{"id":4241,"date":"2012-08-07T23:59:17","date_gmt":"2012-08-08T02:59:17","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=4241"},"modified":"2012-08-09T11:23:50","modified_gmt":"2012-08-09T14:23:50","slug":"rachel-de-queiroz-escreve-sobre-o-voto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=4241","title":{"rendered":"Rachel de Queiroz escreve sobre o voto e as elei\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Recebi de um amigo querido, a cr\u00f4nica que publico abaixo. Ela foi escrita por Rachel de Queiroz em 1947 e foi publicada na revista O Cruzeiro. Apesar dos seus 65 anos de exist\u00eancia o texto pode ser considerado como nov\u00edssimo, escrito ontem, por algu\u00e9m que est\u00e1 vivendo a realidade do s\u00e9culo XXI, ou melhor, o clima das elei\u00e7\u00f5es que se aproximam. De \u201cvelho\u201d mesmo, somente a ortografia.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4242\" title=\"Foto capturada na internet - Rachel de Queiroz \" src=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/Rachel-de-Queiroz-untitled.bmp\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"333\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 240px;\"><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><strong><em>VOTAR<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>N\u00e3o sei se voc\u00eas t\u00eam meditado como devem no funcionamento do complexo maquinismo pol\u00edtico que se chama gov\u00earno democr\u00e1tico, ou gov\u00earno do povo. Em pol\u00edtica a gente se desabitua de tomar as palavras no seu sentido imediato.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>No entanto, talvez n\u00e3o exista, mais do que esta, express\u00e3o nenhuma nas l\u00ednguas vivas que deva ser tomada no seu sentido mais literal: gov\u00earno do povo. Porque, numa democracia, o ato de votar representa o ato de FAZER O GOV\u00caRNO.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Pelo voto n\u00e3o se serve a um amigo, n\u00e3o se combate um inimigo, n\u00e3o se presta ato de obedi\u00eancia a um chefe, n\u00e3o se satisfaz uma simpatia. Pelo voto a gente escolhe, de maneira definitiva e irrecorr\u00edvel, o indiv\u00edduo ou grupo de indiv\u00edduos que nos v\u00e3o governar por determinado prazo de tempo.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Escolhem-se pelo voto aqu\u00eales que v\u00e3o modificar as leis velhas e fazer leis novas &#8211; e qu\u00e3o profundamente nos interessa essa manufatura de leis! A lei nos pode dar e nos pode tirar tudo, at\u00e9 o ar que se respira e a luz que nos alumia, at\u00e9 os sete palmos de terra da derradeira moradia.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Escolhemos igualmente pelo voto aqu\u00eales que nos v\u00e3o cobrar impostos e, pior ainda, aqu\u00eales que ir\u00e3o estipular a quantidade d\u00easses impostos. Vejam como \u00e9 grave a escolha d\u00easses &#8220;cobradores&#8221;. Uma vez l\u00e1 em cima podem nos arrastar \u00e0 pen\u00faria, nos chupar a \u00faltima g\u00f4ta de sangue do corpo, nos arrancar o \u00faltimo vint\u00e9m do b\u00f4lso.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>E, por falar em dinheiro, pelo voto escolhem-se n\u00e3o s\u00f3 aqu\u00eales que v\u00e3o receber, guardar e gerir a fazenda p\u00fablica, mas tamb\u00e9m se escolhem aqu\u00eales que v\u00e3o &#8220;fabricar&#8221; o dinheiro. Esta \u00e9 uma das miss\u00f5es mais delicadas que os votantes confiam aos seus escolhidos.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Pois, se a fun\u00e7\u00e3o emissora cai em m\u00e3os desonestas, \u00e9 o mesmo que ficar o pa\u00eds entregue a uma quadrilha de fals\u00e1rios. \u00cales desandam a emitir sem conta nem limite, o dinheiro se multiplica tanto que vira papel sujo, e o que ontem valia mil, hoje n\u00e3o vale mais zero.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>N\u00e3o preciso explicar muito \u00easte cap\u00edtulo, j\u00e1 que n\u00f3s ainda nadamos em plena infla\u00e7\u00e3o e sabemos \u00e0 custa da nossa fome o que \u00e9 ter moedeiros falsos no poder.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Escolhem-se nas elei\u00e7\u00f5es aqu\u00eales que t\u00eam direito de demitir e nomear funcion\u00e1rios, e presidir a exist\u00eancia de todo o organismo burocr\u00e1tico. E, circunst\u00e2ncia mais grave e digna de todo o inter\u00easse: d\u00e1-se aos representantes do povo que exercem o poder executivo o comando de t\u00f4das as f\u00f4r\u00e7as armadas: o ex\u00e9rcito, a marinha, a avia\u00e7\u00e3o, as pol\u00edcias.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>E assim, amigos, quando voc\u00eas forem levianamente levar um voto para o Sr. Fulaninho que lhes f\u00eaz um favor, ou para o Sr. Sicrano que tem tanta vontade de ser governador, coitadinho, ou para Beltrano que \u00e9 t\u00e3o am\u00e1vel, parou o autom\u00f3vel, lhes deu uma carona e depois solicitou o seu sufr\u00e1gio &#8211; lembrem-se de que n\u00e3o v\u00e3o proporcionar a \u00easses sujeitos um simples empr\u00eago bem remunerado.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>V\u00e3o lhes entregar um poder enorme e temeroso, v\u00e3o faz\u00ea-los reis; v\u00e3o lhes dar soldados para \u00eales comandarem &#8211; e soldados s\u00e3o homens cuja principal virtude \u00e9 a cega obedi\u00eancia \u00e0s ordens dos chefes que lhe d\u00e1 o povo. Votando, fazemos dos votados nossos representantes leg\u00edtimos, passando-lhes procura\u00e7\u00e3o para agirem em nosso lugar, como se n\u00f3s pr\u00f3prios f\u00f4ssem.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Entregamos a \u00easses homens tanques, metralhadoras, canh\u00f5es, granadas, avi\u00f5es, submarinos, navios de guerra &#8211; e a flor da nossa mocidade, a \u00eales pr\u00easa por um juramento de fidelidade. E tudo isso pode se virar contra n\u00f3s e nos destruir, como o monstro Frankenstein se virou contra o seu amo e criador.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Votem, irm\u00e3os, votem. Mas pensem bem antes. Votar n\u00e3o \u00e9 assunto indiferente, \u00e9 quest\u00e3o pessoal, e quanto! Escolham com calma, pesem e me\u00e7am os candidatos, com muito mais paci\u00eancia e desconfian\u00e7a do que se estivessem escolhendo uma noiva.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Porque, afinal, a mulher quando \u00e9 ruim, d\u00e1-se uma surra, devolve-se ao pai, pede-se desquite. E o gov\u00earno, quando \u00e9 ruim, \u00eale \u00e9 que nos d\u00e1 a surra, \u00eale \u00e9 que nos p\u00f5e na rua, tira o \u00faltimo peda\u00e7o de p\u00e3o da b\u00f4ca dos nossos filhos e nos faz aprodecer na cadeia. E quando a gente n\u00e3o se conforma, nos intitula de revoltoso e d\u00e1 cabo de n\u00f3s a ferro e fogo.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>E agora um conselho final, que pode parecer um mau conselho, mas no fundo \u00e9 muito honesto. Meu amigo e leitor, se voc\u00ea estiver comprometido a votar com algu\u00e9m, se sofrer press\u00e3o de algum poderoso para sufragar \u00easte ou aqu\u00eale candidato, n\u00e3o se preocupe. N\u00e3o se prenda infantilmente a uma promessa arrancada \u00e0 sua pobreza, \u00e0 sua depend\u00eancia ou \u00e0 sua timidez. Lembre-se de que o voto \u00e9 secreto.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Se o obrigam a prometer, prometa. Se tem m\u00eado de dizer n\u00e3o, diga sim. O crime n\u00e3o \u00e9 seu, mas de quem tenta violar a sua livre escolha. Se, do lado de fora da se\u00e7\u00e3o eleitoral, voc\u00ea depende e tem m\u00eado, n\u00e3o se esque\u00e7a de que DENTRO DA CABINE INDEVASS\u00c1VEL VOC\u00ca \u00c9 UM HOMEM LIVRE. Falte com a palavra dada \u00e0 f\u00f4r\u00e7a, e escute apenas a sua consci\u00eancia. Palavras o vento leva, mas a consci\u00eancia n\u00e3o muda nunca, acompanha a gente at\u00e9 o inferno&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recebi de um amigo querido, a cr\u00f4nica que publico abaixo. Ela foi escrita por Rachel de Queiroz em 1947 e foi publicada na revista O Cruzeiro. 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