{"id":532,"date":"2010-04-27T14:51:17","date_gmt":"2010-04-27T17:51:17","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=532"},"modified":"2011-09-15T18:59:50","modified_gmt":"2011-09-15T21:59:50","slug":"mulheres-da-praca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=532","title":{"rendered":"Mulheres da Pra\u00e7a"},"content":{"rendered":"<h1>\u00a0<\/h1>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<em>\u00a0Leni David<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O correio na minha rua \u00e9 distribu\u00eddo por uma jovem lourinha e simp\u00e1tica. Ela faz o seu trabalho montada numa bicicleta amarela. Todas as manh\u00e3s espreito a bicicleta da mo\u00e7a do correio e quando ela chega junto ao port\u00e3o do edif\u00edcio, des\u00e7o as escadas correndo, digo \u2018bom-dia\u2019 sorrindo e abro ansiosa a caixinha de cartas, como se fosse o cofre do tesouro. O meu tesouro \u00e9 feito de envelopes ornados de verde-amarelo!<\/p>\n<p style=\"text-align:   justify;\">Subo as escadas correndo, instalo-me numa cadeira e suprimo as barreiras entre o mundo onde estou e o meu mundo, quase do outro lado da terra; o mar sempre foi o grande dep\u00f3sito de segredos da humanidade, mas o Oceano Atl\u00e2ntico se transforma num riachinho, quando tenho uma carta nas m\u00e3os. O c\u00e9u cinza fica azul e a saudade, sol de ver\u00e3o alimentando a vida. As letras mi\u00fadas ou grandes contam o cotidiano, as aventuras das crian\u00e7as, as festas e, talvez por respeito \u00e0 dist\u00e2ncia, se transformam em palavras tristes, quando as not\u00edcias s\u00e3o m\u00e1s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As mensagens que chegam contam a vidinha morna do interior do Brasil. As vezes mensagens de carinho, quase um relat\u00f3rio amoroso do cotidiano de l\u00e1; outras vezes, de um jeito desconcertado, contam coisas assim : &#8220;<em>faz oito meses que n\u00e3o chove no Nordeste e exatamente quatro meses que n\u00e3o cai uma gota de chuva aqui! O gado est\u00e1 morrendo, de sede e fome; ainda ag\u00fcenta de p\u00e9 gra\u00e7as ao baga\u00e7o da mata. O povo faz pena, n\u00e3o tem sequer \u00e1gua para beber. Ainda esta semana os camponeses de v\u00e1rias<strong> <\/strong>munic\u00edpios se reuniram em frente \u00e0 prefeitura, na tentativa de conseguir ajuda da municipalidade. O pior \u00e9 que o prefeito diz que n\u00e3o tem verba, nem do Estado nem do Governo Federal&#8230; D\u00f3i na alma e faz mal \u00e0 qualquer vivente, filho de Deus, olhar nos olhos daqueles homens e escutar as cantigas que as mulheres retirantes cantam na rua. Falo de cantiga porque meu vocabul\u00e1rio \u00e9 pobre, pois de tanta tristeza, elas parecem lamentos<\/em>.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De t\u00e3o longe (nem sei quantas l\u00e9guas) sinto o cora\u00e7\u00e3o apertando, um n\u00f3 na garganta e uma vontade incontrol\u00e1vel de chorar. Penso na gente pobre nordestina, fruto da seca e da mis\u00e9ria. Falam em a\u00e7udes, em irriga\u00e7\u00e3o e at\u00e9 em prova\u00e7\u00e3o, argumento f\u00e1cil, pretexto para depositar nas m\u00e3os de Deus a incapacidade dos homens! Pobre Deus, v\u00e1lvula de escape dos ignorantes e bode expiat\u00f3rio dos irrespons\u00e1veis, tantas vezes invocado para encobrir as incapacidades, tantas vezes responsabilizado pela mis\u00e9ria do povo!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daqui imagino minha terra querida, \u00ab\u00a0m\u00e3e gentil\u00a0\u00bb, cheia de contrastes, cores e vejo-a tamb\u00e9m madrasta desnaturada, patroa insaci\u00e1vel, comandada pela tirania dos poderosos. Vejo voc\u00ea mulher do sert\u00e3o, desidratada, envelhecida pela labuta e pela desesperan\u00e7a e admiro voc\u00ea! Acredito em voc\u00eas, Marias, Joanas, Crispinas e Doralices. Confio em voc\u00eas que sobrevivem apesar das priva\u00e7\u00f5es e que sabem cantar cantigas que doem na alma&#8230;. Admiro a for\u00e7a, das Ritas, Clarices, e Balbina, fruto do nada, ou fruto da desesperan\u00e7a, do desespero! Invejo voc\u00eas todas, capazes de abrir a boca no meio da pra\u00e7a e cantar&#8230; cantar o sofrimento e a falta de p\u00e3o, cantar corajosamente, quando talvez o desejo maior seja de matar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu acho que esse canto, talvez choro sufocado, seja a semente nova, plantada num espa\u00e7o tamb\u00e9m novo, de pedra e asfalto. As l\u00e1grimas derramadas nos caminho, na solid\u00e3o da ro\u00e7a foram sugadas pela terra seca e desapareceram no vazio da indiferen\u00e7a; agora o canto do asfalto est\u00e1 se misturando com o barulho dos motores dos carros, com o suor dos oper\u00e1rios na rua, com a tristeza da dona de casa exausta; o canto do asfalto vai fazer barulho, vai incomodar a sesta do patr\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Canta In\u00eas, canta Clotilde, canta Madalena! Cantem com toda a for\u00e7a e cantem mais alto ainda! Quem sabe se numa dessas tardes de estio, esse canto do asfalto se transforma em hino! Canta mulher, canta mais, mesmo lamentos de doer na alma!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paris, junho de 1993. (Publicada no jornal CAT, editado pelo MOC)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Observa\u00e7\u00e3o: eu achava que essa cr\u00f4nica havia sido escrita h\u00e1 pouco tempo, mas quando vejo a data, me dou conta de que j\u00e1 se passaram quase vinte\u00a0 anos. E quantas coisas mudaram! O correio n\u00e3o traz mais cartas, somente contas. Os envelopes ornados de verde e amarelo desapareceram e a internet tornou-se o meio de comunica\u00e7\u00e3o mais utilizado no mundo. As mulheres que cantavam cantigas tristes, n\u00e3o cantam mais&#8230; e os movimentos sociais mudaram as estrat\u00e9gias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Nordeste? Continua seco e pobre!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu? Desencantada&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Leni David O correio na minha rua \u00e9 distribu\u00eddo por uma jovem lourinha e simp\u00e1tica. Ela faz o seu trabalho montada numa bicicleta amarela. 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