{"id":3253,"date":"2011-12-09T13:13:28","date_gmt":"2011-12-09T16:13:28","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=3253"},"modified":"2011-12-09T13:27:43","modified_gmt":"2011-12-09T16:27:43","slug":"um-lindo-conto-de-luis-pimentel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=3253","title":{"rendered":"Um lindo conto de Lu\u00eds Pimentel"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>Mania de outono<\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 390px;\">\u00a0<em>Lu\u00eds Pimentel<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outono era a moringa na mesa forrada de papel crepom. A caneca de alum\u00ednio deixava a \u00e1gua mais fresquinha, gosto de terra no fundo mais fundo, cheiro de chuva no gargalo. Vento encanado que podia constipar, menino remelento de nariz a escorrer pelos l\u00e1bios. Peito apertado na cor doce e melanc\u00f3lica de um quase maio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa mania de outono eu tenho desde muito cedo. Desde bem pequeno mesmo, l\u00e1 na prov\u00edncia, onde as pessoas nem davam muita bola para essa hist\u00f3ria de esta\u00e7\u00e3o do ano. Tinha o ver\u00e3o, com aquele calor medonho dos tempos sem ar-condicionado nem ventilador, e o inverno que trazia frio de doer nos dedos e obrigar a dormir de pijama. Outono e primavera tamb\u00e9m existiam, mas a esses ningu\u00e9m dava muita confian\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu dava. Comecei a prestar aten\u00e7\u00e3o no outono no dia em que a professora Alda exibiu o livr\u00e3o cheio de fotos coloridas, mostrando como a natureza reagia \u00e0s boas e m\u00e1s influ\u00eancias clim\u00e1ticas, como se comportava diante de cada uma delas, se derretendo toda quando o outono anunciava a chegada triunfal. O papel do livro ficava mais\u00a0 cheiroso nas p\u00e1ginas que mostravam \u00e1rvores se descabelando, montanhas abrindo\u00a0 os bra\u00e7os para os dentes do sol que banhava tudo de um amarelo meio laranja\u00a0 avermelhado, sol que parecia vir de outro mundo e que jamais passara nem mesmo<br \/>\nde passagem pela minha cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Peguei mania e comecei a colecionar folhas ca\u00eddas na pra\u00e7a, sobre cal\u00e7adas e muros da alameda que acompanhava o caminho da escola. E passei a observar, encantado, que aquelas folhas meio marrons amareladas disputavam em beleza com os frutos da \u00faltima primavera, foram verdes sobre verdes no ver\u00e3o que acabou de acabar e estar\u00e3o renascendo daqui a pouco, no inverno que o vento mais fino j\u00e1 anuncia. Fazia as contas e c\u00e1lculos das transforma\u00e7\u00f5es pelas quais deveria passar a minha vida at\u00e9 a\u00a0 explos\u00e3o do pr\u00f3ximo outono.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por que o decl\u00ednio e a decad\u00eancia?<br \/>\nDe onde tiraram as explica\u00e7\u00f5es encontradas no verbete do primeiro dicion\u00e1rio\u00a0 que me caiu \u00e0s m\u00e3os? At\u00e9 aquele dia, outono para mim era beleza e renascimento.\u00a0 Coloquei as impress\u00f5es no poeminha outonal que fez os colegas rirem bastante e\u00a0 a professora condescender um \u201cele \u00e9 sens\u00edvel\u201d. Tamb\u00e9m li para minha m\u00e3e, \u00e0\u00a0 noite, enquanto ela lavava pratos. Depois do ponto final disse \u201cv\u00e1 dormir, voc\u00ea\u00a0 est\u00e1 cansado\u201d, e at\u00e9 hoje n\u00e3o sei se o coment\u00e1rio significou uma aprova\u00e7\u00e3o. Mas\u00a0 a rea\u00e7\u00e3o generalizada me mostrou que a compreens\u00e3o do outono \u00e9 para poucos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quantas vezes, ainda no meu pequeno mundo, me deitei \u00e0 tardinha sobre a esteira de folhas das palmeiras, da cajazeira, dos umbuzeiros? Cabe\u00e7a recostada no travesseiro improvisado de outono e os olhos na impenetr\u00e1vel luz dos fot\u00f3grafos e dos pintores, at\u00e9 o sol se cansar de mim e fugir para detr\u00e1s das montanhas. Logo, logo vem o inverno e eu me fecho em copas, que nem as \u00e1rvores, escondo os meus frutos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Catei folhas na volta da escola, na ida para o trabalho, na vinda dos filhos, na despedida dos pais, sem precisar dar explica\u00e7\u00f5es para ningu\u00e9m. Hoje n\u00e3o mais. Recolho apenas as que as m\u00e1quinas de limpeza n\u00e3o enxergam, escondidas na grama da beira da piscina. Quando eles descuidam, recolho algumas no tonel de lixo. S\u00f3 que pouco descuidam e os olhos de ver\u00e3o s\u00e3o fogo em brasa nos meus calcanhares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Decl\u00ednio e decad\u00eancia. O seguran\u00e7a chuta para longe a bel\u00edssima folha da mangueira que veio caindo, caindo e se aproximando de mim. A bota do animal quase esmaga os meus dedos, enquanto se aproxima o enfermeiro vestido de inverno, sem uma gota de luz no semblante, bordando um sorriso de falsa primavera, o mundo girando, girando e me devolvendo o outono que ele traz na pontinha da agulha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Mania de outono \u00a0Lu\u00eds Pimentel Outono era a moringa na mesa forrada de papel crepom. A caneca de alum\u00ednio deixava a \u00e1gua mais fresquinha, gosto de terra no fundo mais fundo, cheiro de chuva no gargalo. 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