{"id":5681,"date":"2014-06-08T00:34:21","date_gmt":"2014-06-08T03:34:21","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=5681"},"modified":"2015-01-14T16:05:27","modified_gmt":"2015-01-14T19:05:27","slug":"confissao-de-manuel-bandeira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=5681","title":{"rendered":"Confiss\u00e3o de Manuel Bandeira"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje encontrei num classificador cheio de pap\u00e9is, que guardei ao longo dos anos, uma preciosidade; entre eles a cr\u00f4nica de Manuel Bandeira falando da tuberculose da qual foi v\u00edtima na sua juventude. Lembro que fiquei muito emocionada quando li a cr\u00f4nica pela primeira vez e como sempre fa\u00e7o com tudo que me toca, guardei preciosamente a folha datilografada. Hoje, ao encontr\u00e1-la, decidi public\u00e1-la aqui no blog. Ela precisa viajar por a\u00ed para que outras pessoas, principalmente os jovens, conhe\u00e7am esta hist\u00f3ria de supera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 210px;\"><strong>\u00a0Minha adolesc\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria da minha adolesc\u00eancia \u00e9 a hist\u00f3ria da minha doen\u00e7a. Adoecia aos 18 anos quando estava fazendo o curso de engenheiro-arquiteto da Escola Polit\u00e9cnica de S\u00e3o Paulo. A mol\u00e9stia n\u00e3o me chegou sorrateiramente, como costumava fazer, com emagrecimento, febrinha, febrinha, um pouco de tosse, n\u00e3o; caiu sobre mim de supet\u00e3o e com toda a viol\u00eancia, como uma machadada de Brucutu. Durante meses fiquei entre a vida e a morte. Tive de abandonar para sempre os estudos. Como consegui com os anos levantar-me desse abismo de padecimentos e tristezas \u00e9 coisa que me parece a mim e aos que me conheceram ent\u00e3o um verdadeiro milagre. Aos 31 anos, ao editar o meu primeiro livro de versos, <em>A cinza das horas<\/em>, era praticamente um inv\u00e1lido Publicando-o, n\u00e3o tinha de todo a inten\u00e7\u00e3o de iniciar uma carreira liter\u00e1ria. Aquilo era antes o meu testamento \u2013 testamento da minha adolesc\u00eancia. Mas os est\u00edmulos que recebi fizeram-me persistir nessa atividade po\u00e9tica, que eu exercia mais como um simples desabafo dos meus desgostos \u00edntimos, da minha for\u00e7ada ociosidade. Hoje vivo admirado de ver que essa minha obra de poeta menor \u2013 de poeta rigorosamente menor \u2013 tenha podido suscitar tantas simpatias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conto estas coisas porque a minha dura experi\u00eancia implica uma li\u00e7\u00e3o de otimismo e confian\u00e7a. Ningu\u00e9m desanime por grande que seja a pedra do caminho. A do meu parecia intranspon\u00edvel. No entanto, saltei-a. Milagre? Pois isso prova que ainda h\u00e1 milagres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bandeira, Manuel. <i>O melhor da cr\u00f4nica brasileira<\/i> (2). Rio de Janeiro, Cia Jos\u00e9 Olympio Ed., 1981, p. 79.<\/p>\n<p>E como brinde, dois poemas de Bandeira:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><strong>Pneumot\u00f3rax<\/strong><\/p>\n<p>Febre, hemoptise, dispn\u00e9ia e suores noturnos.<\/p>\n<p>A vida inteira que podia ter sido e que n\u00e3o foi.<\/p>\n<p>Tosse, tosse, tosse.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mandou chamar o m\u00e9dico:<\/p>\n<p>&#8211; Diga trinta e tr\u00eas.<\/p>\n<p>&#8211; Trinta e tr\u00eas\u2026 trinta e tr\u00eas\u2026 trinta e tr\u00eas\u2026<\/p>\n<p>&#8211; Respire.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8211; O senhor tem uma escava\u00e7\u00e3o no pulm\u00e3o esquerdo e o pulm\u00e3o direito infiltrado.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, doutor, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel tentar o pneumot\u00f3rax?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o. A \u00fanica coisa a fazer \u00e9 tocar um tango argentino.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\"><strong>Po\u00e9tica<\/strong><\/p>\n<p>Estou farto do lirismo comedido<\/p>\n<p>Do lirismo bem comportado<\/p>\n<p>Do lirismo funcion\u00e1rio p\u00fablico com livro de ponto expediente<\/p>\n<p>protocolo e manifesta\u00e7\u00f5es de apre\u00e7o ao sr. diretor<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Estou farto do lirismo que p\u00e1ra e vai averiguar no dicion\u00e1rio<\/p>\n<p>o cunho vern\u00e1culo de um voc\u00e1bulo<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Abaixo os puristas<\/p>\n<p>Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais<\/p>\n<p>Todas as constru\u00e7\u00f5es sobretudo as sintaxes de exce\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Todos os ritmos sobretudo os inumer\u00e1veis<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Estou farto do lirismo namorador<\/p>\n<p>Pol\u00edtico<\/p>\n<p>Raqu\u00edtico<\/p>\n<p>Sifil\u00edtico<\/p>\n<p>De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De resto n\u00e3o \u00e9 lirismo<\/p>\n<p>Ser\u00e1 contabilidade tabela de co-senos secret\u00e1rio do amante exemplar<\/p>\n<p>com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de<\/p>\n<p>agradar \u00e0s mulheres, etc.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quero antes o lirismo dos loucos<\/p>\n<p>O lirismo dos b\u00eabados<\/p>\n<p>O lirismo dif\u00edcil e pungente dos b\u00eabados<\/p>\n<p>O lirismo dos clowns de Shakespeare<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o quero mais saber do lirismo que n\u00e3o \u00e9 liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Hoje encontrei num classificador cheio de pap\u00e9is, que guardei ao longo dos anos, uma preciosidade; entre eles a cr\u00f4nica de Manuel Bandeira falando da tuberculose da qual foi v\u00edtima na sua juventude. 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