{"id":5225,"date":"2013-10-28T22:25:34","date_gmt":"2013-10-29T01:25:34","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=5225"},"modified":"2013-10-28T22:25:34","modified_gmt":"2013-10-29T01:25:34","slug":"martha-medeiros-fala-de-desassossego","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=5225","title":{"rendered":"Martha Medeiros fala de desassossego"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><b>A Ra\u00e7a dos Desassossegados<\/b><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 330px;\">Martha Medeiros<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi no livro A caverna, de Jos\u00e9 Saramago, que o personagem Cipriano Algor definiu seu genro Mar\u00e7al como um homem \u2018da ra\u00e7a dos desassossegados de nascen\u00e7a\u2019. Logo, pensei ao ler, \u2018eu tamb\u00e9m sou\u2019, assim como voc\u00ea deve estar pensando, \u2018me inclua nessa\u2019. \u00c0 ra\u00e7a dos desassossegados pertencemos todos, negros e brancos, ricos e pobres, jovens e velhos. Bem, desde que tenhamos duas caracter\u00edsticas: a inquieta\u00e7\u00e3o (que nos torna insuportavelmente exigentes conosco) e a ambi\u00e7\u00e3o de vencer n\u00e3o os jogos, mas o tempo, esse advers\u00e1rio implac\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desassossegados do mundo correm atr\u00e1s da felicidade poss\u00edvel, e uma vez alcan\u00e7ado seu quinh\u00e3o, n\u00e3o sossegam: saem atr\u00e1s da felicidade improv\u00e1vel, aquela que se promete constantemente, aquela que ningu\u00e9m nunca viu, e por isso sua raridade. Desassossegados amam com atropelo, cultivam fantasias irreais de amores sublimes, fartos e eternos, s\u00e3o sabidamente apressados, cheios de \u00e2nsias e desejos, amam muito mais do que necessitam e recebem menos amor do que planejavam. Desassossegados pensam acordados e dormindo, pensam falando e escutando, pensam antes de concordar e, quando discordam, pensam que pensam melhor, e pensam com clareza uns dias e com a mente turva em outros, e pensam tanto que pensam que descansam. Desassossegados n\u00e3o podem mais ver o telejornal porque choram, n\u00e3o podem sair mais \u00e0s ruas porque tremem, n\u00e3o podem aceitar tanta gente crua habitando os topos das pir\u00e2mides e tanta gente cozida em filas, em madrugadas e no sil\u00eancio dos bueiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desassossegados vestem-se de qualquer jeito, arrancam a pele dos dedos com os dentes, homens e mulheres soterrados, cavando sua abertura, tentando abrir uma janela emperrada, inventando uns desafios diferentes para sentir sua vida empurrada, desassossegados voltados pra frente. Desassossegados t\u00eam ins\u00f4nia e s\u00e3o gentis, as verdades imut\u00e1veis os incomodam, riem quando bebem, n\u00e3o enjoam, mas ficam tontos com tanta id\u00e9ia solta, com tamanha esquizofrenia, n\u00e3o se acomodam em rede, leito, lamentam a falta que faz uma paz inconsciente. Dessa ra\u00e7a somos todos, eu sou e s\u00f3 sossego quando me aceito.<\/p>\n<p>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; A Ra\u00e7a dos Desassossegados &nbsp; Martha Medeiros Foi no livro A caverna, de Jos\u00e9 Saramago, que o personagem Cipriano Algor definiu seu genro Mar\u00e7al como um homem \u2018da ra\u00e7a dos desassossegados de nascen\u00e7a\u2019. 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