{"id":2974,"date":"2011-10-11T15:05:28","date_gmt":"2011-10-11T18:05:28","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=2974"},"modified":"2011-10-11T15:12:07","modified_gmt":"2011-10-11T18:12:07","slug":"vida-volatil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=2974","title":{"rendered":"Vida vol\u00e1til"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 300px;\"><strong><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Calibri;\">Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro<\/span><\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Calibri;\">Fico escrevendo aqui umas coisas meio paranoicas sobre a evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e a\u00ed concluo que me explico mal, porque tem gente que pensa que sou um tecn\u00f3fobo reacion\u00e1rio, que gostaria de escrever com pena de ganso. Grave injusti\u00e7a. Fui dos primeiros escritores brasileiros a usar computador para escrever, tripulando um clone nacional (e ordin\u00e1rio) de um Apple II, sem disco r\u00edgido e com 148 KB de mem\u00f3ria, dos quais o editor de texto comia 120. Com sua tremenda impressora matricial, fazia sucesso e eu recebia visitas tur\u00edsticas a meu escrit\u00f3rio. Sempre gostei de novidades tecnol\u00f3gicas e claro que n\u00e3o sou, nem adianta ser, contra essas novidades.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Calibri;\">Meu problema n\u00e3o \u00e9 com tecnologia, \u00e9 com certos usos que podem fazer dela. Considerando a geral natureza do ser humano, que, agora mesmo, est\u00e1 se matando ferozmente em v\u00e1rias partes do mundo, esses usos, como alguns que j\u00e1 mencionei aqui, \u00e0s vezes me metem medo. E, se a tecnologia nos beneficia de incont\u00e1veis formas, n\u00e3o devemos esquecer como ela \u00e9 tamb\u00e9m usada para o mal e para objetivos odiosos e como pode afetar nossa vida para pior, em termos humanos e sociais.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Calibri;\">Al\u00e9m disso, nesta longa estrada cibern\u00e9tica que percorri e continuo a percorrer, tenho tido de me adaptar a mudan\u00e7as cada vez mais r\u00e1pidas, que cansam at\u00e9 mesmo alguns viciados em comprar todas as vers\u00f5es do iPad. Nos Estados Unidos, quando computador aqui ainda se chamava \u201cc\u00e9rebro eletr\u00f4nico\u201d, cheguei a estudar a linguagem Fortran e trabalhar com um computador que, num ambiente refrigerad\u00edssimo, ocupava todo um andar de um pr\u00e9dio da universidade e era infinitamente menos poderoso que meu notebook de um quilo e pouco.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Calibri;\">De l\u00e1 pra c\u00e1, at\u00e9 d\u00e1 para come\u00e7ar a enumerar as novidades que foram aparecendo, mas hoje ningu\u00e9m mais pode fazer isso sem recorrer ao Google. A mudan\u00e7a \u00e9 o tempo todo. E est\u00e1 certo que tudo neste mundo \u00e9 passageiro, inclusive ele pr\u00f3prio, mas acho que o homem gosta de ter algum senso de perman\u00eancia, de dura\u00e7\u00e3o. Antigamente era poss\u00edvel reservar tempo para nos acostumarmos \u00e0s mudan\u00e7as, mas hoje esse tempo n\u00e3o existe mais e j\u00e1 \u00e9 piada conhecida dizer-se que o tempo que economizamos com os novos gadgets \u00e9 necess\u00e1rio para que possamos aprender a usar os nov\u00edssimos.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Calibri;\">Lembro-me de um velho porta-retratos na casa de meus pais, com uma foto em preto e branco de meu av\u00f4 paterno, que ficou l\u00e1 por mais de cinquenta anos. Havia algo de perman\u00eancia naquela antiga moldura de madeira e no sorriso do velho, havia um certo sossego, coisas que duravam e eram guardadas \u201cpara sempre\u201d. No futuro, acho que n\u00e3o se conhecer\u00e1 mais essa sensa\u00e7\u00e3o. Os porta-retratos agora s\u00e3o eletr\u00f4nicos e program\u00e1veis para fazer exibi\u00e7\u00e3o de slides, mudar a foto periodicamente, tocar m\u00fasica e mais outras coisas. As fotos, que hoje se produzem com uma abund\u00e2ncia inadministr\u00e1vel, tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o mais para ficar, nada mais \u00e9 para ficar.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Calibri;\">A maior parte das novidades dura apenas dias e ningu\u00e9m se lembra delas depois. Ali\u00e1s, ningu\u00e9m se lembra de mais nada e a fama \u00e0s vezes j\u00e1 nem alcan\u00e7a os 15 minutos de Andy Warhol, vai embora literalmente em menos tempo, como acontece com muita gente enfocada em reportagens de televis\u00e3o. Nossa efemeridade, sempre um pouquinho desagrad\u00e1vel de lembrar, n\u00e3o tem mais sua sensa\u00e7\u00e3o aliviada de quando em vez, ela agora se mostra em toda parte e todo o tempo, nada dura nada e os registros s\u00e3o vol\u00e1teis. Toda a civiliza\u00e7\u00e3o digitalizada \u00e9 vol\u00e1til \u2013 e, ali\u00e1s, governos como o americano conservam seus dados preciosos em papel, m\u00e9todo de armazenamento mais confi\u00e1vel que circuitos integrados ou mem\u00f3rias eletr\u00f4nicas de qualquer natureza.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Calibri;\">Todo mundo saber\u00e1 ler e escrever, num mundo de mensagens instant\u00e2neas? Talvez n\u00e3o. N\u00e3o me refiro a escrever \u00e0 m\u00e3o, com l\u00e1pis ou caneta. Hoje j\u00e1 tem quem escreva uma p\u00e1gina digitando com os polegares e n\u00e3o rabisque tr\u00eas linhas com uma caneta. Mas estou pensando em leitura e escrita sem o uso do alfabeto. De vez em quando, sou tentado a crer que as futuras mensagens instant\u00e2neas, torpedos e similares, ser\u00e3o grafados mais ou menos com ideogramas simples \u2013 imagens como aquelas carinhas Smiley que aparecem em milhares de aplicativos, acrescidas talvez de uma ou outra palavra abreviada em letras. De escrever e ler usando alfabeto e sintaxe, como hoje ainda fazemos, n\u00e3o haver\u00e1 necessidade para grande parte dos usu\u00e1rios de aplicativos de mensagens. Passaremos mais ou menos para hier\u00f3glifos simples, que dever\u00e3o ser perfeitamente adequados ao vocabul\u00e1rio e ao universo de interesses desses usu\u00e1rios. E talvez os que saibam ler e escrever usando o alfabeto venham a constituir uma categoria especial na sociedade, como eram os escribas da Antiguidade.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Calibri;\">Fazer conta, ent\u00e3o, nem pensar. N\u00e3o acredito que na escola ainda se aprenda a tirar raiz c\u00fabica na munheca, como no meu tempo (eu nunca aprendi). Ali\u00e1s, n\u00e3o acredito na sobreviv\u00eancia da tabuada \u2013 e n\u00e3o me refiro \u00e0quelas tipo 7 vezes 8, de que a gente n\u00e3o lembrava na \u00e9poca e at\u00e9 hoje n\u00e3o lembra. Quem, num futuro n\u00e3o muito distante, responder quantas s\u00e3o 6 vezes 9 sem consultar a calculadora ser\u00e1 levado para estudos num instituto de neurologia e propor\u00e3o que se conserve seu c\u00e9rebro depois da morte. \u00c9 nesse tipo de coisa que penso, quando falo em tecnologia, n\u00e3o \u00e9 contra a tecnologia. Ser\u00e1 bom para n\u00f3s n\u00e3o sabermos mais escrever nem fazer contas e deixar fant\u00e1sticas aptid\u00f5es naturais, como a mem\u00f3ria, irem se perdendo por falta de uso e exerc\u00edcio? Ser\u00e1 realmente bom que tudo seja descart\u00e1vel e n\u00e3o dure mais que poucas semanas, nesta vida cada vez mais vol\u00e1til?<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Calibri;\">Fonte: O Estado de S\u00e3o Paulo, 09\/10\/2011<\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro Fico escrevendo aqui umas coisas meio paranoicas sobre a evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e a\u00ed concluo que me explico mal, porque tem gente que pensa que sou um tecn\u00f3fobo reacion\u00e1rio, que gostaria de escrever com pena de ganso. &hellip; <a href=\"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=2974\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[19,178],"tags":[130,920,190,919,5,921,922],"class_list":["post-2974","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","category-estante-de-literatura","tag-cotidiano","tag-escrita","tag-joao-ubaldo-ribeiro","tag-leitura","tag-literatura","tag-tecnologia","tag-vida-volatil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2974","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2974"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2974\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2978,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2974\/revisions\/2978"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2974"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2974"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2974"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}