{"id":5522,"date":"2014-03-31T01:05:55","date_gmt":"2014-03-31T04:05:55","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=5522"},"modified":"2014-03-31T01:05:55","modified_gmt":"2014-03-31T04:05:55","slug":"escutatoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=5522","title":{"rendered":"Escutat\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 300px;\">Rubem Alves<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sempre vejo anunciados cursos de orat\u00f3ria. Nunca vi anunciado curso de escutat\u00f3ria. Todo mundo quer aprender a falar. Ningu\u00e9m quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutat\u00f3ria. Mas acho que ningu\u00e9m vai se matricular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escutar \u00e9 complicado e sutil. Diz Alberto Caeiro que &#8220;n\u00e3o \u00e9 bastante n\u00e3o ser cego para ver as \u00e1rvores e as flores. \u00c9 preciso tamb\u00e9m n\u00e3o ter filosofia nenhuma&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Filosofia \u00e9 um monte de id\u00e9ias, dentro da cabe\u00e7a, sobre como s\u00e3o as coisas. Para se ver, \u00e9 preciso que a cabe\u00e7a esteja vazia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parafraseio o Alberto Caeiro: &#8220;N\u00e3o \u00e9 bastante ter ouvidos para ouvir o que \u00e9 dito; \u00e9 preciso tamb\u00e9m que haja sil\u00eancio dentro da alma&#8221;. Da\u00ed a dificuldade: a gente n\u00e3o ag\u00fcenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como se aquilo que ele diz n\u00e3o fosse digno de descansada considera\u00e7\u00e3o e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que \u00e9 muito melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nossa incapacidade de ouvir \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o mais constante e sutil de nossa arrog\u00e2ncia e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolu\u00e7\u00e3o de 64. Contou-me de sua experi\u00eancia com os \u00edndios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reunidos os participantes, ningu\u00e9m fala. H\u00e1 um longo, longo sil\u00eancio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em sil\u00eancio, abrindo vazios de sil\u00eancio, expulsando todas as id\u00e9ias estranhas.). Todos em sil\u00eancio, \u00e0 espera do pensamento essencial. A\u00ed, de repente, algu\u00e9m fala. Curto. Todos ouvem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Terminada a fala, novo sil\u00eancio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. S\u00e3o-me estranhos. \u00c9 preciso tempo para entender o que o outro falou. Se eu falar logo a seguir, s\u00e3o duas as possibilidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Primeira: &#8220;Fiquei em sil\u00eancio s\u00f3 por delicadeza. Na verdade, n\u00e3o ouvi o que voc\u00ea falou. Enquanto voc\u00ea falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando voc\u00ea terminasse sua (tola) fala. Falo como se voc\u00ea n\u00e3o tivesse falado&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segunda: &#8220;Ouvi o que voc\u00ea falou. Mas isso que voc\u00ea falou como novidade eu j\u00e1 pensei h\u00e1 muito tempo. \u00c9 coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que voc\u00ea falou&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que \u00e9 pior que uma bofetada. O longo sil\u00eancio quer dizer: &#8220;Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que voc\u00ea falou&#8221;. E assim vai a reuni\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o basta o sil\u00eancio de fora. \u00c9 preciso sil\u00eancio dentro. Aus\u00eancia de pensamentos. E a\u00ed, quando se faz o sil\u00eancio dentro, a gente come\u00e7a a ouvir coisas que n\u00e3o ouvia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu comecei a ouvir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fernando Pessoa conhecia a experi\u00eancia, e se referia a algo que se ouve nos interst\u00edcios das palavras, no lugar onde n\u00e3o h\u00e1 palavras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00fasica acontece no sil\u00eancio. A alma \u00e9 uma catedral submersa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No fundo do mar &#8211; quem faz mergulho sabe &#8211; a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. A\u00ed, livres dos ru\u00eddos do falat\u00f3rio e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que n\u00e3o havia, que de t\u00e3o linda nos faz chorar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A beleza \u00e9 o que se ouve no sil\u00eancio. Da\u00ed a import\u00e2ncia de saber ouvir os outros: a beleza mora l\u00e1 tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Rubem Alves Sempre vejo anunciados cursos de orat\u00f3ria. Nunca vi anunciado curso de escutat\u00f3ria. Todo mundo quer aprender a falar. Ningu\u00e9m quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutat\u00f3ria. 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