3culos de lentes espessas como fundos de garrafa; os \u00f3culos eram amarrados a um peda\u00e7o de el\u00e1stico que contornava a cabe\u00e7a e mesmo assim ela os quebrava com muito frequ\u00eancia. Seu rosto rosado e rechonchudo, emoldurado por cabelos louros   e encaracolados, lembrava aqueles anjos barrocos pintados nos tetos das velhas igrejas da Bahia. A rua onde morava era tranquila e cheia de crian\u00e7as. Iara brincava com a meninada da vizinhan\u00e7a e muitas vezes as brincadeiras terminavam em tapas e choros, pois n\u00e3o aceitava que a chamassem de feia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Iara tinha seis irm\u00e3s e tr\u00eas irm\u00e3os. Viviam todos numa casa antiga e espa\u00e7osa onde havia um quintal e onde sobravam estripulias de crian\u00e7as. As hist\u00f3rias contadas depois do jantar pelos mais velhos falavam de almas penadas, de botijas enterradas cheias de dinheiro, no tempo de Lampi\u00e3o; hist\u00f3rias de lobisomens, de mulas sem-cabe\u00e7a e de uma m\u00e3e d\u2019\u00e1gua que morava na Gurunga, uma cachoeirinha muito bonita que ficava perto dali. Hist\u00f3rias povoadas por princesas sofredoras e madrastas perversas, contadas em tom solene e misterioso, na cozinha, ao p\u00e9 do fog\u00e3o antigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">O padrinho de Iara, seu tio Jonas, era irm\u00e3o do seu pai. Ele era solteir\u00e3o, gorducho, tinha um defeito em uma das pernas que o fazia mancar um pouco, e sua voz era fanhosa. Tio Jonas n\u00e3o tinha filhos e paparicava muito a sua sobrinha-afilhada. Ele era viajado. Conhecia toda a Am\u00e9rica Latina, visitava sempre o Rio de Janeiro, e se hospedava no Hotel Quitandinha, numa \u00e9poca em que para se chegar at\u00e9 l\u00e1 era preciso embarcar num navio e viajar durante uma semana, ou mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Tio Jonas n\u00e3o fazia contas quando se tratava de oferecer presentes, ou satisfazer os caprichos da menina. Quando ele vinha \u00e0 cidade para visitar a fam\u00edlia, usava um terno branco de diagonal e um chap\u00e9u de baeta, arranjado na cabe\u00e7a com eleg\u00e2ncia. Tinha no dedo anular da m\u00e3o direita um anel de ouro muito largo onde se viam gravadas, em relevo, as iniciais do seu nome. Para prender a gravata ele usava um alfinete de ouro adornado por um diamante que lan\u00e7ava fa\u00edscas cintilantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Sua presen\u00e7a era sempre notada, pois exalava um cheiro bom de perfume caro. Sorridente, chegava \u00e0 cidade com muitas malas, \u00e0s vezes t\u00e3o numerosas que eram necess\u00e1rios dois carregadores para transport\u00e1-las. Repletas de pacotes de presentes. Os mais apreciados eram as guloseimas: ma\u00e7\u00e3s argentinas, vermelhas e cheirosas, produto luxuoso para aqueles tempos; bombons enrolados em pap\u00e9is coloridos, chocolates acondicionados em caixas que pareciam de ouro e prata. Naquela \u00e9poca s\u00f3 havia uma sorveteria na cidade e quase ningu\u00e9m possu\u00eda uma geladeira. Mas o padrinho de Iara comprava tigelas enormes de sorvetes, quilos de sorvetes, de v\u00e1rios sabores e cores, uma orgia de regalos gelados e a\u00e7ucarados para a meninada e para os grandes tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Iara frequentava uma escola pr\u00f3xima \u00e0 sua casa. Num fim de tarde ela chegou em casa trazendo uma grande not\u00edcia; haveria uma festa no m\u00eas de setembro, quando seria escolhida a rainha da primavera entre as meninas mais bonitas da turma; a festa tinha como objetivo arrecadar fundos para melhorar as instala\u00e7\u00f5es do pr\u00e9dio escolar que estava degradado. Para eleger a rainha todas as crian\u00e7as receberiam cart\u00f5ezinhos que valeriam votos; assim, a candidata que vendesse mais votos seria coroada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Iara decidiu que ia candidatar-se a rainha da primavera, mas a professora foi contra a sua candidatura:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">&#8211; Voc\u00ea n\u00e3o pode! Voc\u00ea \u00e9 loura, mas n\u00e3o \u00e9 bonita!!!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Mas ningu\u00e9m conseguiu dissuadi-la. Tamb\u00e9m em casa, toda a fam\u00edlia tentou demov\u00ea-la da id\u00e9ia; sem sucesso. Por\u00e9m, ela foi apoiada plenamente pelo av\u00f4 e pelo padrinho, que se encantaram com a novidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">No dia seguinte ela comunicou \u00e0 professora que seria candidata e esta, mesmo a contragosto, foi obrigada a aceitar a candidatura da menina e a entregar-lhe cem cart\u00f5ezinhos para serem vendidos e transformados em votos. Muito compenetrada e confiante, Iara conseguiu vender votos aos familiares e vizinhos; vendeu todos os cart\u00f5es. E mais uma vez chegou em casa com uma nova remessa de cart\u00f5es, que foi comprada pelo av\u00f4 e pelo tio Jonas. Da\u00ed em diante, todos os cart\u00f5es que lhe eram confiados eram vendidos sem demora, perfazendo uma soma consider\u00e1vel de votos e de dinheiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">No dia da apura\u00e7\u00e3o o padrinho acompanhou a afilhada. Desde o in\u00edcio da contagem dos votos, Iara vencia com larga vantagem, quando o pai de uma das candidatas ofereceu mais dinheiro para eleger a filha. O tio Jonas, ent\u00e3o, proclamou diante dos presentes, com sua voz forte e fanhosa:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">&#8211; Se voc\u00eas cobrirem a soma que ela arrecadou, est\u00e3o perdendo tempo! Quantos voc\u00eas querem? Dois mil? Tr\u00eas mil?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">O sil\u00eancio caiu sobre a sala. Todos se entreolharam em sil\u00eancio, quando a professora proclamou Iara a nova Rainha da Primavera da escola, com uma larga margem de votos a seu favor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Alguns dias antes da festa o padrinho viajou para a capital visando os preparativos para a coroa\u00e7\u00e3o. Na sua volta deixou toda a fam\u00edlia estupefata com os objetos e ornamentos que adquirira para abrilhantar a festa da afilhada. Trouxe cetro prateado e coroa de p\u00e9rolas; um manto de veludo azul marinho bordado de lantejoulas. Sapatos de verniz e um magn\u00edfico vestido de tafet\u00e1 cor-de-rosa, de mangas bufantes, estampado de bolinhas da mesma cor do manto. Uma beleza! Ah, trouxe tamb\u00e9m\u00a0 novos \u00f3culos, com arma\u00e7\u00e3o prateada, que deixou a menina encantada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">No dia da festa o padrinho requisitou toda a fam\u00edlia e amigos para organizar o desfile. &#8220;Sua Majestade&#8221; deveria chegar \u00e0 escola em grande pompa. Toda a rua teve o privil\u00e9gio de assistir ao cortejo singular: duas meninas vestidas de branco abriam o pr\u00e9stito projetando p\u00e9talas de rosas sobre o caminho por onde passaria a Rainha da Primavera; em seguida, uma outra menina vestida como princesa deslocava-se lentamente levando nas m\u00e3os uma almofada de veludo azul-marinho, onde estava acomodada a coroa de p\u00e9rolas. A futura soberana, sorridente e feliz, caminhava devagar levando nas m\u00e3os o cetro prateado. Seis garotas da vizinhan\u00e7a tamb\u00e9m faziam parte do cortejo segurando as bordas do longo manto real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Houve comes e bebes, dan\u00e7as e muitas brincadeiras durante a festa da coroa\u00e7\u00e3o. Quando tudo acabou Iara voltou para casa com os p\u00e9s descal\u00e7os, os sapatos novos nas m\u00e3os e com a cabe\u00e7a adornada pela coroa de p\u00e9rolas. Ela estava cansada e feliz, as faces coradas e o rosto sorridente, iluminado. Algumas meninas portavam as outras pe\u00e7as da indument\u00e1ria da Rainha, por puro prazer. A partir daquele dia, at\u00e9 que a coroa se desfizesse em peda\u00e7os e o manto se tornasse um trapo desbotado, muitas crian\u00e7as foram coroadas reis e rainhas nas brincadeiras da crian\u00e7ada da rua. E nunca mais a chamaram de feia!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Leni David Ela tinha uns oito anos e se chamava Iara. 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