{"id":1458,"date":"2011-02-16T01:32:18","date_gmt":"2011-02-16T04:32:18","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=1458"},"modified":"2011-11-20T02:05:35","modified_gmt":"2011-11-20T05:05:35","slug":"matryoshka-baboushka-matriosca-mae-mulher","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=1458","title":{"rendered":"Matryoshka, Baboushka, Matriosca&#8230; M\u00e3e, Mulher"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1459\" title=\"Foto: Leni David\" src=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/Marioska1.jpg\" alt=\"\" width=\"404\" height=\"538\" srcset=\"https:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/Marioska1.jpg 404w, https:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/Marioska1-225x300.jpg 225w\" sizes=\"auto, (max-width: 404px) 100vw, 404px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center; padding-left: 240px;\">\u00a0Para Mabel<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Quando eu era menina, certo dia encontrei uma caixa diferente entre as coisas da minha tia. Ela era de madeira fina, dourada, e tinha a forma de um cubo de aproximadamente dez cent\u00edmetros de lado. Abri e dentro dela encontrei outra caixinha, um pouco menor. Retirei-a do interior da primeira, abri a tampa e outra caixinha apareceu. A \u00faltima era uma caixinha min\u00fascula e dentro dela havia um papelzinho dobrado onde estava escrito: \u201cvoc\u00ea \u00e9 a raz\u00e3o do meu viver\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">N\u00e3o lembro quantas vezes realizei o gesto, mas sei que foram muitas caixas que abri, pois o canto onde realizei essa fa\u00e7anha ficou repleto das mesmas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Confesso que esperava encontrar alguma coisa mais valiosa, como um broche, ou um anel. Aquele papelzinho me pareceu insignificante; dobrei direitinho e o acomodei dentro da caixa min\u00fascula, um pouco frustrada;\u00a0 comecei a fech\u00e1-las, uma por uma, para devolv\u00ea-las ao lugar onde as havia encontrado, mas as tampas n\u00e3o encaixavam corretamente, apesar do meu empenho. N\u00e3o consegui, e para meu desespero fui surpreendida, repreendida severamente, chamada de enxerida, buli\u00e7osa e ainda levei uns tapas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center; padding-left: 30px;\">\u00a0<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1460\" title=\"Foto: Leni David\" src=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/Marioskas2.jpg\" alt=\"\" width=\"413\" height=\"551\" srcset=\"https:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/Marioskas2.jpg 413w, https:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/Marioskas2-224x300.jpg 224w\" sizes=\"auto, (max-width: 413px) 100vw, 413px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Muitos anos depois recebi um presente de uma amiga que havia chegado da ent\u00e3o Uni\u00e3o sovi\u00e9tica. Era uma Matryoshka, uma boneca t\u00edpica, s\u00edmbolo nacional e muito reputada como <em>souvenir<\/em>. A minha amiga explicou que dentro daquela bonequinha de madeira haviam outras iguais, mas de tamanhos menores, numa sequ\u00eancia que variava de cinco a oito e que se repetia em escala decrescente. Nessa \u00e9poca eu morava muito longe da minha terra natal e aquele presente me trouxe de volta \u00e0 inf\u00e2ncia. Sorri, comecei a abrir as bonecas e o epis\u00f3dio das caixas da minha tia vieram \u00e0 tona. Arrumei-as com muito carinho, enfileiradas, sobre a estante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Guardo essas bonequinhas com muito carinho; primeiro, porque a amiga que me ofereceu o presente, Myriam, n\u00e3o se encontra mais entre n\u00f3s. Faleceu, v\u00edtima de uma leucemia, aos vinte e sete anos de idade. Era uma pessoa muito querida,\u00a0 e o seu desaparecimento provocou em mim uma dor enorme, al\u00e9m da saudade que perdura at\u00e9 hoje. Segundo, porque essas bonecas t\u00eam o dom de me apaziguar e de me encorajar, quando preciso. Gosto tamb\u00e9m de mostrar as minhas Matryoshkas \u00e0s crian\u00e7as que v\u00eam \u00e0 minha casa e como eu, no passado, com as caixinhas da minha tia, raramente elas conseguem encaix\u00e1-las e recomp\u00f4-las para que se tornem personagem \u00fanica.<\/p>\n<p style=\"text-align: center; padding-left: 30px;\">\u00a0<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1461 aligncenter\" title=\"Foto: Leni David\" src=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/Marioskas3.jpg\" alt=\"\" width=\"551\" height=\"413\" srcset=\"https:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/Marioskas3.jpg 551w, https:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/Marioskas3-300x224.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 551px) 100vw, 551px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Depois aprendi que essas bonecas surgiram na \u00e9poca do Imp\u00e9rio Russo, em 1890, quando instituiu-se a produ\u00e7\u00e3o de brinquedos educativos e folcl\u00f3ricos. As primeiras Matryoshkas reproduziam as camponesas com seus trajes coloridos. Aprendi, tamb\u00e9m, que a primeira Matryoshka foi pintada por\u00a0Serguei Mal\u00fatin\u00a0 para ser exposta na feira internacional de Paris, em 1900 \u2013 onde ganhou medalha de ouro por sua originalidade. Atualmente \u00a0ela se encontra no Museu do Brinquedo em Serguiev Posad. E a partir da\u00ed as Matryoshkas v\u00eam sendo cultuadas como\u00a0 s\u00edmbolo nacional e objetos de desejo dos colecionadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Essas bonecas\u00a0representam a fam\u00edlia. A tradu\u00e7\u00e3o literal do nome Matryoshka \u00e9 \u201cm\u00e3ezinha\u201d (m\u00e3e = mater; e oshka, o\u00a0diminutivo). Tamb\u00e9m aprendi que apesar da import\u00e2ncia dessas bonequinhas no artesanato russo, elas t\u00eam sua origem no Jap\u00e3o. Em 1890 um brinquedo que\u00a0representava um s\u00e1bio budista, foi trazido do Jap\u00e3o e presenteado \u00e0 fam\u00edlia Mam\u00f4ntov, grandes patrocinadores das artes no virar do s\u00e9culo. Usando o boneco japon\u00eas como modelo, o artes\u00e3o Vassily Zvy\u00f4zdotchkin e o pintor Serguei Mal\u00fatin criaram ent\u00e3o a primeira Matryoshka russa, batizando-a\u00a0 com uma varia\u00e7\u00e3o do nome russo Matryona, que deriva de mat&#8217; (m\u00e3e). Mostrada com grande sucesso no pavilh\u00e3o do Imp\u00e9rio Russo na exposi\u00e7\u00e3o internacional de 1900 em Paris, desde ent\u00e3o as Matryoshkas s\u00e3o meio de vida para os artes\u00e3os e fazem a alegria de quem as recebe como presente.<\/p>\n<p style=\"text-align: center; padding-left: 30px;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1462\" title=\"Foto: Leni David\" src=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/Marioskas4.jpg\" alt=\"\" width=\"551\" height=\"413\" srcset=\"https:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/Marioskas4.jpg 551w, https:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/Marioskas4-300x224.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 551px) 100vw, 551px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">H\u00e1 pouco tempo descobri que a famosa Matryoshka, tamb\u00e9m \u00e9 conhecida como Baboushka. Finalmente, tamb\u00e9m descobri que carregamos conosco muitas Matryoshcas. Temos uma apar\u00eancia externa, a grande matriosca, a que todo mundo v\u00ea, e no interior, v\u00e1rias outras, parecidas, cada uma delas carregando consigo predicados e defeitos. S\u00e3o elas que nos fazem fortes, destemidas, ousadas, desaforadas, s\u00e1bias, justas, ou inconsequentes. S\u00e3o elas tamb\u00e9m que vacilam, sofrem e choram. O importante, por\u00e9m, \u00e9 o renascer constante; \u00e9 a sabedoria de olhar l\u00e1 fora e descobrir sa\u00eddas poss\u00edveis. E como diz Ad\u00e9lia Prado, \u201cMulher \u00e9 desdobr\u00e1vel. Eu sou\u201d.E temos v\u00e1rias camadas, digo eu, como as Matrioscas!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 480px;\">Leni David<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u00a0<strong>Observa\u00e7\u00e3o<\/strong>: Publicado originalmente no &#8220;De tudo um pouco&#8221; em 25\/08\/2009<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; \u00a0Para Mabel Quando eu era menina, certo dia encontrei uma caixa diferente entre as coisas da minha tia. Ela era de madeira fina, dourada, e tinha a forma de um cubo de aproximadamente dez cent\u00edmetros de lado. 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