{"id":4269,"date":"2012-08-19T13:10:15","date_gmt":"2012-08-19T16:10:15","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=4269"},"modified":"2012-08-19T13:10:15","modified_gmt":"2012-08-19T16:10:15","slug":"largar-tudo-e-recomecar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=4269","title":{"rendered":"Largar tudo e recome\u00e7ar"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><strong>Se eu pudesse<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Danuza Le\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se eu pudesse, mudava minha vida toda; n\u00e3o que ela esteja ruim, mas s\u00f3 para ver que ela pode ser diferente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se eu pudesse, me desfaria de muitas coisas, da minha casa e de quase todas as roupas. Afinal, quem precisa de mais do que dois pares de sapatos, dois jeans, quatro camisetas e dois su\u00e9teres, sobretudo quando anda pensando em mudar de vida?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se eu tivesse muitas joias, enterrava todas elas na areia da praia para que um dia algu\u00e9m enfiasse a m\u00e3o brincando, assim para nada, e tivesse a felicidade de encontrar um colar de brilhantes. Afinal, d\u00e1 para viver sem, n\u00e3o d\u00e1?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Das algumas garrafas de champanhe guardadas cuidadosamente, na horizontal, daria para abrir m\u00e3o, sem nenhuma possibilidade de remorso futuro; champanhe, al\u00e9m de engordar, n\u00e3o passa de um espumante metido a alguma coisa, e nem barato d\u00e1, de t\u00e3o fraquinho que \u00e9. Dos vinhos, mais f\u00e1cil ainda; nada melhor do que o velho e bom u\u00edsque, com o qual sempre se pode contar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E as amizades? Ali\u00e1s, as amizades, n\u00e3o: as rela\u00e7\u00f5es. Ah, se tivesse coragem, compraria um novo caderno de telefones e passava s\u00f3 aqueles pouqu\u00edssimos nomes que realmente t\u00eam algum significado, e que s\u00e3o t\u00e3o poucos que nem precisaria escrever. Guardaria todos de cor, n\u00e3o na cabe\u00e7a, mas no cora\u00e7\u00e3o, e um dia me esqueceria de todos eles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se eu pudesse, iria recome\u00e7ar a vida em outra cidade, talvez em outro pa\u00eds, para nada, s\u00f3 para come\u00e7ar tudo do zero. Para \u00e0s vezes sofrer bastante, pensando que poderia ter tido mais ju\u00edzo e n\u00e3o ter feito tantas bobagens, pois se tivesse errado menos poderia ter sido mais feliz -talvez. Mas algu\u00e9m tem o poder de fazer algu\u00e9m sofrer, ou a capacidade do sofrimento \u00e9 um bem pessoal e intransfer\u00edvel?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se algu\u00e9m conseguisse ainda me fazer sofrer, seria um acontecimento a ser festejado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se eu pudesse -e n\u00e3o tivesse tantos compromissos-, seria vegetariana, passaria as noites em claro e teria muito amor pelos animais e pelas crian\u00e7as. Mas como tenho horror a qualquer bicho e nenhuma paci\u00eancia com criancinhas, a n\u00e3o ser com meus bichos e minhas crian\u00e7as, vou ter que atravessar a vida levando essa pesad\u00edssima cruz -afinal, ficou combinado que de certas coisas n\u00e3o se pode n\u00e3o gostar, e se n\u00e3o se gostar n\u00e3o se pode dizer, que vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se pudesse, largaria tudo e iria embora para um lugar onde ningu\u00e9m me conhecesse, onde n\u00e3o teria passado nem futuro; para um lugar esquisito no qual n\u00e3o entenderia a l\u00edngua do povo nem ningu\u00e9m entenderia a minha. Ser\u00edamos todos, assumidamente, estranhos -como somos no edif\u00edcio onde moramos, no local de trabalho, dentro de nossa fam\u00edlia. Ou voc\u00ea pensa que algu\u00e9m conhece algu\u00e9m porque d\u00e1 beijinhos no elevador?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se eu pudesse, quando acordasse hoje de madrugada sa\u00eda descal\u00e7a s\u00f3 com um casaco em cima da pele e ia molhar os p\u00e9s na \u00e1gua do mar, sozinha. Depois, ia tomar um caf\u00e9 no balc\u00e3o de um botequim, como fazem os homens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se eu pudesse, rasgava os tal\u00f5es de cheques, cortava os cart\u00f5es de cr\u00e9dito com uma tesoura, fazia uma linda fogueira com os casacos de pele e ia saber como \u00e9 que vivem os que n\u00e3o t\u00eam, nunca tiveram e nunca v\u00e3o ter nada disso. E aproveitava o embalo para cortar os fios dos telefones, jogar o celular na tela da televis\u00e3o e o computador pela janela -deve ser lindo, um computador voando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se eu pudesse, raspava a cabe\u00e7a, acendia dois cigarros ao mesmo tempo e tomava uma vodca dupla, sem gelo, num copo de geleia. E pegaria uma gilete para picar em pedacinhos a carteira de identidade, o passaporte e o CPF, sem pensar um s\u00f3 instante nas consequ\u00eancias e sem um pingo de medo do futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E jogava na lata de lixo meus len\u00e7\u00f3is, meus travesseiros de pluma, meu cobertor e engolia minhas pestanas posti\u00e7as, s\u00f3 para aprender que a vida n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se eu pudesse, esquecia o meu nome, o meu passado e a minha hist\u00f3ria e ia ser ningu\u00e9m. Ningu\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se eu pudesse, n\u00e3o, se eu quisesse. Pois \u00e9, tem dias que a gente est\u00e1 assim, mas passa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Danuza Le\u00e3o, jornalista e escritora, aborda temas ligados \u00e0s rela\u00e7\u00f5es entre pais e filhos, homens e mulheres, crian\u00e7as, adolescentes, al\u00e9m de outros assuntos do dia-a-dia. Publicou seu primeiro livro em 1992. Escreve aos domingos na vers\u00e3o impressa do caderno &#8220;Cotidiano&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Folha\/UOL &#8211; Colunista<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se eu pudesse \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Danuza Le\u00e3o Se eu pudesse, mudava minha vida toda; n\u00e3o que ela esteja ruim, mas s\u00f3 para ver que ela pode ser diferente. 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