{"id":4750,"date":"2013-01-22T22:13:29","date_gmt":"2013-01-23T01:13:29","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=4750"},"modified":"2013-01-22T23:07:32","modified_gmt":"2013-01-23T02:07:32","slug":"antes-que-elas-crescam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=4750","title":{"rendered":"Antes que elas cres\u00e7am"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify; padding-left: 270px;\">Affonso Romano de Sant&#8217;Anna<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 um per\u00edodo em que os pais v\u00e3o ficando \u00f3rf\u00e3os dos pr\u00f3prios filhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 que as crian\u00e7as\u00a0 crescem. Independentes de n\u00f3s, como \u00e1rvores, tagarelas e p\u00e1ssaros estabanados, elas crescem sem pedir licen\u00e7a. Crescem como a infla\u00e7\u00e3o, independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos pre\u00e7os, os disparos dos discursos e o assalto das esta\u00e7\u00f5es, elas crescem com uma estrid\u00eancia alegre e, \u00e0s vezes, com alardeada arrog\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dia se assentam perto de voc\u00ea no terra\u00e7o e dizem uma frase de tal maturidade que voc\u00ea sente que n\u00e3o pode mais trocar as fraldas daquela criatura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Onde e como andou crescendo aquela danadinha que voc\u00ea n\u00e3o percebeu? Cad\u00ea aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cad\u00ea a pazinha de brincar na areia, as festinhas de anivers\u00e1rio com palha\u00e7os, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela est\u00e1 crescendo num ritual de obedi\u00eancia org\u00e2nica e desobedi\u00eancia civil. E voc\u00ea est\u00e1 agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela n\u00e3o apenas cres\u00e7a, mas apare\u00e7a. Ali est\u00e3o muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos sobre as ancas. Essas s\u00e3o as nossas filhas, em pleno cio, lindas potrancas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre hamb\u00fargueres e refrigerantes nas esquinas, l\u00e1 est\u00e3o elas, com o uniforme de sua gera\u00e7\u00e3o: inc\u00f4modas mochilas da moda nos ombros ou, ent\u00e3o com a su\u00e9ter amarrada na cintura. Est\u00e1 quente, a gente diz que v\u00e3o estragar a su\u00e9ter, mas n\u00e3o tem jeito, \u00e9 o emblema da gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois ali estamos, depois do primeiro e do segundo casamento, com essa barba de jovem executivo ou intelectual em ascens\u00e3o, as m\u00e3es, \u00e0s vezes, j\u00e1 com a primeira pl\u00e1stica e o casamento recomposto. Essas s\u00e3o as filhas que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das not\u00edcias e da ditadura das horas. E elas crescem meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 um per\u00edodo em que os pais v\u00e3o ficando \u00f3rf\u00e3os dos pr\u00f3prios filhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Longe j\u00e1 vai o momento em que o primeiro m\u00eanstruo foi recebido como um impacto de rosas vermelhas. N\u00e3o mais as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre g\u00edrias e can\u00e7\u00f5es. Passou o tempo do bal\u00e9, da cultura francesa e inglesa. Sa\u00edram do banco de tr\u00e1s e passaram\u00a0 para o volante de suas pr\u00f3prias vidas. S\u00f3 nos resta\u00a0\u00a0 dizer \u201cbonne route, bonne route\u201d, como naquela can\u00e7\u00e3o francesa narrando a emo\u00e7\u00e3o do pai quando a filha oferece o primeiro jantar no apartamento dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dever\u00edamos ter ido mais\u00a0 vezes \u00e0 cama delas ao anoitecer para ouvir\u00a0 sua alma respirando conversas e confid\u00eancias entre os len\u00e7\u00f3is da inf\u00e2ncia, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de colagens, posteres e agendas coloridas de pil\u00f4. N\u00e3o, n\u00e3o as levamos suficientemente ao maldito \u201cdrive-in\u201d, ao Tablado para ver \u201cPluft\u201d, n\u00e3o lhes demos suficientes hamb\u00fargueres e cocas, n\u00e3o lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Elas cresceram sem que esgot\u00e1ssemos nelas todo o nosso afeto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No princ\u00edpio\u00a0 subiam a serra ou iam \u00e0 casa de\u00a0 praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, p\u00e1scoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e sandu\u00edches infantis. Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo\u00a0 com os pais come\u00e7ou a ser um esfor\u00e7o, um sofrimento, pois era imposs\u00edvel deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. Esse ex\u00edlio\u00a0 dos pais, esse div\u00f3rcio dos filhos, vai durar sete anos b\u00edblicos. Agora \u00e9 hora de os pais na montanha\u00a0 terem a solid\u00e3o que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O jeito \u00e9 esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto \u00e9 a hora do carinho ocioso e estocado, n\u00e3o exercido nos pr\u00f3prios filhos e que n\u00e3o pode morrer conosco. Por isso, os av\u00f3s s\u00e3o t\u00e3o desmesurados e distribuem t\u00e3o incontrol\u00e1vel afei\u00e7\u00e3o. Os netos s\u00e3o a \u00faltima oportunidade de reeditar o nosso afeto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, \u00e9 necess\u00e1rio fazer alguma coisa a mais, antes que elas cres\u00e7am.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4753\" title=\"Foto arquivo Leni David\" src=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/Mone-Pat-e-Lu.jpg\" alt=\"\" width=\"534\" height=\"284\" srcset=\"https:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/Mone-Pat-e-Lu.jpg 534w, https:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/Mone-Pat-e-Lu-300x159.jpg 300w, https:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/Mone-Pat-e-Lu-500x265.jpg 500w\" sizes=\"auto, (max-width: 534px) 100vw, 534px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Affonso Romano de Sant&#8217;Anna H\u00e1 um per\u00edodo em que os pais v\u00e3o ficando \u00f3rf\u00e3os dos pr\u00f3prios filhos. \u00c9 que as crian\u00e7as\u00a0 crescem. 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