{"id":4551,"date":"2012-11-25T11:32:47","date_gmt":"2012-11-25T14:32:47","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=4551"},"modified":"2012-11-25T11:34:08","modified_gmt":"2012-11-25T14:34:08","slug":"ser-especial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=4551","title":{"rendered":"Ser especial"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 330px;\">Danuza Le\u00e3o<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Afinal, qual a gra\u00e7a de ter muito dinheiro? Quanto mais coisas se tem, mais se quer ter e os desejos e anseios v\u00e3o mudando &#8211;e aumentando&#8211; a cada dia, s\u00f3 que a coisa n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o simples. Bom mesmo \u00e9 possuir coisas exclusivas, a que s\u00f3 n\u00f3s temos acesso; se todo mundo fosse rico, a vida seria um t\u00e9dio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um homem que come\u00e7a do nada, por exemplo: no in\u00edcio de sua vida, ter um apartamento era uma ambi\u00e7\u00e3o quase imposs\u00edvel de alcan\u00e7ar; mas, agora, cheio de sucesso, se voc\u00ea falar que est\u00e1 pensando em comprar um com menos de 800 metros quadrados, piscina, sauna e churrasqueira, ele vai olhar para voc\u00ea com o maior desprezo &#8211;isso se olhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vai longe o tempo do primeiro fusquinha comprado com o maior sacrif\u00edcio; agora, se n\u00e3o for um importado, com televis\u00e3o, bar e computador, n\u00e3o interessa &#8211;e s\u00f3 tem gra\u00e7a se for o \u00fanico a ter o brinquedinho. Somos todos verdadeiras crian\u00e7as, e s\u00f3 queremos ser \u00fanicos, especiais e raros; simples, n\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Queremos todas as brincadeirinhas eletr\u00f4nicas, que acabaram de ser lan\u00e7adas, mas qual a gra\u00e7a, se at\u00e9 o vizinho tiver as mesmas? O problema \u00e9: como se diferenciar do resto da humanidade, se todos t\u00eam acesso a absolutamente tudo, pagando m\u00f3dicas presta\u00e7\u00f5es mensais?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As viagens, por exemplo: j\u00e1 se foi o tempo em que ir a Paris era s\u00f3 para alguns; hoje, ningu\u00e9m quer ouvir o relato da subida do Nilo, do passeio de bal\u00e3o pelo deserto ou ver as fotos da viagem &#8211;e se for o v\u00eddeo, pior ainda&#8211; de quem foi \u00e0s muralhas da China. Ir a Nova York ver os musicais da Broadway j\u00e1 teve sua gra\u00e7a, mas, por R$ 50 mensais, o porteiro do pr\u00e9dio tamb\u00e9m pode ir, ent\u00e3o qual a gra\u00e7a? Enfrentar 12 horas de avi\u00e3o para chegar a Paris, entrar nas perfumarias que d\u00e3o 40% de desconto, com vendedoras falando portugu\u00eas e onde voc\u00ea s\u00f3 encontra brasileiros &#8211;n\u00e3o \u00e9 melhor ficar por aqui mesmo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Viajar ficou banal e a pergunta \u00e9: o que se pode fazer de diferente, original, para deslumbrar os amigos e mostrar que se \u00e9 um ser raro, com imagina\u00e7\u00e3o e criatividade, diferente do resto da humanidade?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 outro dia causava um certo frisson ter um jatinho para viagens mais longas e um helic\u00f3ptero para chegar a Petr\u00f3polis ou Angra sem passar pelo desconforto dos congestionamentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas hoje esses pequenos objetos de desejo ficaram t\u00e3o banais que s\u00f3 podem deslumbrar uma menina modesta que ainda n\u00e3o passou dos 18. A n\u00e3o ser, talvez, que o interior do jatinho seja feito de couro de cobra &#8211;talvez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 claro que ficar rico deve ser muito bom, mas algumas coisas os ricos perdem quando chegam l\u00e1. Maracan\u00e3 nunca mais, Carnaval tamb\u00e9m n\u00e3o, e ver os fogos do dia 31 na praia de Copacabana, nem pensar. Se todos t\u00eam acesso a esses prazeres, eles passam a n\u00e3o ter mais gra\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seguindo esse racioc\u00ednio, subir o Champs Elys\u00e9es numa linda tarde de primavera, junto a milhares de turistas tendo as mesmas vis\u00f5es de beleza, \u00e9 de uma banalidade insuport\u00e1vel. N\u00e3o importa estar no lugar mais bonito do mundo; o que interessa \u00e9 saber que s\u00f3 poucos, como voc\u00ea, podem desfrutar do mesmo encantamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando se chega a esse ponto, a vida fica dif\u00edcil. Ir para o Caribe n\u00e3o d\u00e1, porque as praias est\u00e3o infestadas de turistas &#8211;assim como Nova York, Londres e Paris; e como no Nordeste s\u00f3 tem alem\u00e3es e japoneses, chega-se \u00e0 conclus\u00e3o de que o mundo est\u00e1 ficando pequeno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para os muito exigentes, passa a existir uma \u00fanica solu\u00e7\u00e3o: trancar-se em casa com um livro, uma enorme caixa de chocolates &#8211;sem medo de engordar&#8211;, o ar-condicionado ligado, a televis\u00e3o desligada, e sozinha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E quer saber? Se o livro for mesmo bom, n\u00e3o tem nada melhor na vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quase nada, digamos.<\/p>\n<p>\u00a0Fonte: Folha\/UOL<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Danuza Le\u00e3o &nbsp; Afinal, qual a gra\u00e7a de ter muito dinheiro? 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