{"id":2232,"date":"2011-08-14T00:07:18","date_gmt":"2011-08-14T03:07:18","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=2232"},"modified":"2011-09-12T16:09:58","modified_gmt":"2011-09-12T19:09:58","slug":"festa-da-irmandade-da-boa-morte-em-cachoeira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=2232","title":{"rendered":"Festa da Irmandade da Boa Morte em Cachoeira"},"content":{"rendered":"<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2233\" title=\"Foto: Adenor Gondim\" src=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/NSBoaMorte.jpg\" alt=\"\" width=\"476\" height=\"326\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">A Festa da Boa Morte acontece todos os anos na cidade de Cachoeira, no rec\u00f4ncavo baiano. Pensei em escrever alguma coisa sobre essa tradi\u00e7\u00e3o, mas desisti do intento ao ler o texto que publico abaixo, escrito por Gustavo Falcon, pesquisador e professor da UFBa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">A Festa da Boa Morte ocorre desde 1820. A tradi\u00e7\u00e3o foi reconhecida pelo governo como Patrim\u00f4nio Imaterial da Bahia, em junho de 2010, passando a contar com o apoio do Estado. Este ano, o evento acontece a partir de\u00a0hoje (13), at\u00e9 quarta-feira (17).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">A Irmandade \u00e9 composta por uma confraria de 23 mulheres, descendentes de escravos africanos e com mais de 50 anos de idade, unidas pela devo\u00e7\u00e3o a Nossa Senhora. De acordo com historiadores locais, a confraria surgiu quando um grupo de ex-escravas reuniu-se para conseguir a alforria de outros escravos de Cachoeira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Vale a pena conhecer a hist\u00f3ria da Irmandade, sua luta, obriga\u00e7\u00f5es, hierarquia e suas manifesta\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><strong>BOA MORTE, UMA IRMANDADE DE EXALTA\u00c7\u00c3O \u00c0 VIDA!\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0AIY\u00ca-ORUN<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">A hist\u00f3ria da confraria religiosa da Boa Morte se confunde com a maci\u00e7a importa\u00e7\u00e3o de negros da costa da \u00c1frica para o Rec\u00f4ncavo canavieiro da Bahia, onde o g\u00eanio aventureiro ib\u00e9rico edificou belas cidades como a de Cachoeira, segunda em import\u00e2ncia econ\u00f4mica na Bahia durante tr\u00eas s\u00e9culos. O fato de ser constitu\u00edda apenas por mulheres negras, numa sociedade patriarcal e marcada por forte contraste racial e \u00e9tnico, emprestou a esta manifesta\u00e7\u00e3o afro-cat\u00f3lica, como querem alguns, not\u00e1vel fama, seja pelo que expressa do catolicismo barroco brasileiro, de indeclin\u00e1vel presen\u00e7a processional na rua, seja por certa tend\u00eancia para a incorpora\u00e7\u00e3o aos festejos propriamente religiosos de rituais profanos pontuados de muito samba e rega-bofe. H\u00e1 que acrescentar ao g\u00eanero e ra\u00e7a dos seus membros a condi\u00e7\u00e3o de ex-escravos ou descendentes deles, importante caracter\u00edstica social sem a qual seria dif\u00edcil entender tanto aspectos ligados aos compromissos religiosos da confraria, onde ressalta a enorme habilidade dos antigos escravos para cultuar a religi\u00e3o dos dominantes sem abrir m\u00e3o de suas cren\u00e7as ancestrais, como tamb\u00e9m aqueles aspectos ligados \u00e0 defesa, representa\u00e7\u00e3o social (porque n\u00e3o?) pol\u00edtica dos interesses dos adeptos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><strong>Origem Remota e uma Luta Antiga <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">No Brasil Colonial e depois, j\u00e1 no pa\u00eds independente mas ainda escravocrata, proliferaram irmandades. Para cada categoria ocupacional, ra\u00e7a, na\u00e7\u00e3o &#8211; sim, porque os escravos africanos e seus descendentes procediam de diferentes locais com diferentes culturas &#8211; havia uma. Dos ricos, dos pobres, dos m\u00fasicos, dos pretos, dos brancos, etc. Quase nenhuma de mulheres, e elas, nas irmandades dos homens, entraram sempre como dependentes para assegurarem benef\u00edcios corporativos advindos com a morte do esposo. Para que uma irmandade funcionasse, diz o historiador Jo\u00e3o Jos\u00e9 Reis, precisava encontrar uma igreja que a acolhesse e ter aprovados os seus estatutos por uma autoridade eclesi\u00e1stica. Muitas conseguiram construir a sua pr\u00f3pria Igreja como a do Ros\u00e1rio da Barroquinha, com a qual a Boa Morte manteve estreito contato. O que ficou conhecido como devo\u00e7\u00e3o do povo de candombl\u00e9. O historiador cachoeirano Luiz Cl\u00e1udio Nascimento afirma que os atos lit\u00fargicos originais da Irmandade de cor da Boa Morte eram realizados na Igreja da Ordem Terceira do Carmo, templo tradicionalmente freq\u00fcentado pelas elites locais. Posteriormente as irm\u00e3s transferiram-se para a Igreja de Santa B\u00e1rbara, da Santa Casa da Miseric\u00f3rdia, onde existem imagens de Nossa Senhora da Gl\u00f3ria e da Boa Morte. Desta, mudaram-se para a bela Igreja do Amparo desgra\u00e7adamente demolida em 1946 e onde hoje encontram-se moradias de classe m\u00e9dia de gosto duvidoso. Da\u00ed sa\u00edram para a Igreja Matriz, sede da freguesia, indo depois para a Igreja da Ajuda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">O fato \u00e9 que n\u00e3o se sabe ao certo precisar a data exata de sua origem. Odorico Tavares arrisca uma opini\u00e3o: a devo\u00e7\u00e3o teria come\u00e7ado mesmo em 1820, na Igreja da Barroquinha, tendo sido os g\u00eages, deslocando-se at\u00e9 Cachoeira, os respons\u00e1veis pela sua organiza\u00e7\u00e3o. Outros ressaltam a mesma \u00e9poca, divergindo quanto \u00e0 na\u00e7\u00e3o das pioneiras, que seriam alforriadas Ketu. Parece que o \u201ccorpus\u201d da irmandade continha variada proced\u00eancia \u00e9tnica j\u00e1 que fala-se em mais de uma centena de adeptas nos seus primeiros anos de vida. Historicamente essa data parece fazer sentido. Desde o in\u00edcio do s\u00e9culo passado o Rec\u00f4ncavo viveu uma atmosfera de progresso e novas t\u00e9cnicas agr\u00edcolas e industriais ali s\u00e3o introduzidas. Em que se pese as dificuldades moment\u00e2neas da economia a\u00e7ucareira, o fumo ganhou novo alento quando come\u00e7a a interessar, ap\u00f3s a independ\u00eancia pol\u00edtica do pa\u00eds, ao capital alem\u00e3o. A inaugura\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o de navega\u00e7\u00e3o a motor favorece esses bafejos de renova\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, estimulando a integra\u00e7\u00e3o do Rec\u00f4ncavo com a Capital da Prov\u00edncia e o aumento dos seus neg\u00f3cios, o que favorece a constru\u00e7\u00e3o de s\u00f3lidos la\u00e7os entre os negros escravos de muitas cidades, sobretudo de Salvador e Cachoeira. Jeferson Bacelar chama a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que a d\u00e9cada de 20 do s\u00e9culo passado, sobretudo os seus tr\u00eas primeiros anos, \u00e9 marcada por acentuado processo de agita\u00e7\u00e3o e acirramento dos \u00e2nimos da popula\u00e7\u00e3o baiana, boa parte da qual, sem distin\u00e7\u00e3o social, encontra-se envolvida na luta pela Independ\u00eancia, aqui caracterizada por forte esp\u00edrito anti-lusitano e refregas armadas. O clima de distens\u00e3o entre senhores e escravos, suscitado por essa \u201cunidade\u201d\u00a0 moment\u00e2nea, contribuiu para permanentes deslocamentos dos negros pelas cidades do Rec\u00f4ncavo, onde os senhores manifestaram incomum aten\u00e7\u00e3o na resolu\u00e7\u00e3o do conflito e, para defenderem seus interesses, armaram os escravos e os utilizaram contra os portugueses. Dessa excepcional conjuntura resultaram in\u00fameras iniciativas religiosas e civis dos escravos, entre as quais, quem sabe, a pr\u00f3pria Irmandade da Boa Morte. O pesquisador Ant\u00f4nio Morais Ribeiro associa seu surgimento \u00e0s senzalas, apostando na conjuntura abolicionista p\u00f3s-Revolta dos negros islamizados na Bahia que se deu em 1835 e foi barbaramente esmagada. Quem sabe da\u00ed o toque claramente mu\u00e7ulmano na morfologia tradicional dos trajes de grande for\u00e7a e rara beleza, real\u00e7ados pelo uso do turbante, como assinala Raul Lody.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Ant\u00f4nio Morares acredita que uma das presum\u00edveis l\u00edderes da Revolta Isl\u00e2mica, Luiza Mahim, em pessoa, esteve envolvida na constitui\u00e7\u00e3o da Irmandade, ap\u00f3s a sua fuga de Salvador para o Rec\u00f4ncavo. Conjecturas \u00e0 parte, estas confrarias &#8211; religiosas ou n\u00e3o &#8211; como foi o caso da estudada pelo antrop\u00f3logo Julio Braga &#8211; a Sociedade Protetora dos Desvalidos &#8211; faziam mais do que cultuar santos cat\u00f3licos e orix\u00e1s patronos dos seus afiliados. Ao tempo que aparentemente atendiam exig\u00eancias eclesi\u00e1sticas e legais, constitu\u00edam-se em verdadeiras associa\u00e7\u00f5es de classe, reservadas, e por tr\u00e1s de suas apar\u00eancias de fachadas davam curso aos interesses secretos dos seus membros. Respeitadas institui\u00e7\u00f5es de solidariedade eram a um s\u00f3 tempo express\u00e3o viva da permuta inter\u00e9tnica e amb\u00edguo instrumento de controle social cujos participantes \u201cadministravam\u201d criativamente. A confraria sempre obrigou aos seus membros a colaborarem. J\u00f3ias de entrada, anuidades, esmolas coletadas e outras formas de renda sempre foram usadas para os mais diversos fins: compra de alforria, realiza\u00e7\u00e3o de festejos, obriga\u00e7\u00f5es religiosas, pagamento de missas, caridade, vestu\u00e1rio. No caso da Boa Morte, integrada por mulheres bastante simples e quase todas idosas &#8211; entre 50 e 70 anos &#8211; os recursos arrecadados em vida buscaram sempre, a concess\u00e3o de um funeral decente, cujo preparo, face a dupla milit\u00e2ncia religiosa de suas adeptas, exige rigor e entendimento, al\u00e9m de um certo pec\u00falio f\u00fanebre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><strong>As Obriga\u00e7\u00f5es Corporativas e a Manifesta\u00e7\u00e3o de Agosto <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">A historiografia dessas not\u00e1veis mulheres cachoeiranas continua a desafiar a intelig\u00eancia de jovens pesquisadores. Seus rituais secretos ligados ao culto dos orix\u00e1s tamb\u00e9m est\u00e3o a requerer leitura etnogr\u00e1fica que respeite, naturalmente, os limites \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o dos segredos, t\u00e3o importantes na manuten\u00e7\u00e3o dessa vertente religiosa. O que tem ressaltado \u00e9 o aspecto externo do culto referido quase todo ao simbolismo cat\u00f3lico e a sua apropria\u00e7\u00e3o afro-brasileira. Durante o come\u00e7o do m\u00eas de agosto, uma longa programa\u00e7\u00e3o p\u00fablica atrai a Cachoeira gente de todos os lugares, no que Moraes Ribeiro considera o mais representativo documento vivo da religiosidade brasileira, barroca, \u00edbero-africana. Ceias, cortejos, missas, prociss\u00f5es, samba-de-roda colocam cerca de 30 remanescentes da Irmandade, que j\u00e1 possuiu mais de 200, no centro dos acontecimentos da provinciana cidade e, ultimamente, nos principais \u00f3rg\u00e3os noticiosos da capital e tele-jornais. A festa propriamente dita tem um calend\u00e1rio que inclui a confiss\u00e3o dos membros na Igreja Matriz, um cortejo representando o falecimento de Nossa Senhora, uma sentinela, seguida de ceia branca, composta de p\u00e3o, vinhos e frutos do mar obedecendo a costumes religiosos que interditam o acesso a dend\u00ea e carne no dia dedicado a Oxal\u00e1, criador do Universo, e prociss\u00e3o do enterro de Nossa Senhora da Boa Morte, onde as irm\u00e3s usam trajes de gala. A celebra\u00e7\u00e3o da assun\u00e7\u00e3o de Nossa Senhora da Gl\u00f3ria, seguida de prociss\u00e3o, em missa realizada na Matriz d\u00e1 curso \u00e0 contagiante alegria dos cachoeiranos que irrompe em plenitude, nas cores, comida e bastante m\u00fasica e dan\u00e7a que se prolongam por diversos dias, a depender dos donativos arrecadados e das condi\u00e7\u00f5es de pec\u00falio do ano.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter   size-full wp-image-2234\" title=\"Foto: Adenor Gondim\" src=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/DonaEstelitaNossaSenhoraBoaMorteAdenorGondim.jpg\" alt=\"\" width=\"333\" height=\"491\" srcset=\"https:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/DonaEstelitaNossaSenhoraBoaMorteAdenorGondim.jpg 370w, https:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/DonaEstelitaNossaSenhoraBoaMorteAdenorGondim-203x300.jpg 203w\" sizes=\"auto, (max-width: 333px) 100vw, 333px\" \/><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><strong>Hierarquia e Culto <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Como todas as confrarias religiosas baianas, a Irmandade da Boa Morte possui uma estrutura hier\u00e1rquica interna para gerir a devo\u00e7\u00e3o di\u00e1ria e dom\u00e9stica de seus membros. A dire\u00e7\u00e3o \u00e9 composta por quatro irm\u00e3s respons\u00e1veis pela organiza\u00e7\u00e3o da festa p\u00fablica de agosto e substitu\u00eddas anualmente. No topo da administra\u00e7\u00e3o da vida da Irmandade da Boa Morte est\u00e1 a Ju\u00edza Perp\u00e9tua, posi\u00e7\u00e3o de maior destaque e atingida por status adquirido, ocupada pela mais idosa adepta. A seguir, situam-se os cargos de Procuradora-Geral, Provedora, Tesoureira e Escriv\u00e3, estando a Procuradora \u00e0 frente das atividades executivas religiosas e profanas. Para serem aceitas as novi\u00e7as, al\u00e9m de estarem vinculadas a alguma casa de candombl\u00e9 &#8211; geralmente G\u00eage, Ketu ou Nag\u00f4-Bat\u00e1, na regi\u00e3o &#8211; e professarem o sincretismo religioso, dever\u00e3o se submeter a uma inicia\u00e7\u00e3o que imp\u00f5e um est\u00e1gio preparat\u00f3rio de tr\u00eas anos, conhecido pelo nome de \u201cirm\u00e3 da bolsa\u201d, aonde \u00e9 testada a sua voca\u00e7\u00e3o. Uma vez aceita, poder\u00e1 compor algum cargo de diretoria e a cada tr\u00eas anos ascender na hierarquia da Irmandade. N\u00e3o \u00e9 demais lembrar que todas dividem irmanamente as atividades da cozinha, coleta de fundos, organiza\u00e7\u00e3o das ceias cerimoniais, das prociss\u00f5es do cortejo, al\u00e9m dos funerais das adeptas seguindo os preceitos religiosos e uma determina\u00e7\u00e3o estatut\u00e1ria t\u00e1cita. As elei\u00e7\u00f5es s\u00e3o realizadas anualmente procedendo-se a apura\u00e7\u00e3o dos votos pelo curioso sistema de contagem de gr\u00e3os de milho e feij\u00e3o, indicando o primeiro atitude de rejei\u00e7\u00e3o e o segundo aceita\u00e7\u00e3o. Em que pese as diferen\u00e7as hier\u00e1rquicas e os preceitos relativos a cada posi\u00e7\u00e3o, todas as irm\u00e3s est\u00e3o niveladas como empregadas de Nossa Senhora. Al\u00e9m de irm\u00e3s de devo\u00e7\u00e3o, s\u00e3o algumas vezes, irm\u00e3s de santo e quase sempre \u201cparentes\u201d &#8211; os africanos e seus descendentes no Brasil alargaram o conceito de parentela estendendo o v\u00ednculo a todos aqueles que s\u00e3o filhos de uma mesma na\u00e7\u00e3o. \u00c9 not\u00e1vel como a ancestralidade africana se reelabora no interior das institui\u00e7\u00f5es religiosas baianas e como as irmandades leigas acabam prestando renovado servi\u00e7o a esse processo de intercurso cultural. \u00c9 admir\u00e1vel que, a prop\u00f3sito de celebrarem a morte, essas mulheres negras cachoeiranas tenham sobrevivido com tanta majestade e garbo. O mais incr\u00edvel \u00e9 que o sistema de cren\u00e7as tenha absorvido com tamanha funcionalidade e criatividade os valores da cultura dominante, realizando, em nome da vida, complexos processos de apropria\u00e7\u00e3o como o evidenciado na descida da pr\u00f3pria Nossa Senhora \u00e0 Irmandade, a cada ciclo de sete anos, para dirigir em pessoa os festejos, investida da figura de Procuradora-Geral, celebrando entre os vivos a relatividade da morte. Tais elementos podem ser constatados tanto na simbologia do vestu\u00e1rio, quanto nas comidas de preceito que evidenciam recorrentes liga\u00e7\u00f5es entre este (Aiy\u00ea) e o outro mundo (Orun), para utilizar aqui duas express\u00f5es j\u00e1 incorporadas \u00e0 linguagem popular da Bahia. Assim como as confrarias, a devo\u00e7\u00e3o a Boa Morte foi muito comum na Bahia Colonial e Imperial. Sempre foi uma devo\u00e7\u00e3o popular. Na Igreja de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio na Barroquinha ela ganhou express\u00e3o e consist\u00eancia. Ali\u00e1s, ali era um espa\u00e7o de not\u00e1vel presen\u00e7a g\u00eage-nag\u00f4 e as caracter\u00edsticas dos festejos descritos por cronistas como Silva Campos atestam sua semelhan\u00e7a com os praticados ainda hoje em Cachoeira. Deve-se dizer que ali teve origem uma das mais respeit\u00e1veis casas de candombl\u00e9 da Bahia; fundada no s\u00e9culo XVIII, a Casa Branca do Engenho Velho da Federa\u00e7\u00e3o que vem sendo estudada com muito brilhantismo por Renato da Silveira. Devo\u00e7\u00e3o popular e mais que isso, racial, na medida em que agregou principalmente negros e mesti\u00e7os. Suas origens remontam ao Oriente tendo sido adotada por Roma no s\u00e9culo VII. J\u00e1 dois s\u00e9culos depois a festa da Assun\u00e7\u00e3o de Nossa Senhora est\u00e1 disseminada por todo o mundo cat\u00f3lico. Trazida de Portugal para o Brasil &#8211; onde era conhecida como Nossa senhora de Agosto &#8211; ganhou interpreta\u00e7\u00e3o peculiar, caracter\u00edsticas pr\u00f3prias e por causa disso, a devo\u00e7\u00e3o sempre criou atritos com as autoridades da Igreja. Sua difus\u00e3o entre a comunidade baiana, entre outras coisas, deveu-se ao fato de que a mediunidade popular caracter\u00edstica dos cultos africanos sempre relativizou o problema da morte, na medida em que os adeptos do candombl\u00e9 acreditam em reencarna\u00e7\u00f5es sucessivas. Emprestou, portanto, ao culto originalmente cat\u00f3lico elementos do seu sistema de cren\u00e7as e componentes s\u00f3cio-hist\u00f3ricos da dura realidade escravista que fez do cativeiro sofr\u00edvel mart\u00edrio para os que vieram na di\u00e1spora. De sorte que a devo\u00e7\u00e3o a Nossa Senhora da Boa Morte passou a ter tamb\u00e9m um significado social, permitindo a agrega\u00e7\u00e3o dos escravos, facultando a manuten\u00e7\u00e3o de sua religiosidade num ambiente hostil e delimitando um instrumento corporativo de defesa e de valoriza\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo, tornando-se, por todas essas raz\u00f5es, um inigual\u00e1vel meio de celebra\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">GUSTAVO FALCON<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">(Professor da UFBA e pesquisador do Centro de Estudos Afro-Orientais)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2231\" title=\"Foto: Adenor Gondim\" src=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/NSBoaMorteIdBolsaMariaAgenorGondim.jpg\" alt=\"\" width=\"452\" height=\"402\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 \u00a0 A Festa da Boa Morte acontece todos os anos na cidade de Cachoeira, no rec\u00f4ncavo baiano. 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