{"id":1580,"date":"2011-03-12T17:07:52","date_gmt":"2011-03-12T20:07:52","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=1580"},"modified":"2011-09-12T23:59:28","modified_gmt":"2011-09-13T02:59:28","slug":"mais-um-conto-de-luis-pimentel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=1580","title":{"rendered":"Mais um conto de Lu\u00eds Pimentel"},"content":{"rendered":"<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"padding-left: 210px;\"><strong>A dilig\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 300px;\"><em>Lu\u00eds Pimentel<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Era eu mais o cabo Chico, na empreitada. O cabo era respons\u00e1vel pela dilig\u00eancia, por conta da patente, s\u00f3 mesmo pela patente. Apesar de soldado raso, sempre fui mais destemido do que ele, \u00e9 bom que se diga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">N\u00e3o que Chico fosse frouxo, n\u00e3o era bem assim. E n\u00e3o digo isto pelo fato de ele ser meu superior, pois n\u00e3o sou de me curvar a formalidades nem me presto ao of\u00edcio de puxa-saco. Mas a verdade \u00e9 que se tratava de homem de costumes muito jeitosos e delicadeza de alma inaceit\u00e1veis para quem tinha que lidar com indiv\u00edduos de m\u00e1 \u00edndole, salafr\u00e1rios, gatunos e at\u00e9 assassinos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Muitas vezes, na sala de interrogat\u00f3rio \u2013 melhor lugar para se destrinchar uma quest\u00e3o e se ler a natureza de um sujeito bom ou mau \u2013, vi o cabo Chico demonstrar moleza incompat\u00edvel com a farda, dispensar a verdadeiros fac\u00ednoras tratamento que deve ser dispensado s\u00f3 a homens de bem. Cora\u00e7\u00e3o mole. Maior tolice que um homem pode fazer \u00e9 dar ouvidos e cora\u00e7\u00e3o a quem n\u00e3o deve.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Eu dizendo gente ruim \u00e9 gente ruim, cabo, n\u00e3o perca seu tempo, meu amigo. Ele respondendo soldado, deixe disso, soldado, n\u00e3o julgue um filho de Deus pela apar\u00eancia nem acuse ningu\u00e9m de ter feito um malfeito s\u00f3 porque disseram que o malfeito foi feito. O infeliz se aproveitando dos bons sentimentos do coitado e repetindo \u00e9 isso, cabo, pois \u00e9 isso, meu cabo, \u00e9 o que tenho dito aqui desde o dia em que cheguei. Mas esse soldadinho a\u00ed n\u00e3o me escuta e s\u00f3 quer saber de bater e bater, como se estivesse lidando com um jegue empacado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">E o inocente do Chico me condenando, n\u00e3o quero saber de valentia aqui dentro, rapaz, interrogue sem apelar para a maldade, n\u00e3o fa\u00e7a isto, pois n\u00e3o aceito viol\u00eancia aqui, soldado, como se eu fosse o meliante e o outro o bonzinho. J\u00e1 se viu?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">N\u00e3o que \u00e0s vezes o sangue n\u00e3o ferva, a m\u00e3o n\u00e3o fique pesada e eu n\u00e3o perca a cabe\u00e7a. Acontece. Mas n\u00e3o tinha acontecido ainda com aquele peste sem vergonha, e isto foi o que mais me doeu.\u00a0 Eu dizendo n\u00e3o encostei a m\u00e3o nesse traste, cabo, e o cabo gritando n\u00e3o minta, n\u00e3o minta, soldado, que o homem est\u00e1 com o olho roxo, a testa aberta, o bei\u00e7o inchado. T\u00e3o desgra\u00e7ado o desgra\u00e7ado, que at\u00e9 se feriu no prego da porta para dizer que fui eu quem o machucou, e depois sair da Delegacia rindo e debochando da autoridade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Mas a justi\u00e7a n\u00e3o falha e o miser\u00e1vel apareceu morto em um buraco escuro, dias depois de sumir da minha frente. O cabo Chico pensa que fui eu o providenciador do desaparecimento e fez de tudo para me enquadrar numa penca de processos, at\u00e9 administrativos, para que eu perdesse o ganha-p\u00e3o e ainda fosse preso. S\u00f3 n\u00e3o conseguiu por falta de provas. Pois provas n\u00e3o s\u00e3o encontradas em qualquer esquina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No dia da dilig\u00eancia, marcada com quase uma semana\u00a0 de anteced\u00eancia, n\u00f3s deixamos a Delegacia em Riach\u00e3o bem cedo, seguindo o rastro de um sujeito com cara de perigoso, que estava escondido e acoitado l\u00e1 para os lados do Moqu\u00e9m, em uma tocaia que j\u00e1 durava bom tempo, \u00e0 espera de algum inocente para roubar ou matar. Ou roubar e matar, que gente ruim n\u00e3o economiza na hora do mau servi\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">N\u00e3o t\u00ednhamos sequer um retrato do malfeitor para nos orientar nas buscas, para mostrar a um passante e perguntar se viu um cabra assim e assado que nem esse, mas fomos em frente, tendo como base o retrato falado que era s\u00f3 falado mesmo, pois nem eu nem o cabo sabia desenhar para transformar o retrato falado em desenhado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Acabou se tornando um retrato gravado na mente, tanto que os autores da queixa descreveram o homem, de queixo comprido, dentes para fora, bigode grosso, nariz fino, olho sei l\u00e1 como, testa n\u00e3o sei de que jeito. Tamb\u00e9m sab\u00edamos que o mal encarado tinha umas costeletas fora de moda que desciam do cabelo pela curva da barba, at\u00e9 o meio da cara. Quer dizer, devia ser feio como o diabo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Enchemos os alforjes de carne seca, pre\u00e1 e frango assados, rapadura e farinha. Enganchamos no lombo do burro tamb\u00e9m, preso na cela, um vasilhame grande cheio de \u00e1gua fresca. Prontos para a guerra, para a guerra partimos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">A pesquisa junto aos moradores do vilarejo come\u00e7ou na manh\u00e3 do dia seguinte. A gente ia perguntando se viu passar hoje, ontem ou qualquer dia um sujeito assim, de queixo comprido, dentes para fora, bigode grosso, nariz fino, olho sei l\u00e1 como, testa n\u00e3o sei de que jeito e amplas costeletas. Eu perguntava, oferecia a descri\u00e7\u00e3o, o povo ia dizendo n\u00e3o e n\u00e3o, n\u00e3o vi, nunca vi, e o cabo Chico s\u00f3 agradecendo, obrigado, muito obrigado, gentil que s\u00f3 uma freira, sequer se dando conta de que aqueles n\u00e3os todos n\u00e3o passavam de desfa\u00e7atez, os matutos estavam era protegendo o endiabrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">A minha preocupa\u00e7\u00e3o era s\u00f3 encontrar o rastro do sujeito, para lev\u00e1-lo s\u00e3o e salvo \u00e0s barras do Tribunal e faz\u00ea-lo pagar pelo crime cometido. O delegado me amofinando, estamos perto do homem, soldado, vamos peg\u00e1-lo, voc\u00ea ter\u00e1 que se comportar como autoridade policial e n\u00e3o como torturador. O senhor n\u00e3o vai me triscar um dedo no preso, soldado, \u00e9 uma ordem, n\u00e3o \u00e9 um pedido. Parecia que falava de um santo e   n\u00e3o de um monstro, agora vejam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Era ele, s\u00f3 podia ser aquele, n\u00e3o tinha como ser outro o indiv\u00edduo que encontramos na terceira ou quarta manh\u00e3 de buscas, deitado em uma esteira, \u00e0 sombra do umbuzeiro florido e forrado de umbus, uns verdes e outros amarelos. O cabo fez o gesto com a m\u00e3o para que eu me contivesse e passou \u00e0 minha frente, como a mostrar quem carregava a maior patente e era o respons\u00e1vel pela\u00a0 miss\u00e3o, grande bosta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Perguntou se podia fazer umas perguntas e o suspeito respondeu que sim, sem demonstrar qualquer susto ou apreens\u00e3o. Nem um pouco preocupado com a presen\u00e7a da lei, c\u00ednico que s\u00f3 ele. Olhei bem nos olhos do sonso e fui dizendo muito bonita essa sua costeleta, seu fulano, h\u00e1 quanto tempo o senhor a usa? O cabo me mandou calar a boca, calar a boca, e se dirigiu ao queixo fino como se estivesse se dirigindo a um pr\u00edncipe: j\u00e1 andou por tal lugar assim, assim? Conheceu fulano de tal? Envolveu-se em briga n\u00e3o sei quando, que resultou em morte? \u00c9 fugitivo? Porta arma de fogo ou faca, punhal, peixeira?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">E o descarado n\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o senhor, n\u00e3o fiz, n\u00e3o andei, n\u00e3o briguei, n\u00e3o uso arma, n\u00e3o sou eu, n\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o, meu sangue subindo pelas veias do pesco\u00e7o, pois via a mentira nos olhos do cabra ruim, e o cabo nada de agir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">At\u00e9 que eu disse cabo, preste aten\u00e7\u00e3o, cabo, ora, ora, cabo, ao menos reviste o homem, n\u00e3o adianta perguntas e s\u00f3 perguntas porque esse dem\u00f4nio vai negar e mentir at\u00e9 n\u00e3o ag\u00fcentar mais. O cabo disse se acalme, n\u00e3o me acalmei. Agarrei o costeleta pelos colarinhos, sacudi para um lado e para o outro, para cima e para baixo, porque se tivesse qualquer arma de fogo ou de l\u00e2mina escondida no corpo ia cair. E caiu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Caiu o canivete que o suspeito carregava no bolso da bunda, enquanto eu gritava est\u00e1 a\u00ed a prova, a prova a\u00ed est\u00e1, a arma com a qual o bigode grosso perpetrou o crime. Foi ent\u00e3o que o cabo me empurrou para tr\u00e1s, tomou o homem de minhas m\u00e3os e o levou para detr\u00e1s de uma cerca que passava rente ao umbuzeiro. Dando ordens para que eu me acalmasse, ficasse onde estava, n\u00e3o desse um passo \u00e0 frente, pois ia interrogar o suspeito a s\u00f3s, imaginem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Eu fiquei para morrer, com vontade de enforcar o cabr\u00e3o e tamb\u00e9m o cabo conivente, e logo, logo o bestalh\u00e3o saiu de tr\u00e1s da cerca, ordenando vamos embora, soldado, vamos embora que o homem \u00e9 inocente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Eu disse cabo, pelo amor de Deus, cabo, ponha a m\u00e3o na consci\u00eancia, eu n\u00e3o acredito que o senhor acredite na inoc\u00eancia desse meliante. O homem \u00e9 inocente, ele repetia, inocente, esse a\u00ed nunca matou nem uma mosca. Eu j\u00e1 estava com os nervos querendo sair todos pela boca quando perguntei e o canivete, cabo, o senhor n\u00e3o viu o canivete? Ele respondeu com a serenidade de um anjo e n\u00e3o com a firmeza de um policial:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u2013 O canivete ele usa para descascar laranja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">E ainda repetiu, nas minhas barbas, diante dos meus olhos arregalados, dos olhos arregalados do burro de carga que nos esperava para fazer o caminho de volta:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">&#8211; Para descascar laranja.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 A dilig\u00eancia Lu\u00eds Pimentel Era eu mais o cabo Chico, na empreitada. O cabo era respons\u00e1vel pela dilig\u00eancia, por conta da patente, s\u00f3 mesmo pela patente. 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