{"id":2921,"date":"2011-10-03T01:51:58","date_gmt":"2011-10-03T04:51:58","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=2921"},"modified":"2011-10-03T13:28:37","modified_gmt":"2011-10-03T16:28:37","slug":"um-poema-de-pessoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=2921","title":{"rendered":"Um poema de Pessoa"},"content":{"rendered":"<div align=\"center\">\n<table border=\"0\" cellpadding=\"0\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><strong>\u00a0Poema em linha reta<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<em>Nunca conheci quem tivesse levado porrada.<\/em><em><\/em><\/p>\n<p>Todos os meus conhecidos t\u00eam sido campe\u00f5es em tudo.<\/p>\n<p><em>E eu, tantas\u00a0 vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,<\/em><em><\/em><\/p>\n<p>Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,\u00a0indesculpavelmente sujo.<\/p>\n<p>Eu, que tantas vezes n\u00e3o tenho tido paci\u00eancia para tomar banho,<\/p>\n<p>eu, que tantas vezes tenho sido rid\u00edculo, absurdo,<\/p>\n<p>que tenho enrolado os p\u00e9s publicamente nos tapetes das etiquetas,<\/p>\n<p>que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,<\/p>\n<p>que tenho sofrido enxovalhos e calado,<\/p>\n<p>que quando n\u00e3o tenho calado, tenho sido mais rid\u00edculo ainda;<\/p>\n<p>eu, que tenho sido c\u00f4mico \u00e0s criadas de hotel,<\/p>\n<p>eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos mo\u00e7os de fretes,<\/p>\n<p>eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,<\/p>\n<p>eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado<\/p>\n<p>para fora da possibilidade do soco;<\/p>\n<p>eu, que tenho sofrido a ang\u00fastia das pequenas coisas rid\u00edculas,<\/p>\n<p>eu verifico que n\u00e3o tenho par nisto tudo neste mundo.<\/p>\n<p><em>Toda a gente que\u00a0 eu conhe\u00e7o e que fala comigo<\/em><em><\/em><\/p>\n<p>Nunca teve um ato rid\u00edculo, nunca sofreu enxovalho,<\/p>\n<p>Nunca foi sen\u00e3o pr\u00edncipe &#8211; todos eles pr\u00edncipes &#8211; na vida&#8230;<\/p>\n<p><em>Quem me dera\u00a0ouvir de algu\u00e9m a voz humana<\/em><em><\/em><\/p>\n<p>que confessasse n\u00e3o um pecado, mas uma inf\u00e2mia;<\/p>\n<p>que contasse, n\u00e3o uma viol\u00eancia, mas uma cobardia!<\/p>\n<p>N\u00e3o, s\u00e3o todos o Ideal, se os oi\u00e7o e me falam.<\/p>\n<p>Quem h\u00e1 neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?<\/p>\n<p>\u00d3 principes, meus irm\u00e3os,<\/p>\n<p><em>arre, estou farto\u00a0 de semideuses!<\/em><em><\/em><\/p>\n<p>Onde \u00e9 que h\u00e1 gente no mundo?<\/p>\n<p><em>Ent\u00e3o sou s\u00f3 eu\u00a0 que \u00e9 vil e err\u00f4neo nesta terra? <\/em><em><\/em><\/p>\n<p><em>Poder\u00e3o as\u00a0\u00a0 mulheres n\u00e3o os terem amado,<\/em><em><\/em><\/p>\n<p>Podem ter sido tra\u00eddos &#8211; mas rid\u00edculos nunca!<\/p>\n<p>E eu, que tenho sido rid\u00edculo sem ter sido tra\u00eddo,<\/p>\n<p>Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?<\/p>\n<p>Eu, que venho sido vil, literalmente vil,<\/p>\n<p>vil no sentido mesquinho e infame da vileza.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 180px;\">(\u00c1lvaro de Campos)<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0Poema em linha reta \u00a0Nunca conheci quem tivesse levado porrada. 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