{"id":1855,"date":"2011-05-11T23:52:33","date_gmt":"2011-05-12T02:52:33","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=1855"},"modified":"2011-09-12T23:13:40","modified_gmt":"2011-09-13T02:13:40","slug":"uma-cronica-de-nelida-pinon","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=1855","title":{"rendered":"Uma cr\u00f4nica de N\u00e9lida Pi\u00f1on"},"content":{"rendered":"<p style=\"padding-left: 30px;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1860\" src=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/carnaval.gif\" alt=\"\" width=\"475\" height=\"469\" srcset=\"https:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/carnaval.gif 475w, https:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/carnaval-300x296.gif 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 475px) 100vw, 475px\" \/><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A M\u00c1SCARA DO MEU ROSTO<\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\">Estou prestes a sair de casa. Abro o arm\u00e1rio. Urge escolher a m\u00e1scara, das muitas que eu tenho, para ir \u00e0 rua. Com ela enfrentarei os dissabores e as aventuras do meu cotidiano. Afinal, ela \u00e9 a ponte que cruzo para alcan\u00e7ar os demais seres.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\">Minhas m\u00e1scaras acomodam-se na prateleira, em meio \u00e0s bolsas. Todas parecidas,   elas diferenciam-se entre si apenas em detalhes impercept\u00edveis aos olhos alheios. S\u00e3o raros aqueles que surpreendem a natureza da minha m\u00e1scara. Reconhecem que rio, choro ou encontro-me na imin\u00eancia de velejar para um hemisf\u00e9rio long\u00ednquo, de onde, quem sabe, n\u00e3o regresso t\u00e3o cedo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\">Enquanto muitos confessam, em conson\u00e2ncia, com triste ad\u00e1gio, que suas vidas s\u00e3o um livro aberto, nada tenho a esconder dos homens, sou justo o contr\u00e1rio, n\u00e3o sei viver sem as m\u00e1scaras, que me protegem, s\u00e3o a salvaguarda da minha liberdade.\u00a0 E ainda que se provem elas em muitos momentos incapazes de me proteger, n\u00e3o importa. Afinal, a vida n\u00e3o permite previs\u00f5es, lances antecipados. Para enfrentar certos conflitos, seria necess\u00e1rio revestir-se da m\u00e1scara de ferro, que traz consigo o sopro da morte.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\">Duvido que algu\u00e9m prescinda do uso da m\u00e1scara. Ande inadvertido pelo mundo, oferecendo o rosto cru dos seus sentimentos. Desajeitado e pobre, quando poderia dispor, a qualquer hora, de mais de mil m\u00e1scaras, capazes todas de impulsionar o espet\u00e1culo humano, de corresponder \u00e0 natureza do seu dono, de encharcar de vinagre e esperan\u00e7a qualquer cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\">As m\u00e1scaras que levo pelas manh\u00e3s coladas \u00e0 pele t\u00eam recursos m\u00faltiplos. Fogem ao meu controle. Fazem-se de gestos, do franzir da testa, das rugas em torno dos olhos, dos sulcos pr\u00f3ximos \u00e0 comissura dos l\u00e1bios.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\">Integram um sistema que esconde e revela ao mesmo tempo quem sou. Desgovernada, inescrupulosa, cheia de raz\u00e3o e de f\u00faria, padecendo, como os demais, da enfermidade dos sentimentos. E que embora esteja sob a guarda das m\u00e1scaras, n\u00e3o est\u00e1 a salvo dos que nos observam com luneta. Donos de um olhar que semeia, a respeito de quem seja, uma vers\u00e3o contr\u00e1ria \u00e0 que quer\u00edamos.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\">As m\u00e1scaras, sem d\u00favida, ajudam-me a viver. Levam-me \u00e0s cerim\u00f4nias solenes, onde confirmo educa\u00e7\u00e3o recebida. Acompanham-me nos momentos em que sangro, a despeito da minha aparente indiferen\u00e7a. E s\u00e3o elas ainda que me perguntam qual das m\u00e1scaras usar em determinada festa. Acaso a m\u00e1scara que engendrei ao longo dos anos, e que me serve como um chinelo velho? Aquela que \u00e9 dissimulada, cujo desassombro assusta-me, pois revela aos vizinhos o que eu mantinha sob resguardo? Ou a outra, que aspira sobrepor-se \u00e0 tirania das conven\u00e7\u00f5es, quer rasgar o v\u00e9u da hipocrisia, emitir as palavras acomodadas no ba\u00fa dos enigmas? Ser\u00e1 a m\u00e1scara que alardeia arrog\u00e2ncia, ansiosa por deixar consignada nas paredes do mundo uma \u00fanica mensagem que justifique sua exist\u00eancia?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\">Olho-me ao espelho. Estarei usando m\u00e1scara mesmo quando estou sozinha? Acaso j\u00e1 n\u00e3o vivo sem ela, s\u00f3 respiro por meio de artif\u00edcios? \u00c9 ela que me deixa ser alada e terrestre, me permite voar e contornar seres e objetos de cristal? \u00c9 a m\u00e1scara que pousa desajeitada no meu pr\u00f3prio rosto, onde h\u00e1 de ficar para sempre, at\u00e9 derreter um dia como se fora feita de cera?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\">N\u00e9lida Pi\u00f1on &#8211; Cr\u00f4nica publicada em 29\/09\/1997, no jornal OESP, Suplemento Feminino.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A M\u00c1SCARA DO MEU ROSTO Estou prestes a sair de casa. Abro o arm\u00e1rio. 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