{"id":1247,"date":"2010-11-17T18:41:38","date_gmt":"2010-11-17T21:41:38","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=1247"},"modified":"2011-09-15T18:23:33","modified_gmt":"2011-09-15T21:23:33","slug":"centenario-homenagem-a-rachel-de-queiroz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=1247","title":{"rendered":"Centen\u00e1rio &#8211; Homenagem a Rachel de Queiroz"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 style=\"padding-left: 270px;\">Um caso obscuro\u00a0<\/h4>\n<p style=\"padding-left: 390px;\"><em>Rachel de Queiroz<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">N\u00e3o quero fazer campanha contra quem acredita em esp\u00edritos, quem tem vis\u00f5es ou ouve &#8220;avisos&#8221;. Espiritismo \u00e9 religi\u00e3o t\u00e3o respeit\u00e1vel quanto qualquer outra. Quero apenas prevenir meu amigo leitor contra alguma convers\u00e3o apressada, porque o fato \u00e9 que as for\u00e7as da terra muitas vezes se misturam com as for\u00e7as do c\u00e9u.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">O caso que passo a contar como exemplo, naturalmente que e ver\u00eddico. Se fosse a cronista inventar um conto, teria que apurar muito mais o enredo e os personagens, dar-lhes veracidade e complexidade. E, ali\u00e1s, como fic\u00e7\u00e3o ele n\u00e3o teria import\u00e2ncia nem sentido. O seu valor \u00fanico e a autenticidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Certa professora de grupo, minha conhecida, tem uma empregada, senhora cinq\u00fcentona, de cara s\u00e9ria e jeito discreto, natural de Suru\u00ed, no Estado do Rio, de onde veio h\u00e1 poucos meses. E l\u00e1 em Suru\u00ed deixou a m\u00e3e cega e enferma, da qual n\u00e3o tinha not\u00edcias desde que viera para a cidade. Analfabeta, n\u00e3o escrevia nem recebia cartas. Essa gente da ro\u00e7a n\u00e3o acredita muito em correspond\u00eancia sen\u00e3o para not\u00edcias capitais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Mas um belo dia acordou a empregada, que se chama Joana, chorando, abalad\u00edssima, queixando-se de estranhas vis\u00f5es. Dizia que passara toda a noite acordada; mas n\u00e3o pudera chamar ningu\u00e9m porque com o medo ficara sem fala. Sentira uns assopros no ouvido, depois lhe sacudiam a cama, como se fosse um terremoto. Por fim vira a m\u00e3e, a velhinha cega, estirada num caix\u00e3o, metida numa mortalha preta. Toda a manh\u00e3 a mulher chorou e lamentou-se. A patroa, penalizada, ofereceu-se para mandar um telegrama   pedindo noticias. Joana por\u00e9m tinha medo\u00a0 de telegramas:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u2014 E mais medo tem minha m\u00e3e. Chegando telegrama l\u00e1, se ela ainda estiver viva morre s\u00f3 de susto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Estavam nisso as coisas quando ao meio-dia aparece na casa da professora um filho homem de Joana, que tamb\u00e9m reside na cidade. Trazia na m\u00e3o um envelope fechado, sem carimbo nem selo. Era uma carta vinda em m\u00e3o pr\u00f3pria da sua terra, explicou o mo\u00e7o. E como ele tamb\u00e9m n\u00e3o sabia ler, pediram \u00e0 patroa que abrisse e lesse a missiva \u2014 ali\u00e1s curta e comovente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">&#8220;Minha irm\u00e3 como vai esta tem por fim de lhe dizer que a nossa m\u00e3e est\u00e1 \u00e0s portas da morte j\u00e1 de vela na m\u00e3o. Joana se apresse sin\u00e3o n\u00e3o v\u00ea mais nossa m\u00e3e adeus do seu irm\u00e3o Bas\u00edlio.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Chegando assim aquela carta, ap\u00f3s a s\u00e9rie de vis\u00f5es noturnas, era impressionante. E a pr\u00f3pria patroa a abrira, excluindo-se assim a possibilidade de conhecimento pr\u00e9vio do conte\u00fado. Era uma dessas bofetadas que o mundo dos invis\u00edveis atira aos pobres humanos, deixando-os cheios de susto e d\u00favida. Com seus pr\u00f3prios ouvidos escutara a patroa pela manh\u00e3 a hist\u00f3ria do assopro, das sacudidelas na cama, da figura amortalhada no caix\u00e3o. Com suas m\u00e3os recebera a carta, com seus olhos lera o endere\u00e7o tremido e obl\u00edquo, e depois a lac\u00f4nica m\u00e1 nova. Naturalmente deu imediata licen\u00e7a a Joana para a viagem. Grande falta lhe faria em casa, mas quem pode pensar em impedir um filho de despedir-se da m\u00e3e, \u00e0 hora da morte? E deu-lhe mais dinheiro, deu-lhe um vestido preto quase novo, consultou o hor\u00e1rio dos trens, forneceu provis\u00f5es para a viagem. N\u00e3o era s\u00f3 caridade de burguesa progressista que a animava, mas principalmente o interesse do profano por uma criatura feita instrumento das for\u00e7as do Incognosc\u00edvel. E Joana partiu. A patroa ficou contando a hist\u00f3ria aos conhecidos; contou por boca e por telefone. Chegou a contar por carta. N\u00e3o a repetiu \u00e0s crian\u00e7as no grupo s\u00f3 de medo de assust\u00e1-las com essas coisas misteriosas que ficam entre o c\u00e9u e a terra. O caso era t\u00e3o simples, t\u00e3o l\u00edquido: resumia-se apenas a fatos dos quais ela pr\u00f3pria era testemunha. E fazia c\u00e1lculos: a carta deve ter partido de Suru\u00ed na antev\u00e9spera, de modo que a velha bem podia estar mesmo morrendo na hora das vis\u00f5es noturnas de Joana. Ficou a esperar impaciente a volta da viajante. Sim, porque Joana pediu que o seu lugar fosse conservado, que, consumado tudo, voltaria. &#8220;Nem espero a semana de nojo, patroa. Venho logo depois do enterro.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">E, falando em enterro, rompeu em pranto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Passados oito dias, chegou Joana, mas ainda com a saia estampadinha de encarnado com a qual partira, em vez do vestido de seda preta que lhe dera a patroa, prevendo o luto. Sim, a velha continuava viva. Contou que a m\u00e3e estivera de fato muito ruim, vai-n\u00e3o-vai, mas de repente melhorara. Por isso Joana se demorara mais, at\u00e9 que a melhora parecesse segura. E voltou a trabalhar como dantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Aquela quase ressurrei\u00e7\u00e3o desorientou a patroa. Afinal, a velha aparecera de mortalha, e dera o assopro, e sacudira a cama&#8230; Mas consultando sobre o assunto os amigos esp\u00edritas, eles lhe explicaram que era assim mesmo, e tanto o esp\u00edrito encarnado como o desencarnado poderia mandar &#8220;avisos&#8221;. Falaram mesmo em corpo astral, e a professora se impressionou muito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Nesse estado moral ficou, meio abalada, meio crente, at\u00e9 que um dia sucedeu dessas incr\u00edveis, dessas raras coincid\u00eancias que s\u00f3 acontecem na vida real e nos romances de fancaria: recebeu a visita de uma amiga a quem tamb\u00e9m contara a hist\u00f3ria da vis\u00e3o. A amiga vinha de prop\u00f3sito lhe narrar a tal coincid\u00eancia inaudita. Imagine-se que o filho de Joana por acaso fora trabalhar em sua casa, consertando-lhe o jardim. L\u00e1 estava fazia uma quinzena quando inexplicavelmente desapareceu por uma semana. Passados os oito dias, voltou, e alegou motivo de mol\u00e9stia para a aus\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">No jardim, revolvendo os canteiros, podando o f\u00edcus, estabeleceu-se entre jardineiro e patroa esse entendimento normal entre companheiros de trabalho, Ela explicava como queria o servi\u00e7o, ele dizia que na casa do Dr. Fulano fazia assim e assim, que enxerto de mergulha s\u00f3 \u00e9 bom com lua tal etc. Afinal, ela lhe perguntou que doen\u00e7a fora a sua, dias antes. O rapaz, que enterrava umas batatas de d\u00e1lia, ficou encabulado. Depois, teve assim como um assomo de consci\u00eancia, e explicou:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u2014 Patroa, falar a verdade \u00e9 preciso. N\u00e3o estive doente n\u00e3o. Mas o caso \u00e9 que minha m\u00e3e meteu na id\u00e9ia ir em casa, com vontade de assistir umas ladainhas que rezam l\u00e1 no m\u00eas de agosto. Como estava num emprego bom, teve medo que a dona-de-casa se zangasse com uma viagem assim \u00e0-toa e n\u00e3o guardasse o lugar para ela, de volta. Ent\u00e3o se combinou comigo, s\u00f3 por causa de n\u00e3o fazer a mo\u00e7a se zangar. Pegou a ter uns sonhos com a minha av\u00f3, enfiava os olhos na fuma\u00e7a do fogo para sair chorando. Ai eu mandei um companheiro fazer uma carta chamando, dizendo que a velha estava morrendo, l\u00e1 no Suru\u00ed. A patroa consentiu logo, naturalmente. Tive que fazer companhia a minha m\u00e3e, assistimos as ladainhas e agora estamos os dois de volta \u00e0 nossa obriga\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">A mo\u00e7a ficou espantad\u00edssima:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u2014 Mas, criatura, como \u00e9 que sua m\u00e3e teve a coragem de chamar assim morte para cima de sua av\u00f3? Voc\u00eas n\u00e3o tiveram medo do agouro?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u2014 Qual, dona! Uma velha daquela, cega, doente, em cima duma cama, dando trabalho e consumi\u00e7\u00e3o a todo mundo, chamar a morte para ela n\u00e3o \u00e9 agouro; chamar a morte para ela \u00e9 mais uma obra de caridade. E dai, agouro que fosse, v\u00ea-se bem que n\u00e3o pegou&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Texto \u00a0extra\u00eddo do livro<em> &#8220;<\/em><em>Quatro Vozes<\/em>&#8220;<em>, <\/em>Distribuidora Record. Rio de Janeiro, 1998, p\u00e1g. 35.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><strong>Para ler a biografia de Rachel de Queiroz, clique <\/strong><a href=\"http:\/\/www.releituras.com\/racheldequeiroz_bio.asp\"><strong>aqui<\/strong><\/a><strong>.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Um caso obscuro\u00a0 Rachel de Queiroz\u00a0 N\u00e3o quero fazer campanha contra quem acredita em esp\u00edritos, quem tem vis\u00f5es ou ouve &#8220;avisos&#8221;. Espiritismo \u00e9 religi\u00e3o t\u00e3o respeit\u00e1vel quanto qualquer outra. 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