{"id":4652,"date":"2012-12-29T16:10:10","date_gmt":"2012-12-29T19:10:10","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=4652"},"modified":"2012-12-29T16:10:10","modified_gmt":"2012-12-29T19:10:10","slug":"o-insustentavel-preconceito-do-ser","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=4652","title":{"rendered":"O insustent\u00e1vel preconceito do ser!"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 360px;\">Rosana Jatob\u00e1<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era o admir\u00e1vel mundo novo! Rec\u00e9m-chegada de Salvador, vinha a convite de uma emissora de TV, para a qual j\u00e1 trabalhava como rep\u00f3rter. Sol\u00edcitos, os colegas da reda\u00e7\u00e3o paulistana se empenhavam em promover e indicar os melhores programas de lazer e cultura, onde eu abastecia a alma de prazer e o intelecto de novos conhecimentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era o admir\u00e1vel mundo civilizado! Mentes abertas com alto n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o formal. No entanto, logo percebi o ru\u00eddo no discurso:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Recomendo um passeio pelo nosso &#8220;Central Park&#8221;, disse um rep\u00f3rter. Mas evite ir ao Ibirapuera nos domingos, porque \u00e9 uma baianada s\u00f3!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ent\u00e3o estarei em casa, repliquei ironicamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ai, desculpa, n\u00e3o quis te ofender. \u00c9 for\u00e7a de express\u00e3o. T\u00f4 falando de um tipo de gente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; A gente que ajudou a construir as ruas e pontes, e a levantar os pr\u00e9dios da capital paulista?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Sim, quer dizer, n\u00e3o! Me refiro \u00e0s pessoas mal-educadas, que falam alto e fazem &#8220;farofa&#8221; no parque.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Desculpe, mas outro dia vi um paulistano que, silenciosamente, abriu a janela do carro e atirou uma caixa de sapatos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; N\u00e3o me leve a mal, n\u00e3o tenho preconceitos contra os baianos. Ali\u00e1s, adoro a sua terra, seu jeito de falar&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fato, percebo que n\u00e3o existe a inten\u00e7\u00e3o de magoar. S\u00e3o palavras ou express\u00f5es que , de t\u00e3o arraigadas, passam despercebidas, mas carregam o flagelo do preconceito. Preconceito velado, o que \u00e9 pior, porque n\u00e3o mostra a cara, n\u00e3o se assume como tal. Dif\u00edcil combater um inimigo disfar\u00e7ado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Descobri que no Rio de Janeiro, a pecha recai sobre os &#8220;Para\u00edba&#8221;, que, ali\u00e1s, podem ser qualquer nordestino. Com ou sem a &#8220;cabe\u00e7a chata&#8221;, outra denomina\u00e7\u00e3o usada no Sudeste para quem nasce no Nordeste.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Bahia, a heran\u00e7a escravocrata at\u00e9 hoje reproduz gestos e palavras que segregam. J\u00e1 testemunhei pessoas esfregando o dedo indicador no bra\u00e7o, para se referir a um negro, como se a cor do sujeito explicasse uma atitude censur\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa das conversas que tive com a jornalista Miriam Leit\u00e3o, ela comentava:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; O Brasil gosta de se imaginar como uma democracia racial, mas isso \u00e9 uma ilus\u00e3o. N\u00f3s temos uma marcha de carnaval, feita h\u00e1 40 anos, cantada at\u00e9 hoje. E ela \u00e9 terr\u00edvel. Os brancos nunca pensam no que est\u00e3o cantando. A letra diz o seguinte:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O teu cabelo n\u00e3o nega, mulata<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque \u00e9s mulata na cor<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas como a cor n\u00e3o pega, mulata<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mulata, quero o teu amor&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;\u00c9 ofensivo&#8221;, diz Miriam. Como a cor de algu\u00e9m poderia contaminar, como se fosse doen\u00e7a? E as pessoas nunca percebem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A express\u00e3o &#8220;p\u00e9 na cozinha&#8221;, para designar a ascend\u00eancia africana, \u00e9 a mais comum de todas, e tamb\u00e9m dita sem o menor constragimento. \u00c9 o retorno \u00e0 mentalidade escravocrata, reproduzindo as mazelas da senzala.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cronista Rubem Alves publicou esta semana na Folha de S\u00e3o Paulo um artigo no qual ressalta:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Palavras n\u00e3o s\u00e3o inocentes, elas s\u00e3o armas que os poderosos usam para ferir e dominar os fracos. Os brancos norte-americanos inventaram a palavra &#8216;niger&#8217; para humilhar os negros. Criaram uma brincadeira que tinha um versinho assim:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8216;Eeny, meeny, miny, moe, catch a niger by the toe&#8217;&#8230;que quer dizer, agarre um crioulo pelo ded\u00e3o do p\u00e9 (aqui no Brasil, quando se quer diminuir um negro, usa-se a palavra crioulo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em den\u00fancia a esse uso ofensivo da palavra , os negros cunharam o slogan &#8216;black is beautiful&#8217;. Da\u00ed surgiu a linguagem politicamente correta. A regra fundamental dessa linguagem \u00e9 nunca usar uma palavra que humilhe, discrimine ou zombe de algu\u00e9m&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser\u00e1 que na era Obama v\u00e3o inventar &#8220;P\u00e9 na Presid\u00eancia&#8221;, para se referir aos negros e mulatos americanos de hoje?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A origem social \u00e9 outro fator que gera coment\u00e1rios tidos como &#8220;inofensivos&#8221; , mas cru\u00e9is. A Na\u00e7\u00e3o que deveria se orgulhar de sua mobilidade social, \u00e9 a mesma que o picha o pr\u00f3prio Presidente de torneiro mec\u00e2nico, semi-analfabeto. Com rela\u00e7\u00e3o aos empregados dom\u00e9sticos, j\u00e1 cheguei a ouvir:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; A minha &#8220;criadagem&#8221; n\u00e3o entra pelo elevador social !<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a complac\u00eancia com rela\u00e7\u00e3o aos chamamentos, insultos, por vezes humilhantes, dirigidos aos homossexuais ? Os termos bicha, bichona, frutinha, biba, &#8220;viado&#8221;, maricona, boiola e uma infinidade de apelidos, despertam risadas. Quem se importa com o potencial ofensivo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mulher \u00e9 rainha no dia oito de mar\u00e7o. Quando se atreve a encarar o tr\u00e2nsito, e desagrada o c\u00f3digo masculino, ouve frequentemente:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; S\u00f3 podia ser mulher! Ei, dona Maria, seu lugar \u00e9 no tanque!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dependendo do tom do cabelo, demonstra\u00e7\u00f5es de desinforma\u00e7\u00e3o ou falta de intelig\u00eancia, s\u00e3o imediatamente imputadas a um certo tipo feminino:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">-S\u00f3 podia ser loira!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a forma de administrar o pr\u00f3prio dinheiro \u00e9 poupar muito e gastar pouco:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; S\u00f3 podia ser judeu!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mesma superficialidade em abordar as caracter\u00edsticas de um povo se aplica aos \u00e1rabes. Aqui, todos eles viram turcos. Quem acumula quilos extras \u00e9 motivo de chacota do tipo: rolha de po\u00e7o, polpeta, alm\u00f4ndega, baleia &#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gosto muito do prov\u00e9rbio b\u00edblico, legado do Cristianismo: &#8220;O mal n\u00e3o \u00e9 o que entra, mas o que sai da boca do homem&#8221;. Invoco tamb\u00e9m a doutrina da F\u00edsica Qu\u00e2ntica, que confere \u00e0s palavras o poder de ratificar ou transformar a realidade. S\u00e3o part\u00edculas de energia tecendo as teias do comportamento humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A liberdade de escolha e a toler\u00e2ncia das diferen\u00e7as resumem o Princ\u00edpio da Igualdade, sem o qual nenhuma sociedade pode ser Sustent\u00e1vel. O preconceito nas entrelinhas \u00e9 perigoso, porque , em doses homeop\u00e1ticas, refor\u00e7a os estigmas e aprofunda os abismos entre os cidad\u00e3os. Revela a ignorancia e alimenta o monstro da maldade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 que um dia um trabalhador perde o emprego, se torna um alc\u00f3olatra, passa a viver nas ruas e amanhece carbonizado:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">-S\u00f3 podia ser mendigo!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No outro dia, o motim toma conta da pris\u00e3o, a pol\u00edcia invade, mata 111 detentos, e nem a can\u00e7\u00e3o do Caetano Veloso \u00e9 capaz de comover:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">-S\u00f3 podia ser bandido!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Somos n\u00f3s os respons\u00e1veis pela constru\u00e7\u00e3o do ideal de civilidade aqui em S\u00e3o Paulo, no Rio, na Bahia, em qualquer lugar do mundo. \u00c9 a consci\u00eancia do valor de cada pessoa que eleva a ra\u00e7a humana e aflora o que temos de melhor para dizer uns aos outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PS: Fui ao Ibirapuera num domingo e encontrei v\u00e1rios conterr\u00e2neos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Rosana Jatob\u00e1<\/strong> &#8211; jornalista, graduada em Direito e Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, e mestra em gest\u00e3o e tecnologias ambientais\u00a0pela \u00a0Universidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Rosana Jatob\u00e1 Era o admir\u00e1vel mundo novo! 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