{"id":3088,"date":"2011-11-07T01:19:24","date_gmt":"2011-11-07T04:19:24","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=3088"},"modified":"2011-11-07T01:19:24","modified_gmt":"2011-11-07T04:19:24","slug":"sabendo-frances-podemos-ser-mais-felizes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=3088","title":{"rendered":"Sabendo franc\u00eas podemos ser mais felizes"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 150px;\"><span style=\"color: #000000;\">Ign\u00e1cio de Loyola Brand\u00e3o &#8211; O Estado de S.Paulo<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">N\u00e3o me considerem esnobe, exibido. Mascarado, como se dizia na minha inf\u00e2ncia. N\u00e3o usam mais a palavra? T\u00e3o atual. O que h\u00e1 de gente mascarada no mundo. Vou dizer o \u00f3bvio. Para desfrutar melhor Paris, a Provence celebrada, e outros, sabendo franc\u00eas, os prazeres multiplicam-se por cem, o desfrute por duzentos, a alegria por quinhentos. Mesmo que voc\u00ea tenha ido apenas para fazer compras, como a maioria dos brasileiros, que pedem descontos em portugu\u00eas mesmo e em altos brados (ou em brado retumbante), vale a pena aprender franc\u00eas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O parisiense muda quando voc\u00ea se dirige a ele na sua l\u00edngua, ainda que precariamente, como eu. Quem n\u00e3o gosta de uma pessoa que chega e voc\u00ea percebe o esfor\u00e7o que ela faz para se expressar em sua l\u00edngua natal? Assim, vale a pena aprender franc\u00eas para poder caminhar \u00e0 vontade em Paris deixando-se envolver por ela, sabendo um pouco mais.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Claro, o franc\u00eas n\u00e3o \u00e9 importante apenas por isso. Mas j\u00e1 \u00e9 um enorme handicap. H\u00e1 as revistas, os milhares de livros traduzidos do mundo inteiro, o cinema, a m\u00fasica, at\u00e9 a facilidade nas compras. S\u00f3 poder ler a gigantesca cole\u00e7\u00e3o La Pl\u00e9iade (projeto de uma vida) no original \u00e9 uma b\u00ean\u00e7\u00e3o, raras vezes igualada. Ou os f\u00f3lios, delicados, sensuais? Hoje estamos aprendendo apenas o que o mercado chama de l\u00ednguas \u00fateis, como o ingl\u00eas, o japon\u00eas, o mandarim. Mandarim? (Eu l\u00e1 quero falar chin\u00eas?) Para vencermos na vida? Nos tornarmos empreendedores? Sermos algu\u00e9m? Mas o que \u00e9 ser algu\u00e9m? Tudo tem de ter aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica? Se \u00e9 assim, acabemos com o ensino brasileiro, ele n\u00e3o leva a nada, do jeito que est\u00e1 estruturado.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">H\u00e1 na nossa vida algo que \u00e9 preciso preencher. Uma necessidade interior de esp\u00edrito, contempla\u00e7\u00e3o do mundo, da vida, avalia\u00e7\u00e3o das coisas. Encarar a exist\u00eancia como algo que precisa de alimento. Foram eliminando as l\u00ednguas de todos os cursos, a n\u00e3o ser alguns muito especializados. Tive no gin\u00e1sio portugu\u00eas, ingl\u00eas, franc\u00eas, latim e espanhol e posso dizer que isso me ajudou. Mas vieram deletando tudo, como se diz. E o franc\u00eas se foi por meio de ministros que s\u00f3 pensam em pol\u00edtica. O atual quer a Prefeitura de S\u00e3o Paulo, imaginem. Nem administrou direito o Enem.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A primeira palavra que aprendi em franc\u00eas foi: nous. Estava no primeiro ano do gin\u00e1sio. T\u00ednhamos aulas de franc\u00eas desde o primeiro dia com mademoiselle Fanny, uma gra\u00e7a de pessoa. Perguntamos: &#8220;Por que a senhora come\u00e7ou com o nous, que significa n\u00f3s, e n\u00e3o com o je, que quer dizer eu?&#8221; Ela sacudiu o dedo: &#8220;O nous somos todos, \u00e9 o coletivo, a classe. O je \u00e9 muito individualista.&#8221; Esses eram os professores que t\u00ednhamos. Jamais dona Fanny falou em portugu\u00eas na aula. Nos vir\u00e1vamos para saber o que ela queria dizer. Ela sabia conduzir a li\u00e7\u00e3o, de maneira que descobr\u00edamos os significados e as pron\u00fancias \u00e0s vezes sutis do franc\u00eas, l\u00edngua t\u00e3o po\u00e9tica, sens\u00edvel, cheia de nuances, e ao mesmo tempo incisiva. Dificuldades terr\u00edveis para diferenciar Anne (Ana) de \u00e2ne (asno). A professora insistia, queria a perfei\u00e7\u00e3o. Nesta minha idade, penso, dia desses entrar para a Alian\u00e7a Francesa a fim de aperfei\u00e7oar minha precariedade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Donna Fanny ainda est\u00e1 l\u00e1 em Araraquara. At\u00e9 algum tempo atr\u00e1s, quando eu a encontrava na rua, ela me dizia, como sempre disse ao entrar na classe:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">&#8211; Bonjour, mon enfant!<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">&#8211; Bonjour, madame.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">&#8211; Mademoiselle, mademoiselle&#8230;<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Ria, afetuosa. Aos 14 anos est\u00e1vamos lendo Alexandre Dumas no original. N\u00e3o era f\u00e1cil, mas a gente acabava gostando, se imaginava na Fran\u00e7a. Tamb\u00e9m Victor Hugo, Lamartine, Chateaubriand, depois Balzac, Flaubert, Stendhal. Hoje chegar\u00edamos a Le Cl\u00e9zio, Houellebecq, Jonathan Littell, Georges Perec. Aos 16 tivemos acesso a Jaques Pr\u00e9vert, que deslumbramento! A poesia entrava em n\u00f3s por meio de Aragon, Paul Val\u00e9ry, Verlaine, e, claro Rimbaud e Baudelaire, o maldito. Tamb\u00e9m C\u00e9line, complicado, Camus, os romances de Sartre, um pouco de Proust (eu mantinha a tradu\u00e7\u00e3o do Quintana do lado). Toda semana, nos anos 50, havia um filme franc\u00eas no cinema. Fanny insistia para que f\u00f4ssemos. N\u00e3o era exigir muito, sab\u00edamos que algumas estrelas francesas como Martine Carol, Claudine Dupuis e Fran\u00e7oise Arnoul mostravam os peitinhos, era um avan\u00e7o na nossa vida sexual. Mas havia Arlety, Edwige Feuill\u00e8re, Maria Casar\u00e9s, soberbas. E Gerard Philippe, jamais substitu\u00eddo. Hoje minhas paix\u00f5es s\u00e3o Juliette Binoche, Irene Jacob, Marion Cotillard. Por outro lado, descobrimos os filmes de Marcel Carn\u00e9, de Ren\u00e9 Clair, Andr\u00e9 Cayatte, Jean Delannoy, Robert Bresson, cl\u00e1ssicos. Depois, digerimos toda nouvelle vague, que mudou a linguagem do cinema.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">N\u00f3s, que aprendemos franc\u00eas, tivemos sempre algo mais dentro de n\u00f3s. De coisas pequenas e grandes. N\u00e3o estou aqui para fazer lista e apenas para insistir numa coisa muito simples: sabendo franc\u00eas, sempre me senti um pouco mais feliz na vida. Uma delas foi ouvir, recentemente, do gar\u00e7om de um bistr\u00f4; &#8220;Monsieur, vous \u00eates du quartier?&#8221; (O senhor \u00e9 do bairro?) Que, como Eros Grau diz em um livrinho delicioso sobre Paris, \u00e9 um sinal de que voc\u00ea est\u00e1 sendo aceito. Coisa nada f\u00e1cil para um estrangeiro. Que volte o franc\u00eas \u00e0s escolas!<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Ign\u00e1cio de Loyola Brand\u00e3o &#8211; O Estado de S.Paulo N\u00e3o me considerem esnobe, exibido. Mascarado, como se dizia na minha inf\u00e2ncia. N\u00e3o usam mais a palavra? T\u00e3o atual. O que h\u00e1 de gente mascarada no mundo. 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