{"id":3656,"date":"2012-03-16T16:32:28","date_gmt":"2012-03-16T19:32:28","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=3656"},"modified":"2012-03-16T18:22:51","modified_gmt":"2012-03-16T21:22:51","slug":"o-novo-conceito-de-envelhecimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=3656","title":{"rendered":"Um  novo conceito de envelhecimento"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Caiu na rede!<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\"><strong>Um tempo sem nome<\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 180px;\" align=\"center\">Rosiska Darcy de Oliveira<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com seu cabelo cinza, rugas novas e os mesmos olhos verdes, cantando madrigais para a mo\u00e7a do cabelo cor de ab\u00f3bora, Chico Buarque de Holanda vai bater de frente com as patrulhas do senso comum. Elas torcem o nariz para mais essa aud\u00e1cia do trovador. O casal cinza e cor de ab\u00f3bora segue seu caminho e tomara que ele continue cantando \u201ceu sou t\u00e3o feliz com ela\u201d sem encontrar resposta ao \u201cque ser\u00e1 que d\u00e1 dentro da gente que n\u00e3o devia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Afinal, \u00e9 o olhar estrangeiro que nos faz estrangeiros a n\u00f3s mesmos e cria os interditos que balizam o que supostamente \u00e9 ou deixa de ser adequado a uma faixa et\u00e1ria. O olhar alheio \u00e9 mais cruel que a decad\u00eancia das formas. \u00c9 ele que mina a autoimagem, que nos constitui como velhos, desconhece e, de certa forma, pro\u00edbe a verdade de um corpo sujeito \u00e0 impiedade dos anos sem que envelhe\u00e7a o alumbramento diante da vida .<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Proust, que de gente entendia como ningu\u00e9m, descreve o envelhecer como o mais abstrato dos sentimentos humanos. O pr\u00edncipe Fabrizio Salinas, o Leopardo criado por Tommasi di Lampedusa, n\u00e3o ouvia o barulho dos gr\u00e3os de areia que escorrem na ampulheta. N\u00e3o fora o entorno e seus espelhos, netos que nascem, amigos que morrem, n\u00e3o fosse o tempo \u201cum senhor t\u00e3o bonito quanto a cara do meu filho\u201c, segundo Caetano, quem, por si mesmo, se perceberia envelhecer? Morrer\u00edamos nos acreditando jovens como sempre fomos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vida sobrep\u00f5e uma s\u00e9rie de experi\u00eancias que n\u00e3o se anulam, ao contr\u00e1rio, se mesclam e comp\u00f5em uma identidade. O idoso n\u00e3o anula dentro de si a crian\u00e7a e o adolescente, todos reais e atuais, fantasmas saudosos de um corpo que os acolhia, hoje inquilinos de uma pele em que n\u00e3o se reconhecem. E, se \u00e9 verdade que o envelhecer \u00e9 um fato e uma foto, \u00e9 tamb\u00e9m verdade que quem n\u00e3o se reconhece na foto, se reconhece na mem\u00f3ria e no frescor das emo\u00e7\u00f5es que persistem. \u00c9 assim que, vulc\u00e2nica, a adolesc\u00eancia pode brotar em um homem ou uma mulher de meia-idade, fazendo projetos que mal cabem em uma vida inteira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa doce liberdade de se reinventar a cada dia poderia prescindir do esfor\u00e7o pat\u00e9tico de camuflar com cirurgias e botoxes \u2014 obras na casa demolida \u2014 a inexor\u00e1vel escultura do tempo. O medo p\u00e2nico de envelhecer, que fez da cirurgia est\u00e9tica um pr\u00f3spero campo da medicina e de uma vendedora de cosm\u00e9ticos a mulher mais rica do mundo, se explica justamente pela deprecia\u00e7\u00e3o cultural e social que o avan\u00e7ar na idade provoca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ningu\u00e9m quer parecer idoso, j\u00e1 que ser idoso est\u00e1 associado a uma sequ\u00eancia de perdas que come\u00e7am com a da beleza e a da sa\u00fade. Verdadeira at\u00e9 ent\u00e3o, essa deprecia\u00e7\u00e3o vai sendo desmentida por uma saud\u00e1vel evolu\u00e7\u00e3o das mentalidades: a velhice n\u00e3o \u00e9 mais o que era antes. Nem \u00e9 mais quando era antes. Os dois ritos de passagem que a anunciavam, o fim do trabalho e da libido, est\u00e3o, ambos, perdendo autoridade. Quem se aposenta continua a viver em um mundo irreconhec\u00edvel que prop\u00f5e novos interesses e atividades. A curiosidade se agu\u00e7a na medida em que se \u00e9 desafiado por bem mais que o tradicional choque de gera\u00e7\u00f5es com seus conflitos e desentendimentos. Uma verdadeira mudan\u00e7a de era nos leva de rold\u00e3o, oferecendo-nos ao mesmo tempo o privil\u00e9gio e o susto de dela participar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A libido, seja por uma maior liberaliza\u00e7\u00e3o dos costumes, seja por progressos da medicina, reclama seus direitos na terceira idade com uma naturalidade que em outros tempos j\u00e1 foi chamada de despudor. Esmaece a fronteira entre as fases da vida. \u00c9 o conceito de velhice que envelhece. Envelhecer como sin\u00f4nimo de decad\u00eancia deixou de ser uma profecia que se autorrealiza. Sem, no entanto, impedir a lucidez sobre o desfecho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201dMeu tempo \u00e9 curto e o tempo dela sobra\u201d, lamenta-se o trovador, que n\u00e3o ignora a trai\u00e7\u00e3o que nosso corpo nos reserva. Nosso melhor amigo, que conhecemos melhor que nossa pr\u00f3pria alma, companheiro dos maiores prazeres, um dia nos trair\u00e1, adverte o imperador Adriano em suas mem\u00f3rias escritas por Marguerite Yourcenar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos os corpos s\u00e3o traidores. Essa trai\u00e7\u00e3o, incontorn\u00e1vel, que n\u00e3o \u00e9 segredo para ningu\u00e9m, n\u00e3o justifica transformar nossos dias em sala de espera, espectadores conformados e passivos da degrada\u00e7\u00e3o das c\u00e9lulas e dos projetos de futuro, aguardando o dia da trai\u00e7\u00e3o.Chico, \u00e0 beira dos setenta anos, criando com brilho, ora literatura , ora m\u00fasica, cantando um novo amor, \u00e9 a quintess\u00eancia desse fen\u00f4meno, um tempo da vida que n\u00e3o se parece em nada com o que um dia se chamou de velhice. Esse tempo ainda n\u00e3o encontrou seu nome. Por enquanto podemos cham\u00e1-lo apenas de vida.<\/p>\n<p>Publicada em \u00a0O Globo, 21\/01\/2012<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3657\" title=\"Foto: internet\" src=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/Chico_4E2421E56B69488D81B691510AE8AC3B@StellaPC.jpg\" alt=\"\" width=\"216\" height=\"158\" \/><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>Essa Pequena<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\">Chico Buarque<\/p>\n<p align=\"center\">Meu tempo \u00e9 curto, o tempo dela sobra<\/p>\n<p align=\"center\">Meu cabelo \u00e9 cinza, o dela \u00e9 cor de ab\u00f3bora<\/p>\n<p align=\"center\">Temo que n\u00e3o dure muito a nossa novela, mas<\/p>\n<p align=\"center\">Eu sou t\u00e3o feliz com ela<\/p>\n<p align=\"center\">Meu dia voa e ela n\u00e3o acorda<\/p>\n<p align=\"center\">Vou at\u00e9 a esquina, ela quer ir para a Fl\u00f3rida<\/p>\n<p align=\"center\">Acho que nem sei direito o que \u00e9 que ela fala, mas<\/p>\n<p align=\"center\">N\u00e3o canso de contempl\u00e1-la<\/p>\n<p align=\"center\">Feito avarento, conto os meus minutos<\/p>\n<p align=\"center\">Cada segundo que se esvai<\/p>\n<p align=\"center\">Cuidando dela, que anda noutro mundo<\/p>\n<p align=\"center\">Ela que esbanja suas horas ao vento, ai<\/p>\n<p align=\"center\">\u00c0s vezes ela pinta a boca e sai<\/p>\n<p align=\"center\">Fique \u00e0 vontade, eu digo, take your time<\/p>\n<p align=\"center\">Sinto que ainda vou penar com essa pequena, mas<\/p>\n<p align=\"center\">O blues j\u00e1 valeu a pena<\/p>\n<p><object width=\"560\" height=\"315\" classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\" \/><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\" \/><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/ZRLayH21Gnk?version=3&amp;hl=pt_BR&amp;rel=0\" \/><param name=\"allowfullscreen\" value=\"true\" \/><embed width=\"560\" height=\"315\" type=\"application\/x-shockwave-flash\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/ZRLayH21Gnk?version=3&amp;hl=pt_BR&amp;rel=0\" allowFullScreen=\"true\" allowscriptaccess=\"always\" allowfullscreen=\"true\" \/><\/object><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Caiu na rede! 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