{"id":551,"date":"2010-04-29T15:14:05","date_gmt":"2010-04-29T18:14:05","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=551"},"modified":"2011-09-15T18:36:42","modified_gmt":"2011-09-15T21:36:42","slug":"a-cronica-e-uma-historia-de-bem-te-vi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=551","title":{"rendered":"A cr\u00f4nica e uma hist\u00f3ria de bem-te-vi"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Quando Pero Vaz de Caminha registrou, no ano de 1500, a chegada dos portugueses ao Brasil, escreveu uma cr\u00f4nica que mais tarde se transformaria em documento, uma esp\u00e9cie de certid\u00e3o de nascimento do pa\u00eds: a famosa \u201ccarta de Caminha\u201d, dando contas da nova terra descoberta. Nos s\u00e9culos XVI e XVII e at\u00e9 meados do s\u00e9culo XVIII, convencionou-se classificar qualquer relato como cr\u00f4nica (cronos), impingindo \u00eanfase ao conceito de tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cr\u00f4nica, que nasceu com o relato de fatos, viagens e\u00a0 descobertas, tem sua origem moderna no jornalismo. Ela ocupa um espa\u00e7o importante no cotidiano urbano e pode encerrar informa\u00e7\u00f5es de toda natureza, pois atrav\u00e9s dela o cronista ou comenta um estado de esp\u00edrito, comenta ou descreve uma \u00e9poca, um fato, uma curiosidade, uma moda, enfim, aspectos do cotidiano, que muitos vezes passa despercebido ao leitor desavisado. Como uma c\u00e2mera fotogr\u00e1fica, a cr\u00f4nica captura os instant\u00e2neos do dia-a-dia e os traduz em textos liter\u00e1rios, pois o seu princ\u00edpio b\u00e1sico \u00e9 circunstancial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Brasil, a cr\u00f4nica ganhou <em>status<\/em> liter\u00e1rio no s\u00e9culo XX e teve o seu tempo \u00e1ureo a partir da publica\u00e7\u00e3o dos suplementos culturais dos grandes jornais. Na sua primeira fase teve Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira como nomes de destaque. Posteriormente, cronistas como Nelson Rodrigues, Rubem Braga, Raquel de Queiroz, Carlos Heitor Cony, Cec\u00edlia Meireles, entre outros, concorreram para fixar o g\u00eanero, hoje t\u00e3o difundido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Margarida de Souza Neves afirma que \u00e9 na cr\u00f4nica que se observa o cotidiano, da sociedade, pois ela revela os sentimentos, as paix\u00f5es de momento e tudo aquilo que permite identificar o rosto humano da hist\u00f3ria. \u00c9 como se a cr\u00f4nica fosse a exata reprodu\u00e7\u00e3o do instante em que ocorre   o fato ou a circunst\u00e2ncia captada pelo escritor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Hist\u00f3ria de bem-te-vi, escrita h\u00e1 cerca de cinquenta anos, Cec\u00edlia Meireles n\u00e3o s\u00f3 fixa uma realidade daquele momento, capta o instante, rememora outros, denuncia o que lhe parece esdr\u00faxulo, tudo isso inspirado no canto de uma avezinha simpl\u00f3ria que vive voando por a\u00ed, sem chamar a aten\u00e7\u00e3o de ningu\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/ani02.gif\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-552\" title=\"ani02\" src=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/04\/ani02.gif\" alt=\"\" width=\"128\" height=\"90\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Hist\u00f3ria de bem-te-vi<\/h2>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong><em>Cec\u00edlia Meireles<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com estas florestas de arranha-c\u00e9us que v\u00e3o crescendo, muita gente pensa que passarinho \u00e9 coisa s\u00f3 de jardim zool\u00f3gico; e outras at\u00e9 acham que seja apenas antiguidade de museu. Certamente chegaremos l\u00e1; mas por enquanto ainda existem bairros afortunados onde haja uma casa, casa que tenha um quintal, quintal que tenha uma \u00e1rvore. Bom ser\u00e1 que essa \u00e1rvore seja a mangueira. Pois nesse vasto pal\u00e1cio verde podem morar muitos passarinhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os velhos cronistas desta terra encantaram-se com canind\u00e9s e araras, tuins e sabi\u00e1s, maracan\u00e3s e &#8220;quereju\u00e1s todos azuis de cor fin\u00edssima&#8230;&#8221;. N\u00f3s esquecemos tudo: quando um poeta fala num p\u00e1ssaro, o leitor pensa que \u00e9 leitura&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas h\u00e1 um passarinho chamado bem-te-vi. Creio que ele est\u00e1 para acabar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 pena, pois com esse nome que tem \u2014 e que \u00e9 a sua pr\u00f3pria voz \u2014 devia estar em todas as reparti\u00e7\u00f5es e outros lugares, numa elegante gaiola, para no momento oportuno anunciar a sua presen\u00e7a. Seria um sobressalto providencial e sob forma t\u00e3o inocente e agrad\u00e1vel que ningu\u00e9m se aborreceria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que me leva a crer no desaparecimento do bem-te-vi s\u00e3o as mudan\u00e7as que come\u00e7o a observar na sua voz. O ano passado, aqui nas mangueiras dos meus simp\u00e1ticos vizinhos, apareceu um bem-te-vi caprichoso, muito moderno, que se recusava a articular as tr\u00eas s\u00edlabas tradicionais do seu nome, limitando-se a gritar: &#8220;&#8230;te-vi! &#8230;te-vi&#8221;, com a maior irrever\u00eancia gramatical. Como dizem que as \u00faltimas gera\u00e7\u00f5es andam muito rebeldes e novidadeiras achei natural que tamb\u00e9m os passarinhos estivessem contagiados pelo novo estilo humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo a seguir, o mesmo passarinho, ou seu filho ou seu irm\u00e3o \u2014 como posso saber, com a folhagem cerrada da mangueira? \u2014 animou-se a uma aud\u00e1cia maior N\u00e3o quis saber das duas s\u00edlabas, e come\u00e7ou a gritar apenas daqui, dali, invis\u00edvel e brincalh\u00e3o: &#8220;&#8230;vi!\u00a0 &#8230;vi! &#8230;vi! &#8230;&#8221; o que me pareceu divertido, nesta era do <em>twist<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tempo passou, o bem-te-vi deve ter viajado, talvez seja cosmonauta, talvez tenha voado com o seu <em>team<\/em> de futebol \u2014 que se n\u00e3o h\u00e1 de pensar de bem-te-vis assim progressistas, que rompem com o canto da fam\u00edlia e mudam os lemas dos seus bras\u00f5es? Talvez tenha sido atacado por esses crioulos fortes que agora saem do mato de repente e disparam sem raz\u00e3o nenhuma no primeiro indiv\u00edduo que encontram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas hoje ouvi um bem-te-vi cantar E cantava assim: &#8220;Bem-bem-bem&#8230;te-vi!&#8221; Pensei: &#8220;\u00c9 uma nova escola po\u00e9tica que se eleva da mangueira!&#8230;&#8221; Depois, o passarinho mudou. E fez: &#8220;Bem-te-te-te&#8230; vi!&#8221; Tornei a refletir: &#8220;Deve estar estudando a sua cartilha&#8230; Estar\u00e1 soletrando&#8230;&#8221; E o passarinho: &#8220;Bem-bem-bem&#8230;te-te-te&#8230;vi-vi-vi!&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os ornit\u00f3logos devem saber se isso \u00e9 caso comum ou raro. Eu jamais tinha ouvido uma coisa assim! Mas as crian\u00e7as, que sabem mais do que eu, e v\u00e3o diretas aos assuntos, ouviram, pensaram e disseram: &#8220;Que engra\u00e7ado! Um bem-te-vi gago!&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(\u00c9: talvez n\u00e3o seja mesmo exotismo, mas apenas gagueira&#8230;)<\/p>\n<p>Texto extra\u00eddo do livro <strong><em>Escolha o seu sonho<\/em><\/strong>;Rio de Janeiro:Record, 2002, p\u00e1g. 53.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando Pero Vaz de Caminha registrou, no ano de 1500, a chegada dos portugueses ao Brasil, escreveu uma cr\u00f4nica que mais tarde se transformaria em documento, uma esp\u00e9cie de certid\u00e3o de nascimento do pa\u00eds: a famosa \u201ccarta de Caminha\u201d, dando &hellip; <a href=\"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=551\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,178],"tags":[200,1856,209],"class_list":["post-551","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-estante-de-literatura","tag-cecilia-meireles","tag-cronicas","tag-historia-de-bem-te-vi"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/551","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=551"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/551\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2540,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/551\/revisions\/2540"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=551"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=551"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=551"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}